Os órfãos de Nevinny Vol.2
23 Crime geométrico

— Voltamos agora com atualizações urgentes sobre o caso que intrigou todo o estado de Montana há algumas semanas — fala a jornalista na tv, enquanto a imagem muda para a foto de um rapaz jovem, sorridente, sob a tarja vermelha de FALECIDO — Novas informações divulgadas há pouco pela polícia de Montana trazem uma reviravolta sombria no caso do desaparecimento do adolescente de dezesseis anos, encontrado morto na semana passada em uma região litorânea.
A câmera cortou para o repórter em frente à delegacia central de Montana.
— Bom dia. A linha de investigação inicial, que apontava para um acidente de trilha, foi completamente descartada pela perícia. De acordo com os registros telefônicos da vítima, o jovem não estava ali por acaso. Ele recebeu uma mensagem anônima contendo coordenadas geográficas exatas e, de forma voluntária, seguiu até o local isolado que culminou em sua morte. Mas o que mais intriga as autoridades não é o celular... é o que encontraram no quarto dele.
O repórter fez uma pausa dramática. Uma imagem estática de um envelope de papel pardo, protegido por um saco plástico de evidências, surgiu na tela.
— Durante uma nova busca no guarda-roupa do adolescente, a polícia localizou uma correspondência física que não passou pelo sistema de correios tradicional. O envelope continha apenas um papel dobrado e, dentro dele, uma lua minguante, pontuda. O delegado responsável pelo caso confirmou que o símbolo e o conteúdo da carta estão diretamente ligados às coordenadas enviadas por mensagem. A polícia de Montana agora trabalha com a hipótese de um crime planejado e faz um alerta para que pais fiquem atentos a mensagens ou símbolos semelhantes recebidos por seus filhos.
📍 Colégio Montreal…
O sinal tocou, mas em vez do fluxo normal de troca de salas, os inspetores começaram a direcionar todos os segundos anos para o auditório da escola. É um daqueles projetos em grupo que a diretoria adora inventar para juntar as turmas.
Para você e Lavínia, às vezes, isso costuma ser um tédio, mas hoje está sendo um alívio, uma quebra de protocolo pelo fato de terem separado o grupo em salas.
No meio do mar de uniformes e do barulho de cadeiras sendo arrastadas, você logo avista Allison e Max, e mais atrás, Cris, Lavínia e Rebekah acenando. Pela primeira vez desde que as aulas começaram, o grupo inteiro está no mesmo espaço em campo relacionado à dinâmica escolar.
O orientador distribui os alunos em grandes círculos mistos pedindo para que formem duplas no chão para debaterem um tema qualquer do projeto. Enquanto Cris e Lavínia se distraem discutindo com um aluno de outra sala por não querer ceder o lugar, Rebekah já começa a anotar algo na prancheta. Allison e Max se arrastam um pouco sentando-se ao lado dela.
Sob o eco das vozes das outras turmas, a conversa se inicia a partir de um sussurro.
— Vocês viram o jornal hoje? — Allison pergunta direto ao ponto, sem tirar os olhos do papel em seu colo para não chamar a atenção dos professores — O caso de Montana. O adolescente.
Você assente sem dizer uma palavra sentindo um calafrio na espinha só de lembrar da tarja vermelha na TV.
— Eu vi. Que coisa mais bizarra! Ele seguiu umas coordenadas. E a coisa da carta com a lua pontiaguda… Como pode uma pessoa deixar ser enganada e ir pra um lugar onde ela nem sabe pra onde tá indo? — Rebekah fala, indignada, balançando a cabeça em sinal negativo.
— Montana não fica muito longe daqui, não é? É logo do lado de Atelis — Cris fala.
— É ao lado — Rebekah corrige.
— Isso. Foi o que eu falei.
— Não. A maneira como se fala. O certo é “ao lado de Atelis”.
— Ah, vocês me entenderam, Rebekah. Mas de qualquer forma, Montana não fica longe. Pra chegar em Nevinny é um pulo, não é?
