One Night - Livro 1

72 Capítulo LXXII


Naquela noite, lá pelas oito quando já estava em casa, recebi uma ligação de Gil. Ele disse que estava ligando para ouvir a minha voz antes de dormir — fiquei toda abobalhada com isso. Jesus! Que homem foi esse que o Senhor me mandou!

Gil ainda contou depois, que a outra razão da ligação também era porquê queria saber como tinha sido meu dia. Lhe dei um resumo breve dos fatos decorridos, sem esquecer de comentar bem mais detalhadamente sobre dois em especial. O primeiro foi o lamentável episódio do flagra que Dayse deu naquele DJ safado. Grissom se mostrou preocupado em saber como a minha amiga estava depois do que houve. Falei que Dayse tinha ficado péssima, pois estava começando a gostar de Damien, mas que segundo ela logo superaria isso.

Depois revelei sobre o segundo fato: a ligação de Maryane. Só que após contar sobre isso, me bateu o arrependimento, pois Grissom ficou possesso demais quando soube que Maryane tornou a me ameaçar, indo contra o ultimato que ele havia lhe dado.

Inclusive, Grissom chegou a dizer puto de raiva que amanhã ia ligar para minha prima, pois se Maryane queria pagar para vê com ele, então ela ia se dar mal.

Por mim até deixaria o Sr.Gostoso dar um bom corretivo na Maryane, mas tinha meus pais e posso apostar que a sonsa da minha prima ia se chorar para eles e inventar que eu era a responsável disso também, além é claro, de contar sobre meu relacionamento com Grissom de maneira deturpada apenas para me prejudicar e deixar mal com meus pais.

E foi visando evitar essas coisas ruins, que implorei a Grissom para não fazer nada e deixar as ameaças da Maryane para lá. Ele negou que faria isso e estava disposto a ligar mesmo para minha prima, porém com mais um pouco de conversa e pedidos meus, o convenci a mudar de ideia e ainda o fiz prometer não tomar por hora nenhuma atitude contra Maryane. A contragosto ele se comprometeu a não fazer nada DESSA VEZ, mas se houvesse uma próxima, aí, ele não ia "aliviar" para Maryane.

Cheguei a lhe agradecer pela compreensão e tratei de mudar de assunto antes que Grissom voltasse atrás em sua decisão. Perguntei como tinha sido seu dia e como estava o pai dele. Primeiro Grissom contou que Joseph já se encontrava bem recuperado a ponto deles terem discutido quando Gil foi vê-lo após me deixar na editora. Em seguida o Sr.Gostoso contou sobre a viagem. E ainda me revelou que amanhã seria a primeira audiência do julgamento do funcionário e ele estaria na primeira fila para assistir aquilo, além de participar como testemunha de acusação. Eu torceria para aquele sujeito que atentou contra a vida de Gil fosse condenado a muitos anos. Só de lembrar que por pouco o meu amor podia nem estar mais aqui, apertava-me o coração, mas felizmente aquele acontecimento ruim não teve o fim que o tal funcionário planejou.

Ainda ficamos de conversa por mais poucos minutos até que o meu amor falou que precisava desligar, pois já era tarde para lá e ele tinha que acordar cedo amanhã para ir ao tribunal. Nos despedimos com a promessa dele me ligar amanhã para contar como foram as coisas.

Quando a ligação foi encerrada, eu respirei aliviada por Grissom não ter perguntado se eu já tinha ligado para os meus pais — coisa que não fiz ainda diga-se de passagem. Acho até que ele esqueceu de questionar isso. Mas amanhã eu ligaria para os meus pais, pois tenho quase certeza que esse homem vai me perguntar sobre tal fato na próxima vez que nos falarmos.

No dia seguinte, a primeira coisa que fiz logo que tive uma pequena pausa no trabalho, foi ligar para casa dos meus pais. Nenhum deles estava no momento, pois tinham ido trabalhar então deixei o recado com a minha querida Li sobre a minha ida sábado de manhã até lá para falar com meus pais e entregar-lhes algo que comprei faz um tempinho. Ia aproveitar a oportunidade para levar os quadros que comprei de presente na exposição da amiga do Brooke.

