One Night - Livro 1

32 Capítulo XXXII


Notas iniciais
Teremos um novo e impertinente personagem entrando na estória nesse capítulo. Trata-se de alguém significativo no enredo e vocês já vão descobrir por quê dele ser significativo.

Assim que abriu a porta da casa de seu patrão um tempo mais tarde à sua saída, Hellen se desagradou profundamente ao ver a figura do sujeito esnobe e altivo parado diante dela. A empregada não gostava nada daquele amigo de seu patrão e tinha razão de sobra para isso.

— Vim ver meu amigo. Ele se encontra?

Bryan foi entrando sem pedir licença ou qualquer consentimento. O sujeito era folgado e um velho amigo de Grissom, além de seu advogado particular. Os dois eram amigos de longa data, inclusive, quando Bryan se formou, Gil o chamou para advogar para ele. E nisso lá se iam anos de amizade.

Casado e pai de dois filhos pequenos, Bryan não vale nada. Vive tendo casos escusos e aventuras amorosas pelas costas da esposa, que até sabe das suas puladas de cerca, mas faz vista grossa e não se separa do marido para evitar escândalos, pois sua família é uma das mais tradicionais e conservadoras da sociedade. E com isso, Dominique vive uma relação de fachada com o advogado.

— O patrão não está. Foi ao escritório despachar uns papéis a pedido do pai dele.

— Ah, claro. O velho Grissom manda e o filho obediente acata. Gil vive reclamando do velho dele, mas no fim das contas sempre faz o que Joseph manda.

— O senhor vai esperá-lo? — Hellen quis saber ignorando o comentário deselegante daquele sujeito arrogante.

Bryan ia dizer que voltaria amanhã para visitar o amigo, mas ouviu o barulho de alguém se jogando na piscina. Achando que fosse uma pessoa conhecida por ele, o advogado decidiu ficar por ali e esperar seu amigo voltar, e de quebra enquanto isso não acontecia, ficava batendo papo com certa "amiga".

— Eu vou sim esperar o Gil voltar, Hellen. — a empregada não gostou nada dessa resposta dele. Adoraria que ele se fosse dali. — É Maryane por acaso quem está aí na piscina?

— Não! — negou a mulher no mesmo instante. — É uma amiga do patrão.

— Ah, uma amiga. — o sorriso malicioso dele ao falar não passou desapercebido por Hellen. — Vou lá então conhecer essa "amiga" do seu patrão. Leve um suco de laranja sem açúcar e bem gelado para mim.

Dito isso, o sujeito saiu na maior arrogância e petulância em direção a área externa do apartamento.

Hellen apenas ficou observando descontente Bryan sair. A empregada só torcia para seu patrão chegar logo e para Sara não ser como sua prima e dar confiança àquele sujeito descarado que era Bryan.

Às vezes, Hellen sentia vontade de dizer para Grissom quem era de verdade o amigo dele, mas tinha receio de contar o que sabia e seu patrão não acreditar nela e sim, numa possível negação que certamente, seu amigo faria caso ela lhe dedurasse a Grissom. Eles eram amigos há anos e ela era somente uma emprega, que tinha pouquíssimos meses de trabalho ali. E entre o amigo e ela, era óbvio que seu patrão acreditaria no amigo dele.

****

A água da piscina estava uma delícia. Me propus a nadar de uma extremidade à outra lembrando os tempos em que eu fazia natação no colégio. Ao alcançar a outra borda da piscina e emergir da água, me deparei com um sujeito em pé ali diante de mim. Ele tinha as mãos enfiadas nos bolsos da calça bege e sorria.

— Nossa, você nada como uma atleta.

— Fiz natação dos seis aos doze. — comentei, achando estranha a presença daquele desconhecido.

— Ah, tá explicado.

Quem era aquele cara?, me questionei enquanto me diria até a escada de ferro para assim sair da piscina. Notei que ao estar fora da água, o sujeito desconhecido me encarou descaradamente de cima abaixo.

— Você nada como uma atleta e ainda é linda como uma sereia.

Não gostei nada deste seu elogio e muito menos, de ver a forma despudorada com a qual aquele desconhecido me olhava em quanto falou aquilo. Ele parecia estar despindo-me com os olhos. E isso me incomodou bastante.

Imediatamente apanhei o roupão de cima da espreguiçadeira e me cobri.

— Quem é você? — indaguei assim que amarrei o laço do roupão.

— Bryan ao seu inteiro dispor, linda sereia. Sou um velho amigo do dono da casa.

Ele me estendeu a mão. Só por pura educação aceitei o cumprimento e vi com desagrado o sujeito levar minha mão até seus lábios, e plantar um beijo demorado no dorso dela. Mas que sujeito abusado!

— Eu não sou nenhuma sereia. Me chamo Sara. — puxei delicadamente minha mão, livrando-a do contato com as daquele sujeito.

— Um nome tão lindo quanto a dona dele.

Aquele sujeito estava me cantando na cara dura. E eu já ia dizer que ele parasse com aquilo, mas a vinda de Hellen me impediu de tal ação.

