Ordinary Human
6 Capitulo Opcional 1:1
Notas iniciais
Imagine o sol aquecendo seu corpo como um manto nos dias frios, a água límpida serpentear por caminhos largos. Imagine animais selvagens e domésticos. Imagine um mundo onde respirar é se medicar da melhor sensação. Imagine a vida na sua mais singela existência.
Há 2100 atrás o planeta Terra sucumbia aos estragos causados pela humanidade. Não precisou de muito desmatamento, poluição ou sequer gases tóxicos para que boa parte da população mundial morresse. Os calores excessivos levaram 1/3 de todos os idosos e crianças nos países da Europa e norte da América. Mais tarde, boa parte das crianças nascidas naquele período teria algum tipo de doença pulmonar ou deficiência física.
Dez anos depois, a escassez de comida colocaria o mundo em crise. Boa parte dos fazendeiros não conseguia produzir com a doença chamada “Peste” matando boa parte das plantações, e os que conseguiam salvar alguma coisa, então precisariam vender por preços abusivos ou se desdobrar para abastecer cidades ou até mesmo, estados.
No mesmo ano descobriu-se que na tentativa falha de exterminar “Peste” a mesma sofreu uma mutação. O vírus atacaria no contato físico com o infectado e agiria no sangue inicialmente como uma febre intercalada com pequenas convulsões e depois com hemorragia interna. Sem controle ou mesmo vacina, a população enfraquecida morria em uma escala assustadora. Os países se viram obrigados a fechar suas fronteiras e dificultar a disseminação do vírus.
O desespero aumentou o numero de suicídios, de crimes e de protestos. As pessoas queriam respostas ou mesmo ajuda por parte das nações. Então vieram as guerras, em todos os cantos, por parte de quase todos os países. Mortes desnecessárias e mais escassez de comida. Muitas bombas nucleares e confrontos por água. Era difícil de imaginar, mas o mundo perdera toda a sua vida e apenas ruínas formavam um cenário esquelético.
Quando a Terra encontrou-se em seus últimos anos de vida, finalmente a Corporação Internacional de Armas Biológicas (CIAB) tomou partido com uma proposta que abalaria as referencias éticas de todas as pessoas.
Após estudos, constatou-se que 8% de todas as crianças nascidas a partir do ano de 2160 possuíam uma imunidade elevada permitindo que as mesmas não sejam mortas no ultimo estagio da Peste. Haviam então adquirido uma capacidade peculiar e simples de cura, onde havia um numero de bom de estáticas que comprovavam a chance de uma vacina. Entretanto para tal feito, todas as crianças nascidas no ano estipulado deveriam comparecer a um centro improvisado da CIAB mais perto da sua casa, realizar um teste rápido de sangue e se o dispositivo constasse compatibilidade, então a criança deveria ser doada obrigatoriamente para os testes da vacina sem retorno prévio para família.
Não precisou de muito para que isso virasse um caos. O mundo se via mais uma vez dividido em suas questões éticas. Permitiriam que suas crianças fossem feitas de cobaias para o resto de suas vidas?
O governo não cedeu a protestos ou causas sociais. País por país se rendeu ao instinto de sobrevivência. Em uma justificava de “um bem maior pela nação mundial” fez-se às pressas a lei que obrigava os pais a levarem seus filhos para os testes, a recusa levaria a multas altíssimas e até mesmo a prisão.
Com o auge das inscrições de crianças nessa campanha, conheçamos a família de Ella Thompson. Moravam em uma casa de subúrbio com uma pequena horta escondida nos terrenos de trás da casa. A mãe Sarah, o pai Antony, o irmão Ryan e por fim Ella, acompanhados de dois cachorros vira-latas beirando a morte.
Mantinham uma vida pacata longe do caos das metrópoles. O pai trabalhava em uma indústria de comidas enlatadas e a mãe cuidava da casa e dos filhos — que passaram a não frequentar mais a escola por causa da possibilidade de contaminação.
