Notas iniciais
Eu acho que as notas da história já explicaram tudo, hehehe Espero que gostem dessa aventura pelo início do século 20!

Prólogo

O salão vitoriano, iluminado por castiçais e pelo extravagante lustre de cristal situado em seu centro abrigava o baile mais esperado do Rio de Janeiro. As máscaras, de uso obrigatório entre os convidados, agregavam, ainda mais, um ar de mistério... e as companhias femininas, de sensualidade.

A verdade é que eu estava ciente, apesar da minha posição social, do cunho desse evento – mesmo assim, uma fagulha de ousadia há muito adormecida em minha alma resolvera tomar conta também da minha consciência, como a gota de veneno que torna até a mais inocente bebida, fatal.

Não bastava a festa se passar num bordel de luxo, ser frequentada por cortesãs; não bastava eu não ter sido formalmente convidado. Além de tudo isso, o anfitrião – e dono do bordel –, Olu Nassor, era um descendente direto dos escravos que, até a abolição de 1888, serviam a minha família. Agora, 14 anos depois, o mesmo comandava esse império que construíra por si só, enquanto, no momento, circulava pelo salão. Sua postura era nobre; o anfitrião trajava uma vestimenta de cor roxa, adornada por detalhes dourados, e a máscara seguia esse mesmo padrão.

Em meio a membros da alta sociedade e toda sorte de gente irreconhecível, as damas da noite bailavam e ouviam gracejos a todo tempo. Mas, uma delas, sentada no outro extremo do local, parecia diferente de qualquer outra que eu já havia visto.

Suas curvas estonteantes eram ressaltadas pela estrutura do vestido longo, complementado por um espartilho. A cor do mesmo era verde esmeralda, os bordados eram negros e decorados por fios de prata. Seu cabelo cor de fogo caía em ondas ao longo de seus ombros e costas, e todo esse conjunto fazia-a parecer uma bruxa divina que sequer pertencia um lugar como esse. Quando seu olhar encontrou o meu, senti um fogo me consumir como num julgamento da Santa Inquisição.

1. O encontro de Verônica

A fumaça dos cigarros tomava o ar, o cheiro acre ficava incrustado em cada canto do salão. Era extremamente enjoativa, essa mistura de nicotina, perfumes franceses, vapor e bebida. Apesar disso – e do fato de que eu acabara de chegar –, era óbvia a animação de quem estava presente como convidado, e não como provedor de entretenimento.

A orquestra fazia sua parte e eu me deixava levar pela melodia, buscando nela alguma inspiração que me fizesse agir como deveria. Esse é o meu trabalho aqui: vender sorrisos, diversão e, ocasionalmente, o meu próprio corpo. Sentei-me numa poltrona e resolvi observar o movimento, enquanto ninguém parecia me notar.

Ah, ilusão minha... a invisibilidade durara pouco, e, em meio àquele amontoado de saias e ternos finos, um rapaz vestido completamente de branco – desde a cartola e a máscara até o sobretudo e sapatos – passou a me fitar. Talvez fosse impressão minha, mas algo no seu olhar me dizia que ele não estava ali apenas à procura de uma simples noite de prazer.

Com um sorriso no canto da boca, ele se aproximou, estendeu sua mão e convidou-me:

— Me concede a honra dessa dança?

Eu, de pronto, aceitei, e nos dirigimos ao centro do salão, onde outros casais também bailavam ao som da música noturna.

— O que uma dama como você faz num lugar tão vulgar como esse? – ele perguntou, numa fusão de inocência e ironia.

Um passo para cá, outro para lá, alguns giros sutis. Eu acabei por rir, e respondi, sarcasticamente:

— Dama, eu? Pelo jeito você é novo aqui, ou não sabe com quem está falando.

— Nesse caso, diga-me... quem é você?

— Se refere ao meu nome ou à minha profissão?

Ele fez uma pequena pausa em seu raciocínio, mas continuava a me conduzir.

— ... ambos, na verdade.

— Bem... Meu nome é Verônica e, por acaso, sou uma cortesã. – respondi, com um tom malicioso.

— Então, fique sabendo que eu jamais lhe julgaria como tal, mesmo que a visse a andar sozinha em Copacabana. – rebateu ele, a altura.

