Opostos
9 Mudanças.
Capítulo IX – Mudanças
“A sua verdadeira família não se une por laços de sangue, mas por respeito e alegria compartilhada. Raramente os membros de uma família se criam sob um mesmo teto”.
Richard Bach
Ponto de Vista por Isabella Swan
Após nosso passeio pelo parque, Edward me deixou em casa para que eu pudesse me arrumar para nosso jantar com seus tios à noite. Ele também foi para seu apartamento, uma vez que já estava com a mesma roupa desde a noite anterior, quando adormecemos em meu sofá.
Sinceramente, eu me sentia um pouco tonta, sem saber como agir ou reagir. Parece que tudo estava acontecendo rápido demais, ao mesmo tempo que algumas coisas estavam demorando, praticamente se arrastando para acontecer. Por exemplo, eu nunca fui uma garota puritana, apesar de ter poucos namorados, nunca fiquei os enrolando; se eu queria transar, eu transava; se eu não queria, o relacionamento também não durava muito. Quer dizer, eu nunca fui de perder tempo, mas com Edward as coisas pareciam bastante diferentes.
Eu o achava atraente, claro, ele era sexy demais, principalmente quando pronunciava meu nome completo com tanta polidez e segurança. Isabella. Todas as sílabas do meu nome pareciam dançar em seus lábios, e aquilo me deixava muito excitada. Quando nos beijamos, tanto ontem quanto hoje pela manhã, senti meu corpo se alvoroçar, eufórico, querendo por mais; ao mesmo tempo, não ter transado com ele ainda não era uma frustação. Era gostoso estar com Edward, era bom ter uma companhia, alguém que me entendia, com quem eu podia contar, mesmo conhecendo-o há pouco tempo.
Enquanto eu tomava um banho demorado, pensando no que estava sentindo, ouvi meu telefone tocar, mas não saí correndo para atende-lo, pelo contrário: finalizei meu banho com calma, e antes que eu pudesse verificar quem estava me ligando, o aparelho tocou novamente. Embora eu desejasse muito que fosse Edward, acreditava não ser ele, visto que o professor recém havia me deixado em casa, e nos veríamos novamente à noite. Ao olhar o visor, o nome Rosalie aparecia incessantemente. Um frio percorreu minha barriga, com medo que algo pudesse ter acontecido à Claire. Deus, minha irmã nunca me ligava aos fins de semana, visto que não havia escola, nem trabalho, então, eu não era útil a eles nesses dois dias.
– Alô? – Atendi a ligação, já um pouco nervosa.
– Nossa, Isabella, que demora para atender esse telefone! Você não me ouviu ligando antes? – Rosalie parecia impaciente, como se eu realmente tivesse que parar minha vida para atendê-la a hora que fosse. Eu sei que não deveria me sujeitar a isso, sei que deveria impor limites, mas era Claire quem importava. Eu não queria me afastar dela.
– Claire está bem? – Ignorei seus questionamentos e fui direto ao que importava, de fato.
– É claro que está! Porém, eu e o Emmett recebemos um convite de meu chefe para ir a um jantar de negócios, vai ser importante para meu trabalho, tenho a chance de fazer vários contatos que podem decolar minha carreira na empresa!
Rosalie trabalhava em um grande escritório de advocacia, mas a algum tempo ela comentava, em nossos poucos encontros em família, que tinha a chance de ser promovida. Minha irmã era bastante ambiciosa, e tinha certeza que ela não desistiria até conseguir o que almejava. Entretanto, não entendia o motivo de ela estar me dando satisfações dessa maneira. Onde eu entrava nisso?
– Rosalie, eu fico feliz por você. Só não entendo o motivo de estar me ligando e contando isso, não é como você dividisse muito da sua vida comigo.
Minha irmã bufou, impaciente, como se eu fosse lerda ou burra demais para compreendê-la.
– Eu preciso que você fique com a Claire hoje à noite para que possa ir ao jantar. Não é como se você tivesse uma vida própria, afinal.
A maldade de minha mãe, mesmo que em menor quantidade, estava sempre presente em Rosalie também. Eu suspirei em frustração, sabendo que não adiantaria discutir com ela. Nada do que eu fazia parecia fazer com que ela ou minha mãe gostassem de mim ou, no mínimo, respeitassem minhas escolhas. A conversa com Edward na noite em que ele me deu carona, após o jantar na casa da minha irmã, veio à minha mente: “Só quero que você me prometa que irá tentar se impor mais, Isabella [...]. Não deixe mais que eles controlem você”.