Aviso dado a Li, eu me despedi dela e finalizei a chamada. Teria poucos dias para me preparar psicologicamente para falar com meus pais.

Os dias seguintes daquela semana passaram com a lentidão que eu tanto desejava. Se pudesse ter sido ainda mais lento também teria agradecido. Só de pensar que por fim amanhã estaria diante dos meus pais contando a eles sobre Gil e eu, as minhas mãos já soavam frio e as pernas tremiam. A sensação de que meus pais não aceitarão o meu relacionamento com o agora ex noivo da Maryane me preocupava.

Falando na minha prima insuportável, ela não ligou mais para me fazer novas ameaças. Achei ótimo isso! Mas devo admitir que suas ameaças povoaram minha cabeça (mesmo contra a minha vontade) algumas vezes ao longo dos dias dessa semana.

— Sara! Está na hora do nosso almoço. Você não vem?

— Agora! — me levantei da cadeira ao convite de Dayse. — Vou avisar ao Brooke que vou sair para o almoço. Espera aqui que já volto.

Minha amiga assentiu e entrei na sala do meu chefe após bater na porta. Lhe comuniquei que estava saíndo para o almoço. Brooke assentiu antes de atender o celular que tocou sobre a mesa. Saí de sua sala e logo já estava seguindo pelo corredor de braços dados com Dayse.

— Ei, é amanhã que você vai falar com seus pais, né? — ela me olhou após apertar o botão para chamar o elevador.

— Sim e estou nervosa com isso.

— Mas você vai ter o Sr.Gostosão do seu lado na hora.

— E isso me deixa mais nervosa ainda.

O elevador chegou e nós entramos nele. Apertei o andar do refeitório.

Para mim o fato de Gil ir comigo a casa dos meus pais não era algo que me deixava mais calma, muito pelo contrário.

— Mas fica tranquila, amiga. Tenho certeza que o Sr.Gostoso vai saber levar seus pais no papo.

Meu celular tocou me impossibilitando de argumentar algo a Dayse.

— Aposto que é o Sr.Gostoso.

E Dayse estava certa. Era Gil mesmo ligando.

— Oi, Gil. — eu mal consegui ouvir sua voz, já que um barulho de música e gente falando alto abafou o que quer que Grissom tinha dito. — Não estou te ouvindo.

A ligação caiu e eu fiquei intrigada com aquilo. Onde será que ele estava? Parecia som de festa! Eu mato aquele infeliz!

— Que cara é essa Sara?

Novamente o celular tocou e nem me dê o trabalho de responder a Dayse, pois me apressei em atender a chamada de Grissom.

— Sara está me ouvindo agora?

— Sim! — o barulho ainda persistia, mas eu era capaz de escutar Gil um pouco melhor do que na ligação anterior. — Onde você está hein?

— Na Oktoberfest, um festival de cerveja, que acontece todo o ano aqui em Munique.

Como assim ele estava na Alemanha?

— Achei que tivesse dito ontem a noite que estava em Moscou e viria de lá direto pra cá? — lancei um olhar sério para Dayse que assobiou e riu logo em seguida.

Durante esses dias do Grissom longe, todas as noites ele me ligava para nos falarmos um pouco sobre como foram nossos dias e ontem ele mencionou que viria hoje de Moscou para os EUA e dormiria lá em casa comigo. Quando fosse amanhã pela manhã, nós iríamos para Santa Mônica. Mas agora ele me diz que está em Munique de novo?

— Fui intimado pelos meus amigos que todos os anos vêm daí dos EUA para esse evento aqui em Munique, a comparecer na Oktoberfest ou do contrário esses malucos iriam me caçar onde quer que eu estivesse para me trazer ao festival.

Um homem que devia estar perto de Gil gritou pedindo mais cerveja e o Sr.Gostoso reclamou do grito do sujeito de nome Nick.