— Esse é um atributo meu que nem eu própria conhecia... – disse, sorrindo. – À propósito, qual seria o seu nome?

— Sou Rafael Rodrigues... – ele me rodopiou e me conduziu num passo de tango; minhas costas arqueadas, seu corpo inclinado e nossos rostos muito próximos – e eu não deveria estar aqui essa noite.

Com a mesma destreza com a qual chegamos àquela posição, voltamos a valsar da maneira tradicional de antes:

— E por que não? – indaguei.

— É uma história longa e complicada, minha cara Verônica. – ele respondeu, com um sorriso e um ar de mistério.

— O quão longa, meu caro Rafael? – provoquei.

— O suficiente para contar até o amanhecer... mas, talvez, você acabe sabendo após alguns goles de vinho.

— Nada mal – brinquei.

— Isso é um convite para beber e ficar comigo até o amanhecer? Interessante – riu ele.

— Quem sabe? – e sussurrei: – Eu conheço um lugar muito mais adequado para isso do que esse salão. Menos abafado e, certamente, mais reservado.

— Nada mal, agora digo eu. Só precisamos do vinho...

— Essa é a parte mais fácil – sorri e o puxei pela mão, desviando dos casais que bailavam a nossa volta.

Seguimos pelo corredor e, em pouco tempo, estávamos num aposento que eu adorava frequentar. À meia luz, eu encontrei a garrafa de vinho e as taças que estavam guardadas numa pequena estante próxima à imponente cama.

— Tudo pronto, não?

— De fato, — e, enquanto Rafael tirava a máscara e a cartola, revelando-se tão jovem e belo quanto há muito tempo eu não via, propôs: — mas, talvez, hajam assuntos mais interessantes para tratarmos agora.

Foi assim que, após um brinde, decidimos bailar de outra maneira essa noite.

2. A Descoberta de Nassor

— “Rafael R.”... – li, passando um dedo sobre a lista dos que haviam comparecido. Refleti, e virei meu rosto em direção ao porteiro. Seria mesmo ele ou apenas uma impressão minha? – Como esse senhor estava vestido?

— Desse eu lembro, estava todo de branco, com uma máscara que cobria dois terços do rosto. – e indicou, num gesto, a parte que ficava descoberta. – Há pouco tempo, saiu com uma moça ruiva do salão.

— ... entendo.

Mas esse verme, com Verônica?... Ah, em nome da minha honra, era hora de encontrá-lo e resolver essa questão.

Atravessei a multidão, tomando o cuidado de ser rápido e, ao mesmo tempo, não esbarrar em ninguém. Passei do salão, subi a escada em direção aos meus aposentos, por entre casais-de-uma-só-noite. Na volta, carregava um revólver no bolso interno.

3. O Jardim

Minha mão estava em sua cintura esguia. Verônica, finalmente, desatara o laço de seda que prendia sua máscara e a deixara cair, com um movimento suave.

Eu já não era capaz de responder por mim. O rosto angelical de perfeitas proporções era marcado por pequenas sardas. Seu sorriso, por outro lado, mostrava uma expressão lasciva, ardente de paixão, e seu corpo escultural, coberto apenas nas partes íntimas, só fazia com que eu desejasse mais e mais tê-la por completo.

Nossos lábios se encontraram, num ébrio impulso; minhas costas nuas sobre o edredom aveludado, o corpo de Verônica sobre o meu. Pele sobre pele, olhares ardentes. Não importava mais o passado ou o amanhã, desde que o presente fosse aproveitado em todas as suas cores e sensações. A única fonte de luz vinha de um candelabro que estava sobre o criado-mudo.

Mal sabia eu, que a trêmula chama era um presságio...

... um presságio de morte.

A porta do quarto repentinamente se abriu, e o anfitrião do baile irrompeu da mesma. Nassor nos encarava, enquanto nos cobríamos o mais rápido possível.

— O que faz aqui, Rafael? Sinceramente, não lembro de tê-lo convidado. – cuspiu ele, sarcasticamente.

— Ha ha. Não creio que eu precise de convite para a festa do meu ex-escravo, não é mesmo?

Verônica observava, seu lindo rosto franzido numa expressão de surpresa e dúvida.

