One Night - Livro 1

43 Capítulo XLIII


Notas iniciais
Sara vai fazer uma m**** daquelas e que lá na frente ela irá se arrepender amargamente de ter feito.

Ao ouvir sua profissão e associá-la ao nome pelo qual ele disse se chamar, eu cheguei a um resultado que me fez arregalar os olhos e quase cuspir pela segunda vez o drinque da minha boca. Mas novamente me contive a tempo de isso acontecer, pois do contrário seria bem na cara do sujeito que eu daria uma cusparada daquelas.

Owen Clark?

Aquele então era 'o cara' da BoB, a maior concorrente da editora na qual eu trabalho. Juro que achei que esse tal Owen fosse um pouco mais velho do que aparentava e nada gato quanto eu via.

— Que foi? Por que esses olhos arregalados assim pra mim?

Ele ria se divertindo da cara de espanto que eu devia estar fazendo naquele momento. As minhas caras de espantos eram em geral, ridiculamente cômicas, segundo Dayse dizia.

— Você é Owen Clark da BoB?

— Exatamente! Por quê?

Ele parecia visivelmente se divertir com o meu espanto.

— É que não é sempre que a gente descobre que está tomando drinque com o chefão da editora concorrente a que você trabalha.

— Como assim?

— Eu trabalho na New Publications, a maior concorrente da sua editora. — expliquei a ele.

— Sério? — eu assenti vendo-o segurar o riso agora. — Você trabalha como editora também?

— Não! Mas pretendo chegar nesse posto um dia. Por enquanto eu sou apenas assistente do editor da sessão de romance. — informei. — Aposto que está aqui pela feira do livro, não é?

— Sim. E aposto que você também deve estar aqui pelo mesmo motivo, não é?

— Exatamente! Vim acompanhando meu chefe.

A partir daí engatamos em um papo agradável sobre trabalho. Mais de uma hora depois de conversas diversas e mais alguns bons drinks, nós já tínhamos virado amigos completamente.

Owen tinha me contado um pouco sobre ele. Filho único de um médico cardiologista e uma psicóloga que residiam em Houston; ele era solteiro, tinha 38 anos de idade, vivia ultimamente para os livros e seu novo e exigente cargo de editor-chefe na BoB, o qual assumiu há dez meses, e segundo ele estava revolucionando a editora a qual chefiava. Pelas matérias e críticas construtivas que eu já tinha lido a seu respeito recentemente, isso era verdade.

Eu também lhe contei um pouco a meu respeito, quando ele pediu. Inclusive falei até do Grissom. Não sei se era o álcool que 'destravou' a minha boca com mais facilidade ou se foi a confiança que senti no Owen, mas a verdade é que eu falei de tudo com ele no tempo em que já estávamos de papo ali.

Owen se mostrou um cara gente boa demais. Além de ter um ótimo senso de humor e sabe ser um bom ouvinte como ele mesmo disse. E para completar o pacote de qualidades do sujeito, ele ainda é um cara altamente divertido e um contador de histórias malucas.

— Você precisava ver como...

O toque do meu celular interrompeu o relato que ele me contava sobre sua divertida e constrangedora experiência com as massagens tailandesas durante suas férias num resort na Tailândia.

— Um minuto. Deixa eu ver quem tá ligando. — pedi a Owen enquanto resgatava com certa dificuldade o celular do bolso traseiro da calça.

Aquela altura eu já estava com os movimentos meio 'lentos' em virtude do tanto de drinques que já tinha ingerido. Mas apesar disto, eu estava ainda consciente e ciente — o que é muito importante — dos meus atos.

— Quer ajuda aí com o celular? — Owen me provocou.

— Não! — neguei com um sorriso e conseguindo enfim 'resgatar' o bendito celular do bolso. — Consegui sozinha, viu só?!

— Que maravilha! — em deboche, ele bateu palmas fazendo-me rir e lhe acertar um leve tapinha em seu braço.

Formando a vista que já estava meio embaçada, eu vi na tela do celular quem ligava. De imediato não reconheci o número, mas pelo prefixo logo identifiquei como sendo da Alemanha, já que este era o mesmo que precedia o número de Gil quando o mesmo me ligava.

"Ah, não! Só pode ser aquele cretino ligando de outro número."

— Não vai atender?

— É o Grissom!

— O tal cretino que me contou?

Fiz uma careta e assenti positivamente para o meu mais novo amigo. Grissom não ia me deixar em paz não? Por que ele não vai se divertir de novo com a 'amiga' dele.