— Estou ligando pra te dizer que os planos de eu ir hoje para os EUA e dormir aí com você na sua casa, mudaram. Partirei daqui de madrugada e pela manhã cedo estarei aí. Esteja pronta às oito, pois vou mandar o Luke te buscar pontualmente nesse horário, tá bom?

Eu ia preferir que Gil viesse pessoalmente me buscar, mas se ele ia mandar o motorista dele, tudo bem, concordei sem fazer birra sobre isso, mas querendo muito comentar sobre esse seu regresso a Munique. Quando ele foi para lá? E por que não me disse ontem mesmo acerca desses planos de retorno a Alemanha?

Antes que eu ousasse tentar saber essas coisas, ouvi com desagrado vozes animadas e uma risada escandalosa de mulher bem perto de Grissom chamando-o de Griss.

Rapaz, eu não gostei nada de ouvir essa intimidade toda.

— Tem mulher aí com você, Grissom?

— São amigas apenas.

Amigas??? Então era mais de uma mulher que tinha lá com ele? A ciumenta dentro de mim gostou menos ainda dessa história.

Eu já ia comentar algo a esse respeito quando ouvi ao fundo um homem dizer para Grissom desligar logo que já ia começar o show.

— Já vou, cara! — Gil resmungou. — Preciso desligar, Sara. Nós falamos amanhã, tá bom?

Ainda que eu quisesse discutir, resolvi me calar e guardar para amanhã qualquer cobrança e explicações.

— Acho bom você se comportar por aí, porquê do contrário amanhã, eu arranco seus belos olhos azuis, cretino. — ele riu. Acho que aquele cretino pensava que eu estava brincando, mas eu não estava não. Falei muito sério.

— Pode deixar!

A ligação se encerrou, mas eu fiquei com aquela história de "amigas" engasgada e dividi com Dayse isso.

— Em outra ocasião eu diria para você ficar de boa. Mas depois do que o Damien me aprontou, sugiro você ficar esperta amiga.

E eu ficarei. Amanhã eu vou sabatibar esse cretino.

Quando foi à noite em casa, tentei entrar em contato com Grissom assim que cheguei do trabalho, para saber mais sobre essas "amigas" que estavam com aquele cretino na tal Oktoberfest, já que eu não estava me aguentando de "curiosidade". Mas o celular daquele maldito só dava desligado. E por mais que eu não quisesse, algumas caraminholas vieram atentar mais ainda a minha cabeça.

****

No dia seguinte acordei mais cedo do que o necessário. Para ser bem franca quase não consegui dormir direito por dois bons motivos: o primeiro era o nervoso pelo encontro que teria em algumas horas com meus pais e o segundo era o fato de Grissom na tal Oktoberfest com essas "amigas".

— Sara!

Olhei para a porta do quarto de onde Dayse me chamou. Minha amiga me informou que Luke já estava subindo. Avisei ao porteiro que pedisse para o motorista subir quando chegasse.

— Nossa quanta pontualidade! — notei no meu relógio de pulso que eram exatas oito horas como Gil informou que o motorista viria.

— Parece até britânico, né?

Assenti e apanhei a pequena bolsa com três mudas de roupas. Saí do quarto com Dayse me acompanhando. Chegamos na sala e a campainha soou.

— Oi, Luke! — cumprimentei-o ao abrir a porta e vê-lo parado ali em seus óculos escuros, trajando um terno preto, camisa clara e gravata.

— Bom dia, senhorita Sidle. — ele retirou os óculos e guardou-os no bolso do palitó.

— Não precisa dessa formalidade toda, Luke. Pode me chamar apenas de Sara. — pedi, mas o sujeito não negou e nem concordou com meu pedido. — Desculpa ter feito você subir, mas eu não daria conta de descer com dois quadros e a minha bolsa. — contei. — Você pode levar os quadros pra mim.

— Claro, senhorita. São aqueles?

Eu pensei em novamente corrigí-lo pelo "senhorita", mas deixei para lá.

— São. — confirmei e o motorista alto e forte feito um segurança particular, foi até o sofá e apanhou com facilidade aos dois quadros que estavam embalados. Então me virei para Dayse e nos despedimos com um abraço apertado.

