One Night - Livro 1
79 Capítulo LXXIX
Notas iniciais
Por ser madrugada e ter zero de engarrafamento, Dayse pisou fundo no acelerador e quando digo pisou fundo, é literalmente. Durante o trajeto não a vi dirigir por menos de 100km/h um instante sequer. Ainda bem que ela é um Ás no volante, porque do contrário corríamos o sério risco de acabar batendo o carro. E devido a sua direção veloz, chegamos ao Saint Michael's Medical Center muito mais rápido do que o trajeto levaria normalmente do Brooklyn até New Jersey.
Para a nossa surpresa notamos do outro lado da rua onde estacionamos, um pequeno aglomerado de repórteres parados em frente à entrada principal do hospital.
— Imprensa? — Dayse me olhou desconfiada enquanto tirava o cinto de segurança. — Será que é por causa do seu sogro, Sara?
Dei de ombros.
— É capaz. O sujeito é dono de uma das empresas mais conhecida do planeta.
— Bem lembrado!... Aff! Teremos que passar pelo meio dos repórteres. Vamos lá?
Gemi em descontentamento ao lançar outro olhar na direção dos repórteres.
— Vamos, né! — concordei nada contente por ter que passar pelo meio daqueles abutres.
Nós duas saímos do carro e logo já atravessávamos a rua. Enquanto caminhávamos lentamente rumo ao hospital, eu ainda tentava digerir a notícia sobre o falecimento de Joseph. A ficha não queria cair. Até ontem aquele senhor estava bem na medida do possível e de sua atual condição. Aí, hoje, ele já não está mais aqui, partiu dessa. Isso é tão louco! Na verdade, a vida é louca mesma! Ou como diz o doido do Bolton: A vida é uma puta louca, que vive para nos foder à torto e à direito quando menos esperamos!
Sem sermos paradas, passamos sem grandes problemas pelos repórteres e entramos no hospital para nos depararmos com uma recepção vazia, só havia um segurança próximo. A recepcionista que devia estar ali fazendo seu trabalho, não estava naquele momento.
Inferno!
Recorri ao segurança para pedir informação de onde ficava a sala que Gil me mencionou que estaria. O rapaz alto, corpulento e de pele branca, quase pálida, nos apontou o corredor e disse que dobrássemos à direita, seguíssemos até o final do outro corredor e chegaríamos à dita cuja sala. Agradeci e puxando Dayse pela mão como se ela fosse minha filha e eu não quisesse perdê-la de vista para que não me aprontasse nada vergonhoso, fomos na direção apontada pelo segurança.
Curioso como hospitais sempre me deram sensações incômodas. E olha que minha mãe é médica. Mas ainda assim, eu me sinto sempre sufocada e incomodada nesses lugares. Não sei se é por seus pálidos corredores brancos, ou o cheiro que aquele lugar tem, ou o que diabos seja, mas tudo ali é desagradável para mim. Daquele 'universo' médico, eu sempre prezei pela distância. Na minha adolescência para eu ir à médicos em consultas de rotinas era uma novela e hoje em dia nada mudou, continua igual. Mas pelo Gil, eu era capaz de estar ali e aguentar aquele completo desconforto.
Cruzamos a porta da dita sala e de primeira enxergamos alguns rostos, e mais ao fundo da sala avistamos quatro pessoas que eram do nosso total conhecimento: minha prima insuportável que estava junto de Matilde, ambas de pé, e ao lado das duas estava Lewis de cabeça baixa e sentado numa cadeira, acompanhado de seu namorado que parecia consolá-lo enquanto lhe afagava os cabelos.
— Não estou vendo o seu noivo, Sara. — Dayse cochichou-me.
Talvez ele estivesse tratando das questões burocráticas acerca do falecimento do pai, já que Lewis não demonstrava ter qualquer condição para tal.
— Vem, vamos falar com o Lewis.
Caminhamos até o irmão de Gil. Nem me dê ao trabalho de olhar para Maryane quando passei perto dela. À tal Matilde apenas fiz por pura educação um gesto com a cabeça em cumprimento, e a mulher somente me olhou com desgosto, sem esboçar qualquer retribuição ao cumprimento que lhe dirigi. Foda-se! Fiz minha parte de ser educada, agora, se ela é incapaz de retribuir a educação, já não é problema meu!
— Lewis! — chamei com cautela me sentando na cadeira vazia que havia entre ele e Matilde.
