One Night - Livro 1

81 Capítulo LXXXI


Notas iniciais
Alice já, já você descobrirá a razão do Sr. Gostoso está se comportando tão frio nos dois capítulos anteriores.

"O telefone que você ligou se encontra desligado ou fora da área de cobertura."

Mais que merda! — larguei o celular ao meu lado no sofá. A minha raiva àquela altura já alcançava níveis altos. Era para lá da DÉCIMA QUINTA vez naquela noite que eu tentava entrar em contato com Gil pelo celular e nada. O telefone dessa casa em Nova York, eu não tinha somente o da casa de New Jersey. — Onde você se meteu, homem?

Ele sabia que eu ia ligar a noite. Eu havia lhe dito na nossa despedida na frente do cemitério pela manhã e Gil tinha assentido em concordância. Agora, cá estou há sei lá quanto tempo fazendo tentativas atrás de tentativas de entrar em contato com ele, mas nada de conseguir.

— E aí, Sara?

Dayse retornou para a sala com os nossos talheres para comermos o jantar que ela havia comprado no caminho do trabalho para casa.

— Nada!

— Vai ver que ele tomou um remédio pra dormir e apagou. — ela me estendeu os talheres ao se acomodar do meu lado no sofá.

— Mas eu disse que ia ligar. E, além do mais, Gil não me parece ser alguém que faz uso de remédio para dormir.

— Amiga as últimas horas pra ele e o irmão foram bem trash. Dormir por vontade própria nesse momento não deve ser tarefa fácil e recorrer à medicamentos para isso é a solução. Bem, no meu caso seria. Eu no lugar deles me entupiria de remédios para conseguir dormir. Liga amanhã. Ele não te disse que queria ficar sozinho?

— Disse!

— Então. Deixa o Grissom curtir o luto dele sozinho. Olha, vai começar a série. Silêncio!

Sem ter outra opção melhor para fazer só me restou acatar o coselho da minha amiga. Ligaria amanhã.

Momentos mais tarde, quando eu já terminava de jantar, o celular tocou e sob o olhar de Dayse apanhei o aparelho com demasiada pressa achando que fosse Gil, só que não se tratava do meu noivo. Era minha mãe que ligava por conta da morte do pai de Gil. Fui para cozinha conversar melhor com ela e não atrapalhar Dayse que queria assistir TV. Por quase meia hora dona Laura e eu ficamos conversando sobre o ocorrido. Ela meio que já sabia de algumas coisas por intermédio de Maryane (o que para mim não é novidade. Era óbvio que minha prima ia querer ser a primeira a dar a notícia aos meus pais), segundo minha mãe, ela e meu pai chegaram até a falar com Gil e lhe dar as devidas condolências, quando ligaram para Maryane mais cedo e esta os informou que estava dando carona a Gil após o velório do Joseph. Não gostei nada de saber que minha prima deu essa carona à Grissom. Realmente Maryane não se emenda. Só espero que tenha ficado apenas na carona e que ela não seja a responsável pelo meu noivo estar sumido.

Quando a ligação da minha mãe se encerrou, eu retornei a sala. Horas mais tarde, antes de dormir, não resisti e fiz mais duas tentativas de entrar em contato com meu noivo, sem obter sucesso.

— Por que você não está atendendo?

Não insisti mais e larguei de mão. Amanhã eu tentaria novamente entrar em contato com ele e esperava conseguir.

***

Tarde do dia seguinte...

— Oi! Sou eu de novo. Onde você está? Tô preocupada com essa sua falta de notícias. Me liga assim que ouvir os meus recados, por favor. Beijos. Te amo! — finalizei a ligação e devolvi o celular à minha mesa.

Suspirei, massageando as têmporas. Eu já podia sentir os indícios de uma enxaqueca daquelas vir atormentar minha cabeça. Tudo graças a esse silêncio de Gil. O celular dele seguia desde ontem a noite dando sempre naquela mensagem eletrônica irritante, que a cada nova tentativa que eu fazia e esbarrava nela mais raiva me dava.

O que será que estava acontecendo com Gil e seu celular?

Se eu não conseguisse entrar em contato com esse homem até a noite, ligaria para Lewis. Decerto, o irmão do meu noivo saberia me dizer o que estava acontecendo com Grissom e seu celular.

— Sara está tudo bem?

Levantei a cabeça e dei de cara com Brooke me olhando com certa preocupação.