— Espero que no fim dê tudo certo por lá e seus pais não fiquem contra você.

— Acho difícil, mas vamos ver.

****

O silêncio dentro do carro era enorme. Desde que entramos naquele veículo que o motorista não disse uma palavra sequer. Resolvi então puxar assunto com ele.

— Gil comentou comigo que você tem uma filha e a garota se operou recentemente. — Luke apenas me encarou pelo retrovisor enquanto estávamos parados esperando o sinal abrir para seguir viagem. — Ela está se recuperando bem?

— Está sim, senhorita.

E lá vinha a formalidade de novo!

— Você vai mesmo seguir com esse tratamento formal comigo, né?

— Me sinto melhor e prefiro tratá-la assim.

Aquele tratamento me incomodava, mas fazer o quê se Luke prefere essa formalidade toda?!

— Tá bom então. — não ia mais insistir e tentaria lidar com seu jeito formal.

Seguimos o restante do percurso calados, já que pelo visto falar não era algo muito apreciado pelo motorista. Minutos mais tarde, Luke estacionava o carro preto numa pista há poucos metros de distância de uma aeronave branca. Da janela escura do veículo vi Gil sair do jato e descer pelas escadas do mesmo enquanto falava ao telefone.

Suspirei. Aquele cretino estava tão lindo e gostoso usando uma justa camisa vinho, com as mangas dobradas até a altura dos antebraços, calça escura, sapatos pretos e ósculos de sol estilo aviador.

Sara Sidle, você é uma baita de uma sortuda do cacete em ter esse homem!

Sorri concordando plenamente com aquela voz safada na minha cabeça. Mas aquele "amigas" e a intimidade daquele "Griss" dito por uma voz feminina ontem, me fez lembrar que tinha que tirar aquela história a limpo com ele.

— Senhorita! — saí do meu momento de "babação" no Gil para encontrar Luke com a porta do carro aberta para eu descer do veículo. Acho que ele já estava ali há uns segundos.

Sem graça sorri para ele e saí do carro já vendo Gil que não mais falava ao celular, vir até mim estampando aquele seu sorriso cafajeste que eu aprendi a gostar assim que começamos a ficar juntos de fato.

Assim que chegou o suficientemente perto de mim, Gil me presenteou com um longo e caloroso beijo. Mais ainda me vi admitindo a enorme falta que já sentia daquele homem por todos esses dias em que ele passou longe de mim. E a julgar por essa recepção calorosa de sua parte, creio que ele não seria louco de aprontar alguma para mim. Gil me amava e já deu mostras disso, mas não custa nada interrogá-lo sobre suas amigas.

— Já estava com enormes saudades de você. — ele me sussurrou de maneira rouca após o beijo.

— E eu de você.

Admiti alisando a lateral de seu rosto, sentindo os pêlos de sua barba arranharem a palma da minha mão.

Ele sorriu de uma maneira tão linda e sedutora que fiquei até sem ar. Então Gil me deu outro beijo, porém este foi curto e rápido.

— Vem. Vamos para dentro do jato.

Abraçados seguimos para a aeronave. Já lá dentro e acomodada numa confortável poltrona bege, eu analisava o interior do jatinho enquanto Gil tinha ido falar com o comandante.

Em uma mescla de tom bege com branco e detalhes em madeira, o luxo e a sofisticação reinavam ali, tal como foi no veleiro. Pelo visto Gil gosta de coisas boas e caras. Veleiro, carros, helicóptero, jato. Me pergunto se o pai dele de fato lhe deserdar, como ele manterá esse padrão alto de vida.

— Em poucos minutos saímos!

A fala de Gil ao se acomodar na poltrona ao meu lado me tirou dos pensamentos que estava tendo.

— Já tomou café?

— Não. Pra ser franca não estou com um pingo de fome.

— Mas tem que comer alguma coisa, querida.

Ele sinalizou para comissária e então pediu à ela que providenciasse dois cafés e alguns acompanhamentos para nós.

— Gil, eu disse que não queria comer, sério.

— Mas vai, nem que seja um pouco.