Lewis levantou a cabeça e seus olhos azuis como os de seu irmão estavam avermelhados e cheios de lágrimas.
— Ah, Sara... O meu pai...
Lançando seus braços sobre meus ombros, Lewis se agarrou à mim feito um menino assustado pedindo consolo, e não foi mais capaz de completar a frase que ia falar, porque começou a chorar bastante.
Me deu tanta dó dele.
— Eu sei. E sinto muito, Lewis! — minhas mãos deslizavam por suas costas tentando acalmar o homem agarrado à mim. Ele chorava copiosamente. Seus soluços faziam sacolejar nossos corpos. Era de cortar o coração e estava fazendo meus olhos se encherem de lágrimas.
Por cima de seus ombros observei Edgar, o namorado dele, que assim como eu tinha lágrimas nos olhos. O outro homem me olhou com profunda tristeza; uma de suas mãos tocou com carinho os cabelos do namorado enquanto com a outra enxugava uma lágrima teimosa que escorreu por seu rosto.
— Foi tudo tão de repente. Ele passou mal horas atrás... Nos ligaram, pedindo pra vir... Parece um... pesadelo. Eu não estava preparado para dizer... adeus à ele.... Mas ele já parecia pronto para partir... Ele queria isso. — Lewis contava entre os soluços de seu choro.
Na sábado Gil também havia me dito em sua casa algo a respeito de seu pai não querer mais viver desde que acordou e descobriu as sequelas que o AVC lhe deixou. E pelo visto a vontade de Joseph foi atendida pelas "forças divinas" como minha querida Li costuma se referir à Deus.
— Lewis já conversei com você sobre isso. — Edgar se pronunciou com carinho e eu apenas o agradeci mentalmente por opinar, pois nessas ocasiões eu sou péssima para saber o que dizer. Quase nunca sei o que falar para consolar. — Talvez tenha sido melhor para o seu pai isso, Le. Você sabia como ele era. Sempre tão altivo, imponente e independente. Nunca ia aceitar ser cuidado por enfermeira e deixou muito claro, que não aceitava passar seus dias da forma limitada com a qual ele viveria daqui pra frente. — Edgar me encarou como quem pede auxílio para concordar com suas palavras.
Em parte até podia concordar, já que aquela sua explicação/justificativa era boa, mas para quem perde o entende querido, geralmente, não há explicação alguma que amenize nossa dor ou nos faça aceitar a perda tão cedo de alguém tão próximo assim.
Eu que o diga!
Quando perdi o meu querido vô Bill, pai do meu pai, de maneira súbita enquanto ele dormia seu sono da tarde, ouvi tanto "foi melhor esta forma de morrer, porque assim ele não sofreu", mas quem disse que eu me conformava? Nenhum pouco! Não me interessava a forma 'menos sofrida' com a qual ele morreu. Eu NÃO queria nem que ele tivesse morrido para início de conversa! A bem da verdade é que mesmo sabendo que um dia a vida acaba, a gente nunca está preparado para perder alguém!
— Meu pai não seria cuidado por enfermeira. Eu mesmo cuidaria dele e não me importaria nenhum pouco em fazer isso, Ed. — Lewis contra-argumentou, desfazendo nosso abraço e enxugando as lágrimas.
Tenho certeza de que ele faria isso de coração, sem se importar mesmo já que era o pai dele. No lugar dele eu faria o mesmo pelo o meu pai. Mas será que Joseph ia querer isso? A resposta me parecia óbvia demais!
— Acredito que o seu pai com certeza se importaria com isso, Lewis. — opinei, segurando na mão do irmão de Gil. Como Edgar muito bem destacou, Joseph era independente e nunca ia aceitar cuidados de ninguém.
— Sabe, Lewis... — Dayse se pronunciou pela primeira vez. Agachando-se na frente do irmão de Gil, ela prosseguiu: — Eu não conhecia seu pai de perto, mas a gente via que ele tinha toda uma pose e de fato também acho que ele não ia acertar ser cuidado quer seja por uma enfermeira, quer seja por um filho dele. — concordei com minha amiga que tocou carinhosamente o rosto de Lewis. O irmão de Gil se inclinou para abraçá-la pelos ombros.
— Vai ver vocês todos estejam certos mesmo. — ele rebateu ainda abraçado à Dayse. — Ao menos tive a oportunidade de ainda poder me despedir dele. — nos contou para em seguida agradecer pelo apoio e por estarmos ali.