— Dor de cabeça apenas. Mas já, já passa.

Pelo menos era o que eu esperava.

— Hum... Temos aquela reunião com os demais editores e assistentes lá com a chefia. Vamos?

— Ah, claro, vamos. — levantei-me e segui meu chefe.

Durante a reunião eu pouco prestei atenção no que diziam, porque estava com a cabeça mais preocupada no desaparecido do meu noivo. Pensando no por quê dele não ter entrado em contato comigo desde ontem. Mais de 24 horas que a gente não se falava e eu estava realmente preocupada com ele. E começava também a ficar irritada.

Quando a reunião acabou uma hora e meia depois, eu agradeci porque ao que parece ninguém notou a minha falta de interesse nela. Só que me enganei quanto a isso. Dayse e meu chefe notaram isso. A primeira sabia a razão de estar assim, já o segundo não e assim que saímos da sala de reunião, ele questionou:

— Você não está legal né, Sara? — ele me olhou de lado.

— Não se preocupe que estou bem. — me esforcei para parecer convincente, contudo falhei aos olhos astutos do meu chefe.

— Eu posso ver que não está. E durante a reunião notei você quase o tempo todo alheia ao que era dito.

Touché! Ele me pegou.

Eu não estava bem mesmo! E enquanto não conseguisse falar com Grissom não ficaria diferente daquilo.

— Meu noivo não anda me atendendo desde ontem e estou preocupada com ele. — resolvi compartilhar com meu chefe o que me afligia. — Ligo para o celular dele e só dá desligado.

— Já tentou o da casa dele?

— Não tenho o da casa que ele está.

— Sara, ele deve tá querendo ficar sozinho. Algumas pessoas gostam de se isolar e ficar incomunicáveis após perderem alguém importante. É o meio delas de lidar com o luto. Dá um pouco de tempo e espaço pra ele lidar com o que houve. Tenho certeza que logo ele te liga. — Brooke me abraçou pelos ombros e deu duas tapinhas de leve no meu braço.

Vai ver meu chefe tenha razão.

— Vou fazer o que você disse.

À noite, já em casa, eu quis muito fazer novas tentativas de entrar em contato com Gil, mas segurei a onda e segui o conselho do meu chefe. Nem para o Lewis, eu liguei apesar de também sentir enorme vontade disso.

Tempo e espaço!

Eu daria essas duas coisas ao Grissom. Vai ver que ele precisava mesmo disso!

Veio a quarta-feira e ao longo dela nada de sinal daquele homem. A minha preocupação já dava sério lugar a irritabilidade! Dayse tentou amenizar a situação alegando que Grissom certamente teria uma boa explicação para esse sumiço. Era o que eu esperava mesmo.

Quinta-feira de tempo nublado como o meu estado de espírito, já que também ao longo daquele dia aconteceu o mesmo que ontem e anteontem: sem notícias de Gil!

Céus! Quanto tempo e espaço mais esse homem vai precisar para entrar em contato comigo?

Eu já mal sabia se estava preocupada, irritada ou louca de raiva dele. Talvez fosse uma junção perfeita dos três!

Quando foi na sexta-feira de manhã, eu já não aguentei mais. No meu horário de almoço liguei para Gil e como nas minhas inúmeras tentativas anteriores também não obtive êxito nessas. Resolvi buscar informação em Lewis. Acredito que ele poderia me dizer algo. Liguei para o meu cunhado que atendeu a chamada no quarto toque.

— Lewis sou eu, Sara. Como vai?

— Oi, Sara.— seu cumprimento saiu amuado como não podia deixar de ser dada a perda ainda recente que ele sofreu. — Eu vou indo. Tentando me adaptar a ausência do meu pai, mas tá difícil.

Sempre é difícil se acostumar com a ausência deixada por alguém que partiu e não voltará mais.

— No começo é difícil mesmo. Mas com o tempo a dor da perda e a saudade se tornam menos doídas e mais suportáveis.

— É o que dizem?

— Sim!

— E você como está?

Foi impossível conter um suspiro de frustração escapar pela minha boca.

— Preocupada, frustrada e irritada com seu irmão. — enumerei com amargor. — Desde segunda que o celular dele só dá desligado. Você sabe me dizer o que está acontecendo, Lewis? — despejei de uma vez.