— Você ultimamente tem andado mandão demais para o meu gosto, sabia?

Ele sorriu e segurando meu queixo beijou-me de uma maneira mil vezes mais ardente e lasciva do que momentos atrás quando nos encontramos. E esse seu beijo prontamente retribuído por mim ascendeu meu louco desejo de levá-lo para a cama e ser sua como há dias não acontecia.

Será que naquele jatinho tinha um quarto? Porque naquele momento meu corpo deseja o de Gil. Cinco dias sem aquela peste deliciosa de homem e ele me vem com um beijo avassalador como aquele que trocávamos? Meu corpo não pensou duas vezes em entrar em combustão instantânea pelo do meu Sr.Gostoso. Ele e esse seu poder sobre mim e meu líbido.

Você é insano
Meu desejo
Um jogo perigoso
Amor, amor

(Love Is MadnessThirty Seconds To Mars feat. Halsey)

Só que para minha inteira frustração e total desgosto, Grissom pôs fim ao nosso beijo pouco tempo depois sussurrando-me um sedutor "mais tarde a gente continua de onde paramos".

"Mais tarde" não demora muito para chegar, por favor!

Momentos depois com a aeronave já tendo levantado voo e nós dois terminado de desfrutar o café que a comissária nos trouxe, era hora de "sondar" Gil sobre o tal festival e sobre quem eram essas amigas que estavam com ele, principalmente, a que lhe chamou de Griss, pois isso não tinha me agradado nada.

— Como foi o tal festival da cerveja que você foi ontem?

Sorrindo o Sr.Gostoso contou que foi muito bom. Inclusive, ele puxou o celular e me mostrou umas fotos dele com os amigos e as tais amigas lá no evento em Munique. Era um grupo de dez pessoas contando com Grissom. Seis homens e quatro mulheres que o Sr.Gostoso tratou de me dizer o nome de cada um. Todos eles inclusive o próprio Grissom usavam umas roupas que para mim pareceram engraçadas e me fizeram até sorrir. Grissom tratou de explicar que aquelas vestimentas eram trajes típicos alemães chamados Lederhosen e Dirndl! Calças de couro, para os homens, e vestidos típicos, para as mulheres.

— E têm que ir com essas roupas?

— Não é obrigatório, mas é bem mais divertido ir dessa forma a caráter para uma festa alemã.

Dentre as fotos que vi, notei que das quatro mulheres havia uma — Catherine era o nome dela — que na maioria das vezes sempre saía ao lado de Gil abraçada a ele e isso não me agradou.

— Essa Catherine tá sempre pendurada em você. — comentei em desagrado ao ver mais uma foto em que aquela mulher de cabelos acobreados estava agarrada de maneira bem possessiva ao braço de Grissom numa foto em que eles estavam acompanhados também por um sujeito e outra mulher.

— Ah, é que nós somos muito próximo. Ela é uma grande amiga minha.

— Uma "amiga" tipo a tal Heather era? — disparei sem papas na língua.

Pela forma como aquela Catherine aparecia nas fotos, Gil e ela demonstravam uma intimidade grande demais para o meu gosto. Seria ela a mulher que escutei chamá-lo de Griss?

Grissom olhou para mim e riu não sei do quê, se não falei nada de engraçado.

— Está com ciúmes, querida?

Aquele seu sorriso provocador e debochado me fez espremer os olhos de raiva.

— Se eu estiver?

A bem da verdade é que eu estava. A intimidade dele com aquela estranha — para mim ela era uma estranha, já que não a conhecia — era enorme.

— Não têm porquê. — ele segurou minha mão. — Como eu disse Catherine é uma grande amiga. Nos conhecemos na faculdade. Ela é maluca, mas uma boa pessoa, a melhor amiga que tenho.

— Sei... Quando nos falávamos ontem, escutei uma mulher te chamar de Griss. Por acaso foi essa Catherine?

— Foi. Alguns amigos e amigas me chamam assim ou Gil.

— Hum... Você e essa Catherine nunca tiveram nada?

Eu e a minha curiosidade mórbida!