— Não precisa agradecer, somos suas amigas, né não Sara?
— Sim. — confirmei, piscando para Lewis que me olhava de lado, com o rosto apoiado no ombro de Dayse.
Era óbvio que o fato de ser noiva do irmão dele era um indicador mais do que forte para eu estar ali, mas eu também vim pelo Lewis, pela gratuita amizade e carinho que criei por ele desde que o conheci em minha casa meses atrás.
Mais uma vez, Lewis nos agradeceu por estarmos ali enquanto desfazia o abraço trocado com Dayse. Aproveitei a deixa para saber do meu cunhado sobre seu irmão.
— Ele foi a funerária tratar de toda a burocracia para o velório do nosso pai. Gil tem mais cabeça para essas coisas que eu.
— Imaginei que fosse por essa razão a ausência dele por aqui. E como ele está lidando com a situação da morte do pai de vocês, Lewis?
Me preocupou a forma com a qual ele me contou ao telefone sobre o falecimento do pai dele.
— Ele está lidando muito melhor que eu. Nem parece que foi o pai dele que morreu também.
— Como assim?
— Ele está agindo de maneira tão fria e indiferente, feito um robô sem coração.
— Vai ver que ele esteja reprimindo e guardando a dor dele para si mesmo. Tipo um mecanismo de defesa. Tem gente que age assim em momentos desses, Lewis. — Dayse opinou.
Só que eu sabia que aquilo não se aplicava ao meu noivo. Gil não era de reprimir sentimentos, muito pelo contrário. Ele é intenso e não guarda para si o que sente. Sempre objetivo e sem papas na língua, ele fala e expõe seus sentimentos sem reservas.
E foi exatamente isso que Lewis falou em réplica a minha amiga.
— Já, já ele aparece e vocês vão comprovar isso que eu disse.
Apenas assenti, digerindo esta sua última informação. Para fugir um pouco daquele assunto, Dayse comentou sobre os repórteres que vimos na entrada do hospital e Lewis suspirou em desagrado. Ele nos falou nada contente, que a presença dos sujeitos se dava por causa do pai dele, e ainda afirmou que Gil ficaria uma fera quando chegasse e se deparasse com aquele bando de repórteres. Segundo Lewis, seu irmão havia conseguido evitar que caísse na boca da mídia sobre o AVC do pai deles, porque não queria expor mais Joseph. Mas ao que parece alguém vazou a notícia de sua morte e os repórteres agora estavam lá fora feito abutres, querendo alguma palavra da família do dono do império Care Inc.
— Quando cheguei há coisa de quinze minutos esses repórteres me bombardearam de perguntas, já que sabem que sou conhecido da família. — Edgar comentou conosco.
— Felizmente nós duas passamos batidas por eles.
— É que felizmente ou infelizmente, eles desconhecem o fato de você ter sido amante do Gil, Sara.
Engoli à seco e me virei na cadeira, disposta a dar uma resposta daquelas para Maryane por seu inoportuno comentário, mas Lewis se antecipou à mim chamando a atenção da minha prima.
— Maryane não vou admitir que falte com respeito à Sara na minha frente.
Eu só não sucumbi ao riso diante dessa bronca do Lewis, porque o momento não era para isso e também porque estava furiosa demais pela fala desagradável e impertinente da sonsa da minha prima. Ela não tem bom senso, não? Será que não percebe o quão importuno seu comentário soou?
— Mas eu não quis faltar com respeito, Lewis, apenas disse a verdade. — com cinismo velado, ela rebateu com uma falsa inocência, para logo depois ainda ter a cara de pau de completar, dizendo: — Ou por acaso minha irmãzinha não foi amante dele mesmo?
Olha, se as circunstâncias fossem outras, eu juro que acertaria sem remorso algum uns belos tabefes na cara pífia da minha prima. Só que infelizmente, eu teria que segurar meus ímpetos violentos e guardar para outro momento a minha vontade de estapear Maryane, já que ali não era o melhor local para tal desforra. No entanto, eu não ia me calar para ela não. Antes que Lewis respondesse a questão lançada por Maryane, eu me pronunciei, levantando da cadeira.