— O que você tá querendo dizer com isso, Cris?
— A polícia de lá tá querendo dizer que isso pode ser um caso isolado. Mas a gente sabe que não é. Por acaso vocês esqueceram com o que a Suzanne foi encontrada? A estrela pontiaguda. A mesma de Suzanne.
— Oh, isso é um ponto importante — Rebekah comenta — Allison, o que você acha?
— Como assim o que eu acho disso? Meu pai que é o policial — Allison diz.
— Amor — Max fala dando uma cutucada em Allison.
Allison dá um suspiro profundo e demorado. Ao olhar em volta, mais uma vez abaixa o tom de voz e diz:
— É, pode ser que tenha uma possibilidade de não ser uma coincidência. Mas Suzanne foi encontrada com o envelope com uma estrela pontiaguda, mas ela não falou nada de seguir coordenadas. Se fosse isso a polícia já estaria sabendo.
— Então nós teríamos que perguntar a ela pra saber se ela também recebeu coordenadas. Perguntar assim meio de leve, como se não quisesse nada — Lavínia sugere.
— Nós nada. Eu não vou me meter nisso. Esqueceram do acordo que eu tive que assinar? — você recorda.
— Mas, S/N, se a Suzanne tiver ligada com essas coordenadas isso vai te inocentar de vez das acusações que a Cynthia fez contra você na escola — Rebekah avisa.
— Quanto à isso, meu pai e eu já fizemos o que tinha que fazer. Ela não vai mais incomodar. Não notaram que ela anda mais calminha, olhando desconfiada e evitando confusão?
O grupo olha para Cynthia que está do outro lado do auditório, não tão distante, super focada e séria.
— É, ela tá mesmo. Ainda queremos saber o que você disse pra ela que colocou tanto medo na abelha rainha. Você ameaçou mesmo cancelar a candidatura do pai dela? — Max pergunta, desconfiadx.
— Eu só disse que se ela quisesse que o pai dela fosse eleito, ela tinha que melhorar na personalidade dela, ser uma pessoa melhor. Só isso — você fala dando uma risadinha.
— Hum — Allison comenta.
— E assim, o que Cris falou não faz muito sentido. Me desculpa, Cris. Quer dizer, até faz em um ponto, mas, o caso de Suzanne aconteceu aqui em Nevinny, no Natal. O garoto de Montana foi dias depois, mas… foi em Montana. Se os casos tivessem alguma ligação, por que seria um caso aqui e outro em Montana? E por que o assassino ia deixar a prova do crime dentro de um envelope? Isso é burrice. Uma lua e uma estrela? É o assassino do sistema solar, por acaso? — você ri deixando o grupo em silêncio e preocupado ao ver que outros alunos lhe olham sérios quando, sem perceber, você aumentou o tom de voz.
— Não sei. Mas não acham esquisito? Vai que tem alguma ligação? — Cris fala.
— Mas por que a Suzanne esconderia isso da polícia caso ela tivesse recebido coordenadas que nem esse garoto? Ela teria falado. Não haveria motivo nenhum pra ela esconder — Max afirma — E caso fosse isso, o assassino daria coordenadas pra ela no gramado da escola? Ele teria feito o encontro em um lugar mais afastado assim como com o rapaz.
— Mas no gramado da escola ele teria quem culpar. Inúmeros alunos poderiam ser culpados, bastava quem estivesse perto de Suzanne e pronto. No caso, a bola da vez passou justamente pra S/N — Allison diz.
— Zero surpresas. Depois discordam que eu não sou protagonista de uma história cabeluda — você fala, queixando-se.
— Você só estava na hora errada e no lugar errado, S/N — Rebekah diz.
