Ordem e Caos

4 Parte 4: Fumaça e Fogo


Um a um, os sobreviventes saíam pelo túnel abaixo do santuário. Akali e Shen tinham conseguido defender os que lutavam contra as tropas de Zed, e agora se preocupavam em ajudar todo mundo a escapar. Podiam não ter mais meios de defender o santuário, mas pelo menos podiam salvar vidas.

A preocupação com Kennen pairava no ar dos dois, mas eles não podiam ir atrás do amigo, não agora; vários batedores de Zed ainda procuravam pelo resto da Ordem, e Shen não queria arriscar a perda de mais vidas. Portanto, preferiram focar no plano de fuga.

Alguns haviam insistido em ficar para ajudar; e por isso Shen era grato. Subiu ao pátio onde a luta começara aquela noite, agora vazio e ausente de corpos. Alguém havia feito a gentileza de remover a cabeça de seu pai quando ele saíra para impedir Zed, e agora os restos mortais do velho sábio repousavam eternamente dentro de seus aposentos, cobertos por uma manta branca. Shen não teve coragem de entrar e prestar suas homenagens. E ele se odiava um pouco por isso.

Ele sentou de pernas cruzadas no centro, em pose de meditação. Sentiu Akali sentar-se atrás, de costas para ele. Podia "ver" os poucos colegas que haviam restado escondidos nas sombras, aguardando, protegendo...

— Acha que ele está bem? — Ela sussurrou.

— Não sei. Kennen é bem mais forte do que parece. Ele provavelmente vai enfrentar Zed se for alcançado. E, sinceramente — ele acrescentou — Não vai ser fácil para nenhum dos dois.

Porém, internamente, Shen sabia que Zed não seria derrotado. Mesmo que Kennen vença a luta, Zed provavelmente se abrigaria nas sombras e aguardaria uma oportunidade para um novo ataque...

Ouviu a risada metálica e demoníaca que precedia sua chegada.

Kennen fracassara.

Zed estava chegando.

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O homem apareceu à sua frente. Akali virou-se bruscamente atrás de si.

— Vocês mandaram um ratinho me despistar. Eu me sinto ofendido. Mas admito: foi uma luta muito boa. Eu reconheço um adversário à altura.

Shen ergueu-se do chão calmamente, batendo as mãos para espanar a terra das luvas.

— Onde ele está, Zed? — Ouviu a amiga dizer, com raiva.

— Ah, quem pode dizer? No fundo do rio, provavelmente. Não sei se yordles sabem nadar. Yordles paralizados provavelmente não podem. Mas não se preocupem: a missão dele foi completada. Eu ainda não achei a arca. Acreditem, eu procurei. Deve estar dentro do santuário ainda, mas o anãozinho a escondeu muito bem.

Ele fez um sinal, e o resto de seus seguidores surgiu.

— Agora só me resta matar todo mundo que sobrou, e aí eu vou poder procurar com mais calma.

Os ninjas de Zed haviam rendido os de Shen, e bastava uma ordem para que todos fossem mortos. Shen suspirou.

— Essa luta é entre você e eu, Zed. Deixe os outros irem. Akali pode guiá-los para fora.

— O que...!

Ela virou-se para o amigo, indignada.

Ele retribuiu o olhar, não com severidade, mas com firmeza.

Confie em mim.

Vai dar tudo certo.

Salve a nossa família.

Não ia dar tudo certo, e ambos sabiam. Mas se era necessário que um morresse para que todos os outros saíssem vivos, então assim seria.

Ela assentiu e se virou para o outro ninja:

— Tudo bem por você, Zed? O santuário Kinkou inteiro, a arca e uma última luta contra o seu rival em troca de sobreviventes.

Ele inclinou a cabeça, interessado. Sempre parecia mais ameaçador quando fazia isso.

Por fim, assentiu.

Os pupilos de Zed soltaram os colegas de Shen, e Akali fez sinal para que eles a seguissem.

Quando todos se foram, Zed virou-se para encarar Shen.

Sabia que devia isso a ele. Uma luta mano-a-mano era o mínimo que podia fazer para demonstrar que respeitava Shen como novo líder da Ordem Kinkou, ainda que o odiasse como homem.

Mas e seu objetivo?

Valia a pena arriscar tudo o que prometera a seus seguidores apenas para preservar a própria honra?

Não, não podia fazer isso.

Ninguém podia ver, mas Zed fechou os olhos.

Me desculpe, Shen.

Me desculpe, mestre.

Eu falhei.

"Matem-no."

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A verdade é que aqueles homens não eram lá páreo para Shen.

Ele não era rápido, sabia disso; suas técnicas e sua estrutura fisica eram, na verdade, consideradas bem estranhas para um ninja.

Mas por Deus, Shen era resistente.

