Oneiroi
2 II
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?
(Edgar Allan Poe)
Estava ali novamente, nu em seu quarto diante do enorme espelho. Tantas vezes, durante aqueles anos todos, estivera lá que nem se surpreendia mais.
Viu seu reflexo sorrir-lhe, embora ele próprio estivesse sério. Também não se surpreendeu. Tudo era possível em sonhos, afinal.
Viu seu "reflexo" passar pela superfície do espelho e se postar diante dele. Dois corpos idênticos, nus. Mas daquela vez o rosto do outro não se contorceu em um esgar de fúria, como nas outras vezes. E suas próprias mãos não foram ao encontro da garganta convidativa, incontroláveis e violentas.
Não. Kanon continuou sorrindo, o toque de malícia que apenas ele parecia possuir, mas não havia mais ódio e medo em seu semblante. E as próprias mãos de Saga, outrora irascíveis, continuavam ao longo de seu próprio corpo, plenamente rendidas à sua própria consciência.
Então ele estava no controle de seu próprio sonho pela primeira vez, certo? Podia se virar, vestir-se e sair dali... ou então engatar alguma conversa com o irmão, um tópico banal e seguro, e não dar chances àquilo...
Antes que pudesse fazer algo, o gêmeo se adiantou, puxando-o para si. Era aquele abraço íntimo de antes. Bem... não exatamente o mesmo, já que estavam nus ali. Nus e totalmente colados.
- Kanon, acho melhor não...
Foi calado por lábios sedentos sobre os seus. Não havia a violência, a raiva, a vontade de ferir dos sonhos do passado; todavia, era um beijo inegavelmente voraz. Sentiu Kanon apertar-se a ele com mais vontade, a língua dominadora em sua boca, as mãos deslizando por seu corpo como se necessitassem explorar algo tão idêntico a ele próprio.
Havia começado de forma parecida, mas aquele sonho não era nem de longe igual aos outros em seu desenvolvimento. Embora tivesse consciência de que aquilo não era real, tudo parecia tão realista... cada sensação era tão deliciosamente vívida...! O roçar das peles, o calor, a ereção firme pressionada contra a sua...
Que loucura! Era um sonho erótico com o próprio irmão! Pensara que tivesse superado aquelas fantasias assustadoras, mas havia se enganado. E céus, parecia tão bom! Perguntou-se se seu corpo verdadeiro, dormindo sobre a cama, não ostentaria, ele mesmo, uma ereção tão pulsante e desejosa quanto seu "eu onírico" agora possuía.
- Você quer... – A voz rouca ao seu ouvido. Por todos os deuses, aquela voz arrepiou Saga até a alma.
- Mas nós não...
- Você quer – Reafirmou com firmeza, a mão envolvendo o pênis rijo e fazendo Saga ofegar – Você pode agora, Saga...
Kanon sabia como tocá-lo. Na verdade, sabia como seu corpo funcionava, pois era como se estivesse tocando a si próprio. E... bom, era um sonho, não era?
- Eu... posso... – sentia o ritmo da masturbação aumentar, o gêmeo lamber e mordiscar seu pescoço e seus ombros, as próprias pernas começando a tremer.
- Você quer, você pode e você vai...
Saga percebia estar sendo guiado para trás, para a própria cama. Diferentemente de outrora, aquela era realmente a cama de seu templo, simples, de solteiro. Não que naquele momento sentisse falta da cama vasta e macia a que tivera acesso enquanto Patriarca... a bem da verdade, mais importante que o colchão era aquele roçar delicioso entre os corpos...
- Eu disse que devíamos comprar camas maiores... – murmurou o caçula enquanto explorava o peito forte de Saga com a boca.
- Ah... assim está ótimo... – gemeu Saga em resposta, puxando-o mais para si – Não preciso de mais que isso...
Saga ouviu a risadinha marota de seu irmão.
- Tem razão, tem razão! Quanto menor, mais juntos podemos ficar...
E se esfregou provocante no irmão, arrancando-lhe um impropério lânguido. Céus, como um sonho poderia ser tão bom?
Errado. A palavra brincava de se esconder na consciência entorpecida de Saga enquanto via Kanon se regalar explorando seu corpo. Mas aquele tabu não conseguia bloquear as sensações indescritíveis que seu irmão lhe provocava. A consciência culpada não o impedia de lhe puxar os cabelos, gemer o nome de seu gêmeo, pedir por ele.
Daquela vez sua fantasia incestuosa não envolveria subjugar o caçula a seus desejos torpes. Daquela vez, queria pertencer a ele. Deixar-se levar por aquele pecado delicioso, intenso e que tinha feições idênticas às suas.
Reuniu forças e sentou-se na cama, arrancando uma risadinha divertida do irmão.
- Decidiu brincar, maninho?
Aquele mundo era o dele. Era o sonho dele. Não poderia ficar parado como uma donzela enquanto Kanon fazia o "serviço".
Era sujo sonhar com o próprio irmão naqueles termos? Diriam que sim. Talvez o próprio Kanon o repudiasse por aquilo na realidade. Mas que se danasse! Depois lidaria com os conflitos de consciência. Ali, em seu sonho, em sua própria realidade, iria se entregar sem pudores à fome que o afligia naquele momento.
Outro beijo furioso, desta vez iniciado por Saga. Sentou-se no colo de Kanon, extasiado com o contato íntimo e pecaminoso entre os dois, beijando-lhe queixo, ombro, curvando-se para alcançar o tórax definido. Suspirava com a pele em sua boca... o sonho tão vívido que conseguia degustar até o suor salgado.
Movia-se devagar no colo do irmão, provocando, roçando as ereções idênticas em calibre e rigidez. Ouvir Kanon gemer em seu ouvido era uma prazerosa recompensa. Sentiu as mãos firmes alisarem suas nádegas, um dedo ameaçando se aventurar por outras paragens...
Ali, o sonho se tornou um turbilhão confuso. Sabia que deveria sentir um incômodo com aquela invasão inédita, mas ao que parecia sua mente tinha um interessante filtro para sonhos eróticos. Era bom saber.
Dedos substituídos por um pênis rijo e pulsante, a sensação de estranhamento mas a dor ausente mostrando a Saga que sim, era apenas um sonho. Um sonho insano, sensual, vulcânico como o homem que se arremetia contra ele em estocadas firmes, intensas, embrenhando uma mão entre os corpos quentes para satisfazer a ereção relegada do mais velho.
- Por favor, Kanon... irmão...!
O que pedia? Que fosse mais rápido? Que fosse mais forte? Que fizessem mais vezes? Sua mente e o próprio cenário de seu sonho pareciam se desvanecer enquanto Saga cavalgava deliciosamente seu próprio irmão... não conseguia verbalizar mais nada, queria mais Kanon, apenas isso...
Kanon, Kanon, Kanon, KANON!
Seu mundo veio abaixo, seu corpo inteiro pareceu derreter em um uníssono de gritos em júbilo lascivo...
... e abriu os olhos.
Viu-se sozinho em sua cama, suado e sujo de seu próprio prazer, as mãos ferrenhamente agarradas aos lençóis em um último esforço de evitar que Kanon escapasse por entre seus dedos.
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