Orehalion

6 O Capitão e O Rei


Notas iniciais
A Chama Bicentenária - Capítulo VI

Quando o vento que batia ali em cima encontrava a pedreira, ecoava, fazendo como se fosse possível ouvir o gemido agudo de uma criatura invisível. O chão do campo de batalha que antes era cinza-mármore agora estava metade negro, a causa das queimaduras do fogo da batalha anterior. Muitas das árvores que tinham ali em volta foram queimadas. Além disso, a fumaça havia se dispersado bastante, mas seu forte cheiro ainda perdurava, assim como o calor.

A Montanha Âmbar parecia um inferno.

—Quem diria que o palhaço ia ser capaz de fazer isso tudo. — disse Luganno, enquanto olhava em sua volta, vendo aquele panorama caótico.

—E o Presley foi realmente capaz de derrotá-lo. Estou honrado! — retrucou Syn.

—Sim, Syn! O irmão! Viu como ele é forte? Hahahah! Ele é o melhor! O maior! — o pequeno Louis estava bem feliz.

Um breve silêncio. Um rugido. Era o gorila azul, que agora estava vermelho.

—O gorila está agitadão. Que será que aconteceu?

—É um prenúncio.

—Agora vou anunciar a próxima batalha.

—Ei, Presley, você está bem?

—Eu... eu vou conseguir me virar. A próxima batalha tá vindo aí. Luganno, será que vai ser você? Quero ver você destruir com essa espada sinistra que você tem aí!

—Hahahaha! Tenho certeza que não serei eu. Sei lá. Acho que vai ser o Syn.

—Será? Será que vou ser eu mesmo?

—E a próxima batalha... vamos ver...

O aparelho do Juíz apitou bem alto.

—Syn versus Dot Sanders!

—Quem?

—Quem?

—Caraca, Luganno! Você acertou mesmo! — disse Presley.

—Quem mesmo?

Syn deu um passo à frente. Depois outro. Começou a se alongar e fechou os olhos. A clareira, agora, estava quase em silêncio, à excessão do lamber de algumas chamas que ainda deviam estar a queimar algumas árvores ali perto.

—Aqui estou, adversário. — Syn abriu os olhos e viu o rapaz de cabelos verdes. Um longo manto vermelho-escuro cobria todo seu corpo. Suas mãos estavam cobertas por luvas negras.

—Dot Sanders? O que você fez, escondeu sua aura? Ninguém pôde te detectar aqui por perto durante as batalhas anteriores.

—Parece que não foi o que o gorila achou. — Sanders olhou para o símio, que começou novamente a pular e rugir. — E tenho certeza que o grandalhão do Pedro também percebeu.

—Você fez algo com o macaco doido, não é? Tenho certeza disso.

—Eu? Haha, não. Infelizmente, sou muito fraco para sequer encostar um dedo em Alfillopp.

—Alf...?

—Prepare-se, Capitão Sinneus. Seu fim está próximo. — E Sanders tirou a luva da mão esquerda. Seu braço, de repente, ficou coberto de uma chama negra.

—Não pode ser! Você!

—Me reconheceu, Sinneus?

—Não, mas... essa chama negra...

—Exerion! — e apontou o braço para Syn. Uma labareda foi ao seu encontro. Ele tentava escapar, mas a torrente o perseguia.

—Não vai conseguir escapar do fogo nefasto de Exerion!

—Punhos de Almatec! — Syn gritou e seus ante-braços logo adquiriram a forma de totens. Uma energia verde emanava de seus punhos. — Liberem a força do deus Almatec e limpem estas chamas de Exerion!

A luz verde de Almatec reluziu mais forte, e por onde Syn corria, a torrente negra de Dot Sanders não conseguia mais alcançar. Após alguns segundos de corrida, já estava protegido. Estava agora a uma distância de, no mínimo, dez metros de Sanders.

—Você me chamou de Capitão Sinneus. Como sabe das minhas origens?

—Você se nomeia capitão, mas não passa de um peão! Eu sou o Rei deste país! Você não passa de um escravo!

—Rei? Não me faça rir! Você nem sequer dá as caras!

—Sinneus, meu caro. Sua família toda nem sequer existe mais. Seus descendentes estão morrendo pouco a pouco! Acredito que você seja o último!

—Por Almatec! Você é infame! Seus traços de vida neste plano merecem ser exterminados! E eu vou governá-lo como se deve!

—Nem em espírito. Sua vida pacata acaba aqui. Adeus, Sinneus. Exerion!

—Almatec!

Durante cinquenta segundos, a arena ficou coberta por um pesado breu. As chamas negras conjuradas por Dot Sanders haviam causado aquele sentimento de cegueira nos participantes do torneio, que só ouviam barulhos de luta.

—Não consigo acompanhar seus movimentos, Irmão!

—Mas é claro, Louis! Está tudo escuro!

—Tem razão, tem razão!

BAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAM!

CRAAAAAAAAAASHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Cinza.

Cinza.

Pouco a pouco a luz voltava.

Sanders estava no chão imóvel, sangrando, no centro de uma imensa cratera.

Os braços de Syn, agora em sua aparência natural, fumegavam em cor verde. Seus olhos também emitiam uma luz esverdeada, que pouco a pouco se dissipava.

—Caramba! Que golpe será que deve ter causado isso? — Luganno indagava. Estava com o olhar incrédulo, mas emocionado e curioso.

—O tal de Sanders até que parecia com você, Luganno. Só que a cor do cabelo e da roupa são invertidos.

—É? Nem tinha reparado nisso.

Bip.

—O vencedor é o grandioso Capitão Sinneus Syn!

—Ih, olha o cara, Syn! Tirando sarro de tu!

—Sinta a supremacia do punho de Almatec, verme inútil.

—Ih...

A tarde estava em seu ápice, e o sol alaranjado se punha atrás das árvores, próximo ao muro rochoso que ali ao lado se encontrava. Um lindo panorama, se não fosse levada em consideração a atmosfera de destruição na qual os participantes do torneio pela chama de Orehalion se encontravam.

Louis parecia confuso. Estava com a mão próxima do rosto e parecia contar algo em seus dedos.

—O que foi, Louis? — perguntou o irmão.

—Hummm... primeiro o grandão ganhou do pirralhinho — e olhou para Pedro, o corpulento homem de capacete, que estava quieto, sentado à pedreira. — depois, foi o irmãozão contra o palhaço! E agora, o Syn ganhou do cara doido.

—É. Então, segundo estes simples cálculos, a próxima batalha...

O gorila rugiu novamente. Ainda estava vermelho e urrava cada vez mais alto.

—Ele está urrando desde que o garoto sumiu. A gente até que se acostumou com isso.

—Você vai dar conta dele, Luganno? — perguntou Syn.

—Claro que vai, Syn! É o Luganno! Ele derrotou o Presley em um piscar de olhos! — disse Louis. Seu irmão, ao lado, engoliu em seco. Pareceu não aprovar o que o pequenino havia dito.