Há três meses todos já sabiam que deveriam comparecer em um posto da CIAB para os testes de sangue dos quais Ella e Ryan deveriam realizar. Sarah e Antony decidiriam adiar o máximo possível, porque ambos temiam a possibilidade dos testes se mostrarem compatíveis.
–Vamos ter que levar as crianças, Sarah. –disse Antony e pigarreou em um paninho azul que ele guardava no bolso. – Não poderemos escondê-las aqui, alguém pode nos denunciar.
–Eu sei. –respondeu Sarah em um suspiro frustrado. – Mas tenho tanto medo de que eles sejam bons pra... Deus sabe o que essa CIAB pode fazer com as crianças.
Antony concordou e tossiu forte.
–Poderíamos montar um acampamento provisório na reserva aqui perto. –sugeriu meio tímido. – Acredito que se encontrássemos algum lugar onde as pessoas sejam contra essa lei então poderíamos estar seguros.
O olhar de Sarah se encheu de esperança e depois pousou nas crianças brincando no tapete da sala.
–Sim, nos podemos construir um futuro para eles.
(...)
Estava mais do que obvio que o plano criado por Antony só servia para manter firme a esperança de Sarah. Ele tinha consciência do seu estado, mas ela nem desconfiava, e se duvidava, não comentava nada. Mas estava claro que Antony não poderia fugir porque estava doente.
Morrendo como todos os outros na cidade. A Peste havia lhe pegado e ele não parecia temer a morte, mas a incapacidade de ver a família feliz algum dia longe disso tudo.
Os programas na televisão foram reduzidos a métodos de se proteger contra o vírus e propagandas para os pais levarem seus filhos a CIAB. Medidas discretas de um governo desesperado.
Antony se mantinha longe da mulher e dos filhos na medida do possível, já sentia o corpo fraquejar e os sangramentos no nariz, orelha e tosse cada vez mais frequentes. Juntou suas economias, roubou algumas latas de comida do trabalho, arrumou algumas mochilas com sacos de dormir e mapas antigos que poderiam revelar algum lugar ou acampamento abandonado em que eles pudessem morar.
Em uma tarde fria comum Antony passou todas as instruções a Sarah e teve que implorar por alguns minutos para que ela partisse sem ele.
–Eu vou morrer aqui ou com vocês, mas com vocês seria pior. –argumentou ele cobrindo a boca e o nariz com o paninho. – Leve-os para a Cova dos Derrotados, dizem que lá há radicais e que aceitam mulheres e crianças carentes, se passar os dias andando e as noites acampando você consegue chegar lá em três dias.
–Antony, por favor, não me peça para abandoná-lo aqui.
–Estou te pedindo para cuidar das crianças, pedindo para que fiquem vivos por mim. –Antony tossiu. – Vá logo, antes que resolvam passar a ronda por aqui e achei Ella e Ryan.
Sarah confirmou com um aceno firme de cabeça, deu as mãos para os filhos e saiu caminhando pelo pequeno terreno atrás de sua casa. Na metade do caminho fraquejou e se permitiu chorar por horas enquanto era consolada pelos filhos.
(...)
No segundo dia de caminhada, Sarah esquentava algumas sopas enlatas em uma panela e fogo improvisados. Ella, com seus oito anos e sendo a filha mais velha, parecia entender melhor do que o irmão a infelicidade da mãe. Algo que também a deixava infeliz. Ela via o irmão arrancar pétala por pétala de uma pequena flor frágil enquanto a mãe cantarolava de fundo a letra de musica que ela jamais havia ouvido em outro lugar:
Sentindo frio, sede e fome
Andado sem eira nem beira
Sob o calor que nos consome
As ruínas do mundo
Destruída por homens
Que se achavam acima de tudo
A peste nascida do coração dos derrotados
Matou crianças, velhos e pessoas do bem
E quando não houver mais esperanças.
Você desejará ter morrido também.
