Open house
1 Sorte
Rony Weasley quase nunca teve sorte. Não era tão azarado a ponto de ser amargo, mas sabia muito bem qual era o limite de sua sorte. Ele havia gastado toda ao se casar com sua melhor amiga, conseguir um emprego que nunca sonhara em ter e talvez, apenas talvez, sobrevivendo a uma guerra. Por isso Rony não estava esperando ter tanta sorte naquele dia, primeiro havia recebido uma folga surpresa e Harry também, então os dois haviam decidido levar James para dar uma volta e deixar Gina descansar um pouco. Depois sua sorte havia agido novamente e sua lanchonete trouxa favorita tinha essa incrível promoção de dois por um, levando-o a comprar seis sanduíches e dois refrigerantes. Agora ele estava sentado no banco com Harry e James, este último em seu carrinho mordendo uma rosquinha de brinquedo.
—Isso é divino! — ele exclamou. — Não acredito na sorte que estou tendo hoje.
—Nem eu. — Harry jogou a cabeça para trás. Era um dia de verão, mas o clima era agradável o suficiente para ficar no parque apenas observando o tempo. — E a busca pela casa? Acharam alguma coisa que agrade os dois?
—Não, ainda. Hermione queria algo mais moderno, mas todas que vimos tinham metais em lugares que não deveriam ter. Quase escorreguei na escada.
—Má sorte. Talvez a próxima.
—Talvez, mas não tenho certeza. Já fomos em tantas e nunca chegamos a um acordo. Fora ou dentro da cidade, longe ou perto da Toca. Foi tão complicado para você e Gina? Não lembro de você reclamar tanto.
—E eu não reclamava. Ficamos com a primeira casa que vimos. Foi um golpe de sorte. — Harry deu de ombros enquanto mordia seu sanduíche.
Rony lembrou da casa de dois andares que seu melhor amigo tinha, a fachada era de tijolos e um grande muro a cercava, tinha quintal e jardim grandes o suficiente para atender a todos os Weasley, e o melhor de tudo era a proximidade com a escola de Teddy, apenas vinte minutos a pé. Havia sido sorte eles terem encontrado algo assim, mas o fato era que Harry tinha muita sorte, mais sorte do que era comum.
—Estou quase pensando em deixar você procurar a minha casa, porque com sua sorte é capaz de achá-la mais rápido. — Rony brincou, terminou de amassar o papel do sanduíche e o jogou contra o cesto de lixo mais próximo.
—E o que eu ganharia com isso?
—Minha eterna gratidão?
—Posso vender isso? — Harry arqueou a sobrancelha e então riu.
—Idiota. — Rony murmurou enquanto compartilhava uma risada com o amigo.
—Acho melhor irmos indo. Gina pode dizer que está feliz por ter um tempo sozinha, mas ela nunca ficou sozinha o suficiente para gostar disso.
Eles continuaram a conversar à medida que seguiam seu caminho, entraram em uma rua pouco movimentada, poucos carros e grandes árvores que produziam sombras frescas. Rony respirou fundo sentindo o ar mais limpo do que em seu atual bairro.
—É uma das coisas que eu mais gosto sobre essa parte da cidade. Tantas árvores deixam o ar mais limpo. — Harry comentou como se lesse seus pensamentos.
—Penso que Mione iria amar esse lugar. Tantas plantas, tanta paz. — Rony jogou a cabeça para trás aproveitando o barulho dos pássaros, eles o lembravam da Toca. — Se você me arranjar uma casa aqui, te dou o meu primogênito.
Harry riu.
—Vocês, Weasley, tem uma estranha mania de apostar suas crianças.
—Mas sério, cara. Se você me conseguir uma casa aqui, seria grato a você pelo resto da minha vida.
Rony observou Harry olhar ao redor, seus olhos verdes buscando algo no meio das casas. Ele olhou para algumas casas geminadas pintadas em tons pastéis, outras tinham muretas cobertas de plantas e flores, mas havia uma que lhe chamou a atenção dele.
—Rony, ela está aberta a visitação. — Harry disse já empurrando o carrinho de James em direção a casa, então olhando por cima do ombro com um sorriso irritantemente convencido, ele disse. — Que sorte a nossa, não é?
