Oque você faria se tivesse só um ano de vida? Viajar o mundo talvez? Gastar muito dinheiro? Passar todo o tempo que pode com as pessoas que ama? Pra falar a verdade essa é uma pergunta que sempre me fiz, mas nunca soube responder. Quando tinha menos de um mês de vida fui diagnosticada com Cardiopatia congênita, para os médicos e para a minha família sou um milagre, já que a maioria dos bebes que nascem com isso morrem antes de completar um ano de vida, por esse motivo durante os meus 19 anos de vida eu passei mais tempo no hospital do que em casa ou na escola, meus melhores amigos, tirando minha família que sempre me dera todo o apoio e força que eu precisava, eram os médicos, enfermeiras e meus livros de romance.

Os livros sempre me trazem um refúgio seguro, onde eu posso esquecer dos meus problemas de saúde, onde eu posso esquecer do quarto de hospital em que estou, esquecer da sala de espera, tudo que eu preciso é de um bom livro de romance e um fone de ouvido com as músicas do meu cantor favorito Kyle Jones... A voz dele... A música dele... As vezes parece que ele fala comigo... sei que isso é besteira, e sei que ele nem sequer me conhece, mas pensar que ele fala comigo e me entende me alegra um pouco. E amo mergulhar nos seus versos e na sua voz, e observar a sua energia pelas fotos.

Respiro fundo me vendo perdida em meus pensamentos mais uma vez enquanto escuto sua música mais recente, voltando a observar ao redor aquela sala de espera, de porcelana branca e cadeiras azuis, com aquele enorme balcão de mármore branco tão gelado quanto o ar que bate em minha pele morena arrepiando cada milímetro dela, sinto a mão de minha mãe que segura a minha e me observa com olhar amoroso, retiro o fone e olho pra ela com um sorriso apoiando em seu ombro bocejando um pouco pela espera longa, enquanto me aconchego em seu colo fechando os olhos mais uma vez, enquanto faço um carinho leve e lento no torso de sua mão.

— Você está bem princesa? – Escuto a voz baixa dela, enquanto me abraça me deixando mais confortável – Está cansada?

Sem abrir a boca respondo que sim, balançando a minha cabeça, a abraçando de volta – Só um pouco cansada e com fome, saindo a gente pode parar em algum lugar gostoso? – levanto a cabeça olhando para ela com os olhos espichados imitando um filhote que pede comida, forçando um bico.

Ela estende a mão me fazendo um carinho nos cabelos e bochecha – Claro princesa, o que você quiser co...

Hally Cornett – Respiro fundo e me levando arrumando a roupa, e pegando minhas coisas em seguida, após o auto falante chamar pelo meu nome

— Vamos? – Minha mãe me estende a mão que eu seguro e seguimos para a sala do médico.

Esse velho corredor, passei tantas vezes por ele, que conseguiria ir até a sala no Dr Connor de olhos fechados, 70 passos à frente e primeira porta a esquerda, basta uma batida na porta para a assistente abri-la e dizer “Por aqui querida o doutor já vira atender vocês”.

Interrompo meus pensamentos mais uma vez batendo a porta, vendo o rosto animado da assistente que abre a porta e estende as mãos para dentro apontando para as cadeiras – Por aqui querida o doutor já vira atender vocês – saindo da sala e fechando a porta com cuidado após sair, nos deixando num silencio quase que total se não fosse pelos sons do hospital vindos por detrás da porta de madeira avermelhada.

Assim como restante do hospital o consultório é frio e quase todo branco se não fosse pelas plantas e decorações que se estendem nas prateleiras, livros e porta-retratos, e o diploma e certificados emoldurados e pendurados perfeitamente na parede branca. O cheiro de desinfetante que entra pelas narinas é agradável e familiar assim como rosto do homem grisalho de olhos verdes com os óculos dobrados dentro do bolso do jaleco junto com um par de canetas pretas que chega abrindo a porta com um sorriso, antes mesmo de terminarmos de nós arrumar nas cadeiras.

— Boa tarde Hally – o médico se senta estendendo a mão com um sorriso — senhora Cornett... E então fizeram os exames? – ele estende a mão mais uma vez pegando o envelope dos exames e ajeita os óculos cuidadosamente os equilibrando sobre a ponta do nariz antes de analisar os exames – Vamos ver como está o progresso da nossa Hally? – Diz o doutor com um sorriso, pousando os olhos sobre os exames, ficando em silencio por longos minutos enquanto lê cuidadosamente cada linha.

Sinto minha mãe apertando um pouco mais minha mão e retribuo, olhando para o Dr. Connor ansiosa, sei que já passamos por isso muitas vezes e sempre recebemos a mesma resposta “o tratamento não obteve o resultado esperado”, mas sabe, a esperança é a última que morre e a minha ainda não me abandonou. O silêncio perdura a sala quase que engolindo-a, o rosto do doutor também está diferente mais sério e preocupado.

— E então doutor? Como está a minha Hall??? – minha mãe se ajeita na cadeira ficando inquieta com o silêncio se aproximando mais da mesa, mas sem obter resposta se aproxima um pouco mais – O tratamento teve resultado doutor???

