One Night - Livro 1
83 Capítulo LXXXIII
Notas iniciais
— Onde você esteve esses dias todos? — me antecipei à ele e mandei na lata.
— Velejando sozinho pela costa. — ele fez questão de dar bastante ênfase a palavra "sozinho". — Cheguei esta noite mesmo e já vim direto da marina pra sua casa. — explicou de maneira sucinta.
Bom, isso justificava o seu estado bronzeado. E diante disso, me senti um pouco mal por chegar a cogitar erroneamente que ele tivesse ido curtir uma praia por aí. E convenhamos, não faria muito sentido ele sair para curtir uma praia logo depois de ter enterrado o pai.
— Mas ao chegar aqui sua amiga me informou que você tinha acabado de sair para jantar com um amigo. E como precisava te ver e falar com você hoje mesmo, então tive que ficar esperando por mais de duas horas e meia à sua chegada.
Foi nítido seu "incômodo" ao mencionar que eu tinha saído com um amigo. Já o conhecia bem para ler em seu jeito e sua fala quando estava com ciúmes e aborrecido, e naquele momento, Gil estava ambas as coisas. Sem conseguir me conter, esbocei um sorriso, que fez meu noivo franzir de leve a testa e trancar o maxilar.
— Você realmente não consegue disfarçar seu lado ciumento, não é Gil Grissom? — brinquei ainda sorrindo. Mas ao notar que ele não entrou na minha brincadeira e permaneceu sério me encarando, parei de rir. — Eu já tinha te avisado no começo da semana sobre esse jantar, lembra? — ele apenas assentiu em concordância. — Mas e você?... Você podia ter me avisado dessa sua viagem antes de partir, mas não avisou-me, Gil.
Ora se alguém ali tinha o direito de ficar no mínimo aborrecida esse alguém era eu, que não fui informada por ele que viajaria e passaria dias longe. Se não entro em contato com Lewis, eu nem saberia para começo de conversa, que Gil tinha viajado, porque ele simplesmente não se dispôs a me informar disso.
— Se não queria me ligar avisando disso, que me enviasse então ao menos uma mensagem de texto antes de viajar. Mas não! Você me deixou no escuro. Eu fiquei realmente preocupada com a falta de notícias suas. — não fiz questão alguma de não soar branda. Deixei que minha indignação diante de sua falta de sensibilidade falasse alto por mim. — Merecia o mínimo de consideração já que sou sua noiva, não acha?
— Acho! — ele concordou, desviando o olhar dos meus para fitar uma das parede do quarto. — Mas é que eu precisava fazer isso sem te avisar mesmo. — revelou após ficar calado por frações de segundos.
— Posso saber por quê?
Notei-o hesitar em me dar uma resposta. Meu sinal de alerta apitou no subconsciente. E quando Gil tornou a me fitar e por fim falou, eu fiquei momentaneamente sem entender direito sua resposta.
— Eu precisava ficar longe de você, Sara!
— Como assim longe de mim? — ergui-me de seu peito e trazendo o lençol junto ao peito, me sentei ao seu lado na cama.
Eu imaginava que por conta do que houve com seu pai, ele quisesse ficar sim longe, mas da cidade para se refazer da perda e "curtir" a dor do luto sozinho, como bem Dayse havia me dito. Mas não achei que eu também fazia "parte do pacote".
Ficar longe de mim!
Isso não fazia sentido. A não ser que eu tenha feito algo de errado para ele, mas que me lembre não fiz.
Observei Grissom se erguer da cama também e sentar-se ao meu lado.
— Sara... Eu tinha que começar a me acostumar à sua ausência do meu lado, já que... — ele me encarou e parou de falar por um momento. Ao ver seus olhos turvos de melancólica e tristeza, e escutar aquelas suas palavras, uma dor latente em meu peito se fez presente e eu temi pelo restante do que ouviria de Gil. Não me soava como boa coisa o que vinha a seguir. E tive essa confirmação assim que ele deu continuidade a fala: — Eu terei que terminar o nosso relacionamento, Sara. Me desculpa!