Antes de responder meu cunhado falou com alguém que chamou-o. Ele resmungou um "esse modelo é melhor" à pessoa e então tornou a se dirigir à mim pedindo desculpas pela interrupção. Alegou que era um de seus colaboradores querendo saber qual modelo esportivo de relógio ia estampar a campanha publicitária. Só então me dei conta de que podia estar atrapalhando-o. Me senti um pouco mal por estar lhe importunando na hora do trabalho, mas eu precisava sanar minha preocupação e curiosidade a respeito do irmão dele.

— Olha, Sara... Tudo o que eu sei é que o Gil viajou e não levou celular.

Minha boca se abriu em um descrente e enorme O.

Como assim ele viajou?

Essa era boa! Eu não sabia se ficava aliviada por nada de mau ter acontecido ao Gil ou se ficava puta de raiva por ele viajar sem ao menos ter a atenção de me avisar para não me deixar preocupada como fiquei. E, ainda por cima, não leva celular.

Que inferno!

— Viajou quando? E pra onde, você sabe me dizer?

Segundo Lewis explicou seu irmão lhe ligou segunda à tarde avisando que viajaria, porém não disse seu destino de viagem. Mas para Alemanha meu cunhado garantiu que seu irmão não tinha ido, porque havia ligado ontem tanto para a casa de Gil quanto para o escritório da Care em Munique, além do escritório da fábrica em Frankfurt, e nos três lugares as pessoas com as quais falou, afirmaram que Grissom não estava por lá.

— Onde diabos esse homem se enfiou, Lewis?

— Também adoraria saber, Sara. Mas assim como você, eu nada sei.

Parece que Gil resolveu sumir e não ser localizado!

Minha esperança era Lewis saber de algo, contudo, este sabia tão pouco quanto eu. Ao menos, eu já podia respirar aliviada por saber que Gil estava viajando por aí.

Pedi ao Lewis que se acaso seu irmão entrasse em contato com ele, para dizer-lhe que me ligasse, porque eu estava preocupada com ele. Meu cunhado garantiu que faria isso. A gente se despediu depois disso e cada um desligou a ligação.

Quer dizer que Gil viajou para sabe-se lá onde?

"Você podia ter ao menos mandado uma mensagem avisando: ô, sua idiota, eu vou viajar!", pensei com indignação.

O celular em minha mão tocou. Logo eu já me enchia de esperanças de que por pura coincidência ou casualidade fosse o meu noivo desmazelado. Mas ao olhar na tela do aparelho visualizei com certa decepção, que não era ele e sim, Owen ligando para confirmar nosso jantar mais à noite.

Putz! O jantar!

Com todos os últimos acontecimentos eu acabei esquecendo completamente que era hoje o tal jantar com o meu amigo. E para ser bem honesta, no atual momento, eu estava com zero vontade de sair, mas diante da voz empolgada de Owen me senti incapaz de desmarcar nosso compromisso e transferi-lo para outro dia, então confirmei o compromisso para aquela noite de sexta.

— Às oito no Juliette, né?

— Isso! — confirmei. E agradeci o fato de ele falar o horário e o local, porque me deu um branco e eu nem lembrava mais que horas e onde tínhamos combinado de jantar.

Meu amigo pediu para que eu lhe passasse por mensagem depois o endereço direitinho de lá. Concordei e nos despedimos com a promessa de mais tarde estarmos nos encontrando na frente do restaurante.

Assim que finalizei a chamada digitei a mensagem com o endereço correto do Juliette e enviei ao Owen.

Nem mesmo a curiosidade por saber o que o meu amigo me contaria mais tarde, fez diminuir ou amenizar a raiva e o ressentimento com Grissom por ter viajado sem se dar ao trabalho de me avisar.

— Ei, Sara. Você não vem almoçar? Daqui a pouco acaba o horário do almoço e você sequer comeu. Anda, vem!

Dayse saiu me arrastando refeitório adentro até chegarmos a nossa mesa onde o pessoal estava.

— Larga mão de namoro nesse celular, Sara e vem almoçar com a gente.

— Quem me dera estar namorando pelo telefone, Trent. Tem dias que não falo com o Grissom. Inclusive, ele viajou para sabe lá Deus onde. Soube disso agora pouco pelo irmão dele.

— Quer dizer que ele viajou?

— Exatamente, Dayse! — lancei um olhar nada amistoso.

