One Night - Livro 1
80 Capítulo LXXX
Estar naquele velório me fez lembrar de outro que estive anos atrás: do meu amado e querido avô paterno. Antes do dele também teve os dos meus tios, pais da Maryane, mas na época eu era pequena demais para entender toda aquela comoção em torno da despedida de pessoas que jamais veríamos outra vez.
Mas quando foi do vô Bill anos depois, eu já era uma adolescente bem entendida para saber e principalmente, sentir a dor profunda da perda. Eu lembro que sequer me aproximei do caixão dele uma única vez, nem mesmo quando não sei quem dos parentes avisou que era para nos despedirmos, porque fechariam o caixão para o traslado até o cemitério.
Eu me recusava a ter como última imagem do meu sempre alegre e engraçado vô, a dele pálido e inerte em um caixão rodeado de flores. Preferi guardar a boa imagem do vô Bill vivo, me contando aos risos como costumava ser um general linha dura com seus oficiais do exército.
Lidar com a morte, ainda mais, quando ela é de alguém tão próximo da gente, é algo bem difícil. Não fazemos a mínima ideia de como fazer isso. E não há uma receita para tal!
De repente a gente se vê diante de um corpo sem vida dentro de uma caixa de madeira. Um corpo que por anos foi de alguém que construiu uma história ao longo dos anos, teve sonhos que almejou alcançar (e se teve sorte ou fez por merecer em vida até os realizou), corpo de alguém com virtudes e defeitos (às vezes com mais defeitos que virtudes ou vice-versa), que formou uma família ou não, enfim alguém que foi alguém.
Aí, esse alguém morre e fim da linha, da história, da jornada. Como um livro que se encerra, só que sem ter o final feliz, que gostamos de ler.
Eu não soube o que fazer e nem como lidar na época do meu avô, e continuo sem saber o que fazer e como lidar com a morte agora, quando estou no velório do meu sogro, observando de uma relativa distância meu noivo lá junto do irmão recebendo as devidas condolências de cada novo conhecido recém chegado à capela e, que se aproxima deles.
Lá fora a imprensa se abalotava para fazer registros. Aqui dentro o local está cheio de diversas pessoas que segundo Edgar ia comentando comigo e Dayse, tratavam-se de: parentes e amigos tanto da parte de Gil quanto de sua pai ou da família Grissom. Havia também alguns funcionários das indústrias Care; todos que vieram prestar sua homenagem ao Joseph.
O namorado de Lewis que fez questão de ficar de companhia comigo e Dayse, ao que parece conhecia bastante pessoas do convívio da família Grissom, porque sabia exatamente quem era a grande maioria ali e sua familiaridade com algumas pessoas era nítido. Mas apesar disto e da visível familiaridade com aquelas pessoas, suspeito que elas não saibam quem de fato Edgar é para o Grissom mais novo.
— Lewis está tão arrasado. Coitado! — o homem que descobri ser de ascendência mexicana, e que ainda carregava em seu modo de falar o leve sotaque de sua língua nativa, comentou com pesar em determinado momento de observação ao namorado.
E de fato Lewis estava visivelmente muito abalado e emocionado; chorava vire-mexe e por vezes já havia se aproximado do caixão para acariciar ou beijar o rosto do pai. O que eu já não podia dizer do meu noivo. Gil estava firme e frio como uma pedra de gelo. Sequer havia derramado uma lágrima que fosse e muito menos, se aproximou do caixão do pai uma única vez, mantendo-se sempre distante dele.
Escondido atrás das lentes de seus ósculos escuros e trajando um terno preto e gravata da mesma cor, meu noivo mais parecia um segurança fazendo a escolta do irmão. Aquela sua postura fria e de se mostrar inabalável com a morte de Joseph estava me intrigando um pouco. Tudo bem que ele não se dava tão bem com o pai, mas agir no velório como vinha agindo era estranho. Como Lewis mesmo me disse no hospital horas atrás, Gil agia como se não fosse o pai dele também que tivesse morrido.
— Já o Grissom está parecendo um iceman, né não, Sara? — apenas lancei para minha amiga um olhar reprovador que Dayse nem viu por estar fitando Grissom há metros de distância da gente.
— Essa sua postura está estranha. — repliquei à Dayse.
— Bota estranha!... Mas quer saber de uma coisa?... Ainda não me conformo que vocês não estejam lá do lado de seus respectivos parceiros.