— Não, meu amor. Sempre fomos amigos. Mas não nego que quando a conheci até tentei algo com ela, só que a Catherine me deu um tremendo passafora. — ele riu fazendo uma careta engraçada.

— Ela é casada?

— Nossa! Quanto interrogatório. — ele riu, mas eu não. E notando isso, Gil tratou de responder a minha pergunta logo. — Divorciada há anos. E gosta do Warrick. Esse aqui. — Gil mostrou a foto de um amigo seu que estava junto com ele e a tal Catherine numa foto. O trio segurava cada um, uma caneca enorme de cerveja. — Mas não se declara pra ele.

— Por que?

— Medo por ser mais velha que Rick poucos anos. O que eu já falei pra ela que é uma bobagem, mas Catherine não vê assim. E ainda tem a filha dela adolescente. Cath acha que a Lindsey não aceitaria a relação.

Então essa Catherine tinha interesse em outro e não no Grissom, bom saber.

— Então realmente você e essa Catherine são só amigos?

Não custava nada me certificar novamente sobre isso.

— Sim. Não tem porquê ficar com ciúmes dela ou de nenhuma dessas minhas amigas. Até porque tirando a Catherine as demais são todas comprometidas com amigos meus por sinal.

Pelo visto, realmente, eu não tinha que me preocupar em relação a isso. Mas vou manter o meu pé atrás só por garantia já que o "seguro morreu de velho".

— No próximo fim de semana, você podia ir comigo a Munique pra eu te levar ao festival. — Gil acariciou com o polegar o dorso da minha mão que ele ainda mantinha segura a sua. — A Oktoberfest começou ontem e vai durar mais três semanas.

— Isso foi um convite?

— Claro. Vamos? Vai se divertido. A Catherine e a Lindsey ainda vão estar lá, pois ficarão hospedados na minha casa por quinze dias. Aí já te apresento pra elas logo.

Isso me pareceu bom. Conhecer essa tal Catherine me deixaria com zero de preocupação a seu respeito.

— Pode ser!

— Se quiser leva a Dayse. O Lewis parece que vai nessa próxima semana também conosco. Aí, sua amiga faz companhia pra ele, já que Edgar não poderá ir por conta do trabalho dele.

— Tá bom. Vou falar com ela. — aposto que a Dayse vai topar na hora. Festeira como ela só, não vai dispensar uma boa farra como essa, ainda mais, se tem cerveja no meio.

— Ótimo! — ele beijou o dorso da minha mão.

****

Assim que o jato aterrissou já havia um carro a nossa espera. Do aeroporto Grissom achou melhor já seguirmos direto para a casa do meus pais e falarmos logo com eles. Gil queria resolver essa questão o quanto antes.

— Suas mãos estão frias, querida. Quer que eu peça ao Luke para diminuir o ar condicionado do carro?

— Não. As minhas mãos estão frias assim de nervoso mesmo e não por causa do ar condicionado.

Agora que já faltava tão pouco para estar diante dos meus pais, mais nervosa eu me encontrava.

— Vamos ser positivos e acreditar que vai dar tudo certo? — ele esfregava suas mãos nas minhas para aquecê-las.

— Eu até queria achar isso, só que não consigo.

Juro que eu até estava tentando ser positiva, só que no fundo sentia que a coisa não ia sair tão bem assim.

— Gil me deixar falar com eles sozinha primeiro.

Fiz uma nova e última tentativa de fazê-lo mudar de ideia em me acompanhar nessa conversa. Na minha concepção seria melhor falar com meus pais sozinha sem a presença dele.

— De novo isso, Sara? Não! Já falei pra você que quero estar do seu lado quando falar com eles.

— Grissom, eu estou pedindo, por favor. Me deixa falar a sós com eles sobre nós.

Já não era mais nenhum pedido, era uma súplica mesmo.

Ele suspirou e largou as minhas mãos para se pôr a fitar a paisagem lá fora pela janela do carro.

— Grissom??

— Você tem uma hora, Sara!

— Como assim?

Foi então que ele explicou que me deixaria na casa dos meus pais e ia procurar um hotel para ficarmos hospedado, depois de uma hora voltaria a casa para me buscar e também falar com meus pais.