De repente me veio a mente uma ideia, que eu tenho certeza que irá pôr fim nessa insistência toda de Grissom, e de quebra, ainda seria uma ótima forma de me vingar daquele cretino.

Agora você vai me pagar pelo que me fez, cretino.

— Owen me faz um favor?

— Qual?

O celular parou de tocar, mas eu sabia que Grissom iria insistir de novo era só questão de minutos, quiça segundos para isso.

— Quando ele ligar de novo... quero que você atenda pra mim... e diga ao Grissom pra ele... não ficar ligando que está atrapalhando a nossa transa. — com indicador apontei para nós dois para Owen entender melhor.

— Quê?? — vi os olhos do sujeito Owen se arregalarem e não resisti em deixar escapar uma risada dessa sua reação. Eu SÓ acho que já estou um pouquinho alta, mas é só um pouquinho mesmo. Nada alarmante. — Sara acho que você já bebeu demais! Não sabe o que diz. Isso é pesado de falar à alguém, sabia?? — ele apoiou o cotovelo no balcão e o rosto na mão.

— Só tô dando o troco. — me justifiquei sem mais sorrir. — Ele vai sentir na pele o que senti.

— Sara não tem necessidade disso.

— Pra mim tem. Pode fazer o que estou te pedindo, por favor?

— Tem certeza que quer isso mesmo??

O celular tornou a tocar na minha mão. Era hora de fazer aquele cretino pagar na mesma moeda.

— Certeza absoluta. Toma! — estendi o aparelho para Owen.

— Ok! — meu amigo tomou o celular da minha mão e após limpar a garganta com um pigarro, atendeu a chamada: — Alô!... — ele fixou cem silêncio. -Quem?... Ah! É dela sim, mas a gata está ocupada comigo. — Owen apertou os lábios um contra o outro par não rir. — Nós estamos tentando transar e você está atrapalhando, cara!... Ah, não acredita?! O problema é seu, amigo. Não, ela não vai falar com você, porque não deixo e nem vou passar pra ela. E se quer falar algo liga amanhã, pois essa noite a princesa está ocupada comigo. Tchau, babaca!

Owen encerrou a ligação e me estendeu o celular de volta.

— Juro que se eu fosse esse sujeito, não ia mais querer olhar na sua cara.

— Eu é que não quero olhar mais na dele. — dei de ombros enquanto deslizava a ponta dos dedos pela borda da linha taça já vazia.

— Ele ficou surpreso quando ouviu minha voz e puto quando eu disse sobre nós estarmos tentando transar e ele nos atrapalhando nisso.

— Então ele ficou exatamente como eu fiquei quando ouvi a voz da amiga dele e o que ela me disse a respeito deles.

— Sara já passou pela sua cabeça que essa mulher pode ter inventado isso que te disse?

— Não acredito.

— Eu não perguntei se acredita e sim, se já passou por sua cabeça isso?

— Não! — eu estava sendo sincera na resposta. — E se passasse também não acreditaria.

— Por quê? Não é algo tão improvável assim de se acontecer, sabia?

— Talvez não mesmo. Mas eu sei quem é o Grissom.

— E quem é ele?

Usei a definição que o próprio Grissom me deu a seu respeito.

— Um mulherengo de primeira. Inclusive, ele mesmo se definiu assim pra mim. E sem contar, que ele próprio me contou que a tal de Heather...

— A mulher que atendeu o celular dele?

— Exato. Ela e Grissom tiveram algo, e essa mulher vive insistindo para ele voltar pra lá. Aí, agora que ele está na Alemanha, com certeza, essa Heather jogou charme pra cima dele e o Gil acabou não resistindo as investidas dela e cedendo a um "flashback" com essa tal fulana aí.

— Isso é o que a sua mente fantasiosa criou.

— Não! Isso é o que creio que aconteceu. E pra mim já deu desse papo e dessa noite, Owen. — cansei de ficar falando disso com ele. Além do mais, já começo a sentir o peso das várias taças de drinques que tomei. Os meus olhos começam a pesar de sono. — Eu vou subir para o meu quarto. Valeu pelo favor, a companhia e a conversa.

— De nada! Foi um prazer te conhecer e passar esse tempo com você, Sara.

Assenti.

— Vê a conta pra mim. — pedi ao barman.

— Negativo. Eu pago sua conta. — Owen anunciou no mesmo instante. Eu me virei meio trôpega e olhei par ele na hora.

Óbvio que recusei sua "oferta" gentil de pagar a minha conta. Aleguei que eu fazia questão de pagar a minha própria conta. Em contra-argumentação, ele me disse que mulher na companhia dele jamais pagava uma conta.