Pela décima vez Dayse reclamou disto. Ela estava inconformada com o fato de Edgar e eu não termos ido ficar recebendo as condolências junto de Gil e Lewis. Mas tanto eu quanto Edgar não nos sentimos confortáveis para estar lá. Sequer éramos da família de Joseph apenas namorávamos os filhos dele, e as pessoas por ali desconheciam esse último fato.
— Dayse supera isso. Edgar e eu nem estamos fazendo drama.
— Até porque esta foi uma escolha nossa.
— Exato! — confirmei.
Edgar acenou para uma mulher loira, que sinalizou chamando-o para ir até ela.
— Meninas, eu vou ali falar com uma amiga. Já volto.
Assentimos para ele que logo já se afastava da gente. Sozinha com Dayse, eu vi com desagrado Maryane se aproximar de Gil, tocar seu ombro e cochichar algo em seu ouvido, que prontamente o Sr.Gostoso concordou. A todo instante ela dava um jeito de chegar perto dele feito uma ave de rapina revoando sobre sua presa.
— Aff, essa sua prima parece um urubu em cima do Grissom.
— Ela não se emenda mesmo. — externei com desgosto.
Era muita baixeza dela se prestar a aproximações de Gil com segundas intenções num momento tão delicado em que ele estava passando devido a morte do pai. Tal comportamento de Maryane só me fez ver o quão sem escrúpulos e sem noção mesmo a minha prima podia ser.
— Quer apostar que isso tudo é só para te provocar?
— O que não chega a ser novidade alguma para mim.
— Mas é bem inapropriado pelas circunstâncias e local. — completou Dayse.
Bota BEM inapropriado nisso! Mas minha priminha não sabe o sentido de inapropriado. Talvez, em seu dicionário, sequer exista essa palavra.
— Aí, Sara, preciso ir. — observei minha amiga consultar as horas no seu relógio de pulso. — Já são quase sete e ao contrário de você não tenho um chefe legal que me liberou do trabalho hoje.
Há pouco liguei para o Brooke e informei sobre o ocorrido com o pai de Gil. Na mesma hora meu chefe disse que eu não precisava ir à editora hoje.
— Tudo bem, Dayse.
— Vou primeiro dar uma passada em casa para trocar de roupa e aí, sigo para mais um dia aturando a Sullivan. — sorri de leve. — Não vou nem me despedir do Gil e Lewis. Se perguntarem, avisa que eu já fui, tá?
Assenti e nós duas nos despedimos com um abraço. Minha amiga partiu em direção a saída da capela da funerária. Eu fiquei a observando até que ela sumiu das minhas vistas. Voltei minha atenção ao meu noivo e Maryane. Suspirei ao ver mais uma vez a minha prima se inclinar para cochichar algo ao pé do ouvido do meu noivo. Desta vez Gil fez um sinal negativo com a cabeça e falou algo para ela, que não consegui entender. Em resposta minha prima deu de ombros à ele.
O que eles tanto cochicham?
— Voltei! E a Dayse?
— Já foi. Ao contrário de mim, ela tinha que ir para a editora trabalhar. — expliquei a Edgar sem tirar os olhos do meu noivo na companhia de Maryane.
— Hum... Você e ela são muito amigas, né?
— Bastante! — confirmei, desviando o olhar dos dois para fitar o homem ao meu lado. Sabia o quão desagradável era estar falando com alguém e esse alguém nem estar lhe dando a devida atenção. Então por isso mesmo olhei para Edgar e foquei minha atenção nele. — Nos conhecemos na faculdade e desde lá não nos largamos mais. Moramos juntas e trabalhamos no mesmo lugar. — contei para ele.
— Deve ser bacana, não?
— É!
Pelos minutos seguintes ficamos conversando sobre minha relação de amizade/irmandade com Dayse até sermos interrompidos pela voz de Gil reverberando atrás de mim um "ei!". Virei-me no mesmo instante para ele. O papo com Edgar até havia me feito esquecer momentaneamente do meu noivo lá na companhia de Maryane.
— Posso roubá-la de você um instante, Edgar?
— Pode, claro.
— Vem comigo! — ele pediu num tom baixo. — Quero sair um pouco desse ambiente, dar um respiro fora daqui e apreciaria se me fizesse companhia, querida.
Impossível negar algo para ele ainda mais, se me pede desse jeito.