– Rosalie, eu ia adorar ficar com a Claire hoje. – Comecei. Não era mentira, eu realmente adorava passar um tempo com minha sobrinha, era a pessoa que mais importava na minha vida, e muito do que eu fazia era para agradá-la. – Porém, eu já tenho um compromisso essa noite, e eu não posso desmarcar, você entende?
Me irritava o jeito com que Rosalie e minha mãe “pediam” as coisas. Elas não podiam falar “por favor, será que você pode fazer tal coisa para mim”? Não. Elas agiam como se tudo fosse minha obrigação.
– E desde quando você tem compromissos, Isabella? Você está mentindo! Está mentindo para que eu perca meu emprego! Você sempre teve inveja de mim. Tudo bem, não preciso de você. Obrigada por nada!
– Eu nunca tive inveja de você! – Gritei, já sem paciência ao telefone. Eu não podia negar que tinha inveja do jeito que minha mãe tratava Rosalie – com amor, com orgulho. Entretanto, eu jamais tive inveja de Rosalie em seu âmbito profissional, ao contrário, sempre torci pelo seu sucesso. Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, ouvi a linha ficar muda do outro lado. Ela havia desligado o telefone na minha cara. Tão previsível, tão infantil.
Eu não ia deixar que aquilo me abalasse. Estava tão feliz por conhecer os tios de Edward, mesmo ainda achando precipitado. Coloquei um vestido delicado, bordô com estampa de flores brancas pequenas, uma sandália baixa e um casaco leve sobre os ombros. Fiz uma maquiagem leve, apenas para disfarçar minha palidez e minhas olheiras. Olhei-me no espelho e percebi um brilho diferente em meus olhos: eles estavam mais vivos e pareciam mais leves. Pela primeira vez em muito tempo, me senti bonita. Sorri.
Ao pegar novamente o celular, notei que já eram 18h. Sem conseguir me controlar, enviei uma mensagem de áudio à Edward.
“Olá, professor. Eu já estou pronta. Você vai demorar muito?”
Eu sei, não deveria mandar nada, considerando que o homem havia me deixado em casa há menos de três horas, mas eu já estava ansiosa para revê-lo.
“Oi, linda. Estou chegando na porta do seu prédio”.
Novamente, o “linda” estava lá. Eu sorri feito boba para a tela e, em vez de responder sua mensagem de áudio, simplesmente peguei minha bolsa, fechei a porta e desci para espera-lo em frente ao prédio. Será que ele pensaria que sou ansiosa demais? Bom, a essa altura, acho que não importa muito.
Vi o carro de Edward estacionar bem à minha frente e, quando fiz menção de abrir a porta, ele me parou.
– Deixa que eu faço isso. – Disse ele, descendo do carro e abrindo a porta do carona para mim.
– Você sabe que não precisa, certo?
– Eu sei. É por isso mesmo que eu faço, linda.
(...)
A viagem até a casa dos tios de Edward não foi tão curta como eu esperava, mas também não foi longa demais. Me assustei quando ele disse que a casa de Esme e Carlisle ficava no bairro Upper East Side, pois era um dos bairros mais nobre de Nova Iorque, bem diferente da zona em que eu morava. Eu só passava pelo bairro quando precisava atravessar a cidade, nunca tinha conhecido alguém que morava ali.
Quando chegamos na frente da casa, senti que estava em um filme: era uma residência geminada, de quatro andares, que possuía pintura em tons de creme/bege e janela em arcos. Por fora, a casa dos tios de Edward já me parecia encantadora, e eu não podia negar que estava curiosa para vê-la por dentro.
– Uau, aqui é muito lindo! – Comentei. Edward sorriu para mim, parecendo se divertir com meu deslumbramento. Bem, eu ganhava um salário de estagiária e até pouco tempo atrás estava dormindo no sofá da minha irmã, era impossível fingir costume.
– Realmente, é lindo, mas um pouco grande demais, não acha?
Olhei mais uma vez para a edificação à minha frente, pensando no que Edward estava falando. Talvez fosse difícil de mantê-la limpa, pois afinal, eram quatro andares, mas mesmo assim deveria ser maravilhoso ter todo aquele espaço, um cômodo só para uma grande estante com muitos livros e uma poltrona confortável...
A porta da frente foi aberta, fazendo com que eu deixasse meus devaneios de lado. Uma mulher da minha estatura, magra e com cabelos ruivos olhava sorridente para mim e para Edward.
– Meu filho, que bom que veio! – Ela o abraçou com carinho e seu tom maternal com Edward me comoveu. De fato, ela parecia amá-lo como um filho.
– Esme, quero que conheça a Isabella, minha amiga.
– Olá, querida! Que bom que Edward a trouxe, ele nunca traz ninguém aqui. Você deve ser muito especial.