Revirando os olhos, Rony o seguiu para dentro da casa. Harry deixou o carrinho de James no pequeno jardim da frente e subiu os degraus, o garotinho de cabelos castanhos avermelhados sorria enquanto olhava ao redor, suas pequenas mãos gordinhas tentavam agarrar o ar. Rony sorriu para seu afilhado e lhe cutucou a bochecha.
—Eu vou procurar a corretora, fique com ele. — Harry praticamente jogou James nos braços de Rony e desapareceu na casa. Ele já estava acostumado com as atitudes do amigo, então apenas confortou James em seus braços. Harry e Gina tinham a estranha mania de confiar demais seu filho a ele, de uma maneira que em alguns momentos Rony poderia levar James para sua casa que os pais não sentiriam falta do bebê. Obviamente eles amavam James, mas Rony não podia deixar de perceber que algumas vezes o bebê os cansava demais.
—Vamos dar uma volta, JJ? — Rony sorriu para o bebê e o ajeitou em seus braços de modo que James estivesse com as costas apoiadas contra o peito dele.
Rony observou o corredor, havia uma escada que levava ao segundo andar, o piso era de ladrilhos pretos e brancos, as paredes eram pintadas com um cinza esbranquiçado. Ele pensou em subir e checar os quartos, porém as portas francesas à sua esquerda lhe chamaram a atenção, ele empurrou as portas e se maravilhou com o espaço apresentado, era um grande como o vazio com enormes prateleiras nas paredes, um belo lustre e um banco junto às janelas que deixavam toda a luz natural entrar. Rony colocou James no chão, o pequeno Potter começou a engatinhar em direção às prateleiras mais baixas da estantes em busca de apoio.
—O que você acha, James? Tem espaço o suficiente para os livros de sua madrinha? — ele indagou forçando uma voz infantil ao se agachar ao lado do afilhado.
—Pada. Pada. — James balbuciou e colocou os dedos na boca.
—Vou entender isso como um sim. — Rony riu e então olhou ao redor, a luz que entrava pelas janelas deixavam a sala mais aconchegante. Ele poderia muito bem imaginar Hermione sentada em uma poltrona com um livro na mão.
Rony se sentou e apoiou as costas contra a estante. James se soltou do moveu e caiu de bunda no chão, sua fralda amortecendo a queda, ele se arrastou até ele e bateu em suas pernas.
—Você gosta daqui? Acha que tem espaço o suficiente para brincar com seus primos? — Rony lançou um olhar para o bebê, James voltou a balbuciar e então olhou ao redor. — Que tal irmos atrás do seu pai, em?
James estendeu os braços e Rony o pegou em seu colo antes de se levantar. Ele saiu da sala e caminhou em direção às vozes, cruzou uma bela sala de estar, uma cozinha com armários azuis e uma grande mesa de madeira com seis cadeiras, havia uma mulher sentada à mesa, seus cabelos antes escuros exibiam mechas brancas, seus olhos encaravam fixamente algo em suas mãos. Rony se aproximou, tomando cuidado para não parecer invasivo demais, James se mexeu em seu colo olhando para todos os lados em busca de Harry.
—Se acalme, pequeno. — Rony pediu acariciando as costas dele. James subitamente se aquietou e deitou a cabeça contra o ombro dele.
—Ele é adorável.
Rony desviou o olhar de James e encarou a senhora, ela tinha olhos castanhos e opacos, olhos de quem já viu muito mais do que queria.
—Sim. Ele é, mas também é bastante atrevido quando quer. — ele pensou em cutucar a barriga de James para provar seu ponto, mas desistiu quando percebeu que aquele momento de calma era algo raro.
—Quantos anos ele tem?
—Irá fazer um ano daqui a algumas semanas. Um grande bolo para essa pequena pessoa. — Rony sorriu, a senhora esboçou um sorriso encantado.
—Você veio ver a casa?
—Sim. Estava passando quando vi a placa.
—E gostou dela?
—Muito. É um lugar perfeito para uma família. — Rony olhou para James que estendeu a mão para apertar a bochecha dele.
—Fará uma proposta?