Ninguém o derrubava, nenhum homem sequer conseguia fazê-lo cambalear. Ele era a muralha física e emocional do santuário. Pouco a pouco os outros foram caindo, cansando, mas ele não. O negócio é que poucos sabiam usar de seu tamanho e força contra ele mesmo. Zed conseguia fazê-lo cansar; aqueles homens nem tentavam. E Zed não parecia muito interessado em intervir também.

Mas, apesar de tudo, Shen ainda era humano. Um humano que já tinha corrido, lutado, se machucado, defendido, estava cansado e emocionalmente destruído. Aos poucos seus golpes foram ficando mais lentos, os movimentos de seus oponentes pareciam borrados ao seu olhar, e sua visão focava e desfocava com cada vez mais freqüência.

Um homem golpeou uma de suas espadas com um pouco mais de força e o desarmou.

Outro fez um corte fundo em seu ombro.

Eles foram fechando o cerco. Shen não tinha mais para onde correr.

Ele estava pronto para morrer lutando. Fumaça começou a se erguer do chão. Podia ser a sua consciência se esvaindo, ou então os portões do inferno já estavam reivindicando sua presença. Mas devia ser real, porque pôde ouvir Zed gritar, frustrado:

— Ah não, essa fumacinha de novo NÃO!

Akali agarrou Shen pelas axilas e o colocou de pé. Ela era surpreendentemente forte. Estranho, não se lembrava de ter caído sentado.

— Aguenta firme, rapaz, a cavalaria chegou.

Ele olhou para os lados, a sua visão voltando ao normal. Kennen também estava ali, mas ao contrário de Akali, que era o exemplo da boa forma, estava encharcado, e parecia ter sido atropelado por um dos trens de carga de Piltover que passavam pelas montanhas.

— Eu tive um dia bem ruim hoje e não pretendo responder perguntas — anunciou, em resposta à indagação muda de Shen.

— Encontrei ele na margem do rio, agarrado a um tronco de árvore. Pedi para que ele fugisse, mas ele insistiu em vir ajudar.

— Já estamos todos ferrados mesmo! — O yordle acrescentou, esganiçado. — AI! — Uma shuriken passou zunindo e cortou um pedacinho da orelha pontuda de Kennen. — AGORA JÁ DEU! — Antes que os outros dois pudessem impedir, o pequeno ninja saltou para fora do perímetro da cortina de fumaça. Akali e Shen foram atrás.

Kennen havia parado bem no meio do pátio e gritava alucinado para os oponentes. Um segundo antes de alcançá-lo, Shen e Akali perceberam o que ele ia fazer e saltaram para trás.

Um círculo de luz azul se formou em volta de Kennen, enorme, eletrocutando tudo o que estivesse em seu diâmetro. Os ninjas de Zed se contorciam parados no lugar, e o próprio Zed não estava à vista: provavelmente tinha previsto isso.

— Esse ratinho é astuto mesmo, não?

O sangue de Shen gelou ao ouvir aquela voz tão perto: ele se virou, mas Akali já estava um passo à frente: saltara para cima de Zed, iniciando uma batalha furiosa. Ele se adiantou para ajudar, mas a exaustão o fez perder o equilíbrio. O barulho estava por toda parte, sua visão estava borrada, ele queria ajudar, precisava ajudar...

Viu Akali cair no chão e rolar para o lado, desviando de Zed, como se estivesse em câmera lenta. Viu Kennen saltar para um lado e para o outro, mas percebia a exaustão nos movimentos do amigo também. Aquilo não podia continuar por muito mais tempo... Mas no estado em que estava não podia protegê-los...

Espera. Podia sim. Ainda podia.

— Akali, Kennen, aqui!

Eles não esperaram por um segundo chamado. Ambos se viraram e saltaram na direção de Shen, como se soubessem o que ele pretendia fazer. Ele se levantou e abriu os braços.

Tudo aconteceu muito rápido, mas para Shen, era como se o tempo tivesse congelado. Ele viu perfeitamente Zed sacar uma de suas grandes shurikens e lançar na direção de Akali, urrando de ódio e frustração, tentando matá-la antes que ela conseguisse fugir. Puxou-a com brutalidade, preocupado em protege-la, sentiu Kennen agarrar seu outro braço e abraçou os dois com força, dando as costas para Zed.

Um escudo púrpura apareceu pela segunda vez naquela noite, envolvendo os três em uma luz quente e protetora. Shen apertava seus amigos junto ao peito, torcendo para que funcionasse: nunca tinha teleportado nada além de si mesmo antes.

Ouviu os gritos de confusão dos ninjas, ouviu os urros de Zed, ouviu um grito terrível de dor.

E então não ouviu mais nada.

Notas finais
Críticas são bem vindas e encorajadas!