Esme me abraçou, também com bastante carinho, e eu tentei retribui aquele afeto estranhamente genuíno. Tirando Claire, eu não tinha esse tipo de contato afetuoso. Seu comentário sobre eu ser alguém “especial” para Edward me fez ficar sem graça, e senti que minhas bochechas ficaram um pouco vermelhas.
Fiquei agradecida por Edward ter me apresentado como amiga, sem dar maiores explicações. Se nem nós sabíamos o que estávamos fazendo, as pessoas de fora entenderiam menos ainda.
– É um prazer conhecê-la, Sra. Masen.
– Pode me chamar apenas de Esme, querida. Vamos entrando! Carlisle está nos fundos, na churrasqueira. Hoje teremos noite do hambúrguer.
Adentrei a casa, conforme Esme solicitou, e fiquei bastante deslumbrada com o que vi. O lugar era bastante aconchegante, com muitas fotos e decorações, que faziam a casa ter cara de lar. Em uma das paredes da sala, havia várias fotos do casal, e também de algumas crianças, que eu deduzi ser Edward e seus primos, algumas só de seus primos; mais recentes, haviam fotos dos filhos do casal já adultos, formados. A foto de Edward de toga, ao lado do homem que imaginei ser Carlisle e de Esme chamou minha atenção. Ele parecia bastante emocionado.
– Você ficou muito bonito de toga, professor. – Elogiei.
Edward pareceu constrangido por tê-lo chamado de professor na frente de sua tia. Esme soltou uma risada, antes de comentar:
– Nós ficamos muito orgulhosos dele nesse dia! Foi um trajeto e tanto, não é, meu filho? – Edward concordou com a cabeça. – Ele se formou com honras na Columbia, tinha até conseguido um mestrado com bolsa integral na Europa, foi uma pena não ter ido...
Olhei para Edward incrédula, sem entender o motivo de ele não ter agarrado essa oportunidade. Tudo bem, eu sabia que seu trabalho era importante, que ele estava satisfeito lecionando, mas um mestrado na Europa não aparecia todo dia, ao contrário de um emprego na educação básica.
– Por que você desistiu?
– Ah, querida, as pessoas cometem erros, não é? A namorada de Edward na época não queria que ele fosse, então...
– Chega, tia! Isso não é assunto para o momento, por favor. – Edward estava visivelmente incomodado com o rumo daquela conversa, e eu estava morrendo de curiosidade de saber mais sobre aquela história.
Será que ele ainda gostava da ex-namorada? Se ele desistiu de um mestrado na Europa para ficar com ela, por que não estavam mais juntos? Ah, meu Deus, será que ele só estava passando um tempo comigo por pena? Será que eu havia entendido tudo errado? Não era possível... Ele inegavelmente flertou comigo todos esses dias. O jeito que ele me tratou, que conversou comigo, que me beijou... Não podia ser tudo coisa da minha cabeça, podia?
O silêncio tomou conta do local, até Esme solicitar que fôssemos para os fundos da casa, no pátio. Conheci Carlisle, um homem loiro, alto e extremamente simpático, que estava à frente de uma churrasqueira portátil, grelhando hambúrgueres.
– Ora, Edward, quem é essa moça bonita?
– Prazer, Sr. Masen, me chamo Isabella. – Apresentei-me rapidamente, tentando ser simpática. Eu estava adorando conhecer os tios de Edward e a casa deles, entretanto, a história da ex-namorada de Edward não me saía da cabeça.
– Pode me chamar de Carlisle, somente. Senhor faz com que eu me sinta um velho, e ainda não me aposentei para isso! – Brincou ele.
– Ah, Isabella, não sei se algum dia a aposentadoria dele chegará! Ele adora aquele hospital, e seus pacientes teriam um surto se ele os abandonasse.
Conversamos amenidades por algum tempo, sentados à mesa que havia ao ar livre. Esme perguntou-me sobre o que eu fazia, sobre a faculdade, sobre meus pais. Comentei que não possuía uma boa relação com minha mãe e que meu pai havia morrido há muito tempo e ela pareceu entender a complexidade da situação, pois não se aprofundou no assunto.
Quando Carlisle finalizou os hambúrgueres e Esme arrumou a mesa, começamos a comer em silêncio. Edward não interagia muito desde o comentário de Esme sobre sua ex-namorada e mestrado. No meio do jantar, Carlisle pigarreou, chamando a atenção de todos para ele.
– Bem, filho, eu sei que você não gosta de tocar no assunto, mas eu preciso dizer a você.