Ao final da letra, Sarah apagou o fogo e serviu com um sorriso a comida aos filhos. Ella sempre fora uma menina curiosa, não se censurava para tirar duvidas, descobrir novas coisas, mas dessa vez, ela não questionou, nem perguntou o porquê da cantiga, o porquê da letra tão triste. Apenas guardou na mente, uma lembrança tão cicatrizada que ela não se imaginaria esquecendo isso.
(...)
Na madrugada do terceiro dia, a família foi emboscada na reserva por uma patrulha que vistoriava a região. Quando perguntada sobre seus filhos, Sarah se saiu muito mal em mentir e todos acabaram presos.
Descobriu-se naquele mesmo dia que Sarah estava infectada e ninguém mais quis mantê-la na prisão. Ela já alcançava o ultimo estagio e sangrava a beira da morte. O policial lhe entregou uma garrafa de água, os filhos e um “Que Deus tenha piedade de vocês”. Depois fechou a porta em sua cara a deixando no meio do caos daquela cidade estranha. Ao que parecia os policiais tinham que controlar as pessoas que saqueavam e colocavam fogo em pneus, não tinham tempo para prender pessoas ilegais com a CIAB.
Sarah sucumbia à doença e visto que não teria mais forças para sair daquela calçada chorou pela primeira vez desde que deixou Antony, no lugar das lagrimas houve sangue escorrendo de seus olhos e naquele momento soube que não teria forças para manter os filhos seguros. Olhou para o céu cinzento e o caos ao seu redor. Sirenes e gritos. Agarrou Ella pelos ombros e pediu para que ela fugisse. Ella não se mexeu.
–Corra! –Sarah gritou mais alto que os barulhos ao redor.
Ella sentiu-se atordoada e agarrou a mão de Ryan, mas o medo a impediu de fugir. Sarah caiu no chão e levantou a mão para que os filhos não a ajudassem.
–Precisa encontrar algum medico Ella, prometa que vai conseguir encontrar algum medico. –Sarah tossiu. Seu pulmão arfou de ar, mas ela só pareceu respirar a fuligem que vinha do incêndio ali perto. – Não solte a mão do seu irmão, prometa...
–Eu prometo. –concordou Ella com as lagrimas lhe embasando a visão. – Eu prometo mãe.
(...)
Ella e Ryan andaram como crianças órfãs por poucas horas até uma medica de cabelos loiros curtos encontrá-los em uma antiga estrada usada para ir ao litoral. Coincidentemente ela era medica da CIAB e de imediato encaminhou os dois para um posto analise.
Era uma tenda branca e o sol parecia infernal. A medica parecia a mais impaciente e Ella de algum modo sabia que aos entregá-los ela ganharia alguma recompensa. Quando chegou a vez dos irmãos Thompson, Ella ainda segurava a mão do irmão.
Um cara fardado fez um pequeno furo no dedo de Ryan recolhendo uma amostra de sangue. Em alguns segundos a tela se acendeu e o resultado “Negativo” estampou a tela do aparelho. A medica que os acompanhara bufou de frustração. Realmente era difícil encontrar crianças compatíveis.
O cara puxou o braço de Ella e a picada a fez estremecer. Os segundos pareceram minutos e quanto o resultado “Positivo” apareceu até mesmo o homem fardado sorriu.
–Levem essa aqui. –disse para um segundo guarda enquanto apontava para Ella.
A medica tentou separar Ella de Ryan, mas eles não se soltavam. O guarda interveio e tomou Ella no colo. Ryan se debateu eufórico.
–Não! Não! Me soltem! –Ella gritava freneticamente. – Ryan! Ryan!
Ryan gritava pelo nome da irmã, mas chorava e se rendia ao poucos. Ella não desistiu nem por um segundo. Nem mesmo quando a colocaram no carro ela não parou de gritar o nome do irmão e se debater. Mesmo depois que a amordaçaram e amarram seus braços e pés. Mesmo depois que ela chegou a uma base militar e recebeu uma tatuagem na nuca com o numero 762 ela não parou de gritar por ajuda, pelo irmão. Ela só silenciou quando as suas primeiras memorias lhe foram roubadas e depois de quatro sessões se esqueceu de quem era.
Fale com o autor