— Claro!... Edgar volto logo.
Ele assentiu e ainda disse que iria lá com Lewis perguntar se ele não queria algo. Enquanto seguia com meu noivo notei alguns olhares dirigidos à nós.
— E a sua amiga onde está? — Gil quis saber enquanto passávamos por entre as pessoas rumo à uma área que eu não fazia ideia de qual fosse.
— Já foi. Ela precisava ir para editora, ao contrário, de mim que fui dispensada pelo meu chefe.
Gil assentiu e em silêncio nós alcançámos a grande porta dupla de vidro, as cruzámos e me deparei com uma área que se assemelhava a algo como um jardim de inverno, muito bonito, charmoso e que naquele instante estava vazio.
O local amplo que não possuía teto propiciando a iluminação natural, e tinha piso revestido por pedras brancas, ainda trazia: vasos de plantas de diferentes tamanhos espalhados por ali, bem como bancos de madeira; nas paredes painéis de madeira; e no centro do jardim uma bonita e pequena fonte completava o ambiente. Era um local aconchegante e bem agradável, podia ficar ali por sei lá quanto tempo.
Gil nos levou a se acomodar num dos bancos que ficava mais afastados da entrada do jardim. Após nos sentarmos lado a lado, Gil agarrou minha mão e entrelaçou nossos dedos. Observei-o deslizar o dedo polegar sobre os anéis de compromisso que ele me deu.
— Ficaram tão bonitos no seu dedo. Acho que não cheguei a comentar isso com você, cheguei?
— Não!
Suspeito que ele só puxou aquele assunto para se distrair mesmo e não falar do que está acontecendo lá na capela: o velório.
— Mas ficaram bonitos. — ele afirmou antes de levar minha mão até sua boca e beijar o dorso dela para depois virar o rosto para mim.
Quando ele me fitou eu pude ver seus olhos, já que àquela altura Gil havia tirado os óculos e depositado-o sobre o banco, bem ao lado de sua perna esquerda. No fundo daquele mar azul havia muito mais do que a expressão de Gil deixava transparecer. Ele estava abalado e sofrendo, só que não se permitia deixar isso visível aos olhos dos outros, mas aos meus isso parecia tão visível e cristalino.
— Apesar dessa expressão de inabalável que está ostentando para os outros, eu te sinto quebrado por dentro. — afaguei seu rosto com o polegar. Gil fechou os olhos.
— Touché! — sussurrou e abriu os olhos para mim. — Você acertou.
Pois eu queria ter poderes mágicos para deste modo, livrar Gil de tudo de doloroso que estivesse lhe consumindo por dentro naquele momento. Me deixava arrasada ver o homem que amo fragilizado daquela forma como ele se mostrava para mim.
— Sabe... quando perdi meu avô, eu fiquei devastada... Ele era muito especial e querido pra mim. — partilhei tal lembrança após ter se feito um breve silêncio após a fala de Gil.
— Sinto muito.
— Eu também sente muito a perda dele. Aí, a Li que trabalha na casa dos meus pais me disse que a dor que eu sentia pela perda, ia diminuir com o passar do tempo. Não ia sumir, nunca, contudo deixaria de doer e só ficaria a saudade. E foi o que aconteceu comigo. Com você vai acontecer o mesmo, querido.
Seus olhos coloridos focaram-se silenciosamente em mim por um tempo mais que razoável até Gil desviar o olhar para a fonte no centro do jardim.
— O que dói não é exatamente a perda do Joseph... — sua pausa na fala se estendeu por um longo momento, até que Gil se pronunciou novamente: — Mas sim o que imputa à mim sua morte.
— Como assim?
Ele claramente pareceu nem ouvir o que eu perguntei, pois seguiu falando:
— E sinceramente, não sei se torço para esse momento de velá-lo, acabar logo ou se prefiro que isso se estenda mais tempo. O que eu sei é que de qualquer forma, no final das contas, eu perco algo muito importante.
Ele tornou a me fitar e a desolação era nítida em seu olhar, me deixando com a pulga atrás da orelha. Ainda mais, porque aquela sua conversa estava tão esquisita quanto foi a da lanchonete. Ele falava coisas que mais me pareciam códigos que eu não conseguia decifrar. Ou pior ainda, que eu tinha a ligeira desconfiança do que fosse, porem me recusava a acreditar que era aquilo mesmo que atormentava.
— Gil!