– Se é sobre a empresa de meu pai, tio, eu peço que não insista, eu não vou entrar na justiça e pedir algo que vocês acham ser meu por direito.
– Mas é seu por direito, filho.... – Esme interrompeu.
– Não interessa. Eu escolhi ser um simples professor de matemática, o que meu pai nunca aprovou. Não tenho nenhuma vocação para decidir ou administrar uma empresa de construção civil, Esme, pelo amor de Deus! Também não me interesso pelo dinheiro deles, eles não queriam me deixar nada, e você sabe disso tão bem quanto eu, você leu o testamento!
Aquele assunto parecia incomodar Edward demais. Lembrei do que ele me comentou sobre os pais não terem deixado nenhuma herança para ele, pois acreditavam que ele havia se desvirtuado, saído do caminho correto.
– Edward, eu sei todas essas questões. Entretanto, preciso levantar o assunto, pois o único sócio que seu pai tinha, Aro Volturi, faleceu.
– O quê?
– Como você sabe, ele sempre foi um homem solitário, não teve filhos, e sua família morreu há muito tempo. Aro nunca achou correto o que seus pais fizeram com você, principalmente por preocupar-se com o futuro da empresa, já que ele não tinha para quem deixá-la e você é, por direito, o sucessor. Resumindo: Aro se foi e deixou a empresa para você, tanto por ele também entender que você tem direito sobre ela, quanto por não haver ninguém de sua confiança para delegar essa responsabilidade.
Percebi que Edward estava em choque com as informações, pois não esboçava nenhuma reação, apenas olhava fixo para Carlisle, esperando que o tio risse e lhe dissesse que tudo aquilo era uma grande piada de mau gosto.
– Tio, eu não quero o dinheiro de meus pais.
– Você sabe muito bem que não se trata apenas de dinheiro, Edward, e sim de todo um legado.
– Legado que eu nunca quis fazer parte.
– Não é uma escolha. O advogado do Sr. Volturi entrará em contato com você, provavelmente na segunda-feira. Entretanto, como ele já me conhecia, pediu para que eu conversasse com você antes, para prepará-lo.
– Me preparar?
– Sim. Você precisa decidir, filho, se irá ficar com a empresa e administrá-la, se irá vendê-la... Infelizmente, é algo que só você pode decidir.
– Desculpem pela intromissão, mas de que empresa nós estamos falando? – Disse.
Talvez não fosse apropriado que eu me metesse na conversa, já que era uma discussão familiar. Entretanto, eu já estava ali, não é o mesmo?
– Da Turner Construction, querida.
– Oh. – Foi tudo que eu consegui falar. Edward, um simples professor de matemática, agora era o único proprietário da segunda maior empresa de construção civil de Nova Iorque. Eu acho que o homem estava bilionário, e conseguia entender, agora, a sua incredulidade em tudo isso.
– Eu não faço a mínima ideia de quanto aquela empresa vale, nem como se efetua uma venda dessa magnitude. Por outro lado, também não tenho a mínima noção de como administrar uma empresa dessas....
– Ah, querido, você sempre foi ótimo com os números, com certeza tiraria de letra. – Esme o incentivou.
– Mas Esme, não era isso que eu queria, você entende? Eu sou feliz sendo professor de matemática, eu sou feliz com meus alunos, com a minha vida simples... Certo, eu não vou romantizar. É uma merda ter o dinheiro contato para passar o mês, mas daí a ser herdeiro da Turner? É um salto.... Inesperado.
– Bem, Edward, eu só queria alertá-lo sobre isso. Segunda, o advogado de Aro entrará em contato com você e vocês podem discutir e deliberar melhor sobre as suas opções. Enquanto isso, nada pode ser feito. Esme, você pode nos servir a sobremesa, querida?
– É claro, Carl.
Esme foi até a cozinha e voltou de lá com uma grane torta de chocolate. Estava maravilhosa, doce na medida certa. Eu disse a ela que era a melhor torta de chocolate que eu já havia comido na vida, e não era mentira.
Ao meu lado, percebi que Edward não havia nem ao menos encostado em sua fatia, que permanecia inteira no prato de sobremesa. Após um tempo, Carlisle e Esme levantaram-se, informando que iriam lavar as louças; eu me ofereci para ajudar, mas recusaram.
Aproveitei o momento a sós com Edward e tentei conversar com ele.
– Está tudo bem? – Perguntei, levando uma de minhas mãos até os seus fios acobreados, fazendo um leve cafuné. Ainda estávamos sentados à mesa, e Edward parecia imóvel, tenso, sem reação.