Nós ainda ficamos por um breve tempo em um pequeno cabo-de-guerra, que consistia em eu querer pagar a minha conta e Owen insistindo para ELE fazer isso. Acabou que no final, eu me rendi e deixei que o meu mais novo amigo pagasse a minha conta como ele fazia tanta questão de fazer. Aí, me despedi do Owen e saí do bar rumo ao elevador para ir dormir.

Já devidamente acomodada em minha cama, banho tomado e pijamas, eu não parava de pensar no que tinha mandado Owen dizer a Grissom. Mesmo não querendo, agora, me bateu um arrependimento pelo que pedi para ele fazer. Talvez tenha sido pesado mesmo como Owen comentou, mas o que ouvi da tal Heather também foi pesado na mesma proporção. E apesar do leve arrependimento, eu não tinha como voltar naquilo e nem tentar desfazê-lo, pois o que estava feito... Estava feito! Só espero que depois disto, Grissom me deixe em paz para que eu possa tentar tocar minha vida sem ele. Vai ser tão difícil isso. Aquele cretino estava empregado nas minhas lembranças.

Deitada na minha cama
Ouço o tique-taque do relógio e penso em você
Presa em círculos
Confusões não são nada de novo
Recordações de noites quentes, quase esquecidas
Como uma mala de lembranças
Hora após

(Time after time)

Com a mente tomada pelas lembranças dos vários momentos quentes e apaixonados compartilhado com Grissom, eu acabei pegando no sono um tempo depois.

***

Acordei na manhã seguinte com o telefone do meu quarto tocando alto.

Que merda!

Sonolenta e sem ainda tirar a venda que pus para conseguir dormir melhor, estiquei o braço e tateei a mesinha ao lado da cama até alcançar o telefone.

— Alô! — atendi, ouvindo minha voz soar roucamente. Sinceramente, minha voz é horrível quando acordo. — Oi!... Bom dia!... — ela o meu chefe que pela voz tinha acordado muito bem, obrigado. Sorte dele. — Estava!... Não tudo bem. Me dá uns minutos e já desço. Até.

Devolvi o telefone ao lugar após encerrar a ligação de Brooke. Ele havia me ligado convidando para tomar café com ele. Coitado! Não pensava que eu ainda estivesse dormindo e me pediu imediatamente desculpas por ter me acordado. Aliviei sua barra e o desculpei.

Me espreguicei na cama sentindo a cabeça doer de leve, era ressaca de ontem. Não era a minha intenção ter bebido daquele jeito, mas acabei me empolgando com o drinque e a conversa com Owen que passei um pouquinho nas doses da bebida. Mas dane-se!

Suspirei e flashes da noite passada começaram a espocar em minha mente. A conversa agradável e divertida com Owen regada a doses e doses daquele drinque azul que agora me fugiu o nome da cabeça, mas que era muito bom.

Ri demais na companhia de Owen e seus relatos engraçados. O cara além de gato tinha um ótimo e contagiante senso de humor. Me diverti com ele no tempo em que passei ao seu lado.

Então me veio a lembrança do que eu tinha lhe mandado dizer a Grissom. Passei da conta. Me rebaixei como não devia ter rebaixado.

Como será que Gil estava agora, depois da mentira que mandei Owen lhe dizer ontem?

Aff! O que isso me importa?! Aquele cara não me interessa mais e como ele está tampouco.

Retirei a venda, mas a claridade no quarto me fez fechar os olhos tão logo eu os tinha aberto após retirar aquela tira de pano que os cobria.

Por que demônios deixei as cortinas abertas desse jeito? Meu Deus!

Se bem que... eu não lembro de ter mexido nas cortinas quando entrei no quarto ontem a noite.

Estranho!

Demorei uns segundos para ir lentamente abrindo os olhos. Após me acostumar mais com a claridade, olhei para o lado da cama para apanhar meu celular e ver as horas.

Foi então que notei com enorme susto a figura de Grissom sentado na poltrona que havia ali próximo de onde eu dormia. A expressão dele era de uma seriedade absurda e seus olhos estavam gélidos.

No meu pensamento acreditei piamente que aquilo se tratava de uma alucinação-matinal-pós-ressaca, já que no meu entender era impossível daquele cara estar ali. Ou talvez, nem fosse tanto assim! Será?

Notas finais
Eita! Será que é alucinação da Sara ou o Grissom está mesmo no quarto dela? E o que Sara mandou Owen dizer a Gil foi péssimo. Quando a verdade sobre a mentira de Heather vir à tona, a nossa protagonista vai se arrepender de ter mandado Owen dizer o que disse a Grissom. Até o próximo capítulo.