Ele só podia estar brincando. Queria que eu falasse e resolvesse um assunto daqueles em uma hora apenas. Não tinha como!

— Uma hora não é tempo suficiente, Gil.

— É tempo de sobra.

— Claro que não!

— Sara é isso ou eu vou com você como é da minha vontade. Aliás, me diz por que raios não quer que eu esteja presente quando contar?

— Eu tenho medo da reação deles, principalmente a do meu pai. Se você estiver junto quando chegarmos lá e eu contar sobre nós, temo que ele... sei lá, parta pra cima de você.

— Carl me pareceu uma pessoa tranquila, sensata e compreensiva.

— E acredite que ele é, mas o que eu contarei, pode lhe fazer sair do prumo a ponto de partir pra cima de você. E eu quero evitar isso, Gil.

Um enfrentamento entre os dois homens que eu amo não era algo que eu queria ver acontecer. Sem contar que Grissom a meu ver já extrapolou sua cota de brigas. Basta a que teve com o pai dele e com Bryan, sendo que esta última lhe custou até algumas horas na cadeia.

Grissom ficou me encarando sério por longos segundos até que por fim concordou com o meu pedido de falar sozinha com meus pais. E ainda mudou de ideia dizendo que eu levasse o tempo que fosse falando com meus pais.

— Me ligue quando acabar a conversa. Eu vou te buscar e falo com eles.

Sorri aliviada e satisfeita por ter conseguido fazê-lo mudar de ideia mais uma vez.

— Obrigada! — lhe dei um beijo no rosto.

— De nada! Mas saiba que não estou nada contente com essa decisão.

Eu imaginava. Desde o princípio ele sempre deixou claro que queria estar ao meu lado e deve ter sido um balde de água fria em suas intenções ceder ao meu pedido de não me acompanhar.

— Chegamos, senhor!

As palavras de Luke me privaram de contra-argumentar o que Gil havia dito. Acho até que foi melhor assim, pois era capaz de acabarmos discutindo ali.

— Me deseja boa sorte? — pedi antes de descer do carro, o qual Luke já havia aberto a porta para mim.

De maneira emburrada e visivelmente insatisfeito com aquela situação toda, o Sr.Gostoso me desejou o que lhe pedi. Eu lhe dê um beijo e afirmei que ligaria para ele assim que conversasse com meus pais como ele pediu.

— Estarei esperando sua ligação no hotel.

Assenti e antes de sair do carro dei outro beijo em Gil, este porém, bem mais profundo e nada comportado que seu antecessor. Só então, depois desse beijo que desci do veículo vendo um sorriso estampando o rosto de Gil.

— Tchau! — acenei para ele que me acenou de volta.

— Quer que eu lhe ajude a levar os quadros até a porta da casa.

— Não, Luke. Obrigada. Eu dou conta.

Como eu estava sem a minha valise mesmo, então daria conta perfeitamente dos quadros.

Atravessei a rua e alcancei a casa dos meus pais. Toquei a campainha e vi o carro de Gil seguir caminho até dobrar a esquina da rua.

Esperei apenas uns segundos para ver a porta se abrir e Li sorrir ao me vê

— Sarita, mi querida!

Ela me abraçou carinhosamente e me ajudou a entrar em casa com os quadros.

— Cadê sua mala?

— Não trouxe! Provavelmente eu volte hoje pra casa. Só trouxe mesmo esses presentes para os meus pais. E por falar neles, onde estão? — larguei a bolsa no sofá após ter ajeitado um dos quadros próximo ao móvel junto com o outro que Li havia posto ali.

— Estão trancados no escritório com Maryane.

Notas finais
Eita! Parece que Maryane tomou a dianteira da Sara. Será que a priminha da nossa protagonista vai descumprir o ultimato que Grissom lhe deu ao terminar o noivado deles, e desse modo contar a Carl e Laura sobre o relacionamento do Sr. Gostoso com Sara? No próximo capítulo vocês irão descobrir. Beijos e até lá.