Ora yê yê ô, Yabá!
1 Ìyá dò sìn máa gbè ìyá wa oro
Houve um tempo em que o Brasil era habitado exclusivamente pela sua fauna diversificada e seus aborígenes dotados de grandes poderes mágicos. Na mesma época, havia uma jovem indígena da Tribo da Água dona de longos cabelos negros e uma bela pele tom de jambo. A moça, secretamente, admirava a beleza de um rapaz que habitava a mesma floresta em que ela morava. Todos os dias, ela ia até o alto das montanhas ver esse homem misterioso se banhar em uma fonte termal e apreciava como ele cuidava dos cabelos crespos e a forma que passava argila branca no rosto cor de canela.
A filha única dos Reis da Tribo da Água, imaginava a cada dia que se passava uma hipótese diferente para quem pudera ser aquele homem. Ela, por tamanha inocência, jamais havia imaginado que o moço que lhe arrancava suspiros era extremamente descontrolado quando possuía em mãos sua adaga de guerra. Ele era um órfão da Tribo do Fogo que teve que se virar sozinho para chegar a vida adulta. Sua nação era conhecida por sentir prazer em matar seus inimigos e banhar em seus sangues. O rapaz não se diferenciava nenhum pouco dos demais de sua nação.
Certo dia, enlouquecido de vez pela sede de sangue, chegou a um vilarejo do Pântano — o qual respondia aos reinos da Terra e da Água — e matou todos que ali encontrou. De grávidas a idosos. Utilizando de sua força física, reuniu todos os cadáveres no centro da cidadela e incendiou cada coisa presente ali, de casas a templos, de corpos mortos a comida.
Não demorou muito e a notícia chegou aos Sábios da cidade do Fogo Sagrado e os mesmos, em consenso, resolveram procurar Ọlọrun para que Ele na condição de Rei Supremo De Todos Elementos Presente Na Natureza, mandasse que o Guerreiro parasse de matar. O órfão recebeu o recado que Ọlọrun queria vê-lo e foi até Ilê Ifé, o palácio de Ọlọrun...
O Rei Supremo ao ver aquele rapaz adentrar o salão principal de seu palácio, assustou-se com a quantidade de sangue de suas vítimas sobre o seu corpo. Não obstante, manteve a expressão séria e ordenou que o jovem se aproximasse.
Ele ajoelhou-se e questionou.
— O que queres de Mim, grande Rei? — indagou.
Ọlọrun bateu palma sete vezes e um rapaz com trajes vermelhas adentrou o salão. Ele possuía em uma das mãos um tridente e na outra um alguidar de barro com Efun, o pó branco sagrado de Ọlọrun, e logo após encher bem a palma com este pó o soprou sete vez sobre o jovem. Na mesma hora suas vestes que possuíam a cor vermelha, tornaram-se rosa, por causa da mistura do pó branco com o sangue.
— Sua era de caçador chegou ao fim, meu fio — ele se ajeitou em seu trono feito de carvalho branco —. Vós suncê não tem o direito de tirar a vida de ninguém, fio. Nunca mais você usará vermelho em público em respeito a todos que vós suncê matou — fazendo outra pausa para organizar os pensamentos o Rei questionou o rapaz. — Meu fio, és um moço tão belo, tão cheio de ternura dentro do peito apesar das amarguras, por quê matas?
— Me sinto bem. Não sei se é certo, mas me sinto muito bem.
— Vós suncê terá que pagar por ter trazido dor e sofrimento a esta Terra — ele colocou o queixo sobre o punho cerrado e franziu o cenho por uns segundos antes voltar a falar. — Vós suncê é do Fogo e só tem utilizado essa fervura do sangue para incendiar… Agora vós tereis de que aprender a aquecer. Não é por conta do sofrimento que vós suncê teve quando minino que tem que agir como age, num tem?
Lágrimas surgiram no rosto do rapaz. Lágrimas nunca antes derramadas.
— Meu fio, você irá passar um tempo com o povo da Tribo da Água. A Princesa dessa nação saberá lidar com essa tempestade dentro do seu peito.
Sem ter como pestanejar, o rapaz obedeceu e foi morar em uma tribo totalmente oposta a sua.