— Ih, alguém tá encrencado, quando aparecer. — sibilou minha amiga.

E ela estava certa! Entendo perfeitamente que ele possa estar querendo um tempo sozinho para superar a perda do pai, mas não custava nada me avisar que ficaria em off, viajando para sei lá onde e sem querer conversar com ninguém. Eu juro que ia entender isso. De verdade! Agora, sumir assim, sem dar notícia ou satisfação, me deixando preocupada por dias a finco foi uma puta sacanagem dele.

Na primeira oportunidade em que nos ncontrarmos, eu vou reclamar disso com ele.

***

Diante do grande espelho na porta do closet, eu finalizei a maquiagem e dei uma última conferida no look que usava: calça flare preta, blusa off white com pérolas no decote, blazer verde com as mangas erguidas até a altura dos antebraços e um Scarpin Azul metalizado compunha meu visual.

Look ok!, pensei ao ver meu reflexo no espelho.

Só gostaria que o meu ânimo também estivesse OK, mas ele não estava.

Uma última escovado no cabelo só para domar os fios rebeldes que teimavam em ficar em pé, dois borrifos de perfume e eu estava pronta para sair, mas sem a maior vontade, diga-se de passagem.

Caminhando até a cama apanhei de cima dela a bolsa onde guardei o celular junto da carteira que já se encontrava lá dentro; saí do quarto e fui rumo à sala onde encontrei Dayse toda esparramada no sofá jantando enquanto assistia vidrada a nossa série preferida passar num canal fechado da TV.

— Dayse tô indo. — avisei, atraindo de imediato sua atenção para mim.

— Você não me parece lá muito animada para ir jantar com seu amigo. — observou minha amiga. Ela me conhecia bem, tão bem quanto eu a conhecia.

— E eu não estou mesmo. Só vou, porque já tinha combinado dias antes com Owen e detesto dar cano em compromissos já marcados com antecedência.

— Hum... A chave do carro está no aparador. Bom jantar!

— Valeu! — joguei uns beijos para ela antes de me dirigir para pegar a chave do carro e sair do apartamento.

Dirigindo para o restaurante eu me pegava pensando para onde meu noivo podia ter viajado. Sentia falta dele, além de certa raiva também por sua falta de consideração em me avisar que viajaria. Poxa, eu sou noiva dele não merecia uma satisfação?

Ele podia mandar um simples aviso por SMS mesmo dizendo: vou sumir por uns dias! Mas não houve da parte dele isso e tal desmazelo me deixou chateada... de verdade!

Parada no sinal vermelho escutei o celular tocar dentro da bolsa. Com rapidez apanhei o aparelho em mais outra esperança de ser Gil, mas não era. Tratava-se do Owen mesmo.

— Oi!

— Sara já acabei de chegar aqui no restaurante.

— Dez minutos e eu chego também.

— Tá bem. Vou te aguardar aqui na porta.

— Ok!

Desliguei já ouvindo o carro atrás buzinar, porque o sinal tinha aberto e eu continuava parada.

— Quanta falta de paciência, eu hein?! — reclamei, vendo pelo retrovisor o Dodge escuro e peliculado piscando os faróis.

Dei partida logo senão era capaz daquele imbecil impaciente passar com o carro por cima de mim.

No tempo estimado, eu estava estacionando do outro lado da rua onde ficava o restaurante. Enquanto desligava o carro e tirava o cinto de segurança avistei na porta do restaurante Owen vestido tão informalmente quanto eu em um look all black.

Apanhei minha bolsa e saí do veículo. Após acionar o alarme do carro, atravessei a rua e alcancei o Owen. Enquanto o cumprimentava com um abraço seguido de dois beijos no rosto, tratei de me desculpar pelo atraso. Meu amigo resmungou um "que nada" e ainda completou dizendo que meu atraso foi tão pequeno que ele não teve chance de sequer ficar cansado. Sorrimos e então eu o convidei para entrarmos no restaurante. Meu amigo concordou na hora.

A fachada simplória e iluminada do restaurante não fazia muito jus a elegância e charme do ambiente lá dentro. Owen se surpreendeu ao adentrar o restaurante.