—Estou pensando que sim. Apenas preciso conversar com a corretora para saber quanto estão pedindo. Queria poder conversar com a minha esposa, mas… Aí, James! Não, não, sem puxar o cabelo. — Rony tirou as pequenas mãozinhas do seu cabelo, para sua sorte James tinha mais entusiasmo do que força. — Tenho modos, pequenino. Eu estou sozinho aqui e você vale por mil.
—Sinto muito. Há quanto? — a senhora indagou, então Rony se voltou para ela.
—Como?
—Entendo como pode ser difícil fazer esse trabalho sozinho. Quando perdi meu marido, meus filhos eram crianças, dois apenas, mas foi duro. — a senhora falou e ele franziu levemente a testa tentando entender o que ela estava falando. — Pode parecer impossível agora, mas será gratificante no futuro.
—Aham… — Rony piscou em choque, o rumo daquela conversa não era exatamente o que ele estava esperando.
—Veja, eu sou a dona dessa casa e pretendo me mudar para ficar com a minha filha na Irlanda. Eu fiquei a manhã inteira esperando alguém que visse nessa casa o que eu vi quando a comprei com o meu marido. Esse é um lar e tenho certeza que é o local certo para você e seu filho, deixe-me falar com Júlia e acertaremos tudo.
—Como assim? Desculpe, acho que não entendi.
—Você será o próximo dono dessa casa com a minha bênção.
Rony observou a senhora se afastar em direção às portas de vidro que levavam ao quintal, ele franziu a testa ainda sem entender o que havia acabado de acontecer.
—Rony. — Harry apareceu ao seu lado e pegou James de seus braços. — Gostou da casa?
—Sim. Sim. — ele balbuciou um tanto atordoado, passou a mão pelo rosto e segurou o próprio queixo. — Hermione vai me matar.
—Por que Hermione te mataria?
—Porque eu acho que acabei de comprar essa casa.
—O quê?!
—E essa nem é a pior parte.
••
Rony se encolheu contra a cadeira enquanto observava o rosto inexpressivo de Hermione, sua boca estava entreaberta e seus olhos vidrados nele.
—Mione, fala alguma coisa. — ele implorou. Rony sabia muito bem que o silêncio dela era pior que seus gritos.
—Você usou James para comprar uma casa e disse que eu estava morta? Ronald! — Hermione o encarou irritada, Harry sentando ao seu lado riu histericamente atraindo a atenção de alguns clientes. Havia sido bom eles terem escolhido um restaurante trouxa ou acabariam saindo na capa dos jornais, novamente.
—Em minha defesa, a senhora deduziu tudo antes que eu pudesse abrir minha boca. — Rony se defendeu, mas Hermione continuou a encará-lo com descrença.
—Você usou o meu filho para conseguir uma casa, estou mortalmente ofendida.
—Ah Gina, não me venha com essa porque eu sei muito bem que você já usou Teddy e Victoire várias vezes para ganhar coisas de graça.
Gina colocou a mão sobre o coração se fingindo de ofendida, mas seu teatro não durou mais que alguns segundos, já que ela riu abertamente da situação. Rony apoiou o cotovelo sobre a mesa e olhou para seu afilhado sentando no colo de Gina.
—Cara, se eu soubesse que seria tão fácil conseguir uma casa, já teria pedido James emprestado há muito tempo. — ele murmurou arrancando risadas dos ocupantes da mesa, até Hermione parecia mais calma com a situação.
—Eu espero mesmo que essa casa valha a pena, porque essa armação já está me rendendo uma tremenda dor de cabeça. — ela disse. Rony estendeu a mão e segurou a dele, então lançou um sorriso para ela.
—Você vai gostar. Tem uma sala especial que pode ser sua, grandes estantes para seus livros, luz natural com uma bela vista em um bairro calmo. É como um… lar.
Hermione sorriu e apertou a mão dele com carinho, essa foi a confirmação que Rony precisava. A casa, a nova casa deles, seria um lar para seus futuros filhos. Ele mal podia esperar para ver pequenas criancinhas correndo de cima para baixo enquanto Hermione aos gritos tentava acalmá-los. Então Rony percebeu porque tinha tanta sorte, aquela bela mulher havia aceitado se casar com ele e suportar todas as situações inexplicáveis de sua vida, ela era seu amuleto da sorte, com Hermione ao seu lado, tudo estaria bem.
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