Tanto ele quanto eu olhamos para frente ao chamado de Maryane. Notei seu olhar de descontentamento bater certeiro em minha mão segura pela de Gil.
— O que foi Maryane?
— Sua amiga Catherine acabou de chegar com a filha. E o reverendo também para fazer a oração final antes do caixão do seu pai ser levado para o cemitério daqui a pouco. — ela o comunicou e olhou para mim logo em seguida.
— Diga que já estou indo. Obrigado por vir avisar.
Assentindo minha prima se retirou dali nos deixando sozinhos de novo e eu aproveitei à deixa para compartilhar com Grissom algo relacionado a Maryane, que percebi no comportamento leviano dela.
— Eu sei que o momento é impróprio para tal comentário, mas... Já deve ter notado que minha prima está se aproveitando dessa situação toda para se aproximar de você, não é?
— Acho melhor irmos. — se pondo de pé e recolocando seus óculos escuros, Gil anunciou em tom seco e se abstendo de responder o que perguntei.
Resolvi não contestá-lo e também me levantei do banco. Nos dirigimos rumo a saída com Gil repousando uma de suas mãos em meu ombro.
No caminho até chegarmos onde estava o caixão, meu noivo foi parado por dois homens, um era mais novo que Gil e o outro parecia ter a mesma idade do meu noivo. Ao que parece os dois homens chegaram a pouco e vieram lhe dar as devidas condolências.
Eles eram amigos de longa data de Gil. Fui apresentada aos dois pelo noivo. Nick era o nome do sujeito mais novo e James do que aparentava ter a mesma idade do meu noivo. Após trocar breves palavras com os dois sujeitos tão logo tinha me apresentado à eles, Gil pediu licença aos amigos e nós retomámos a caminhada rumo ao encontro da amiga do meu noivo, que ele imaginou esta com seu irmão.
Em poucos instantes já chegávamos onde Lewis estava e ao seu lado se encontrava uma mulher que eu reconheci na hora como sendo a tal Catherine, a amiga de Gil que estava com ele na Oktoberfest. Assim que esta viu meu noivo veio abraçá-lo na hora.
Parada atrás de Gil, eu pude ver que havia um carinho genuíno, algo que ia muito além da amizade e chegava facilmente a irmandade naquele abraço deles. Deu para escutar bem quando ela disse um "sinto muito, meu amigo", só não ouvi resposta alguma dele.
Ao desfazerem o abraço, a mulher afagou o rosto de Gil e lhe deu um beijo do lado direito da face. Se eu não soubesse que ela se tratava de uma amiga apenas, ficaria incomodada com tudo aquilo, era intimidade demais. Depois dela veio uma adolescente, que deduzi ser filha da tal Catherine, pois se parecia muito com ela. A garota abraçou Gil demoradamente e após o gesto se encerrar, meu noivo se virou para mim e me apresentou a sua amiga. Retirando seus óculos escuros a mulher me esticou a mão direita em cumprimento, algo que aceitei de pronto. Ela comentou que era um prazer estar me conhecendo, só era uma pena que isso estivesse ocorrendo em uma trágica ocasião como aquela. De fato era pena mesmo aquilo!
O reverendo anunciou que ia começar sua oração. Todos ficamos em silêncio e o senhor de carregado sotaque italiano iniciou primeiramente pedindo à Deus que desse conforto e resignação a todos, especialmente para a família de Joseph nesse momento de comoção e tristeza. Em seguida ele fez uma breve oração em que intercedia pela alma do pai de Gil, pedindo que Deus lhe desse paz e perdoasse seus pecados. Ainda foi rezado um Pai Nosso e uma Ave Maria logo depois. Ao final das orações o reverendo convidou Lewis e Gil para dizerem algo em despedida ao pai.
Senti meu noivo hesitar um pouco diante do chamado, porem ele acabou largando minha mão e indo se juntar com o irmão próximo ao reverendo.
