Only if for a Night
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Bateu na porta três vezes antes que Mary, mãe de Josh, abrisse a porta com aquela expressão de desprezo que ela sempre demonstrou para Kate. Ela era uma mulher alta e naquele momento estava com um hobby cor de rosa e chinelos havaianos. As sobrancelhas muito bem feitas estavam arqueadas num tom de superioridade. Diferente das outras pessoas, ela nunca olhou com pena para Kate ou para sua mãe, na verdade, sempre mostrou sua antipatia com as duas.
–Não esperava você por aqui. -comentou Mary relativamente surpresa olhando de cima a baixo Kate, um olhar de mãe quando vê as más influencias que cercam o filho. – Não deveria estar na escola.
–Não, eu estou de férias junto com todos os outros. – Kate abriu o sorriso mais falso que alguém poderia dar. – A propósito eu passei de ano sem nenhuma recuperação para fazer nas férias.
–Sua mãe está bem ou continua se lamentando pela morte do seu pai? –ela não perdeu a chance de alfinetar.
–Meu pai morreu quando eu tinha 6 anos, faz um bom tempo. –retrucou sem rodeios. – A propósito por falar em pais, eu podia jurar que seu marido já deveria ter voltado da viagem do Canadá... Ou melhor, será que ele volta?
–Escuta aqui sua...
Josh puxou a mãe pelo braço surgindo por trás dela e tomando sua frente. Ele não riu, e Kate entendeu que a alfinetada dela havia pegado ele também.
–Oi Kate. –ele foi seco nas palavras. – Algum problema?
O dia estava ensolarado e era um sábado à tarde. Kate sabia muito bem que dias assim serviam para sair, ir ao centro ou qualquer outra coisa divertida. Ela sempre ia com Josh e era incrível o fato dele não ter entendido logo de cara.
–Bom... Como o dia está legal, estamos de férias e morrendo de tédio eu achei que...
–Não posso. –falou ainda mais sem expressão do que a primeira vez. – Meu pai foi preso no Canadá... De novo.
– Jogos? –perguntou Kate já se arrependendo de ser tão intrometida.
–Sempre. –ele deu um longo suspiro ao ouvir sua mãe gritar seu nome com impaciência. — Temos que viajar para o Canadá, minha mãe vai tira-lo.
–Sendo assim... – Kate pensou em dar um abraço de despedida, mas logo desistiu de qualquer reação do que um aceno. – Podemos nos ver quando voltar.
–Claro. –ele estava prestes a entrar de volta para casa quando recuou- Melhor não fazer trilha esse dias, tudo bem?
– Por quê? –Kate sentiu o sarcasmo na voz. – Eu não vou me perder nem nada.
–É pode ser. -respondeu ele sem nenhuma infantilidade ou ironia. Apenas triste.
–Ei Josh, -falou antes que ele virasse. — Vai ficar tudo bem, não fique assim.
Josh deu de ombros com indiferença e fechou a porta sem ao menos dar um tchau. Isso a irritou por um breve momento, mas relevou, porque era até aceitável naquele momento.
Kate só ficou tempo suficiente ali parada, para ouvir Mary soltar o longo sermão sobre como Josh tinha uma amiga petulante.
(...)
Da casa de Josh ao trabalho da sua mãe exigia um pouco de fôlego, mas Kate acreditava que conseguiria. Entrou na loja de conveniência e o sininho tocou ao passar pela porta.
Seus olhos percorreram por entre as estantes de prateleiras quase vazias e os vidros relativamente sujos. Não encontrou sua mãe. No lugar, apenas um garoto com umas roupas legais de motoqueiro que se decidia entre analgésico e calmante, e Bill, o dono da loja, sentado atrás de um balcão assistindo a um episódio de "Animal Planet" em uma pequena televisão suspensa no canto.
–Onde esta a minha mãe? -Kate se aproximou do balcão a passos lentos e com o arfar evidente na voz. -Ela esta de folga hoje?
Bill que de inicio sorria convidativo ficou sério. Ele vestia uma blusa grossa de frio que o cobria até o pescoço, mesmo que o dia estivesse um pouco abafado. Era careca a ponto de refletir luz e estava totalmente relaxado na cadeira giratória.