Quando ele disse isso o coração vacilou uma batida e a respiração chegou a parar por três segundos.
Terminar?
Tão de repente assim?
Por quê?
Foi então que o terrível e amargo pensamento de que isso podia ter a ver com o pai dele e certa mudança no testamento que aquele senhor fez, algo que Gil me partilhou logo após seu pai ser hospitalizado, tomou conta da minha mente.
Lembranças soltas dos diálogos estranhos e do comportamento idem do meu noivo tanto no hospital logo após a morte do pai dele, quanto no velório de Joseph me fizeram temer o pensamento ao qual cheguei.
Será que a justificativa para aquela situação era o que eu pensava?
Não, não pode ser!, pensei. E resolvi tirar àquela dúvida.
— Esse término tem a ver com seu pai e o testamento dele?... Ele deixou estipulado alguma cláusula quanto a isso não foi?... Responde! — cobrei de voz trêmula já que ele nada dizia.
Queria acreditar do fundo do meu coração que não fosse aquilo. Que eu estive errada ou viajado legal na maionese. Enxergando chifres em cabeça de cavalos. Seria de uma maldade tão grande caso Gil confirmasse minha suspeita. Joseph não pode ter aprontado algo assim com o filho dele e eu.
Mas para a minha infelicidade as suspeitas as quais cheguei, foram confirmadas por Gil dois segundos depois e havia algo mais que tornava tudo pior ainda. Meu noivo não só teria que se separar de mim, como também, casar com Maryane e ficar preso a esse matrimônio pelo prazo mínimo de um ano.
Quando soube disso senti o estômago embrulhar e odiei Joseph Grissom por aprontar algo assim.
— Isso não pode ser verdade! — lamentei com algumas lágrimas começando a se acumularem nos olhos e em milésimos de tempo, elas já estavam rolando soltas pela minha face.
Depois de ir ao céu e vivenciar um momento lindo de amor entre a gente instantes atrás, agora eu era jogada no inferno ao saber que o homem que eu amo estava terminando nosso relacionamento para casar com minha prima. Aquilo mais parecia um pesadelo!
A dor dentro de mim era tão grande quanto a raiva.
— Infelizmente é, Sara. — confirmou Gil estendendo a mão para enxugar minhas lágrimas.
— Não me toque! — de maneira rude, quase bruta, empurrei sua mão para longe do meu rosto. — Eu devia muito bem ter acreditado na minha intuição e no meu pai de que ia quebrar a cara feio com você. Mas não!... Eu fui cair no seu papo e na sua mentirosa promessa de que isso não ia acontecer. E olha no que deu?!
Como eu fui estúpida!
— Sara...
— Achei que fosse mais importante para você. Pelo menos foi o que você me disse.
Raiva e indignação tomaram total conta de mim. Sei que ele pode não ter culpa naquilo, mas aceitou em fazer a vontade do pai só para não perder o patrimônio, porque eu sabia que só podia ser por isso. Eu só via aquela justificativa para ele ceder ao Joseph. Até porque só era essa mesma que havia. Não é a toa que era por isso que Gil e Maryane iam inicialmente se casar antes dele me conhecer. Inclusive foi o próprio Grissom quem me confidenciou isso. Foi da sua boca que o ouvi dizer certa vez, que não ia deixar seu primo ficar com todo o patrimônio da família e muito menos, a frente dos negócios da Care.
Com certeza o escroto do Joseph lhe disse que se o filho não se separasse de mim e casasse com Maryane, o primo de Gil assumiria tudo. E, para isso não acontecer, aquele cretino estava me deixando.
— Eu disse e repito: Você é mais importante que tudo. Não duvide disso!
Não era bem o que eu via.