— Você disse bem eu FUI, sim, isso aí... — esse fato de eu ter sido amante do Gil não podia ser negado, ainda que eu quisesse por ser bem desagradável ouvir que você foi amante de um cara. Aquele termo carrega um estigma e um peso nada agradável, além de não ser bem visto aos olhos de outras pessoas. — Mas agora entenda que... — fiz propositalmente uma longa pausa e cruzando os braços, dei um passo na direção da minha prima. Ela não recuou à minha aproximação porque deve ter suposto que ali eu não lhe faria nada de mal. E não faria mesmo! Ao estar próxima o suficiente dela, prossegui com voz comedida e uma falsa calma para não descer ao nível baixo em que Maryane estava e queria me puxar: — Sou a noiva dele. A mulher com quem ele vai casar em breve, e você não passa da ex cheia de recalque e dor de cotovelo, que fica me atacando sem ter o menor respeito pela dor do Lewis que acabou de perder o pai dele. Isso é uma total falta de sensibilidade e bom senso da sua parte... Priminha! — carreguei bastante na ironia ao pronunciar a última palavra de minha fala.
Maryane abriu a boca disposta à rebater com alguma grosseria que a raiva irradiava de seus olhos, contudo sua possível réplica não veio pela simples razão que a voz elevada e furiosa de Gil discutindo ao celular roubou nossas atenções. Os rostos de todos se viraram na direção de Gil e observamos-o vir até nós em passadas duras, que deixavam clara sua completa raiva. Luke o acompanhava logo mais atrás, feito a sombra que costuma ser e trazia numa das mãos uma sacola.
— E quem mandou soltar essa nota na imprensa contando sobre o falecimento do Joseph?
A carranca de Gil ao parar perto da gente era a pior que eu já tinha visto nele desde que nos conhecemos. O homem parecia possuído por algum espírito furioso. Quem quer que tenha revelado sobre a morte do pai dele à imprensa estará ferrado, porque do jeito que Grissom está é capaz de matar o responsável por isso, qual do encontrá-lo pessoalmente.
— Ah, quer dizer que foi você mesmo Conrad?! — vi Grissom apertar o maxilar com força e cerrar o punho esquerdo. Esses seus gestos já falavam por si só. Meu noivo estava MUITO furioso. Puto! — Pois quem te deu essa maldita autorização, seu fodido?
— Gil! — Lewis se pôs de pé e usou um tom de censura com o irmão, pois seu palavreado e o modo alto com o qual falava, estava fazendo as demais pessoas ali na sala focarem suas atenções nele e no que dizia.
Percebendo isso, Grissom diminuiu o tom, mas não sua ira já que prosseguiu xingando e discutindo com o sujeito na linha. Eu não queria estar na pele desse tal Conrad quando estivesse diante de Gil.
Quando a ligação foi finalizada depois de longos minutos de discussão, Gil contou ainda bastante alterado que seu primo era o responsável por ter repórteres na frente do hospital.
— Ele soltou uma maldita nota de imprensa! — revelou.
— Mas quem autorizou isso?
— Ninguém, Lewis. Ele achou que "estava fazendo o certo". É um sem noção. Minha vontade é de matá-lo com as minhas próprias mãos por causa disso. — ele suspirou, encarando o teto branco da sala de espera. Parecia à beira de um ataque de fúria extrema. E eu me preocupei com isso.
Lewis me olhou de relance e tocou o ombro do irmão.
— Você está muito nervoso, mano.
— E não é para estar, Lewis?
A aspereza de sua fala e seu olhar enraivecido para o irmão me deu até calafrios e causou no Lewis um arquear de sobrancelhas.
— Olha... Sua noiva está aqui... — Lewis me apontou com a cabeça. Quando ele evidenciou a minha presença com aquele gesto e palavras, Gil focou pela primeira vez seu olhar em mim. Até o momento ele não havia me dirigido qualquer olhar por mínimo que fosse. Falava diretamente olhando só para o irmão e Edgar. Era como se eu nem estivesse ali antes do Lewis me sinalizar.
Quando os olhos coloridos de Gil me encararam fixamente, eu vi tristeza e dor por baixo de toda aquela raiva e revolta pelo tal Conrad ter contado sobre a morte de Joseph.
— Por que não vai com Sara até à lanchonete tomar alguma coisa e esfriar essa cabeça? — sugeriu Lewis e eu achei boa a sua ideia. Gil precisava se acalmar ou temia que tanta raiva assim não lhe fizesse bem.