A princesa, não sabia como se aproximar. Além de ter uma admiração secreta por ele, passou o temer após descobrir sobre seus atos — mesmo ela ainda querendo tornar sua amiga para que pudesse cumprir com as ordens do grande Rei -. Contudo, o exilado, muito mal humorado, não queria papo.
Depois de muitos meses, ambos deram o braço a torcer e começaram uma grande amizade. Os dois amavam cada defeito e qualidade que o outro possuía. Até que um dia o rapaz adormeceu sobre uma pedra que ficava no meio do rio enquanto olhava a princesa se banhar.
Uma chuva que acontecia ali perto, fez com que as águas deste rio subissem e ele começou a se afogar. A donzela vendo o que estava acontecendo, mergulhou e foi salvá-lo, mas ele estava quase morto. A menina faz um feitiço de cura, que somente os nascidos da água são capazes de fazer, e, na mesma hora o guerreiro reviveu e transformou-se em uma espécie de lava que correu rio a fora. Ele transformou-se em um rio de fogo. A princesa pensou que seu amado havia morrido e chorou por horas, sem saber o que diria a Ọlọrun, já que ele a incumbiu de tomar conta do moço atrevido.
Foi então que surgiu uma coruja linda, de cor salmão com tons alaranjados, que voava ao redor da princesa. Ela tentou pegar a coruja que voou para dentro da floresta. A moça seguiu a coruja que parou em frente a uma árvore e tomou a forma do majestoso Guerreiro. Sem acreditar no que via, ouviu amigo dizer:
— Por que choravas minha amiga? Estou aqui vivo, e graças a você — ele a abraçou. — Na hora que eu estava morrendo você fez um feitiço e dividiu comigo todo seu encanto, agora carrego no peito toda mandiga e pureza do seu povo que é bondoso demais, assim como você, tenho poderes de cura e transformação.
— Isso é impossível — ela gaguejou.
— O impossível se torna possível quando Ọlọrun começa a agir — ele limpou com o polegar uma lágrima que escorria no rosto da nova amiga. — Agora eu posso ser um rio de fogo nos meus momentos de ira, posso ser um leão quando eu quiser ficar sozinho, e me transformar na mais bela coruja quando estiver feliz.
— Eu não consigo acreditar em toda essa mudança, quando, bem, quando o grande Rei o enviou para nossa tribo, pensara eu, que você jamais conheceria a acalmaria.
— Minha querida Yabá, eu ainda sou aquele guerreiro incansável, mas sinto que minha missão por aqui na nação da água terminou — o rapaz se aproximou da mais nova amiga e depois de abraçá-la, deu um beijo em sua testa e despediu-se. — Devo ir para a Tribo da Terra mais próxima para aprender a exercer a liberdade para viver da maneira que somos e utilizar meus dons da caça para o bem ao próximo e não por diversão.
— Okê arô — a princesa sussurrou.
— Okê, okê — ele respondeu.
Antes que ele seguisse seu caminho, o guerreiro mostrou um sorriso amarelo e entregou um espelho banhando a ouro retirado de suas vestes e a entregou.
— De todas as pessoas que cruzaram meu destino, você é uma das mais incrível. Você demonstrou ser a chuva no meio do deserto, o alimento quando tive fome, o fogo quando senti frio, a água quando senti sede, o caminho quando tudo parecia sem rumo, o ar que eu precisava respirar. Você tem um potencial enorme e nunca deixem que duvidem da sua capacidade. Você é maravilhosa e sei que daqui uns anos quando se tornar rainha deste lugar, fará um trabalho incrível. Perdoa-me por todas vezes que fui falho, perdoa-me por todas as vezes que não pude estar a seu lado. Você transformou meu sábado chuvoso em um domingo de sol e me mostrou a cor onde tudo era cinza — ele deu uma risada em meio às lágrimas que escorriam pelo rosto de ambos. — Este espelho é para você se olhar todos os dias e se ver da forma que eu te vejo: perfeita.
Antes que ela pudesse responder ele a interrompeu, com pressa.
— Espero te dar um abraço o mais rápido possível.
Ele cerrou o punho direito e o mesmo incendiou instantaneamente.
— Tenho muito orgulho de você, meus parabéns.
E assim ele se transformou em um leão e correu floresta adentro seguindo seu caminho.
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