— Você está terminando comigo e vai casar com Maryane por causa do seu pai, quando provavelmente, deve ser porque se não fizer isso o patrimônio do Joseph não ficará com você, não é? — ele não negou e nem confirmou. — Então eu não sou tão importante assim como diz.
— É, sim!... Sara me ouve...
— Não sei se eu quero ouvir mais.
E acho que nem precisava. A situação estava bem clara e óbvia ali.
— Mas você precisa me ouvir.
— Está me contando isso só agora, depois de ter feito amor comigo, porque queria primeiro se satisfazer para só então me dar um belo pé na bunda, não é mesmo? Já que se contasse antes nada rolaria entre a gente, né?
De repente todo o ocorrido de ainda pouco perdeu o brilho e a magia de outrora. Ele não estava apenas "matando as saudades" entre a gente, e sim despedindo-se de mim para ficar com outra.
— Desse modo você me faz parecer um canalha. E eu não sou.
— Será que não é mesmo?
Ele fez uma expressão de horrorizado.
— Está me ofendendo.
E ele estava acabando comigo!
— Não te contei antes, porque... Eu simplesmente perdi a coragem e as palavras sumiram.
— Conta outra, Grissom!
— Sara tudo que eu senti quando você trancou a porta desse quarto, foi que precisava ter você, ainda que fosse pela última vez!... É, talvez no fundo eu tenha sido sim, um tanto canalha mesmo por ter feito amor primeiro com você e agora está terminando tudo entre nós. Mas estamos terminando do jeito que começamos... Com uma noite!
Aquilo foi a pior coisa que ele podia ter dito!
De um começo de sonhos com uma noite maravilhosa como foi a nossa primeira meses atrás à um termino dos horrores, com uma noite de ainda pouco, que começou linda e agora terminava da pior forma!
Eu queria xingá-lo, lhe estapear, gritar, chorar, dizer uma centena de palavras horríveis para ele, mas eu estava tão arrasada e acabada por descobrir que esse era o nosso fim, que tudo o que fui capaz de lhe dizer, foi um seco:
— Se é aqui que acaba as coisas entre nós, então pode ir embora. — saí da cama e apanhando do chão a camisola que estava caída ao lado da cama, me vesti de costas para Gil.
Eu não ia implorar, muito menos mendigar ou tentar convencê-lo a não me deixar. Meu orgulho e a raiva já que me cegavam aquela altura, eram grandes demais para isso.
Nunca pensei que ele cederia as vontades do falecido pai dele e faria isso com a gente. Mas se sua decisão já estava tomada como aparentava, então que assim fosse. E eu trataria de cuidar da minha vida, que era melhor. Uma vida que não o incluía mais.
— Eu não vou embora sem antes te deixar a par das coisas bem como elas são, Sara.
— Não se dê ao trabalho. — virei-me para ele já vestida. — Sequer faço a mínima questão de que prossiga.
— Você querendo ou não, eu vou falar e você irá me ouvir.
— Grissom...
— Não se trata somente de uma cláusula no testamento, Sara. — ele me interrompeu. Minha vontade era sair dali e deixá-lo falando para as paredes. Para quê ele queria me contar o resto, para me torturar?
— Já disse que não quero saber! Agora saí da minha cama e vai embora. — apontei na direção da porta do quarto.
Mas ele não me acatou, pelo contrário, ficando de pé e segurando com uma das mãos o lençol enrolado em seu quadril, Gil prossegui sua fala:
— Se fosse apenas uma cláusula, eu jamais me submeteria a ela, Sara. Juro! E Joseph sabia bem desse detalhe.
— Vai embora!
Ele me ignorou e continuou:
— Tanto que durante a conversa que tivemos antes dele falecer, o coroa meteu o nome da minha mãe no meio da merda da conversa. Ele me fez jurar pela memória dela, que eu cumpriria essas suas vontades estipuladas no novo testamento que ele mandou preparar. E... eu tive que jurar!
— Teve? Por acaso ele te apontou uma arma pra que jurasse?