Meu noivo não pareceu muito lá satisfeito com a sugestão do irmão, mas a acatou mesmo assim. Me estendendo a mão que tratei de segurar entrelaçando nossos dedos, Gil se dirigia à Luke pedindo que o sujeito repassasse ao irmão as informações sobre a funerária. Ao consentimento de seu motorista, Gil se dirigiu à mim:
— Vem, Sara. Vamos, sair daqui.
Eu o segui e não resisti em lançar um rápido olhar à Maryane para encontrá-la profundamente descontente com a cena.
***
A lanchonete estava quase vazia aquela hora da madrugada, havia mais três clientes por ali além de Grissom e eu. Encostada ao balcão, eu aguardava a atendente preparar os dois sucos de maracujá que pedi. De onde estava meus olhos observavam atentos à Gil acomodado numa mesa. Seu semblante absorto e pensativo me dizia que ele estava bem longe dali. Daria qualquer coisa para saber no que ele estaria pensando compenetrado daquele jeito, tão alheio a sua volta.
Durante o nosso caminho até à lanchonete, o silêncio imperou entre nós. E senti como se houvesse também um abismo maior entre a gente que ia muito além do silêncio. Gil estava do meu lado, segurando minha mão e andando junto de mim, mas ao mesmo tempo era como se nem estivesse. Ou pior, como se EU nem estivesse ao seu lado. Até quis dizer algo para quebrar a mudez entre nós, contudo, ele estava tão sério, sisudo e ainda bastante irritado, que achei por bem nem falar nada naquele momento.
— Moça seus sucos. — o chamado com mais ênfase da atendente me tirou a atenção de Gil. Acho que aquela não era a primeira e muito menos, a segunda vez que a outra mulher me chamava.
Apanhando a bandeja com os dois copos de suco e um potinho de açucareiro, eu a agradeci com um sorriso gentil e segui até Gil segurando com todo o cuidado e equilíbrio aquela bandeja de plástico que tinha uma cor laranja berrante.
Se eu tropeçar com essa bandeja vai ser um mico e tanto. Felizmente a plateia será pequena. Dos males o menor!
Cheguei em Grissom e ele por ainda estar tão absorto nem percebeu minha chegada, só foi se dar conta quando toquei carinhosamente seu ombro para avisá-lo de que tinha depositado o copo de suco à sua frente.
De maneira lacônica, beirando a seriedade ele me agradeceu e em silêncio ficou encarando o copo de vidro com o líquido amarelo e algumas pedras de gelo dentro.
— Não vai beber? — indaguei após alguns segundos em que fiquei lhe observando encarar o copo sem a menor intenção de pegá-lo.
— Eu vou precisar muito mais do que somente esse copo de suco para me acalmar. — ele comentou, apoiando os braços à borda da mesa para logo em seguida cobrir o rosto com ambas as mãos. Por um par de segundo eu o assisti permanecer nessa posição até que Gil deslizou as mãos pelos cabelos e as descansou atrás da nuca. De olhos fechados e apertados com força, ele demonstrava tanta tristeza, vulnerabilidade e fraqueza como nunca antes eu tinha presenciado. Me deu vontade de pegá-lo no colo e embalá-lo como minha mãe ou Li faziam comigo quando algo me acontecia e eu ficava assim, na época em que ainda morava na casa dos meus pais.
Sentia-me impotente e penalizada por ver meu noivo tão abatido daquela maneira. Se fosse possível tirar a dor que ele estava sentindo e transferi-la para mim, eu pediria que fizessem isso só para livrá-lo dessa situação que eu via estar desestabilizando-o.
A sua expressão de raiva de outrora tinha dado lugar à uma de dor e profunda tristeza, os mesmos sentimentos que vi em seus olhos momentos atrás na sala de espera.
Lhe observei calada até resolver arrastar minha cadeira tomando o devido cuidado para não fazer barulho, e a posicionei bem ao lado da que Gil estava. Ele sequer abriu os olhos diante do meu movimento. Ao estar bem junto dele, eu enlacei meus braços a um dos seus e beijei sua bochecha para depois encostar minha testa nela. Ouvi um suspiro angustiado de Gil e senti uma de suas mãos repousarem sobre as minhas envoltas em seu braço.
— Está me cortando o coração te ver assim. — murmurei, deslizando a ponta do nariz pela extensão de seu maxilar numa forma de carícia.
— Queria poder sumir daqui, querida. Ou melhor ainda, esquecer que essas últimas horas estão acontecendo, sabia?