Foi Lewis quem pediu para falar primeiro. Emocionado, ele agradeceu primeiramente a presença de cada um dos amigos, conhecidos e parentes que ali estavam. Depois se dirigindo a Joseph no caixão disse a todos que o pai estava longe de ser um sujeito perfeito e mais ainda um pai perfeito. Mas apesar das suas imperfeições que eram muitas, o amava demais. E estava sendo a coisa mais difícil para ele, como filho, se despedir de seu pai e aceitar que daqui para frente não o veria mais todos os dias no café da manhã antes de irem trabalhar ou a noite na hora do jantar. Mas afirmou que lhe reconfortava saber, que nesse momento Joseph decerto, estaria ao lado da única mulher que ele verdadeiramente amou, no caso a esposa e mãe dos filhos dele. Por fim, Lewis finalizou seu discurso, dizendo de maneira embargada: "Descansa em paz, meu pai!". Dito isso, ele deu um passo a frente e inclinado-se um pouco beijou a testa do pai dele.
Minha garganta deu aquele nó e os olhos encherem-se d'água diante daquela sua despedida mais que emocionada do pai.
Quando Lewis se ergueu e retrocedeu um passo dando por encerrada a sua despedida do pai dele, todos, inclusive eu, encaramos Gil à espera de que ele fosse o próximo a dizer algumas palavras em despedida ao Joseph. Entretanto, ao contrário do irmão, meu noivo não fez um discurso emocionado de despedida. Na verdade ele sequer disse ao pai palavras de despedidas. Segundo Gil informou aos presentes, ele já havia se despedido de Joseph durante a conversa que tiveram pouco antes do homem falecer e deste modo, não havia necessidade dele repetir isso ou acrescentar mais palavras sendo que tudo que precisava ser ditos entre eles foi dito horas atrás.
Dito isso meu noivo apenas reiterou o agradecimento a presença de todos, como Lewis já havia dito antes e, nada mais ele falou depois disto. Nem se aproximar do caixão para fazer um último afago que fosse no pai, ele fez. Manteve-se com a postura rígida e parada ao lado direito do reverendo, enquanto Lewis estava ao lado esquerdo.
Matilde pediu então para dizer umas coisas e isso lhe foi concedido por Lewis. Em seu pequeno e emocionado discurso, a mulher enalteceu Joseph como pessoa e patrão, e afirmou que por baixo da casca de homem duro, rígido e insensível que ele se mostrava ser, havia um bom sujeito, que apenas não sabia demonstrar seus bons sentimentos. Ela agradeceu a confiança que ele sempre depositou nela ao longo dos anos em que trabalhou em sua casa cuidando de sua família como se fosse a dela. Por fim lhe desejou um bom descanso eterno e prometeu que cumpriria a promessa que lhe fez anos atrás de até seu último dia de vida seguir cuidando dos dois "meninos" dele, caso seu patrão fosse embora primeiro que ela.
Foi comovente ouvi-la falar tudo aquilo, principalmente o final. Fez a antipatia que tenho por ela (algo que vem do fato dela ter antipatia por mim) ser esquecida momentaneamente. Acredito que Matilde seja para os Grissom o mesmo que a minha querida Li é para os Sidle lá em casa: alguém especial, que se tornou praticamente um membro essencial da nossa família!
Ao fim da fala dela o reverendo questionou se mais alguém gostaria ou teria algo a dizer. Eis que a insuportável da Maryane externou vontade de falar alguma coisa. Em seu rápido discurso, ela comentou que durante esses poucos meses em que teve contato com Joseph como noiva do filho dele, criou um apreço pelo sogro e vice-versa, e afirmou que sentia muito sua morte e o fato de ele não estar presente de maneira física quando nascer o neto a quem ele já fazia muitos planos.
Neto que não terá o sangue dele!, pensei comigo mesma indignada com a ceninha dela. Maryane podia até estar sendo verdadeira ali, mas eu não conseguia acreditar nela e nem deixar de pensar, que tudo aquilo não passa de teatro seu para se aparecer para Gil. Mas queira Deus que eu esteja errada e minha prima possa ter sido sincera ali, porque do contrário não será nenhuma novidade para mim Maryane bancar a falsa.
Mais ninguém quis falar depois da minha prima e, deste modo, o velório foi encerrado e o caixão foi fechado para o traslado até o cemitério particular.
****
Sobre o túmulo se encontravam depositados vários arranjos de flores e coroas de diversos tipos, e ainda tinha mais uns que os funcionários do cemitério terminavam de ajeitar no local. Quando eles enfim acabaram o serviço, partiram dali deixando apenas: Gil, eu, Lewis, Edgar, Matilde, Maryane, Luke e Catherine com a filha dela. O restante das outras pessoas que vieram ao sepultamento de Joseph tinham se dispersado dali e muito provavelmente, se encontravam na entrada do cemitério ou ido embora mesmo.