— Será que eu estava mesmo ou alguém armou isso pra mim? É por isso que eu tenho que ficar de olho em possíveis suspeitos aqui dentro da escola. Essa teoria ainda faz muito mais sentido pra mim do que uma mera coincidência. Pensem: eu fui pro gramado depois que passaram aquelas acusações contra o meu pai. Eu fugi do ginásio porque eu não queria ver e ouvir aquilo. E se alguém que me conhece bastante a ponto de saber como eu iria reagir fez isso? Eu poderia ir pra qualquer lugar e fui pro gramado. Isso pode ter acontecido.
— Você acabou de se contradizer um pouco. Ainda continua sendo uma espécie de coincidência. Tanto lugar pra ir e você foi justamente pro gramado? — Max analisa — Foi o que Rebekah disse. Você só estava no lugar errado e na hora errada, infelizmente. Ou foi isso ou… simplesmente você é a pessoa quem tentou matar a Suzanne.
Um silêncio tenso se instala entre o grupo. Allison dá uma cutucada de leve em Max que se pronuncia.
— Gente, é só brincadeira, tá?
— Não fale isso nem brincando — Lavínia fala levemente alterando o tom de voz — Mas é terrível ter a hipótese de que o assassino estava no ginásio. Vai que ele ou ela assistiu àquelas acusações contra o seu pai no telão, viu você sair correndo e pensou: 'É agora'.
— Ou pior — Allison acrescenta, os olhos semicerrados enquanto raciocina — A pessoa que colocou os vídeos do seu pai no sistema da escola pode ter dado corda enquanto a outra fazia o serviço no gramado. Uma coisa serviu de distração para a outra. Enquanto todo mundo olhava para o telão em choque, o crime acontecia do lado de fora.
— Caramba — Cris murmura passando a mão pela nuca, visivelmente desconfortável — Isso transforma todo mundo em quem teve acesso ao telão do ginásio durante o baile em suspeito.
Rebekah, que até então estava em silêncio batucando a caneta na prancheta, levanta o indicador, interrompendo o fluxo de pânico.
— Não exatamente qualquer um, Cris. Pensem logicamente. Para coordenar o tempo exato entre a humilhação pública do pai de S/N, a fuga e o ataque à Suzanne, o assassino ou a assassina precisava ter certeza de que a Suzanne já estaria no gramado esperando por algo. Max tem um ponto: por que a Suzanne esconderia que recebeu coordenadas? Talvez ela não tenha recebido coordenadas geográficas complicadas como o adolescente em Montana. Talvez ela só tenha recebido um bilhete, ou uma mensagem simples de alguém em quem ela confiava muito.
Ela olha diretamente para você.
— S/N, você não viu nada mesmo quando chegou lá? Nem uma sombra? Um vulto correndo em algum lugar do jardim?
— Nada — você fala — Só a Suzanne. E aquela sensação horrível de que o ar estava pesado demais.
— Então a gente volta para o plano original — Max decreta, ajeitando o caderno sobre a cadeira — O assassino da Suzanne, a pessoa que tentou incriminar a S/N e, possivelmente, quem quer que esteja ligado àquela estrela pontiaguda do noticiário pode estar andando por esses mesmos corredores que a gente. Nós precisamos descobrir quem tinha motivos para odiar a Suzanne ou a S/N a esse ponto.
— Eu acho que vocês estão conspirando demais. Sem necessidade. Vocês acham mesmo que a polícia não já levantou essas mesmas hipóteses que a gente e investigou? Já tem meses desde o início das investigações. Nós estamos sendo amadores. Os profissionais estão anos-luz da gente — Allison declara.
— Mas há alguns meses não tinha essa informação de agora sobre a lua pontiaguda de Montana. Allison, você precisa falar com o seu pai sobre isso, sobre como a gente ou a própria polícia pode interrogar a Suzanne — Lavínia sugere.
— Não precisa. Confiem em mim. Logo em breve, com certeza a Suzanne vai ser chamada de novo pra depor e a polícia vai tentar arrancar dela alguma coisa sobre as coordenadas e, se ela recebeu, o motivo dela não ter contado na época.
— Pois é, SE ela recebeu as coordenadas. E se ela não tiver recebido?
