Ordo Ad Khaos
1 Arco I.I - A dama, o touro e o andarilho.
Dentro de uma caverna escura tinha ferragens espalhadas por todo o canto, recém-criadas, talvez protótipos de alguma criação nova para um futuro distante. Ao longe via-se o fogo queimando numa grande fornalha e em frente desta fornalha havia um homem parrudo, vestindo uma armadura da cintura para baixo apenas, deixando todo o seu peito nu assim como os seus braços. Ele segurava um pedaço de ferro em brasa com a mão direita nua, impossível para algum mortal, mas ele não era mortal, era um deus. Em sua outra mão ele segurava um grande martelo e com o mesmo ele batia ferozmente no pedaço de ferro em brasa. Sua cara feia e ranzinza gemia a cada batida do martelo, mas era um gemido roco. Sua pele era mutilada, cheia de feridas e um pouco deformada, acima de sua cabeça havia apenas uma careca calva com poucos fios de cabelos lisos e ao mesmo tempo crespos. Seu ritmo era o mesmo até que de repente passos lentos e metálicos começaram a ecoar dentro da caverna, o ogro completamente parou de bater no ferro em brasa e esgueirou a cara deformada para trás avistando o convidado.
– Você? — Disse a besta com uma voz rouca e seca, surpresa ao ver a presença – Parece que não está satisfeito com o que eu fiz para você...
O convidado vestia uma armadura de metal vermelho sangue com vários espinhos de ferro tanto nas ombreiras quanto nas joelheiras, seu cabelo era longo, ondulado e escuro, seu rosto, assim como seu corpo, era musculoso e tinha também uma barba grande da mesma coloração do cabelo. Seu olhar era impetuoso e selvagem cheio de ódio e rancor, medo e pavor, destruição e aniquilação. Deu um passo mais a frente e com uma voz imponente, grossa e decidida disse:
– As armas, algumas delas estão perdidas, preciso ás encontrar...agora – Disse em um tom firme.
O anfitrião levantou um olhar sarcástico para o convidado e disse em um tom de desprezo:
– Idiota, eu só crio armas, não tenho obrigação de saber onde elas estão – Começou a rir depravadamente da cara do convidado.
Imediatamente o convidado sacou uma de suas espadas e a apontou para o pescoço do anfitrião e no mesmo momento, o ferreiro a defendeu com o martelo que usava para forjar a peça anterior.
– Como ousa me ameaçar dentro de minha própria casa, Ares? Parece que o que eu te fiz anteriormente quando o surpreendi com a minha Afrodite te deixou com mais ódio de mim... Você está no meu território e você, como o deus da guerra, deve saber que enfrentar um inimigo dentro do território dele causa a derrota na maioria das batalhas. — Dizendo isso a besta forçou a espada de Ares de encontro ao chão com o martelo e rapidamente Ares recuou para trás e encarou o anfitrião.
– Hefesto, hoje não estou com paciência para brincar de guerrear com você. Já que não irá me ajudar, procurarei as armas eu mesmo e quando achar o resto, te garanto que você se arrependerá. — Ares se virou para a entrada da caverna e foi em direção a saída e enquanto caminhava embainhava a espada. Hefesto fitou o convidado que ia embora demonstrando uma careta ainda mais feia.
– Achar o resto?
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CRETA
No meio de uma floresta escura e tenebrosa ouvia-se os gritos de uma mulher desesperada. Ela corria com lágrimas e sangue misturados escorrendo pelos seus olhos. Seus cabelos eram cacheados e longos de cor escura, porém estavam embaraçados e sujos. Seu rosto era belo e um pouco branco, lábios finos assim como seu queixo. Ela possuía algumas feridas no rosto devido aos espinhos e galhos das árvores que ela tentava passar desesperadamente. Ela usava um peplos azul escuro todo sujo e embaraçado com alguns rasgos. Ela corria descalça e seus pés estavam feridos e ela não sabia se chorava ou se gritava mais alto, algo estava atrás dela e ela precisava correr pela sua vida.