— Não. Mas ele usou de toda uma... Merda de chantagem emocional não só ao envolver o nome da minha mãe, como também, ao dizer que dependia unicamente do meu juramento para morrer em paz, além de outras coisas mais.
Enquanto Gil falava, eu percebi seu olhar vaguear para longe, decerto estava relembrando os momentos finais com seu pai. Tinha raiva, dor, tristeza e revolta reluzindo em seu olhar.
— Eu não tive outra escolha se não ceder e prometer que cumpriria essas malditas vontades do Joseph, mesmo estas não sendo do meu agrado... E ciente de que ao cumpri-las... vou sofrer feito um condenado, principalmente pelo fato de você e eu não estarmos mais juntos!... Isso será um inferno tremendo para mim.
Um silêncio cortante e doloroso tomou conta do ambiente ao fim da fala de Gil. Encarando o homem que estava a pouca distância de mim, eu podia ver em seus olhos e sentir pelo modo com que falou, o quão sinceras e sofríveis eram suas palavras, mais ainda as últimas.
Se para ele aquilo seria um inferno para mim já estava sendo desde o momento em que ele anunciou que precisava terminar nosso relacionamento.
De repente a imagem de felicidade de Maryane quando soubesse daquilo me veio a mente e eu podia jurar que já até conseguia ouvi-la se gabando em toda aquela sua arrogância enquanto dizia: não falei que era comigo que ele casaria no fim das contas.
Maldita!
Me questionei se ela não fez a cabeça de Joseph para que ele fizesse o que fez? Mas aí, concluí rapidamente que aquele senhor não me parecia alguém que se deixava influenciar ou manipular por alguém, muito pelo contrário, ele é que parecia usar de influência e/ou manipulação com as pessoas para que elas fizessem suas vontades. Acabou de fazer isso com o próprio filho.
Joseph Grissom como eu te odeio nesse momento!
— Seu pai foi desprezível!
Desprezível era pouco. Mal caráter. Egoísta. Intransigente. Baixo. Manipulador. Vil. Podia fazer uma lista perfeita e interminável àquele senhor que estava me separando do filho dele para jogá-lo nos braços de sua preterida, a minha prima, a última pessoa que eu queria ver ao lado de Grissom.
— Desprezível e cruel por estar nos separando. — retrucou Gil anulando a pouca distância entre nós ao dar três passos em minha direção.
A raiva que eu senti dele logo no começo em que anunciou sobre o nosso término, esvaiu-se diante daquela visão arrasada e sofrível que Grissom transparecia à minha frente. Deu vontade de abraçá-lo. E eu o abracei.
Jogando os braços sobre seus ombros abracei Gil bem apertado e escondendo o rosto em seu pescoço, sentindo assim seu perfume marcante. Ele retribuiu o abraço colocando um dos braços em torno da minha cintura e eu comecei a chorar um choro doído e compulsivo.
Os sons dos meus soluços logo já tomavam conta do ambiente enquanto as lembranças dos momentos felizes e intensos que eu passei ao lado de Gil repassavam em minha mente como um filme em câmara lenta.
"Queria poder sumir com você.", sua frase de momentos atrás só agora fazia sentido para mim. E, assim como ele, eu também gostaria de sumir com Gil agora, somente para não perdê-lo e vê-lo futuramente casado com Maryane. Não vou suportar o fato de ver o homem que amo com outra e nem ter estômago para isso. Será um pesadelo isso!
— Me sinto um monstro por ser junto com o Joseph o responsável por suas lágrimas e por seu sofrimento, Sara. — ele beijou meus cabelos e apertou-me um pouco mais contra seu corpo.
Ah, aqueles braços fortes que agora me embalavam e mantinham-me colada a Gil, e que outrora já me aconchegaram por diversas vezes antes de dormir ou depois de fazermos amor, ou em outros momentos ou situações que fossem e por uma razão qualquer, eu não os teria mais para mim.
