Onze
3 Capítulo 3 - A Carta

Dois times recuados não marcam gol e, por não ter certeza sobre seus sentimentos por mim, eu preferi esconder os meus. Você me amava e... Nem tentou. Você desistiu de mim, Alana, sem saber que eu sentia o mesmo.
Por que nós nunca nos declaramos? Por que nunca dissemos uma para a outra o que sentíamos, e então... As coisas teriam sido simples. Teriam, mas não foram. De um dia pro outro você estava loucamente apaixonada por outra pessoa. Uma pessoa que eu não conhecia e aquilo me atingiu de uma maneira que eu não esperava.
A pancada foi tão intensa que eu me desmontei.
Foi só imaginação todo aquele sentimento, Alana? Ai, meu deus, eu era tão burra. Mas eu sei agora, que você esperava uma atitude minha. Uma atitude que eu não tinha e por não tê-la, você achou em outro alguém.
O problema é que quando eu tentei ser direta com você, acabei sendo um desastre. Você lembra? O álcool precisa ficar longe de mim quando estou apaixonada. Eu praticamente saí gritando – para qualquer um que quisesse ouvir – que eu te amava. E... O que você me disse?
– Tudo bem, amigos de verdade se amam.
Porra! Porra! CARALHO, VIU? Eu te amava, e não como amiga, como namorada. E você... E você me trocou pela outra menina. Alana, sabe o que é o pior? O pior é que quando essa menina te deixou, eu estava lá. Eu te procurei e escutei toda a sua história, todos os motivos pelos quais você e ela não deram certo.
Lembra daquele dia que eu te abracei, um pouco quieta, e comecei a chorar baixinho? Eu estava lá por você. E você nunca esteve por mim. Você tirou meus braços do seu pescoço e subiu as rampas do colégio, me deixando um pouco desnorteada.
Você tinha me afastado tanto de você, mas eu continuava tentando me aproximar.
A professora de matemática me puxou para um canto, me consolando. O estranho, Alana, é que eu queria te consolar por ter perdido a menina que você amava, mas quem estava sendo consolada era eu. Era você que estava arrasada por ter seu coração partido de uma forma tão brusca, mas eu sentia como se eu que estivesse sofrendo.
Quando as lágrimas cessaram, eu voltei para a sala de aula, sentei sozinha em uma das primeiras carteiras e você tocou no meu braço.
– Deixei um negócio na sua mochila.
Eu abri o primeiro zíper, nada... Abri o segundo, nada... Abri o terceiro, baguncei os cadernos e achei no meio da apostila uma folha dobrada em três partes, arrancada de um caderno de matemática, com os picotes sem recortar. Desdobrei e ali estava sua caligrafia perfeita e um pouco tremida, escrita com pressa.
Você devia ter me avisado, Alana, que eu não deveria ler aquilo no meio de todas as outras pessoas, porque ali estava sua carta de despedida. E eu não podia deixá-la ir.
As primeiras palavras vieram doloridas e difíceis, acompanhando minhas lágrimas. Meu choro sofrido por entender que para você sempre foi mais fácil partir. Eu ainda sinto a mesma dor que senti aquele dia, quando leio suas palavras.
“Eu não sei qual é a probabilidade de você abrir sua mala e ver isso, mas enfim... Vou direto ao assunto: eu não sou insensível a ponto de fingir que nada acontece... Tem momentos em que eu realmente sinto muita falta da nossa amizade.
Entenda, me faz mal saber que eu te faço mal. E tudo isso não está sendo fácil para mim. Muitas vezes parece mais duro do que eu posso suportar... Tudo me faz mal. Então, eu te peço, se você ainda me considera, fique bem, e acredite, isso me fará sentir melhor.
A princípio me afastei de você por causa dela, mas agora sou EU que preciso disso. Eu tenho que resolver meus problemas sozinha e não posso te levar junto. Não quero que você sofra por mim. Eu ficarei bem, prometo.
E nunca se esqueça, que hoje e sempre, independentemente de qualquer coisa, você mora aqui -> ♥
Brigada por tudo, te amo e quero que você fique bem.”
Eu sai da sala, perdida. Andei até o final do corredor e tomei um copo de água, depois sentei no chão, chorando. Te contei depois como me senti ao ler a carta, mas... Enquanto eu estava sentada ali, uma inspetora me chamou, me levantou e nem se importou em perguntar se eu estava bem. Ela disse:
– Você está esperando alguma coisa? — Eu apenas balancei a cabeça, dizendo que não. – Então volta pra sala, ora essa!
Sequei as lágrimas e voltei, incapaz de disfarçar o que eu sentia. Eu te odiei naquele momento e mesmo assim, te amava.
E o que você fez, Alana? Conforme os dias passaram, você começou a me cumprimentar, a sorrir de volta para mim, a me abraçar. E aos poucos, eu sentia que seu coração estava voltando ao normal.
Eu conheci uma parte sua que nunca mais vi quando você me encostou na parede branca, e me olhou nos olhos. Eu os fechei instintivamente e minhas mãos foram parar na sua cintura. Em um leve encostar de lábios, você me teve por completo. E foi por isso que eu me apaixonei por você.
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