Percebi a empregada nada contente ao servir um copo de suco para o tal Bryan. Depois se dirigindo a mim, Hellen disse que o outro copo, ela tomou a liberdade de prepará-lo para mim.

— Ah, obrigada, Hellen. — agradeci, apreciando sua iniciativa. — Você leu a minha mente, pois eu estava precisando de um suco mesmo. — com o calor que estava fazendo já aquele horário, um suco era tudo que eu necessitava.

A emprega sorriu-me contente e pude ver seu olhar bater de relance em Bryan. Depois a empregada informou ao sujeito, que falou com Grissom ainda pouco por telefone e ele avisou que já estava à caminho de casa.

Pelo visto o Sr.Gostoso levou a sério o horário estipulado.

— Que bom então, que meu amigo já estava vindo! Agora, você pode se retirar e me deixar na companhia da amiga do seu patrão.

Que cara deselegante! Olhei para ele nada satisfeita por sua fala. Ele falou com Hellen de uma forma nada gentil. Vi a mulher sair dali nada satisfeita. Não consegui me segurar. Detesto gente que tratar os outros desta maneira só porque são empregados.

— Você não tinha porquê falar com ela assim. — recrimei o tal Bryan pelo jeito como se portou a Hellen. Foi de uma grosseria e tanto da parte dele aquilo.

— Ah, ela é uma simples empregada e o lugar dela é na cozinha.

Eu o encarei com desgosto e desaprovação total por suas palavras. Detestava quem tratava as pessoas daquela maneira inferior como Bryan acabou de tratar e se referir a Hellen. Me dava raiva situações assim.

— Hellen pode ser uma empregada, mas merece todo respeito. Diria até que neste momento ela merece mais respeito que você, um sujeito letrado, mas que se mostrou agora altamente arrogante. — depositei o meu copo de suco num banco perto da espreguiçadeira e cruzei os braços ao encarar o tal de Bryan.

Se era algo que me tirava do sério era gente com ar de superioridade como aquele sujeito se mostrava ser em potencial.

— Opa! — ele ergueu a mão que estava livre e não segurava o copo e sorriu. — Me desculpe se passei uma ideia errada e deturpada de mim à você. Retiro o que disse sobre Hellen. Foi apenas uma brincadeira.

— De péssimo gosto sua brincadeira. — rebati na mesma hora. — Não é porque ela é uma empregada, ou melhor dizendo, uma secretária do lar, que tem que ser tratada com inferioridade.

— Já vi que você é uma protetora das classes mais pobres e oprimidas.

Eu estava começando a pegar abuso desse sujeito.

— Acho que o único pobre aqui é o senhor. E não é um pobre de dinheiro e sim, de espírito. — não me segurei outra vez.

— Oh, me desculpe. Não quis irritá-la outra vez com minha infeliz brincadeira.

Outra brincadeira de extremo mal gosto.

— Ainda bem que reconhece que foi infeliz sua brincadeira. Outra por sinal.

— Hellen me disse lá dentro que você é amiga do Grissom. De onde se conhecem?

— De uma festa! — me limitei a falar. Não ia ficar dando detalhes para ele. Não sei até que ponto Grissom e ele são amigos. E ainda que soubesse, não ia ficar partilhando minha intimidade com aquele sujeito de quem não gostei nada.

Graças ao bom Deus, Gil chegou poucos instantes depois. Respirei tão aliviada com sua chegada, pois não teria mais que aturar sozinha a presença intragável daquele amigo dele.

Quando Grissom viu o tal Bryan, foi imediatamente à ele e os dois trocaram um longo abraço regado a muitos tapas nas costas. Pelo visto eles são bem amigos mesmo.

— Quando voltou de Cancún? — Gil perguntou ao se postar ao me lado.

— Ontem a noite. E vim ver meu velho amigo. Como está?

— Estou ótimo.

— Dá pra ver! — o olhar de Bryan direcionou-se a mim, que naquele momento tinha um dos braços de Gil em torno da minha cintura.

Cansada de olhar para a cara daquele seu amigo e de ser alvo de seus olhares, eu resolvi sair dali.

— Gil, eu vou a cozinha, tá bem?

Eu necessitava sair dali de perto daquele tal Bryan. Seu olhar estava me incomodando demais.

— Claro, querida.

Me retirei dali rapidamente sem ao menos pedir licença ou dirigir qualquer palavra aquele amigo de Gil.

Cheguei a cozinha e encontrei Hellen cortando uns temperos.

— O senhor Grissom ficou lá com o amigo dele?

— Sim. E quer saber? Não gostei nenhum pouco desse Bryan. — revelei a ela enquanto sentava numa das banquetas do outro lado do balcão onde Hellen estava.

— Eu também não gosto nada desse sujeito. Ele não vale nada.

— Pelo pouco tempo que fiquei de papo com ele senti que não vale nada mesmo.

— Bryan foi impertinente com você?

Impertinente não seria bem o termo, mas também podia ser usado.

— Um pouco, mas eu o pus no lugar dele.

Percebi que Hellen apreciou bastante minha resposta.