Assenti em concordância. Adoraria poder lhe dizer mais coisas que pudessem confortá-lo, mas não sabia quais dizer, pois como já havia dito antes... Eu não sou boa para falar nesses momentos. O que eu fiz foi abraçar o meu amor e tentar passar naquele abraço todo conforto e carinho que eu sabia que ele necessitava numa hora dolorosa dessas.
Não faço ideia de quanto tempo ficamos naquele abraço, mas sei que eu perdi momentaneamente a noção do mundo a nossa volta e acredito que Gil também. Mas fomos trazidos de volta à dura realidade pelo toque de seu celular. Esse aparelho sempre tocando quando estamos juntos.
Me afastei do meu amor para lhe dar o melhor conforto para atender a chamada, que eu soube ser da tal Catherine ao ouvir Gil pronunciar o nome dessa mulher logo após ter atendido a ligação.
De canto de olho enquanto adoçava meu suco antes de prová-lo e aprovar a quantia de açúcar que coloquei, eu observei Gil trocar meia dúzia de palavras com a mulher na linha. Pelo que eu entendi a tal Catherine estava vindo com a filha da Alemanha no jato de Gil para estar presente no velório do pai dele.
Era de se supor que sendo uma amiga tão próxima quanto ele já havia me dito que eles eram, essa tal Catherine viesse para estar ao lado dele num momento de dor como esse. Amigos de verdade estão do nosso lado nas horas boas e ruins.
Após avisar a amiga que mandaria Luke buscar à ela e sua filha no Hangar, tão logo, as duas desembarcassem para levarem-nas direto para onde ocorreria o velório, Gil se despediu da tal Catherine e finalizou a ligação. Só que nem bem meu noivo tinha acabado de sair dessa chamada e o celular tocou outra vez sinalizando uma nova ligação.
— Oi, Al! — Gil saudou de maneira lacônica a pessoa do outro lado da linha. — Sim, é verdade... O coroa morreu! Tem quase duas horas que isso aconteceu. — contou com seriedade e frieza me lembrando o que Lewis disse sobre ele estar agindo como se não fosse o pai dele também que havia morrido.
Calada e quieta em meu canto, tomando meu suco, eu ouvi Grissom explicar ao homem de maneira bem fria e sem esboçar qualquer emoção, que Joseph começou a passar mal durante o começo dessa madrugada e aí ligaram para a família pedindo que viessem ao hospital. Assim que chegaram, foram informados pelo médico que o Grissom pai precisaria ser operado as pressas por causa de uma embolia pulmonar grave. Só que não houve tempo dele ser operado, porque o homem acabou falecendo na frente de Gil após eles estarem conversando à sós à pedido insistente de Joseph, que se recusava a fazer a cirurgia sem antes falar com cada um dos filhos.
Puta merda, Joseph morreu na frente dele?!
Eu não teria estrutura emocional para lidar com uma situação dessas, caso algo assim acontecesse comigo. Ver meu pai morrer na minha frente seria aterrorizante!
Fiquei observando Gil de canto de olho nessa sua ligação, que por sinal se estendeu ainda por mais uns breves minutos até o Sr.Gostoso, por fim, se despedir do sujeito e dar a chamada como encerrada.
Largando de qualquer jeito o aparelho celular sobre a mesa e dando um suspiro, o meu noivo ficou em silêncio e eu permaneci da mesma forma que ele, apenas lhe olhando disfarçadamente enquanto ainda tentava digerir a informação que captei durante sua última conversa ao telefone. Nem sou capaz de dimensionar o que deve estar se passando dentro dele. Ver alguém morrer diante de si, sendo esse alguém o seu pai é para abalar qualquer um.
O silêncio entre nós ainda se estendeu só mais um pouco, quando sem conseguir mais conter minha curiosidade, eu me pronunciei, questionando:
— Seu pai morreu na sua frente, Gil?
— Sim! — ele confirmou com certo escárnio e outra vez o silêncio se instaurou na nossa conversa. Agora era um silêncio pesado e bem incômodo, que se arrastou por um par de segundos até Gil se pronunciar outra vez: — Ele exigiu que antes de ser levado para o centro cirúrgico pudesse falar com Lewis e depois comigo.
A forma como Gil contou aquilo foi como se estivesse falando sobre uma banalidade qualquer. E a ênfase na palavra Ele me soou com visível menosprezou.