— Aí volta tudo pro começo. A teoria de coincidência ou armação pra cima de mim volta a ser o ponto principal. Mesmo com a polícia ter me descartado como suspeitx a falação ainda pode continuar — você afirma, desapontadx.
Lavínia cruza os braços, com expressão bem pensativa:
— É, isso é bem complicado. Mas caso for isso que tá acontecendo o quê que quem está por trás disso ganha? Quem se beneficia com S/N levando a culpa?
Cris pega uma folha que contém algumas palavras escritas e, ao pigarrear, como forma de chamar atenção, logo começa a ler o que havia escrito:
— Eu enumerei alguns pontos e hipóteses e escrevi nesse papel pra ajudar a gente a raciocinar.
Rebekah, de imediato, para de escrever em sua prancheta e com ar de surpresa fala diretamente com Cris.
— Espera. Você o quê? Eu achei que você estava escrevendo o conteúdo que o professor tá passando, já que ninguém do grupo tá fazendo a atividade além de mim, não é? — ela fala agora abaixando um pouco o tom, focando de volta para o professor antes que ele desconfie da desatenção dos demais — Mas, ande, fale, eu quero saber. O que você anotou aí?
Passando a caneta sobre o papel, Cris inicia:
— “Opção 1: quem se beneficia?” Esse primeiro tópico é em base em quem tem algum tipo de raiva ou ódio contra S/N e Suzanne. É o clássico “matar dois coelhos com uma cajadada só”. Alguém, por exemplo, teria alguma desavença com Suzanne e com S/N, e, juntando o fato de se livrar da candidata da rainha do baile e alguém pra levar a culpa, seria um combo magnífico pra se livrar de duas pessoas. Nisso a gente pode destacar alguém que poderia tirar Suzanne de concorrer à candidatura à rainha do baile, por exemplo. É um motivo bem forte. E temos um nome também. Por exemplo, alguém que deixou de concorrer na disputa e ficou perseguindo S/N o ano inteiro.
— Ah, mas isso seria a Cynthia. Nós já conversamos sobre isso. Apesar dos pesares, ela não teria coragem pra isso — você fala.
— Esqueceu da conversa do mandar alguém fazer? Não se esqueça disso — Lavínia declara.
— Será que é por isso também que ela tá tão quieta além de ter sido ameaçada por você? — Allison pergunta.
— Eu nem quero saber — você responde.
— Bom, terminando minha linha de raciocínio aqui tem mais outra hipótese que eu pensei — Cris inicia.
— Fala, Cris, o que você pensou? — Max pergunta.
— Bem, a segunda hipótese é também uma clássica e clichê. Existe algum serial killer querendo matar adolescentes de escolas. Um foi em Montana, agora aqui em Nevinny na tentativa com a Suzanne. Nos dois casos podem ser a mesma pessoa ou um grupo, um culto, sei lá. Ou não. Podem ser casos isolados. O de Suzanne pode ter sido algum aluno ou aluna atual, ou ex-aluno ou uma antiga candidata à rainha do baile de décadas atrás com rancor.
— Ah, você só fez embaralhar tudo, Cris. Só colocou mais minhocas nas nossas cabeças — Lavínia dispara.
— Eu não quero participar de uma história de investigação criminal com mortes e tudo mais. Eu não estou preparada pra isso — Rebekah fala quase cochichando.
— Se a gente tivesse escolha… — Allison retruca, a voz destituída de qualquer ironia — Mas o culpado ou a culpada vai aparecer. Enquanto isso a gente vai vivendo nossa vida do jeito que dá, mas com os olhos bem abertos.
— Mas o que é que vocês tanto conversam? Por favor, se concentrem mais na dinâmica em grupo. Isso vale nota. Assim vocês vão acabar atrapalhando os outros alunos — o professor fala atraindo os olhares para o seu grupo na qual vocês se alinham no mesmo momento encerrando qualquer conversa paralela.
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