O silencio se estende mais uma vez pela sala antes do doutor soltar os exames sobre o teclado e retirar os óculos, coçando os olhos em seguida franzindo a testa antes de voltar o olhar pra nós – Senhora Cornett... Hally eu... – O silencio toma a sala mais uma vez e logo sinto uma lagrima encontrando minhas bochechas e escuto um choro baixo vindo de minha mãe – Eu sinto muito... assim como os outros tratamentos esse não obteve resultado, e a situação da Hally se agravou bastante, eu sinto dizer mas – vejo o doutor que se levanta se aproximando um pouco mais de nós e se agachando a frente de nossas cadeiras botando suas mãos sobre as nossas, com um olhar pesaroso e preocupado – acredito que a senhorita Hally terá apenas mais um ano de vida se não conseguirmos um transplante.

Mais algumas lagrimas escorrem pelo meu rosto enquanto ainda processo o que o médico acabou de dizer, um ano de vida? Como posso ter apenas mais um ano de vida? Já fiz tantos testes de compatibilidade para transplantes, nem um nunca deu certo, por que agora? Abraço a minha mãe que chora ao meu lado e sinto um abraço do Dr. Connor, ele cuidou de mim desde pequena ele é quase um membro da família pra mim e agora ele diz que tenho apenas um ano de vida. Minha mente se tornou um caos completo por apenas uma notícia tantas coisas que eu nunca fiz, coisas que eu gostaria de fazer, comidas que eu gostaria de experimentar, lugares que eu quero visitar...

— Doutor deve ter algum tratamento novo... Algo que ainda não testamos – Minha mãe segura a mão do médico e olha para ele como se implorasse para ele dizer que ainda resta uma esperança, e voltando a chorar após o médico apenas abaixar a cabeça e nos abraçar novamente.

Eu fico em silêncio por mais um tempo, ainda tentando processar a informação. Um ano. Um ano para viver, tão pouco tempo... Viajar o mundo? Comprar tudo que eu sempre quis ou quero? Aproveitar ainda mais ao lado da minha família? Escuto o choro de minha mãe e palavras reconfortantes do Dr. Connor que recomenda alguns cuidados e diz para “não perdermos a fé” que algo pode mudar durante esse um ano... Abraço a minha mãe mais forte afundando minha cabeça eu seu peito engolindo o choro e secando as lagrimas enquanto respiro fundo voltando meu olhar para o médico mais uma vez. – Obrigado por tudo doutor, o senhor cuidou de mim por tanto tempo e eu nunca pensei em agradecer – sorrio pra ele enquanto faço carinho nas costas de minha mãe e olho pra ela com um sorriso calmo.

— O importante é não perder as esperanças, um transplante compatível pode aparecer a qualquer momento, e eu vou subir a senhorita na fila como emergência – o médico olha para mim e minha mãe com um olhar reconfortante e nos abraça uma última vez antes do fim da consulta.

Seguro a mão de minha mãe com força e saio do consultório ao seu lado, respirando fundo mais uma vez. Sinto mais um abraço de minha mãe e um beijo carinhoso em minha testa, seguro suas mãos beijando o torso de ambas e olho em seus olhos – Mãe está tudo bem, o doutor disse que algo pode mudar durante esse um ano, e eu tenho certeza que isso vai acontecer. – Minha mãe segura meu rosto suavemente e dá um sorriso ainda com as lagrimas em seu rosto.

— Minha princesinha corajosa, você é tão corajosa. Vamos... – Minha mãe limpa as lagrimas e segura minha mão mais uma vez – O que você quer comer de gostoso? Fala pra mamãe... pizza? Sanduiche? – minha mãe me olha com os olhos e nariz ainda rosados pelo choro recente, mas com um sorriso, um sorriso que sempre me reconfortou.

Seguro sua mão com carinho balançando seu braço para frente e para trás enquanto caminhamos para fora do hospital – Que tal peixe cru? O pessoal na internet fala que é gostoso e eu vi que faz bem pra saúde – sugiro olhando para seu rosto e rio vendo sua boca de nojo imaginando o peixe cru – Vai mãe vamos experimentar, por favorzinhoooo – Balanço seu braço um pouco e a observo novamente.

— Tudo bem, mas eu vou comer só o que estiver cozido – minha mãe olha pra mim mais uma vez fazendo caretas para me divertir enquanto abre o carro.

Antes de entrar olho para o hospital mais uma vez e depois para o céu. Um ano, eu tenho um ano... Olho ao meu redor e abro a porta do carro lentamente, e então decido algo.

DURANTE ESSE TEMPO EU VOU FAZER TUDO AQUILO QUE EU QUISER FAZER, COMER TUDO QUE EU QUISER SEM PENSAR NA DIETA, CONHECER PESSOAS, DANÇAR E AMAR... MAS DEFINITIVAMENTE NÃO VOU CONTAR A NINGUEM SOBRE O MEU PROBLEMA, NÃO QUERO QUE TENHAM DÓ DE MIM