–Ela não trabalha mais aqui. Tive que cortar gastos já que há poucos produtos para repor nas prateleiras. -Ele fez uma pausa para que ela absorvesse a situação. — Ela não te contou?
–Quanto tempo faz isso? –questionou Kate, incapaz de aceitar que sua mãe havia mentido para ela na noite anterior.
–Uns três dias... Talvez quatro. -respondeu ele com incerteza. — Sinto muito Kate, sei que sua mãe precisava do emprego.
Com as limitações de Kate, poucos empregos lhe dariam certo, sua mãe era a responsável por sustentar tudo. Agora, se nenhumas das duas podiam colocar dinheiro em casa a dificuldade ia ser algo real demais. Bill falava alguma coisa, só que para Kate apenas sua boca mexia. Tudo a sua volta rodava, estava desmaiando?
Olhou para cima, onde o programa parecia ser o único som que entrava na sua cabeça: "Os lobos vivem em matilha, separados por uma hierarquia perfeita onde no topo se encontra o Alpha e no fim encontra-se o lobo excluído ou solitário em relação ao demais, denominado Ômega...".
Sentiu algo gelado lhe cobrir como um manto e todo ar que antes lhe faltava no peito, veio aos poucos enchendo cada um dos seus pulmões. Uma sensação de prazer tomou conta do seu corpo antes que ela percebesse que a bombinha continuava dentro do seu bolso. Olhou para o lado e viu que era o garoto, que antes escolhia remédios, que lhe sussurrava algo estranho. Palavras que nem mesmo parecia ser dessa língua lhe proporcionavam uma sensação anestesiante. Kate se afastou dele na mesma hora.
–O que você está fazendo? –indagou Kate recuando dois passos. A sensação prazerosa diminuiu quase de imediato.
–Nada. –ele estava tranquilo, nem mesmo parecia que havia feito algo. – Eu só perguntei se você vai pagar alguma coisa ou pode dar licença.
Kate ficou quieta. Agora, não tinha tanta certeza do que havia ouvido ou visto. Só queria ir embora, só queria encontrar sua mãe. Não. Precisava dos seus remédios, estava enlouquecendo e não poderia dar mais gastos agora que ninguém na casa trabalhava.
–Desculpa a grosseria. –Kate tentou parecer sincera. – Me assustei um pouco.
Kate abaixou o olhar, porque por um momento podia jurar que viu os olhos do garoto brilharem de um azul fosco estranho. Ele não percebeu a atitude, e até mesmo sorriu. Kate fechou os olhos com força e tornou a abri-los na esperança de que qualquer ilusão sumisse.
– O que foi? –ele fuzilou Kate com um olhar estressado. Kate percebeu que o encarava fixamente. Seus olhos se viam presos em uma tatuagem que escapava da gola da camisa do garoto. Ela podia jurar que a tatuagem se mexia lentamente sobre a pele.
Virou o rosto depressa para dar de cara com o olhar confuso de Bill. Ele estaria se divertindo com a cena ou na expectativa de que algo acontecesse, e isso estava irritando Kate.
–Nada. –ela balançou a cabeça algumas vezes. – Eu só... Achei a tatuagem legal. –disse ela por fim apontando para o pescoço.
O garoto olhou para Bill depois para Kate e sem nem se preocupar em pagar os remédios, saiu do posto no mesmo instante. Kate riu o que pareceu um suspiro de frustração. Apenas não havia entendido o quão louca suas palavras poderiam ter soado.
(...)
Havia planejado um discurso a sua mãe sobre como era errado tentar esconder o desemprego, sobre como seria fútil fazer o tratamento justamente agora. Iria dizer a ela como a relação das duas deveria ser à base de confiança e que, todos os problemas deveriam ser divididos e resolvidos juntos.
Desistiu de qualquer coisa que tinha em mente assim que entrou em casa e encontrou sua mãe dormindo debruçada sobre as correspondências de divida. Não era justo simplesmente chegar falando quando sua mãe carregava o fardo todo sozinha. Ela era a melhor mãe que Kate conseguia imaginar. Foi uma mulher excepcional até mesmo quando o pai de Kate, John, chegava bêbado o suficiente para não se aguentar em pé. O pai de Josh também era péssimo, mas diferente dela, ele não possuía uma mãe tão estável, tão compreensiva, tão...