A mulher continuava a correr desesperadamente quando enfim encontrou uma grande clareira circular. Ela foi de encontro a clareira podendo enfim ver o brilho da Lua no céu. "Benção de Ártemis", ela pensou. Ela continuou a correr e parou subitamente no meio dela olhando para todos os lados. Desesperada ela virou-se para a sua esquerda e foi em direção do primeiro caminho entre as árvores que viu, mas parou subitamente novamente e balançado a cabeça negativamente, recuou para trás com uma careta de desespero e incredulidade. Quando ela chegou no centro da clareira novamente uma flecha a acertou no calcanhar esquerdo e a fez cair dando um grito de dor absurda. Ela mesmo ferida, arrancou a flecha alojada no calcanhar fazendo sair mais sangue, mas a dor parou e incomodar e desesperada ela começou a rastejar pelo chão sujando mais ainda seu peplos mas já era tarde demais, o que estava atrás dela chegou ao seu encalço acompanhado de uma grande sombra.
– Tentar fugir não é uma opção, senhorita. — Um homem alto com um arco na mão apontado para a mulher se aproximou. Ele usava uma veste tipicamente militar dos Hoplitas de Creta. Ele usava uma armadura de bronze colada ao corpo. Usava um capacete vistoso do mesmo material e que espelhava a luz da lua, o mesmo era enfeitado com a crista do pelo de um alazão branco. Sua veste por baixo da armadura era um simples chiton de seda até os joelhos. Seu cabelo cacheado longo saia por baixo do capacete e sua barba era proporcional e cheia e chegava até a metade do pescoço. Seu olhar era maníaco e sanguinário, mas isso não importava, o que importava era a grande besta ao lado dele de dois metros e meio de altura.
– Não corra, não corra. Eu tenho que alimentar esse bichinho antes de leva-lo ao seu destino.
A besta mugiu ferozmente. Usava uma armadura proporcional ao seu tamanho de bronze similar a do homem que o acompanhava, seu chiton era vermelho e meio rasgado, mas ele não usava capacete e nem tinha armas. No lugar da cabeça de um homem havia uma cabeça de touro negro. Seus dois chifres eram de ouro maciço e no nariz havia uma argola também de ouro. Seus olhos representavam e materializavam sangue e destruição. Nos braços haviam grilhões rompidos, assim como nos seus pés. Abaixo do seu pescoço era perceptível os traços humanos, mesmo com um corpo daquela altura e largura, sua cabeça de touro assustava qualquer ser que aparecesse em sua frente.
– EU SOU O MINOTAURO — disse com uma voz grossa e potencialmente ensurdecedora, como trovões caindo do céu para a homem ao lado — EU MATO VOCÊ SE ME CHAMAR DE BICHINHO NOVAMENTE — O homem com um olhar temeroso tomou um pouco de distância da abominação, recuando aos poucos.
– Mestre Mino, o deixarei com o seu jantar, estou voltando para onde os outros estão, o senhor saberá chegar lá... — O Minotauro rugiu para o homem que se afastava para um dos caminhos da floresta.
– EU SINTO O CHEIRO DE SANGUE PODRE DE LONGE, NÃO SE PREOCUPE... — Disse o monstro para o homem que acelerou mais o passo para o fim da clareira.
O monstro se preparava para pegar a mulher ferida com as mãos. Ele se encantava com os gritos de desespero da mesma e babava enquanto guiava lentamente suas mãos até a mulher chorando. De repente, cortando o clima do seu alimento, um grito rápido quem cessou logo e o som de uma espada cortando algo se ouviu na direção em que o homem havia ido. O monstro olhou para trás e uma sombra foi se aproximando. A presença se revelou logo segurando com sua mão direita uma espada de metal polido, gotejando sangue e na sua mão esquerda ele segurava pelos cabelos a cabeça do homem que acompanhava o Minotauro anteriormente, totalmente desfalecida. O homem usava uma armadura militar de cobre mais escuro. Seu chiton chegava até os joelhos e era azul escuro. Não usava capacete e seu rosto era robusto e sério. Seu olhar era bondoso e aspirava justiça ao segurar a cabeça do homem. Seu chlamys era vermelho e chegava até sua cintura, mas só pegava do seu ombro esquerdo para baixo. Não usava barba, seu rosto era limpo e muito menos o seu cabelo era grande, mas pelo menos era cacheado e escuro. Porém, algo era muito notável em seu punho esquerdo. Um bracelete de ouro maciço grande e com umas inscrições em grego: "σοφία". O homem levantou sua espada e a apontou para a besta:
– Parece que encontrei um fugitivo. Não sei se devo mata-lo ou leva-lo vivo. Bom, quando me deram essa missão, falaram que me pagariam melhor se eu o levasse vivo. Estou em dúvida agora. — Disse o homem que começou a andar em direção do Minotauro. A besta se virou e com um berro começou a rir com sua voz grossa e assustadora:
– UM MORTAL, UM RELES ESCRAVO COMO VOCÊ NÃO PODE FAZER NADA CONTRA UMA CRIATURA FILHA DE UM DEUS. — O Minotauro se virou completamente em direção do homem e começou a correr mugindo em direção do mesmo com os chifres apontados para ele. — MORRA! — O minotauro chegou perto do guerreiro mas em um golpe rápido e evasivo ele saiu da frente do monstro girando sua espada e atingindo o pescoço do monstro não fazendo se quer um arranhão. O minotauro parou subitamente e com um golpe precisou com os braços acertou as costelas esquerdas do guerreiro o jogando para longe. O guerreiro caiu mas ainda segurava sua espada fortemente e rapidamente se levantou. Era perceptível o amassado de sua armadura na região que o monstro o havia acertado mas isso não atrapalhava o soldado que destemidamente começou a correr em direção do Minotauro que se preparava para o seu próximo golpe. O homem levantou sua espada e a guiou novamente até o braço esquerdo da aberração. O monstro defendeu e mesmo na sua pele humana, a espada não fazia se quer um arranhão. O Minotauro se preparou para o seu contra ataque com seu braço direito mas sendo ligeiro, o guerreiro abaixou e com a ponta da espada a guiou até os olhos do monstro que havia se abaixado por conta do golpe, mas eu um golpe surpresa o Minotauro acertou novamente o guerreiro o jogando em direção da mulher que estava imóvel por causa do pânico e desespero. Próximo a mulher, desta vez gemendo e sem sua espada, o guerreiro se levantou e seu olhar foi em direção dos olhos da bela mulher que o fitava a frente. Em um instante, seu ar de desespero e dor se transformou em um olhar de esperança e conforto. Novamente ela pensou. "Benção de Ártemis". Ela queria esboçar um sorriso, mas o monstro estava vindo com tudo contra os dois.
– NENHUMA ARMA FEITA POR MÃOS MORTAIS PODE ME FERIR, PRAGA DE PROMETHEUS! — O Minotauro foi mugindo como uma chuva de relâmpagos contra o homem e a mulher. O soldado se levantou sem espada e levantou seu braço esquerdou em forma de defesa contra o monstro. Seu bracelete começou a brilhar e o soldado começou a entoar em uma voz firme e poderosa contra o monstro:
– Mou katafýgio , ATHINÁ! (Me proteja, Atena) — O bracelete de ouro perdeu sua forma original e em um brilho único e circular começou a tomar a forma de um escudo em forma de disco todo dourando e com detalhes em sua borda feitas de prata. No centro do mesmo havia novamente a palavra "σοφία". O Minotauro deu de encontro com o escudo e em um mugido de dor o mesmo recuou para trás. Toda ação tem sua reação e ele recuou com seus dois chifres de ouro quebrados. O sangue começou a escorrer pela sua cara de touro.
– IMPOSSÍVEL! ARMAS FEITAS POR HUMANOS NÃO PODEM ME FERIR, MUITO MENOS ME SEGURAR. TANTO QUE ESSAS CORRENTES SÃO FEITAS DE TITÂNIO BANHADOS NO ESTIGE, CONFECCIONADAS PELO PRÓPRIO DEUS HEFESTO. — Indagou incrédulo o monstro olhando em direção do escudo que brilhava e ainda estava em forma de defesa. O soldado então se revelou por trás do escudo dizendo:
– Esse escudo não foi construído por um mortal. Esse escudo foi uma benção que recebi da própria deusa Atena. O Escudo da Justiça e Sabedoria. Uma arma divina. — Disse o soldado em seguida se levantando segurando o escudo — Hora de te levar de volta para sua prisão!
O Minotauro mugiu mais alto e furiosamente e começou a correr desesperadamente contra o o soldado.
– EU FAREI SUA EXISTÊNCIA SE EXTINGUIR E SEU NOME NUNCA MAIS SERÁ LEMBRADO! — Disse o monstro furiosamente.
– E quem disse que um nome comum como Galio pode ser lembrado? — Dito isto o guerreiro posicionou o escudou e forma de ataque e o mesmo começou a rodar como uma lâmina. — Parece que não poderei te levar vivo até a sua prisão. MORRA! — Imediatamente o escudo se desprendeu dos braços de Galio e foi em direção do pescoço da aberração arrancando assim sua cabeça fora e fazendo o seu corpo cair. O escudo logo após voltou para o braço de Galio e em uma luz rápida voltou a sua forma de bracelete.
– Menos um monstro nesse mundo.
CONTINUA
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