– Eu demorei muito tempo para ficar bem resolvido comigo mesmo, Isabella. A rejeição de meus pais doeu por muito tempo, justamente porque eu não entendia o fato de eles não aceitarem minhas escolhas. Agora, sinto que de nada adiantou. Como posso trilhar um caminho diferente quando a herança deles volta para me assombrar?
– Olha, Edward... Talvez você só esteja vendo tudo isso pela perspectiva errada, muitos herdeiros nem ao menos trabalham em suas empresas, apenas pagam pessoas para que façam isso e têm aquela renda passiva para sempre.
O mundo não é justo, o capitalismo é cruel, eu sabia de tudo isso. Entretanto, não via como um grande problema. Afinal, o problema é não ter como se manter, e a situação dele agora estava longe de ser essa.
– Você está dizendo que eu posso simplesmente contratar pessoas para cuidarem da empresa, enquanto vivo minha vida normal como professor? – Ele parecia incrédulo com isso.
– Bem, sim. Se essa for a sua vontade.
– Isabella, não é tão simples...
– Eu entendo, mas acho que você está tornando tudo bem mais difícil do que de fato é, e... – Edward me interrompeu e afastou a cabeça do meu carinho. Assim que se levantou, deixando a mesa, disse:
– Agradeço pela sua opinião, Isabella, mas você não me conhece, não conhece metade da minha história. Logo, se não se importa, eu gostaria que você não opinasse sobre o que não sabe.
Suas palavras me atingiram como um tapa. Ele tinha razão, eu não conhecia, não sabia de metade da sua história, incluindo a ex-namorada. Entretanto, achei que estávamos nos conhecendo, que o convite para comer uma pizza, para ir ao parque e para vir aqui, conhecer os seus tios, fosse parte disso. Pelo visto, havia me enganado.
A frieza em sua voz me remeteu ao tratamento que eu recebia de minha própria família. No fim, o desprezo era o mesmo. Levantei-me e fui até a cozinha me despedir de Carlisle e Esme. No trajeto até lá, pedi um Uber pelo aplicativo, pois eu precisava sair dali o quanto antes.
Não entendia o que eu havia feito de errado. Talvez eu não devesse, mesmo, ter me metido na questão familiar, mas ele não precisava ser tão grosseiro. Afinal, eu estava ali justamente por que ele me convidou. Eu sabia que era precipitado... Realmente, não deveria ter vindo.
– Esme, Carlisle! Gostaria de agradecer pela hospitalidade de vocês e pelo jantar e sobremesa, tudo estava ótimo! Eu preciso ir para casa, mas foi um prazer conhecer vocês. – Abracei o casal rapidamente, sabendo que talvez nunca mais os veria.
– Mas é cedo, querida! Edward vai levá-la, certo?
– Eu preciso mesmo ir, pedi um Uber, não quero incomodar mais vocês. Bem, foi um prazer.
Antes que eles dissessem mais alguma coisa, saí da cozinha. De volta à sala, peguei minha bolsa e tentei me despedir de Edward sem mostrar o quão magoada havia ficado com seu tratamento.
– Edward, eu já vou indo. Preciso muito mesmo ir para casa, tenho que estudar. – Menti. – Foi muito bom jantar com seus tios, obrigada.
Não esperei que ele dissesse algo, simplesmente abri a porta da frente da casa e saí. Por sorte, o Uber já estava estacionando na frente do endereço quando cheguei à rua. Ao entrar no carro, não olhei para a fachada da casa para saber se Edward havia me seguido, ou se havia ficado dentro de casa, imóvel. Era certo que eu não o conhecia, e nem o culpava por isso, afinal, eu era apenas a tia de sua aluna. O erro foi meu por pensar que Edward gostava de mim. Talvez ele tenha se sentido comovido por ver que eu era tratada de uma forma semelhante a que ele foi tratado pelos pais, devido a nossas escolhas, mas as semelhanças paravam aí. Éramos completamente opostos e, também, desconhecidos.
Enquanto voltava para meu pequeno apartamento, fui pensando nas leituras que deveria fazer para a próxima semana de aula, os trabalhos que deveria começar para não deixar para a última hora. Também pensei no estágio, e nas muitas revisões que viriam na segunda-feira. Tentei me agarrar à rotina, sabendo que o cotidiano seria mais solitário sem as conversas com Edward. Embora nos conhecêssemos há pouco tempo, eu havia confiado nele de uma maneira incomum. Para não ficar ansiosa, esperando mensagens de Edward, arquivei nossa conversa. Talvez eu estivesse exagerando, talvez ele nem percebera o modo como falou. Entretanto, já bastava minha família me desprezando, eu definitivamente não precisava de outra pessoa para fazer isso.
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