–Kate? –a voz de sua mãe no meio da escuridão do cômodo. Ela ligou a luz. – Que bom que chegou em casa.
–Eu fui no seu emprego. –disse Kate.
–Kate... Eu sei que... –antes que ela terminasse de falar Kate a envolveu em um abraço apertado. Do tipo que é possível sentir o coração da pessoa bater.
–Eu sei mãe... Eu sei... –sussurrou Kate ao seu ouvido. – Tudo vai ficar bem, um dia... O sofrimento acaba.
(...)
Deitou na cama com a esperança de que o sono chegaria com intensidade. Era por volta das cinco da manhã e ele não voltava. Apenas uma insônia agonizante. Virou de um lado para o outro com a imagem da tatuagem no pescoço do garoto cicatrizada na sua mente, não conseguia deixar de pensar que ela tinha um significado importante, algo que ela deveria por obrigação se lembrar.
Levantou-se nervosa e abriu a gaveta na cômoda. Em uma caixinha havia separado por dias da semana os remédios que deveria tomar. Pegou dois e engoliu um após o outro. Aquilo deveria ser o suficiente para dopa-la pelo resto da noite.
Por algumas horas Kate sentiu estar perto do sono. Mas por longas quatro horas ficou encarando o teto do seu quarto, incapaz de conter a vontade roer as unhas. Estava ansiosa demais para sequer relaxar os olhos. Devia ter tomado o remédio errado. Ou o efeito estava contrario.
Vestiu-se depressa e arrumou a mochila. Iria fazer trilha. Precisava de algum modo gastar aquela energia absurda. Saiu de casa sem fazer barulho, deixando um bilhete de “Volto logo!” para a mãe. Vendo que o caminho habitual que fazia com Josh estava com uma placa de: “Propriedade Privada” seguiu por um caminho diferente, que ia para as montanhas.
Caminhou apressada por um tempo que ela não se deu trabalho de contar. Passou por arvores grandes, galhos estranhos e raízes grossas. Cada vez mais perto das montanhas. “Não era lá que diziam haver um acampamento?” pensou Kate.
Encostou-se a uma arvore para se hidratar, pouco antes de ouvir vozes que se aproximavam. Ao ouvir melhor, viu que se tratava de homens. Kate instintivamente agachou para perto das grossas raízes atrás de uma arvore velha. Parecia seguro o suficiente. Não queria ser pega sozinha na floresta por estranhos, já assistia filmes de serial killers demais sobre como isso não era bom.
–Tem muita coisa em jogo -disse uma voz juvenil masculina- Há muito mais a se perder do que ganhar.
–Temos que arriscar. -insistiu uma voz grossa, porém tranquila. — Não posso esperar todos morrerem para tomar uma decisão.
–Ela faz trilhas, não vai ser difícil de acha-la. -comentou o outro com a voz cada vez mais perto. — Podemos acha-la para o lado das cachoeiras, ela já foi pega pela policia algumas vezes por lá.
O ar ficou pesado, Kate fechou os olhos com força e listou na sua cabeça quantas meninas faziam trilha pelas redondezas. Quantas delas haviam sido pegas pela policia por estar bebendo por lá. Quase todas, e isso já era um alivio.
–Ela tem problemas respiratórios, nunca ia conseguir ir muito longe. -disse a voz grossa.
Kate tampou a boca e o nariz com tampa força que suas unhas machucaram o rosto.
–E como você sabe disso? -indagou o garoto.
–Porque posso ouvi-la respirar. -a voz do estranho saiu em um sussurro penetrante que fez Kate desejar nunca ter saído de casa.
Kate tentou fugir, mas já era tarde para qualquer atitude. Um par de mãos a pegou firme pelo ombro e puxou de trás da arvore. Kate gritou e se debateu, mas as mãos eram fortes como punhos de ferro. Um homem de por volta quarenta anos e um jovem rapaz a observavam curiosos.
Na sua mente vinha de tudo, desde assalto a estupro. Imaginou sua mãe chorando pela filha que perdera e imaginou Josh chorando por não estar junto dela quando precisou. Aqueles estranhos, de aparência bruta e olhos tranquilos poderiam ser qualquer coisa, menos pessoas bondosas.