Assim como também não teria mais suas ligações ou nossos encontros a noite ali no meu apartamento ou mesmo no dele para partilharmos como foram nossos dias, fazermos amor, ou apenas desfrutarmos um da companhia do outro; não haveria mais ele na minha vida e nem eu na dele; sem mais noivado; e sem mais... Nós! Um nós que eu via já como para sempre.
E diante de todas essas constatações uma nova onda de choro trouxe mais soluços e lágrimas à mim. Eu não queria ficar sem nada daquilo... Eu não queria ficar sem ELE, o meu Sr.Gostoso!
Apertei os braços em torno de seu pescoço e desejei congelar o tempo e o momento. Nada de seguir adiante, pois isso significava que o NÓS de fato deixaria de existir.
— Céus, Sara! Cada soluço seu e cada lágrima que está derramando é um pedaço do meu coração que se parte junto.
— Por que... isso tinha que... acontecer... com a gente... Gil? — questionei entre os soluços.
— Porque fui fraco em me deixar envolver pela chantagem emocional do Joseph. Não imagina o quanto estou odiando a mim e a ele por ficar longe de você e ter que me casar com sua prima.
Sua voz embargada e trêmula me fez imaginar que ele estava na iminência de chorar.
— Me perdoa! — ele sussurrou em meu ouvido. — ... Juro que não queria estar fazendo isso com você e muito menos, conosco, Sara. Eu tinha tantos planos pra nós dois. E agora, eles foram arruinados. Sinto muito... meine liebe.
Poucos segundos depois que ele terminou de soprar-me ao ouvido essa última frase, senti algo molhar meu ombro e ouvi um soluço vindo dele. Ele estava chorando e isso se comprovou, no momento em que me afastei e vi duas lágrimas descendo de seus olhos por seu rosto.
Aquela estava sendo a primeira vez que eu o via chorar e estava detestando ver, assim como, detestava o fato de que aquele era o fim do nosso relacionamento. Mas é como li uma vez por aí: se uma relação começa de maneira errada, raramente tende a dar certo depois ou ter algum futuro mais tarde.
Gil e eu começamos de um jeito "errado" com ele sendo comprometido com outra quando nos envolvemos. E agora, aí estava o resultado.
— Acho que nós dois juntos não era pra ter sido desde o início. — resmunguei com um nó na garganta e uma vontade enorme de enxugar aquelas duas lágrimas que eu via escorrer por seu rosto. Mas as que eu enxuguei no fim, foram as minhas mesmas. — Criamos a ilusão de que era certo isso, mas não era.
— Você e eu é certo sim. — enxugando o rosto ele afirmou com uma certeza absoluta. — Não se deixe enganar pelo contrário. Essa nossa separação será só por um ano. Joseph disse que era pra eu ficar casado apenas um ano com Maryane. Depois, eu podia fazer o que quisesse da minha vida. E te asseguro que da minha parte será um casamento de aparência. Não pretendo tocar na sua prima ou ter qualquer coisa com ela.
— Ilusão sua achar que ela vai aceitar isso.
Não via Maryane concordando com tal situação. De um jeito estranho para não chamar de obsessivo mesmo, ela parecia de verdade apaixonada pelo Gil. E, certamente, aproveitaria o fato de estar casada com ele para conquistá-lo e evitar a qualquer custo que o matrimônio deles fosse desfeito ao fim desse prazo de um ano.
— Pois então que ela não se case comigo, porque de mim intimidade alguma ela terá.
Queria muito acreditar nisso, mas não conseguia. Algo dentro de mim dizia que as coisas sairiam bem diferentes do que Gil estava falando.
— Eu acho melhor você ir.
Anunciei me afastando dele. Já chega de ficar estendendo essa dolorosa conversa com sabor de despedida.
— Essa nossa separação é só uma pausa de um ano na nossa história. — ele tomou meu pulso me puxando de volta para perto de si. — Não será um fim definitivo, porque você e eu... Ainda não acabou, garota. Nós ainda vamos ficar juntos de novo se você... Me esperar, Sara. Em um ano, eu serei um homem livre. Um homem livre pra você, querida!