Notei de soslaio meu amigo olhar embasbacado para o local lotado enquanto nos encaminhamos a recepção do local. O restaurante com três ambientes e dois andares, têm uma pegada francesa total; possuía uma decoração com antiguidades parisienses e itens colecionáveis, que criavam uma atmosfera agradável e romântica típica dos bistrôs parisienses, ao menos foi isso que Dayse me disse na primeira vez que estivemos ali. Minha amiga já havia viajado com os pais para Paris enquanto que eu ainda não, mas morria de vontade de conhecer a "cidade luz".

— E aí, o que achou do lugar?

— Maravilhoso! Tô sem palavras.

Foi exatamente assim que fiquei também ao entrar a primeira vez ali.

O gerente do local, um senhor baixinho e de cabelos grisalhos, que já havia se tornado um velho conhecido meu por conta das inúmeras vezes que vim aqui com Dayse, veio até meu acompanhante e eu e nos cumprimentou com seu costumeiro sorriso acolhedor. Após retribuirmos gentilmente ao cumprimento dele, Owen pediu uma mesa para dois.

— Aqui dentro mesmo ou na área externa? — inquiriu o sujeito.

Owen me olhou sem saber o que responder. Li em seu olhar um pedido de sugestão quanto a resposta da pergunta lançada.

— Não tem mais mesa no terraço?

— Infelizmente não, senhorita. Todas já estão ocupadas.

Poxa que pena. Adoro o terraço. Jantar lá ao ar livre é sempre tão maravilhoso. Mas como não tinha terraço, optei pela área externa mesmo. O simpático homem nos levou até lá.

Apesar do termo "área externa", o local possuía uma cobertura de vidro e compondo o visual ainda tinham várias plantas caídas do teto, que se espalhavam pelo ambiente criando um clima cool. Apesar de ali também ser super agradável e iluminado, eu ainda prefiro o terraço.

— O garçom já, já vem atendê-los. Tenham um ótimo jantar. — tendo dito isso o sujeito saiu nos deixando a sós.

— Nossa esse lugar tá me lembrando agora um bistrô que fui em Paris anos atrás. — Owen comentou, admirando o restaurante.

— Dayse disse o mesmo quando estivemos aqui pela primeira vez. Tenho maior vontade de ir à Paris.

— Pois super te recomendo ir. É uma cidade maravilhosa com cada ponto turístico mais bonito que o outro.

A ideia de conhecer Paris e com Grissom junto comigo nisso povoou minha mente. Seria o sonho do sonho ir à "cidade luz" com meu noivo. Quem sabe não possamos passar a lua de mel por lá? Era uma ótima sugestão que eu pretendia compartilhar com ele. E seria maravilhoso caso Gil concordasse. E lembrar do meu noivo me deixou meio mal e ao mesmo tempo cheia de saudades dele.

Gil onde você está?!

O garçom apareceu e nos estendeu o cardápio do restaurante.

O menu do Juliette não podia deixar de ser francês já que o restaurante é de influência francesa. No cardápio somente os clássicos dos clássicos da gastronomia da França. A diversidade de coisa boa tanto para quem é vegetariano como é o meu caso, quanto quem não é como Owen, é bem variado que escolher o que comer, ficava até difícil. Mas depois de alguns minutos nós já havíamos decidido sobre o que jantarmos:

De entrada para mim uma Soupe d'Oignons (sopa de cebola); como prato principal Ratatouille; e de sobremesa Tarte Tatin (torta de maçã).

Já para o Owen foi de Steak Tartare de entrada; Confit de Canard (coxa de pato cozida, acompanhado de batata sautée e salada) como prato principal; e Crème brûlée de sobremesa.

Para degustarmos enquanto o primeiro prato que pedimos não chega, Owen pediu um Pinot Noir para irmos bebendo.

— E então qual a razão deste jantar? — interpelei quando o garçom saiu e nos deixou sozinhos. Agora, devo admitir que bateu a curiosidade àquele respeito.

— Quanta pressa?!- Owen sorriu. — Só depois do jantar eu conto. Quero aguçar mais um pouco a sua curiosidade. — ele piscou e fez uma careta engraçada antes de provar sua bebida.

— Que maldade sua.

Owen riu.

Como meu amigo não quis falar por hora sobre o que nos trouxe à este jantar, nós engatamos em uma conversa que girou em torno dos últimos acontecimentos em nossas vidas. Primeiro eu contei as minhas pitangas à ele e depois foi sua vez de relatar os fatod que lhe ocorreram. No meio do nosso papo chegou as entradas do jantar. Uma pequena pausa na conversa para degustarmos nossos pratos. A minha sopa de cebola estava dos deuses. E segundo Owen seu Tartare estava idem.