Não vou negar que bateu aquela curiosidade de saber o teor da conversa que ele teve com o pai antes deste vir a óbito. Todavia, não achei conveniente questionar sobre tal tema. Era desnecessário no momento!
— Vai vê que seu pai... sei lá sentia que algo de ruim fosse acontecer com ele durante o procedimento cirúrgico e quis se despedir de vocês antes de se submeter a cirurgia. — comentei depois de um breve tempo, enquanto deslizava minha mão por seu cabelo e deixava que ela descansasse na base de sua nuca.
Por isso Lewis havia dito que ao menos tinha tido tempo de se despedir do pai, por causa da conversa que ele exigiu ter com os filhos momentos antes de morrer.
— Se despedir? — o riso irônico que essas duas palavras arrancaram de Gil ao proferi-las, me fez franzir a testa sem que o meu noivo visse, já que naquele momento ele não me olhava. — Se ele se despediu foi só do Lewis, querida, não de mim!... De mim o velho fez foi... — Gil se interrompeu e inspirou fundo para depois soltar o ar de maneira exasperada. Ele virou o rosto em minha direção e seu olhar buscou o meu. Naquele instante o azul sempre claro de seus olhos tinha dado lugar à uma tonalidade mais escura, meio sombria que me deixou em sinal de alerta. — Deixa pra lá! — finalizou, desconversando.
Eu ensaiei uma cobrança a respeito dessa sua fala final, mas desisti.
Sem esperar ganhei de Gil um beijo na testa segundos após sua fala. Meu sinal de alerta ficou mais ainda em "alerta" depois desse momento. Havia alguma coisa errada ali que ele não estava querendo me contar. E assim como há pouco, agora também não me pareceu oportuno fazer cobranças por explicações. Em outro momento eu tentaria descobrir o que ele não quis me contar agora.
— Eu amo você, sabe disso, não sabe?
Franzi a testa diante daquela inesperada e repentina declaração de amor em forma de questionamento, que veio dele após Gil estar me fitando silenciosamente há segundos.
— Gil o que está havendo?
— Sabe, não sabe? — ele insistiu pela minha resposta ignorando o meu questionamento.
— Sei, claro. E você também sabe que eu te amo, não é? — minha mão que descansava em sua nuca deslizou para deu rosto até alcançar seu queixo barbudo. Os pelos ásperos de sua barba arranharam as pontas dos meus dedos, mas não havia incomodo apenas uma sensação agradável. Eu nunca disse para Gil, mas apesar de ter adorado quando ele ficou sem a barda, porque meu noivo tinha ficado igualmente lindo e com ar mais jovem, mesmo assim, me vi admitindo posteriormente que o preferia de barba. Gostava quando aqueles pêlos me arranhavam o rosto durante nossos beijos, ou faziam isso pelo meu corpo nas vezes em que meu noivo estava se deliciando em explorá-lo magistralmente com sua boca experiente.
— Sei, sim. — ele confirmou, segurando meu rosto com uma das mãos e trazendo para perto do seu, de modo que, nossas testas se juntaram e nossas bocas ficaram a milímetros de distância uma da outra. — Adoraria fugir para longe daqui com você.
— Podemos fazer isso depois.
Eu estava disposta a negociar com meu chefe alguns dias de licença ou até mesmo, antecipar minhas férias já que estas estão previstas para o mês que vem. Desse modo poderia ficar com meu noivo lhe fazendo companhia.
— Não, infelizmente, não vai dar pra gente, Sara.
— Se fala isso por conta do meu chefe, eu...
Ele nem me deixou continuar a fala, porque me tascou um beijo que pegou-me momentaneamente desprevenida. Levei uns cinco segundos para retribuir ao seu beijo calmo e no dobro desse tempo já tinha me perdido por completo em seus lábios que saboreavam os meus de maneira lenta, delicada, envolvente, apaixonada e demorada. Tanto que tenho a impressão de que nosso beijo durou um tempo bem razoável. E ele foi tão bom. Um dos melhores! E quando (infelizmente) acabou, eu sequer lembrava mais o que vínhamos falando antes de se beijar, de tão fora de órbita que aquele delicioso beijo dele me deixou.
Ainda de olhos fechados e me restabelecendo do beijo, eu fui brindada com a seguinte confissão do meu noivo:
— Você é a coisa mais bonita que podia ter me acontecido.
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