Suspirei longamente fechando os olhos.
Ele tem noção do que está me pedindo?
Ficar a sua espera durante um ano enquanto ele vive com Maryane como marido dela?
Tudo bem que um ano não é muito tempo, eu sei. Mas não consigo aceitar tal fato. Por mais que eu o ame e saiba o quão difícil será seguir em frente sem ele, eu vou tocar a minha vida, já que ele estará casado com minha insuportável prima. E tocarei, tentando fingir que ele nunca existiu para mim, porque somente assim para eu, talvez, seguir em frente.
— Assim que você sair por aquela porta, Grissom... Eu não quero mais saber de você. — comuniquei com dor no coração. E vi seus olhos azuis se assustarem com minhas palavras. — Não me liga mais! Não me procura e nem tenta qualquer aproximação enquanto estiver casado.
Podia soar radical demais, porem enquanto ele fosse um homem comprometido com aquela falsa da minha prima, eu queria distância dele mesmo ciente que irei sofrer com tal decisão.
Talvez, eu devesse ter feito desde o começo, exatamente isso que estou fazendo agora, e quem sabe assim, as coisas tivessem tomado outro rumo. Ao menos à mim não recairia o papel de "amante" como recaía por conta do período em que passei ao lado de Gil, quando ele ainda era comprometido com Maryane.
— E depois quando eu não estiver mais casado? Eu posso te procurar?
Não quero pensar no depois e me decepcionar. Já basta a decepção deste momento que está me corroendo por dentro feito um ácido.
— Vai embora, Gil, por favor.
— Você vai me esperar? — ele insistiu.
Livrando meu pulso do contato de sua mão, eu encarei Gil bem nos olhos.
— Eu vou seguir a minha vida. Tentarei fingir que você nunca existiu nela para ver se ficará mais fácil dar continuidade. — tenho certeza que não irei conseguir isso tão facilmente assim, já que aquele homem se instaurou dentro de mim no mais profundo da minha alma e coração. Mas eu precisava tentar esquecê-lo por esse período ou tenho certeza que surtarei. — E quero que siga sua vida com Maryane da mesma forma, fingindo que eu nunca existi pra você.
— Eu não posso fazer isso. Nem mesmo conseguirei, Sara.
Senti tanta vontade de chorar quando o ouvir dizer aquilo.
— Mas terá que fazer. — afirmei com uma seriedade que era só de pura fachada. — Quero pedir que volte para Alemanha, porque assim longe vai evitar que me procure. Algo que realmente não quero que faça estando casado.
— Se quer assim, eu farei.
Seria bom se realmente ele fizesse, porque levando em conta que aceitei trabalhar numa editora situada em Nova York onde ele tem casa e onde já me confessou certa vez ir bastante a negócios, eu não quero ter o desprazer de esbarrar com Maryane e ele circulando por lá.
— Mas depois de um ano eu volto para retomarmos a nossa história, meine liebe. Isso aqui não é um término definitivo. É só uma pausa, um tempo ou um hiatus, chame como quiser. Mas não é pra sempre, Sara!
Não criarei ilusões com isso. O tempo e o destino vão se incumbir de dizer se de fato não se tratava de algo definitivo.
— Se terminamos por aqui então ... — sob seu olhar tirei os anéis de compromisso que ele me deu e lhe estendei as duas joias. — Isso aqui é seu.
— Não, é seu. Eu te dei.
— Mas eu não quero ficar com elas. Dê para a mulher com quem vai se casar, que por sinal não sou mais eu. — puxei sua mão e coloquei sobre a palma dela os anéis. — Agora, por favor, se veste e vai embora. Já nos alongamos demais nessa conversa. Acabou!
Me afastei dele e me dirigi até a janela do quarto. Parada diante dela e de costas para Gil fui ouvindo seus passos pesados pelo quarto em buscar de suas roupas espalhadas pelo chão.
