O silêncio era inevitável. Não partia som nenhum dos três meninos. Os únicos ruídos que se escutara, eram os de metal rangendo, vindo das pessoas que abriam suas lojas e pequenos comércios. Ronan não tirava os olhos de Dio, que alternava o olhar para os dois amantes. Os três parados, duas bocas de encontro a uma mão.

— D...Dio... Não é o que... — Começou Ronan.

— Eu sei o que está acontecendo. — Cortou Dio.

— O que você pensa que faz aqui?! Volte a brincar com suas bonecas... Vai! — Provocou Sieg, saindo da posição e ficando de pé em frente ao asmodiano.

— Não fique bravinha, mocinha!! — Dio falava e caminhava mais a frente, peitando Sieghart.

— Parem os dois!! Estou ficando cansado dessa concorrência!! Não sabem se comportar sem humilhar o outro?! — Disse Ronan, entrando no meio dos dois garotos que se enfrentavam.

— Saia daqui, — Disse Dio, empurrando Ronan com força de encontro ao chão. O menino caiu fortemente, ficando sem ar por um breve período. — Verme.

— Quem você pensa que é?!?! — Ameaçou Sieg, com as mãos em torno do colarinho de Dio.

— A mocinha também é guarda-costas? Estou impressionado... — E após dizer isto, tirou as mãos de Sieghart com facilidade do lugar.

Sieghart já ia de encontro ao garoto com um punho fortemente fechado na mão, quando Dio decidiu parar com sua teimosia.

— Vou derrotar os monstros, já que duas mocinhas não podem fazer nem isto!! — Dio.

Virou-se de costas e seguiu à uma das três entradas da pequena cidade, onde já se era possível ver criaturas esquisitas avançando de encontro às pessoas. Sieghart estava furioso, a ponto de levantar Ronan de um modo muito rápido, sem olhá-lo nos olhos, pois já estava encarando as costas de Dio.

— Olha... Me desculpa, eu não deveria ter vindo e... — Começava Ronan, com uma lágrima saindo do olho esquerdo. Seu rosto estava corado, com uma expressão triste e decepcionada, enquanto era banhada por lágrimas.

— A culpa não é sua. Nem minha. De ninguém. — Explicou Ercnard.

— Mas eu... — Chorava ainda mais.

— Olhe só para você... — Após dizer esta última frase, puxou o garoto de encontro ao seu peito. Ronan descansava a cabeça no peito de Sieg, enquanto o mesmo fazia movimentos consoladores no cabelo do azul. O choro do azulado foi cessando aos poucos. — O idiota do Dio fez você chorar... Não vou perdoá-lo. Nunca.

— O...obrigado! — Após isso, Ronan deu alguns poucos passos para trás e esboçou um sorriso que marcara a vida do moreno.

— Vamos. Temos que pegar sua bolsa... Ficou tão apaixonado por mim que até a esqueceu lá. Aposto que seria mais uma desculpa para ir me ver, não? hehe. — Sieg mudara de assunto.

— Nem em seus sonhos! — Disse Ronan, depois de um sorriso sarcástico.

Então seguiram até o quarto do moreno. Onde debateram mais sobre o garoto-demônio.

— Olha, não quero que fique furioso com Dio... Esse é o jeito dele. Eu não estou bravo com ele... — Ronan, agora.

— Você pode decidir tudo na minha vida. Tudo. Mas sobre ele, cuido eu, tudo bem? — Disse Ercnard. Depois da fala, abraçou Ronan com força, fazendo um leve carinho em sua cabeça. — Vamos, temos de lutar contra os monstros.

— S...sim!! Vou indo. — Falou Ronan, pegando sua bolsa e seguindo até seu quarto.