Outros assuntos vieram depois de saborearmos nossas entradas e ao longo do jantar inteiro que se seguiu. E diga-se de passagem o jantar foi delicioso. O prato principal e a sobremesa estavam tão divinos e deliciosos quanto a entrada.

— Fazia anos que eu não comia tão bem assim. Meu Deus!

Sorri para meu amigo antes de apreciar um gole do café que pedimos depois da sobremesa.

— A comida daqui é sem palavras! Vou passar a ser um freguês frequente daqui a partir de hoje.

— Bem-vindo ao clube dos amantes do restaurante Juliette Williamsburg então. — brinquei e nós caímos na risada juntos.

Engraçado como o clima entre nós era tão leve e descontraído o tempo todo. Desde o primeiro papo que trocamos em Chicago e em todos os outros que vieram depois daquele a empatia entre nós só se acentuava mais. E, confesso que pensei que essa coisa boa que criamos tão rápido fosse perder-se depois que ficamos naquela minha última noite na "cidade dos ventos", quando saímos para curtir uma boate. Mas felizmente as coisas ficaram iguais. O que aconteceu entre nós ficou lá em Chicago e tanto Owen quanto eu não tocamos nesse assunto nenhuma vez sequer durante os encontros que já tivemos desde aquela noite.

Melhor assim!

— Bom... Já jantamos, conversamos bastante, rimos e agora é hora de falar do que de fato nos trouxe aqui. — meu amigo anunciou apoiando os antebraço à mesa e juntando as mãos enquanto seu olhar me enquadrava acintosamente.

Pelo visto o assunto é sério!

Com um gesto de cabeça o incentivei a dar prosseguimento à sua fala e foi o que Owen fez após cinco segundos de silêncio.

— Sara, eu quis ter esse encontro com você, porque quero te fazer uma proposta que já adianto não ser indecente e nem de casamento. — apressou-se em dizer em tom brincalhão, que me fez sorrir imediatamente. Owen e seu bom humor!

— E se fizesse uma proposta dessas aí receberia um NÃO bem grande na cara, sabe disso, né? — rebati ainda sorrindo.

— É, eu sou bem consciente disto. — ele riu.

Talvez se não houvesse o Grissom na minha vida, eu até poderia ver Owen com outros olhos que não os da amizade, já que de longe ele era um cara cativante e facilmente apaixonante. E tenho para mim, que também deve ser um ótimo namorado.

Mas havia o meu desmazelado e cretino Sr.Gostoso, que tomou meu coração e meus olhos somente para ele. Desde então, eu não conseguia enxergar na minha vida mais ninguém além do gostosão do meu noivo.

— Qual a sua proposta que não é indecente e nem de casamento, Owen Clark?

Ele me encarou enigmático enquanto seus dedos da mão direita tamborilavam aos da mão esquerda.

Juro que eu não tinha a menor vaga ideia de qual proposta seria essa, mas confesso que aquela altura do campeonato já me corroía de curiosidade para saber logo o que ele queria me propor.

— É o seguinte, Sara... — ele enfim se pronunciou e sem saber porquê, eu senti um frio na barriga. — ... Há coisa de duas semanas recebi de um dos editores mais experientes da BoB, Collins Fox, seu pedido de demissão.

— Uau! — não consegui conter a minha surpresa. Conhecia aquele sujeito de nome e pelo que saía na mídia. Collins Fox é um grande nome no meio editorial e na BoB pelo que li. E, certamente, essa sua saída de lá deve ser uma perda e tanto no casting de editores na BoB. — Pelo que sei ele trabalhava por lá há anos.

— De fato! Mas alegou que por motivos pessoais e de saúde precisaria se mudar para a terra natal dele o Texas e com isso, não daria mais para seguir trabalhando na Bag of Books, o que é uma pena. E a proposta que tenho para você, Sara... É que assuma o cargo dele e seja a nova editora de ficção da BoB.

Oi?!

Ainda bem que aquela altura eu já havia devolvido a xícara de café à mesa minutos antes de ouvir tal proposta, porque do contrário, meu senhor, a coitada da xícara de porcela tinha caído da minha mão e se espatifado provavelmente sobre a mesa mesmo, sujando de café a toalha imaculadamente branca.