O farfalha do tecido de suas roupas sendo postas uma à uma por ele, bem como o tilintar de seu cinto foram como uma sinfonia dolorosa e horrível que meus ouvidos foram capturando. Queria ser surda para neste momento não ter que ouvir aqueles sons.
Abraçando a mim mesma encarei com olhos turvos pelas lágrimas, o céu estrelado. Fazia uma noite esplendorosa lá fora. Já aqui dentro a coisa virou um desastre horrível.
"[...]Eu aposto todas as minhas fichas, que no fim das contas será comigo que ele casará e não com você."
Quão certas e proféticas foram essas palavras de Maryane, mas eu não as levei em conta na ocasião. Simplesmente tratei de ignorá-las.
Para mim, na época, não havia a mínima chance do que ela disse vir a acontecer, mas infelizmente cá estava a situação ocorrendo e contrariando o que eu achava.
Era a minha prima mesmo quem casaria com Gil e não eu.
Lágrimas voltaram a escapar e deslizar por meu rosto, quando fechei os olhos apertados ao recordar dessa desagradável fala de Maryane. Queria esquecer cada uma de suas malditas falas, principalmente estas que só surgiram para zombar de mim e estraçalhar mais ainda o meu já espatifado coração.
— Eu já vou, Sara.
Escutei-o anunciar de repente.
Enxugando as lágrimas me virei para encontrá-lo ainda mais arrasado.
— Adeus! — com a voz embargada e trêmula foi tudo o que consegui e me arrisquei em dizer-lhe. Se eu ousasse falar mais que isto iria me bulhar em um mar de lágrimas e soluços. E eu não queria fazer isso na frente dele outra vez.
Seja forte!
— Até breve... meine liebe!
Ele ficou uns segundos me fitando, e eu podia jurar que não queria ir. Mas ele foi. Dando-me as costas, eu o assiti seguir em passos lentos rumo à porta. Me recordou aquelas típicas cenas em slow motion de filmes românticos em que o mocinho vai embora, deixando para trás seu grande amor. Só faltou a trilha sonora triste para ficar idêntico aos filmes. E quando Gil já havia sumido porta à fora não sem antes ter me lançado um último olhar e sussurrado um "eu te amo", eu desatei a chorar encostada a janela e escondendo o rosto entre as mãos.
Questão de poucos instantes depois ouvi a porta se abrir e a voz de Dayse pronunciar meu nome. Na mesma posição em que eu estava, permaneci.
— Sinto muito, amiga! — ela murmurou ao me abraçar assim que chegou em mim.
— Acabou! Ele terminou comigo para...
Eu não consegui concluir devido ao choro.
— Eu sei, eu sei, Sara. Ele me contou tudo enquanto te aguardava chegar.
— Contou?
Me afastei só um pouco dela desfazendo nosso abraço para lhe encarar cheia de dúvidas.
— Sim, contou. E ele estava tão arrasado por fazer isso. O pai dele foi um baixo com vocês.
— Eu não quero falar desse senhor. Eu o odeio pelo que ele fez.
Não sei se um dia vou ser capaz de perdoar o que Joseph Grissom acabou de aprontar comigo e seu filho.
— Você está em sua total razão de odiá-lo. Eu também o odeio por isso. Mas pensa que um ano vai passar rápido e logo, você e o Sr.Gostoso vão estar juntos de novo.
— Foi o que ele disse também. Mas não vou criar ilusões quanto a isso, Dayse. — confessei ao enxugar minhas lágrimas. — Vou seguir minha vida tentando fingir que o Gil nunca existiu nela.
— E você acha que vai conseguir?
A resposta era óbvia para mim: não! E a julgar pelo modo descrente como Dayse me encarava, ela também desconfiava bem qual fosse a minha resposta.
— Ao menos tentarei! — afirmei.
Continua no livro 2.
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