Ronan chegou em seu quarto, preparou sua armadura de guerra e seguiu à terceira entrada da cidade, onde monstros aterrorizavam pessoas. Chegando lá, fez seu gládio aparecer magicamente em sua mão, com brilhos azuis voando ao ar. De começo, lutou contra alguns anões, seguidos por aranhas mecânicas e lobisomens. Mas nada de Sieghart aparecer... Ele estava preocupado de que o moreno havia seguido a segunda entrada, para vingar-se de Dio. Continuou lutando até chegar tarde, a ponto de começar a escurecer. Se deu conta de que não dormira a mais de 24 horas. Estava exausto. Caminhou lentamente até o hotel, subiu as escadas de madeira velha que rangiam a cada passo, percorreu o curto corredor até seu quarto e, entrou. Após entrar em seu cômodo, percebeu o quão calor estava, pois não havia aberto as janelas durante o dia inteiro, tirou então suas roupas, ficando apenas com sua roupa íntima. Deitou-se na cama barulhenta e, em pouco tempo, se rendeu ao sono.

Acordou lentamente quando escutou uma voz perto de seus ouvidos. Estava bem próxima. Era Sieghart montado, como em um cavalo, em cima de Ronan.

— Eu te amo Ronan. Te amo. Eu te amo muito Ronan! — Dizia Ercnard chegando cada vez mais perto.

— E...eu, a...aonde estou?! O...o quê? — Estava paralizado, imóvel, movimentando apenas os lábios.

Ele chegava cada vez mais perto, mais perto e enfim, tocou os lábios do pequeno garoto indefeso. Ele movimentava sua língua dentro da boca de Ronan, com uma ardência que o arrepiava. Eram movimentos espetaculares, que o fazia se contorcer de prazer. Mas o azul não tentava sair daquele momento, apenas continuava.Então, abriu os olhos. Estava deitado em sua cama, no seu cômodo escuro, com as portas trancadas. Fora apenas um sonho. Um maravilhoso sonho para Ronan, que se encontrava afoito respirando eufóricamente, sentado em sua cama.

— Ufa... Foi apenas um sonho... — Após suspirar, deitou-se novamente e aproveitou o resto da noite que tinha.

Mas, desta vez, demorou a dormir, mas mesmo assim, adormeceu.

Acordou ao dia, junto com os raios de sol que estreitavam as aberturas da janela, entrando no quarto do garoto. Levantou-se, se banhou com aquela água gelada e arrumou-se. Parou e pensou por onde andara Ercnard, que não havia visto no dia anterior. Seguiu até o quarto do crescido garoto e bateu em sua porta. Bateu mais uma vez. Novamente. Nada, então decidiu checar se a mesma estava trancada, que, para sua surpresa, não estava. Abriu a porta lentamente e se daparou com Sieg, apenas de cueca, deitado desleixamente em sua cama. Uma perna caindo para fora do colchão e a cabeça caída do travesseiro. Soltou um breve riso, que, por sorte, não acordou o moreno. Adentrou o quarto do menino e percebeu a bagunça em que Sieg o transformara. Roupas jogadas ao chão, livros com páginas rasgadas espalhados a todo canto e alimentos pela metade em cima de uma mesinha.

— Haha... Eu realmente esperava isto de você! — Soltou Ronan sem querer. Após perceber que falara alto demais, tapou a boca, esperando com que Sieg não houvesse escutado.

— Ãhn...?? Quem é? — Falou Sieg, sentando-se na cama e esfregando os olhos.

— Ohh... Desculpe... Sou eu... — Se entregava.

— Ahh... Tudo bem então... Uááááh!! — Espreguiçou-se.

— Eeer... Você tem baba na bochecha... Hahaha!! — Apontou e começou a rir da cara do menino.

— Hehe, deculpe... Estava exausto ontem. — Disse, e, limpou a saliva que escorria de sua boca com o antebraço.

— Se arrume... Depois vamos ajeitar este quarto. Parece um chiqueiro!!

— Está bem, está bem!

Após o diálogo, Ercnard levantou-se pegou qualquer roupa que encontrara no chão e as colocara no braço, abraçou Ronan brevemente e seguiu ao banheiro, fechando a porta de madeira. Após alguns minutos ele saiu do banheiro vestido, cabelos molhados e com a cueca que usara durante a noite em mãos. Andava pisando em cima de tudo que havia no quarto e jogou a cueca usada em qualquer lugar.