Olhou ao redor a procura de uma brecha pela qual poderia fugir sem ser perseguida. Sabia que não iria muito longe e acabaria por irritar aqueles caras. Afundou sua mão na terra úmida buscando forças para se manter respirando.
–Sei quem você é Kate, não vamos machuca-la. -o homem mais velho se agachou para ficar da altura dela. — Você é filha do John, certo?
Kate assentiu devagar com medo de que isso a prejudicasse. Então aquela situação acontecia por culpa do seu pai? Ele morreu devendo dinheiro para esses caras?
–Se ele estiver devendo algo, não se preocupe, vamos paga-lo. -se adiantou Kate sentindo a secura amarga na garganta. -Só precisa me dar o numero da conta.
–Você tem alguma tatuagem ou marca? -perguntou o homem com os olhos cheios de esperança, ignorando completamente o que Kate havia dito. -Alguma cicatriz em forma de símbolo?
–Por que esta me perguntando isso? – indagou Kate. -Não, vocês são de algum culto religioso?
O jovem atrás do homem riu impaciente enquanto cruzava e descruzava os braços.
–Você vê coisas estranhas? –continuou o mais velho. — Do tipo, sombras estranhas de arvore, pássaros que voam para trás, chuva que...
–O quê? –arfou Kate. — Por favor, me deixe ir...
–Kate, você precisa entender que sua resposta é tudo, e que se colaborar eu poderei deixar você ir. — argumentou o homem mais velho ainda agachado na altura de Kate. — Sua resposta é algo que pode mudar vidas, salva-las.
–Eu tomo remédios tudo, e talvez eu tenha visto alguma coisa ou outra. -Kate não conseguia olhar diretamente para eles, por isso manteve-se concentrada na terra sob seus pés. — Sou doente, acho que tenho esquizofrenia... Eu não sei...
O garoto se mexeu ansioso, com um sorriso impossível de decifrar. Ele andava de um lado para o outro. O homem mais velho estava reservado a uma expressão pensativa.
–Quando eu disse que você poderia ir embora eu não estava mentindo... -o homem se levantou devagar assumindo uma postura superior — Mas com essas respostas... Não posso perder essa chance.
Kate levantou a cabeça devagar bem a tempo de ver os olhos deles ficarem de um preto demoníaco. O garoto caiu no chão e assustou Kate fazendo-a se levantar. Quando ambos os caras começaram a se contorcer no chão com expressões de dor, Kate entendeu que essa era a sua deixa e se permitiu usar suas ultimas forças para sair correndo.
O sol já estava penetrando com intensidade na floresta o que significava que estava perto da saída. Sob seus pés o chão tremia, como se rinocerontes corresse pela mata. Kate forçou suas pernas a irem mais rápido. Apertou a garganta dolorida na esperança de que o ar desentalasse.
Um uivo penetrante cortou a floresta e todo o barulho que antes soava nela se aquietou. Então algo a derrubou. Seu corpo foi arremessado contra um pinheiro menor. Kate tocou delicadamente uma parte de sua cabeça onde o sangue escorria quente. A dor era ainda pior na sua perna, onde o osso parecia quebrado e ressaltava na pele. Conteve um grito quando tentou se levantar. Só conseguia pensar em uma morte dolorosa, nas coisas que deixaria de fazer, nas pessoas que deixava para trás.
Com passos firmes, vinha ao encontro dela um lobo absurdamente grande com olhos de um tom surreal de amarelo. A cada passada o chão vibrava e a terra cedia. Mesmo daquela distancia era possível sentir o ar quente que a besta respirava.
Quando se esta morrendo dizem que se passa um flashback de todos os seus feitos em vida, Kate só conseguia ver as lembranças em que seu pai estava presente. Em uma delas, ele dizia: “Kate, não tenha medo dos monstros debaixo da cama, mas daqueles que vivem dentro de nós quando deixamos de ser humanos”. Até que ponto isso era verdade?
Quando se esta morrendo dizem que há uma luz no fim do túnel em que podemos confiar, para Kate era um lobo que abria a boca como um mostro e lhe afogava na escuridão.
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