Céus! Eu ouvi bem mesmo?!

— Você não bebeu Pinot Noir demais, bebeu? — balbuciei com um sorriso nervoso.

— Não! — meu amigo negou com um sorriso brincalhão dançando em sua boca bem esculpida.

— Eu... assumindo o lugar de... Collins Fox na BoB? — a pergunta saiu baixa, mas não o suficiente para que não fosse escutada por meu amigo.

— Exatamente!... Preciso de sangue jovem, inovador e arrojado para a editora. E você... Reuni tudo isso, Sara.

— Reuno? — eu o encarava com descrença enquanto ainda digeria sua proposta maluca me lançada segundos atrás.

Owen assentiu em resposta e notei certo ar de divertimento reluzir em seus olhos e se expandir pelo seu rosto todo.

Bom se ele não bebeu tanto Pinot Noir quanto afirmou, então fui eu quem ingeri mais do que devia da bebida e estava ouvindo coisa demais ali. Só pode!

Claro que não! Não seja idiota!, meu subconsciente me ralhou e aposto que se ele pudesse teria golpeado minha nuca com um leve tabefe também.

— Sou apenas uma assistente e você quer que eu assumo o posto de alguém como Collins, que têm uma bagagem enorme?

Por isso eu qualifiquei a proposta de maluca! Quem aposta numa assistente para assumir o cargo de alguém com uma experiência de anos luz à mim?

— Sara... Eu nunca te falei isso antes, mas... — meu amigo estendeu um de seus braços por cima da mesa e sua mão alcançou a minha apertando-a de leve num gesto de alento e confiança. — Quando nos conhecemos e conversamos de trabalho naquela noite no bar em Chicago, eu não vi em você uma simples assistente, enxerguei já uma pessoa pronta para ocupar um cargo de editor e com um potencial absurdo pra isso. — sorri engrandecida com sua opinião a meu respeito. — E me perguntei como o pessoal da News Publications não via o mesmo e te mantinha ainda nesse cargo de assistente, quando você pode render mais que isso?... E eu quero te dar essa oportunidade de mostrar o que você pode render num cargo de chefia, Sara. Quero você como minha editora de ficção. O que me diz?

Jesus! O que eu digo?!

Se eu ao menos conseguisse falar para começo de conversa, era bom!

Mas só o que se ouvia de minha parte era o puro silêncio!

Era como se eu tivesse desaprendido a falar. Tudo o que conseguia fazer era abrir e fechar a boca como um peixe. Sair algum som ou balbuciar um A que fosse, estava difícil. Me encontrava muda e impactada com o que ouvi, tão impactada que mal respirar direito eu respirava naquela momento.

Eu, enfim, como uma editora de textos? O cargo que eu sempre almejei e a oportunidade que sempre busquei, estavam me sendo dadas por Owen. E por dentro eu fiquei tão feliz e emocionada com aquilo! Mas a felicidade e a emoção se desfezeram em milésimos de segundos e foram ofuscadas pelo medo. Um medo tolo misturado com uma efêmera falta de confiança em mim mesma.

Sem mais nem menos, eu me sentia incapaz e amadora demais para um cargo de grandes responsabilidades como aquele. Eu ia passar a comandar e não ser mais comandada; ia tomar decisões ao invés de segui-las, pois não haveria mais Brooke. Isso, de certo modo, me assustou. Será que eu estava preparada para esse passo e a responsabilidade toda que em mim seria imposta?

Sinceramente eu nunca fui de me menosprezar ou achar que eu não era capaz de algo. Pelo contrário, sempre fui confiante em mim (no que se diz respeito à trabalho, vale frisar). Contudo, naquele momento, diante daquela proposta, bateu a falta de confiança e o medo de não dar conta do recado, não corresponder as boas expectativas que via meu amigo depositar em mim. Não queria frustrá-lo com o meu amadorismo e...

— Tic Tac... Estou esperando uma resposta, Sara.

Sua fala me despertou e me fez ver que eu precisava falar logo, dá uma resposta ou uma satisfação que fosse ao meu amigo.

— Owen... Você me pegou desprevenida. — Completa e totalmente!— Não imaginava que fosse essa sua proposta. — admiti com sinceridade.

— Imagino. Mas o que me diz? Aceita?

Aceita!, aquela voz que sempre aparecia em momentos cruciais se manifestou dentro da minha cabeça. Resolvi ignorá-la como geralmente fazia.