— Não, não. Pode vir pegar essa...cueca e colocar em cima da cama, para lavarmos depois! — Disse Ronan, impaciente, mas com aparência feliz.

— Minha santa Lothus, tá bom... — Pegou-a e colocou em cima da cama com o lençol bagunçado.

— Agora vamos arrumar todas essas roupas e... coisas que você deixa jogado. Como consegue viver aqui?!

— Virou minha mãe é?

— Não, eu só... Desculpe... — Ronan.

— Tudo bem, estava apenas brincando. Vamos!

Então começaram a super-arrumação do chiqueiro Sieghart. Colocavam as roupas sujas no canto esquerdo da cama e as roupas limpas no lado direito. E assim passaram quase uma hora de trabalho.

— Agora que finalmente acabamos, vamos comer alguma coisa, estou faminto. — Disse Ercnard puxando Ronan pelo braço até a porta, sem nem ouvir uma resposta.

Os dois seguiram até a saída do hotel e avistaram um lugar onde havia várias pessoas saboreando suas refeições. Entraram, sentaram-se em uma mesa de dois lugares e fizeram seu pedido. Enquanto esperavam, conversavam sobre diversos temas.

— Sabe Sieg, fiquei preocupado com você ontem... Aonde estava? Brigou com Dio? — Começou Ronan.

— Já que me ama tanto, vou responder. Sim, fui me encontrar com Dio.

Ronan nem ligou para a cantada, estava curioso para descobrir o que o moreno fez.

— E sobre o que conversaram? Lutaram?

— Calma. São muitas perguntas. Não lutamos, apenas conversamos. Apenas deixei claro a distância que ele deve manter de você...

— Sieg... Não precisa fazer isso, parece até que ele quer me matar!

— Mas Ronan, não quero que ele fale com você e nem te veja! Já disse para me deixar cuidar dele!

— Tá bom... — Murmurou Ronan.

Então, o homem que trabalhava no restaurante trouxe a comida do casal. Era uma espécie de frango assado com vegetais em volta. Os dois se deliciaram com o banquete, pagaram e saíram do estabelecimento para decidir o que fazer.

— Acho melhor irmos lutar agora... — Disse Ronan.

— Está bem, eu... — Sieg começara a falar quando Dio chegara próximo aos dois, a pouco centímetros de distância.

— O que eu te disse ontem?! — Começou Ercnard.

— Não me importo com o que você diz ou deixa de dizer... Preciso falar com o garoto. — Após dizer isto, puxou Ronan brutamente pelo braço e começou a andar.

— Não! — Sieg segurou seu braço livre.

— Sieg... Tudo bem, ele só quer falar comigo... — Ronan tentava convencê-lo.

— Sim, sim... "apenas" conversar com o garoto. — Tinha certa ironia na fala que Sieghart notara.

— Ok, mas estou vendo tudo daqui! — Ercnard ameaçou.

Então Dio e Ronan seguiram a uma distância onde o moreno não podia escutar seu diálogo.

— O que precisa comi... — Falou Ronan, mas foi interrompido.

Dio o abraçou e o beijou várias vezes repetidamente o pescoço, subindo cada vez mais. Apertava-o com os braços, em um abraço que não parecia apenas de amigos. Ronan virou o rosto para Sieg. Ele vinha andando com a expressão em fúria, ardendo, literalmente. Chamas roxas voavam em torno de si, rachando o chão por onde pisava. Chegou na frente de Dio, empurrou-o para longe de Ronan e pronunciou uma frase.

— Seu verme... Vai desejar não ter saído daquele inferno que chama de casa... — Sieghart. Após isso, desferiu um soco no rosto do asmodiano, que saiu voando por alguns vinte metros e bateu as costas de encontro à parede de um estabelecimento.

— Então prepare-se!! Pois você que visitará o inferno!! — Disse Dio, enquanto se levantava.