Onze Zero Nove

1 Capítulo Único


Senti meu corpo gelado, um frio me fez arrepiar apesar de nenhum vento estar soprando e o dia estar ensolarado, independente de que horas eram, eu deduzi que ainda era manhã. Olhei para o céu e vi poucas nuvens e no ar havia uma grande nuvem de fumaça preta, dei de ombros e segui caminhando, sem saber onde eu estava tentando chegar.

Me aproximei perto de um lugar onde parecia estar tendo uma grande confusão, não sabia e nem poderia chegar perto o suficiente pra entender o que estava acontecendo naquele local, pois a grande concentração de pessoas correndo e desesperadas não me deixaria passar tranquilamente. Mas eu persisti e caminhei lentamente contra àquela multidão eufórica sendo envolvida pela grande nuvem de fumaça preta. Só então fui perceber que ela estava tão baixa que algumas pessoas tapavam os olhos a fim de protegê-los da mesma. Mas eu não sentia nada.

Qual é o problema dessas pessoas? – pensei enquanto caminhava no meio daquela multidão que tampouco ligavam para minha presença indo contra a direção que estavam correndo.

Haviam policiais e bombeiros por toda a parte, isolando aquele local, gritando para que as pessoas ali presentes não se aproximassem, toda a área estava em risco e poderia ser há qualquer momento a próxima vez. – Próxima vez de que? Risco? Quê risco? – me questionei um tanto confuso, pois não conseguia lembrar de como fui parar ali, descalço, apenas com meu terno preto e minha blusa social azul por baixo, talvez eu tenha esquecido de tomar meu remédio antes de ir trabalhar e fiquei um tanto confuso enquanto percorria o caminho para o trabalho... Não sei.

Cheguei a conclusão de que as pessoas de fato não ligavam para minha presença, na verdade, elas não a percebiam, como se eu não estivesse ali. Me perguntei que dia era, não me lembrava da data, nem de nada ao certo daquele dia, como eu sairia de casa dessa forma? Arrumado e descalço? Pior, sem me lembrar de nada do que fiz minutos atrás. – Será que minha esposa e meu filho estão bem? Ou estariam preocupados com minha ausência? Estariam eles procurando por mim? – busquei nos bolsos do meu terno a fim de encontrar meu celular, precisava ligar para eles, minha família e avisá-los de que estava bem, embora eu não tivesse tomado meu remédio pela manhã... – Ou tomei? Droga, não me lembro de nada! – para meu azar, eu não estava com meu celular ou eu havia perdido nessa caminhada esquecida ou simplesmente o deixei em casa, de qualquer forma, não poderia avisá-los.

Eu poderia até pedir ajuda para alguma pessoa, mas o jeito em que elas estavam seria praticamente impossível, logo tentei encontrar algum telefone público por perto, eu não poderia deixar minha família preocupada, a Jess, o meu filho querido, Richard, não poderia deixá-los sem saber que estou bem.

Enquanto caminhei em busca do telefone público, percebi que a multidão aumentou naquele local e alguns helicópteros de emissoras de televisão faziam vigilância no ar, percebi também que eu já estava bem distante do local anterior, no meio daquela multidão se protegendo da grande fumaça preta. Presumi que tinha sido alguma coisa grave, mas rapidamente me desliguei de meus devaneios ao avistar uma cabine telefônica do outro lado da rua, onde não tinha tanta gente eufórica assim.

Atravessei a rua e pra minha sorte eu não fui atropelado, pois não olhei para ver se estava fechado ou aberto o sinal, apenas caminhei em direção à cabine ansioso para ouvir a voz da minha esposa.
Me aproximei da cabine telefônica, mas ao chegar bem perto, não consegui abri-la, como se estivesse trancada, isso me revoltou, fazendo com que eu a chutasse de reflexo à raiva do momento. No instante em que me estabilizei, fechei os olhos e respirei fundo, buscando a calma dentro de mim, pois eu não poderia me desesperar em meio àquela multidão.

Abri meus olhos e fiquei mais confuso, pois eu estava novamente no lugar que estava antes de sair para achar a cabine telefônica. Eu comecei a sentir um pouco de medo, pois tudo isso estava me deixando assustado, nervoso e alterado. É como se eu estivesse inválido, aqui e não aqui, sozinho mesmo estando nessa multidão. Tentei me mover e enxergar alguma coisa por perto, queria sair daquele lugar, estava muito acinzentado, me impedia de ver as coisas à minha volta. Segui caminhando bem devagar para não cair ou tropeçar em alguma coisa e nesse mesmo ritmo em que estava, chego em uma área mais clara e menos movimentada, onde estava isolado pela polícia.

Alguns policiais estavam nesse mesmo local, falando em seus walkie-talkies, enquanto um carro do bombeiro jogava água no outro lado da área isolada. Pude perceber também algumas pessoas sendo retiradas daquele lugar, e... – Nossa, meu Deus! — fiquei surpreso ao ver alguns corpos no chão, totalmente desfigurados, como se tivessem sido atropelados por um caminhão, sangue espalhado e alguns dos outros corpos sendo retirados em sacos pretos com zíperes, como aqueles que colocamos roupas sociais para não amarrotar. Estranhei mais ainda nenhum oficial vir até a mim e me tirar daquele lugar, mas ignorei e rapidamente me aproximei de um dos policiais a fim de pedir ajuda e saber o que estava acontecendo ali.

Me aproximando eu escutei no rádio do policial que esse evento teria sido um atentado terrorista, parei rapidamente e olhei ao meu redor, minha mente foi aos poucos me lembrando em flashes de onde eu estava, do que fiz antes de estar aqui nesse local... Senti meu corpo tremer de medo, pavor e no mesmo instante em adrenalina me movimentei no meio daqueles corpos no chão até que olhando para aquela barbaridade avistei um corpo masculino, completamente torto no chão, ele vestia um terno e uma blusa azul social por baixo e... Estava descalço.

Minha mente convulsionou lembranças em flashes completos e eu me lembrei de tudo. Aquele no chão era eu, eu me suicidei... No mesmo instante lembrei da minha família, pensei na besteira que fiz, mas também lembrei que eu não tive escolha, eu fui vítima de um atentado terrorista... Me lembrei também da data daquele dia, que olhei assim que acordei antes de ir para o trabalho... Onze de setembro de dois mil e um.

Notas finais
✞ Que descanse em paz todos os que estiveram envolvidos nessa tragédia de 11/09/2001. ✞
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!