— Vai contar ao patrão sobre o comportamento do amigo dele com você?

Eu até poderia, na verdade, até devia contar. Mas conhecendo o lado ciumento dele, achei melhor não dizer nada. Além do mais não queria arrumar confusão entre dois amigos. Eu mesma já tinha cuidado do meu jeito daquele sujeito. Não era necessário contar nada a Grissom.

— Acho melhor não. Pelo que pude perceber, eles são bem amigos e não quero causar briga entre eles. Já coloquei o tal Bryan no lugar dele.

— Me desculpe, mas acho que deveria contar, Sara. Assim o patrão abre os olhos de uma vez para esse amigo dele que não é quem ele pensa que é.

Detectei na hora certa raiva em Hellen quando ela proferiu tais palavras em referência a Bryan.

— Você pelo visto realmente não gosta do Bryan, não é?

— Nenhum pouco. Ele não é um bom sujeito. Se faz de amigo do doutor Grissom, mas apronta nas costas dele. É um canalha esse Bryan.

Aquela revolta dela com aquele sujeito devia ter um fundamento forte. E me parecia que Hellen queria me dizer, mas ao mesmo tempo não. Resolvi arriscar lhe perguntando:

— Você está querendo me dizer alguma coisa a mais a respeito desse homem, Hellen?

Ela hesitou um pouco em falar. Aquilo já me deixou com a pulga atrás da orelha. E mais encafifada eu fiquei quando ela me respondeu.

— A verdade é que eu até quero sim. Mas não sei se devo contar, porque envolve sua prima. Além do mais, o que eu disser pode me prejudicar e até me fazer perder o emprego. E eu preciso desse trabalho.

Se envolve Maryane mais ainda quis saber.

— Hellen seja lá o que for, pode confiar em mim e me contar tudo.

Ela pensou e pensou, talvez ponderando se contava ou não. Levou quase uns quinze segundos nisso, dela calada revezando seu olhar entre mim e a tábua de vidro onde cortava os alimentos. Até que por fim Hellen me respondeu.

— Não. Melhor não, Sara. Eu não acho uma boa ideia contar. Na verdade nem devia ter mencionado nada. Me desculpe.

— Hellen... — eu ia já insistir por uma resposta satisfatória, mas não houve tempo, porque Gil apareceu na cozinha acompanhado do amigo.

— Ei, mas você gostou de conversar com a Hellen mesmo, não é?

A minha intenção de insistir para que Hellen me diga o que escondia sobre Bryan e Maryane, foi para o ralo.

— A gente meio que se deu bem. — justifiquei com um sorriso.

— Percebi. Hellen quando você colocar a mesa ponha mais um prato, Bryan vai almoçar aqui.

— Sim, senhor.

Detestei o fato de ter a companhia daquele tal Bryan durante o almoço e Hellen pelo visto mais ainda. Mas tanto eu quanto ela não dissemos nada a respeito.

— Eu vou subir e pôr uma roupa.

Não ia continuar em hipótese alguma de roupão na frente daquele amigo do Gil. Aquele sujeito quando me olhava parecia me devorar. E o pior é que Grissom nem percebia isso. E eu rezava para ele nem perceber nada mesmo, porque conhecendo seu jeito ciumento, coisa boa não ia sair dali.

— Nós vamos esperar por você na sala.

Assenti e Gil na companhia de Bryan se retirarem da cozinha comentando sobre a viagem do sujeito.

— A nossa conversa não termina aqui, Hellen. Eu quero saber depois o que você sabe sobre esse amigo do Gil que envolve a minha prima. — comentei ao encarar Hellen.

— Sara, eu acho melhor você esquecer que mencionei qualquer coisa a esse respeito.

— Impossível. E mais tarde, você e eu vamos conversar.

Ela não disse nada apenas assentiu em resposta.

Saí da cozinha e me dirigiu para o quarto de Gil. Mas antes passei as pressas pela sala achando que eles estivessem ali. Mas felizmente não estavam. Vai ver tinham ido para o escritório de Gil.

Momentos depois enquanto estava sob os jatos de água quente do chuveiro, eu tentava supor qual poderia ser o segredo que Hellen escondia e que envolvia tanto o amigo de Gil quanto Maryane.

Pela hesitação e receio da empregada em me revelar o que era, senti que se tratava de algo sério e delicado demais. Ou do contrário, ela não faria aquele mistério todo.

Do nada me ocorreu uma suposição que me deixou estarrecida caso fosse aquilo a verdade que Hellen escondia. Seria de uma baixeza sem tamanho da minha prima com aquele tal de Bryan, se de fato aquela minha suposição fosse real.

— Meu Deus! Não pode ser isso mesmo que eu estou pensando.

Notas finais
Vocês já imaginam o que seja isso que Sara pensou ? Qual é o segredo que Hellen guarda e que envolve Bryan e Maryane? Acho que dá pra imaginar, né? Mas qualquer dúvida à esse respeito, o próximo capítulo vai tratar de esclarecer as coisas. Esperem pra ler. Um beijo e até breve.