— Eu... agradeço as palavras e elogios... Nossa! Fui ao céu e voltei. Mas... Não sei se estou preparada para dar conta de um cargo desses.

O medo falou por mim mais alto que minha autoconfiança que resolveu me abandonar montada em um cavalo branco.

— Não seja modesta, claro que você está. Inclusive seu chefe mesmo afirmou isto.

Franzi a testa e abri a boca umas duas vezes sem emitir som algum (pela segunda vez ali). Quer dizer que ele já tinha contado isso ao meu chefe antes mesmo de me fazer a proposta?

— Você falou com o Brooke sobre isto? — em meu interior me questionei quando ele falou com Brooke.

— Sim. Eu precisava de referências suas para dar aos chefões quando sugeri seu nome. — ele já tinha sugerido meu nome ao cargo para seus superiores? Meu Deus! — E Brooke me ofereceu as melhores. Ele teceu elogios rasgados a você e sua sagacidade no trabalho. O discurso dele a seu respeito convenceu meus superiores e só me fez ter mais certeza ainda de que trazer você para trabalhar na BoB era um grandíssimo acerto para a companhia. Segundo seu chefe você está mais que preparada para "voar sozinha", Sara.

Essa última parte de seu discurso me fez lembrar exatamente do papo de dias atrás com Brooke. Eis, aí, a explicação para o discurso do meu chefe sobre eu já estar pronta para seguir sozinha. Então devo supor que naquela ocasião Owen já tinha lhe contado sobre a proposta que me faria e por isso, Brooke me disse aquelas coisas todas, que no momento não entendi bem. Até cheguei a achar que meu chefe podia estar falando aquele discurso todo, porque pensava em me demitir, mas quão errada eu estava. Ele estava apenas dando o seu incentivo e aval para eu começar a seguir meu rumo sozinha. E, talvez até, já ensaiando seu provável discurso de despedida à mim caso eu aceitasse aquela proposta de emprego.

— Eu acredito no Brooke, e principalmente em você, Sara. E você também devia fazer o mesmo.

É, eu devia. E suas palavras de incentivo e confiança resgataram lá do fundo do meu ser a minha confiança que havia me abandonado momentaneamente.

Eu era capaz, sim, de assumir aquele posto que Owen me oferecia na BoB! Os anos como assistente de um editor excelente como Brooke Colleman tinham me credenciado para o cargo de editora. Meu chefe me ensinou tanta coisa, que todo esse ensinamento agora me serviria de bagagem. Tudo o que eu faria caso aceitasse a proposta de emprego na BoB não seria coisa de outro mundo para mim, pois eu já tinha feito parecido ou visto Brooke fazer na NP.

— Eu sei que você está pronta, só tem medo. É normal. Eu também tive quando me fizeram a proposta de passar a ser editor-chefe da BoB. Na verdade deu um certo pavor, devo admitir... — ele fez uma careta e eu sorri. — Mas as pessoas acreditavam na minha capacidade e principalmente em mim. E eu acredito em você e na sua capacidade. Tenho quase certeza de que vai mandar bem na BoB. Portanto estou oficialmente te fazendo uma proposta de emprego, que espero sinceramente que você aceite. Vem trabalhar pra mim, Sara?

Apesar dos meus temores que ainda persistiam (bem menos agora do que quando ouvi pela primeira vez a proposta de Owen), eu seria uma tremenda louca se recusasse uma proposta de emprego como aquela. Eu era capaz e esta era a minha chance de pôr em prática tudo o que aprendi com Brooke e começar a trilhar o meu caminho sozinha.

— Quando eu tenho que assumir o cargo? — disse após um longo e já duradouro silêncio que jazia entre meu amigo-futuro-patrão e eu.

Assim que fiz esse questionamento instantaneamente vi um sorriso gigantesco surgir em meu amigo. Ele então começou a me explicar que eu teria quinze dias para resolver minha situação na New Publications, pois este também era o prazo dado à Collins para acertar os dele na BoB e deixar em dias todas as suas pendências. Ao final dessas duas semanas, eu já teria que me apresentar no RH da BoB com todos os meus documentos para efetuar minha contratação e no dia seguinte começar em minha nova função.

Prático assim? Parece que sim!

Notas finais
Até daqui a pouco com mais um capítulo.