— Você disse bem: ex-escravo. Agora, sou um homem livre... e você não é bem vindo aqui. – constatou, num tom frio.

— Nem para lhe dar um boa noite e meus parabéns pela conquista? – arrisquei, sorrindo.

— Seria irônico se você fosse a pessoa a fazer isso, não é? – ele sutilmente puxou um revólver dourado do bolso de seu terno – Que tal dar-me os parabéns pela vingança que estou prestes a cumprir?

Sua voz era um chicote, do qual desviei, mas Verônica, não. Ela se levantou, rapidamente, e correu em direção ao desafiante.

— Nassor, não faça isso!

— Não interfira nisso, Verônica... Você sabe que eu não poderia vir aqui sem correr alguns riscos, meu amor. – em seguida, também me ergui da cama, enquanto tirava um revólver calibre 38 da parte interna do sobretudo.

Ambos armados, em posição certeira para atirar. Não acreditava que minha vida poderia ter fim numa situação como essa, mas o destino é como um coringa que nos prega peças completamente inimagináveis. O que me restava agora era caminhar rumo à morte mantendo meu orgulho e dignidade intactos.

— Se vamos fazer isso, façamos como homens. Eu o desafio para um duelo: se você ganhar, terá sua vingança; se eu ganhar, ficarei com Verônica. Está de acordo?

O ex-escravo ponderou sobre as consequências por um momento, mas logo fez sua escolha:

— Eu aceito.

Saímos os três, pelos fundos, em direção a um magnífico jardim que ficava na parte traseira da mansão. O mesmo era povoado de rosas brancas, amarelas e vermelhas, e todos nós éramos iluminados pelo brilho prateado da lua cheia. Era quase meia-noite.

— Eu não acredito que vocês vão fazer isso... Parem, por favor – suplicou Verônica, visivelmente contrariada com a situação.

— Estou fazendo isso por nós dois, musa minha. – respondi, e selei seus lábios nos meus por um breve momento.

— Pare de falácias, e se apresse para o seu funeral. – intrometeu-se o outro, e o ciúme era visível em seus olhos. – Até dez.

Viramos as costas um para o outro. Um tremor passou ao longo do meu corpo, mas fiz o possível para não dar atenção. Três, quatro, cinco passos, preparei o gatilho, que emitiu um clique. Vislumbrei o rosto de Verônica mais uma vez. Oito, nove, era a hora... Dez.

O som de tiros, quase ao mesmo tempo, cortou a noite. Nassor caíra imediatamente, com sangue ao longo da testa, escorrendo por baixo de sua máscara através do rosto e além. Já eu... fora atingido logo abaixo do peito, e a dor demorara um pouco a chegar, mas quando o fez, foi lancinante.

Caí de joelhos e vi Verônica correr em minha direção, preocupada e a beira do pranto. Ela me tomou em seus braços, com delicadeza, enquanto meu sangue se espalhava cada vez mais sob minhas vestes brancas.

— Minha bela Verônica... esses momentos que tive com você f-foram os mais felizes da minha vida... – comecei, com a dificuldade de alguém que tenta suportar uma dor insuportável.

— Não diga nada, amor!... Não se esforce... – ela dizia, envolvendo-me. Eu sorri e prossegui.

— Queria ter mais tempo ao seu lado, mas... o destino não quis que fosse assim, não é? – sorri, enquanto suas lágrimas começavam a transbordar. – Naquele momento em que te escolhi para dançar, sabia que algo nos ligava... e, agora, finalmente, descobri o que era. – meus olhos começavam a ficar enevoados, mas os mantive abertos para ver aquele rosto angelical até meu último momento. – Um sincero e verdadeiro amor, que não p-poderemos concretizar em vida, mas... quem sabe, na morte. – minha voz fraquejava. Dei um suspiro profundo, e completei: — E lhe esperarei... quando for a sua vez... estarei lá lhe esperando para outra dança, meu amor.

Meus olhos começaram a se fechar, lentamente, e a minha consciência era transportada para outro plano. A dor ia se esvaindo e dando lugar a uma paz inexplicável. Como num eco, ouvi a voz de Verônica pela última vez:

— Amor, não precisa esperar tanto!... Saiba que eu estou à caminho...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!