— Curioso como são as coisas... — a fala da amiga de Gil rompeu o silêncio que já vinha desde o momento que os funcionários se foram, algo ocorrido há alguns minutos. Todos (exceto Gil) olhamos para ela que mantinha seus olhos encarando a lápide do túmulo a nossa frente. — Podemos ter o dinheiro que for, sermos famoso ou não, rico ou pobre, preto ou branco, mas no fim... — ela fez uma longa pausa e olhou para nós: — Todos ao morrer acabamos tendo o mesmo destino: ir parar debaixo da terra.
Está aí uma grandessíssima verdade. Não importa mesmo quem você seja, se tem um patrimônio enorme e inestimável como o Joseph tinha ou se não tem nada além de um teto sobre sua cabeça e uns trocados na carteira, todos no final vamos para debaixo da terra como bem disse Catherine. E, mais, sequer levaremos as coisas materiais que adquirimos ao longo da vida.
— "Do pó viemos ao pó voltaremos". — Matilde citou aquela passagem da Bíblia que Li uma vez me disse quando eu era pequena e que tornei a ouvir do reverendo que fez um sermão no velório do meu avô.
— Pois quando eu morrer quero ser cremada e assim virar pó mais rápido do que levar anos embaixo da terra para isso acontecer.
— Mãe não começa com os seus comentários loucos! — a filha dela lhe deu um cutucão com o ombro.
— Ei, não me repreende na frente dos outros, garota. A mãe aqui sou eu, não você.
— Às vezes parece bem o contrário.
Eu tive que apertar os lábios para não rir delas. As duas mais pareciam duas irmãs discutindo, do que propriamente mãe e filha.
— Acho melhor irmos, né? — Edgar propôs.
Eu e a maioria concordamos já Gil pediu que fôssemos na frente, pois ele precisava de uns minutos sozinho ali.
Segui com os demais deixando Grissom sozinho com a sepultura do pai dele e da mãe que ficava bem ao lado da que Joseph tinha sido enterrado. Caminhamos até pararmos há uma distância bem razoável de Grissom. Enquanto os demais trocavam conversas e falavam entre si, eu estava calada somente prestando atenção em meu noivo. Como ele estava de costas, eu não tinha qualquer noção de sua fisionomia naquele momento.
Será que ele estava chorando?
Até aquele momento eu não o tinha visto derramar uma lágrima que fosse, algo no mínimo curioso. Daria tudo para poder saber o que se passava dentro dele naquele momento em que estava lá, sozinho diante do túmulo de seus pais. O que ele estaria pensando? Será que estava dizendo algo ao...
— Sara!
Virei-me para o chamado baixo da amiga de Gil.
— Sim!
Sem dizer nada, ela segurou no meu cotovelo direito e me puxou com delicadeza a um canto mais afastado dos ouvidos do grupo que estava conosco. Notei Maryane nos espreitar com o olhar.
— Posso te confessar uma coisa?
Achei inusitado o pedido. A gente nem era próximas, tínhamos acabado de nos conhecer para ela já ir lançando-me confissões como se fôssemos velhas amigas. Mas mesmo assim assenti em concordância ao questionamento me feito.
— Eu estava bem curiosa para te conhecer, sabia? — franzi a testa.
Por que essa curiosidade dela?, pensei.
E parecendo ter lido minha mente, a mulher de cabelos acobreados explicou num tom baixo:
— Não é toda vez que se conhece uma mulher que foi capaz de abandonar Gil Grissom duas vezes sozinho numa cama. — ao final desta sua fala havia um sorriso de puro divertimento brincando em seus lábios vermelhos feito uma maçã suculenta.
Levando em conta o local e o momento, eu cheguei a achar bem inoportuno aquele seu comentário. Onde já de viu falar aquilo ali?
O pensamento de que Gil e ela são BEM amigos mesmo tomou conta da minha mente, porque só sendo muito amigo de uma pessoa para compartilhar com ela algo tão íntimo como aquilo.
— Pra tudo têm uma primeira vez na vida, no caso do Gil foram duas vezes. — resmunguei sem saber ao certo o que dizer a não ser aquilo.
— Exatamente! No caso dele devia ser mais de uma mesmo. Gil sempre fez isso com as mulheres e me dava uma raiva que você nem sabe. — ela demonstrava indignação ao falar. — Um dia eu disse pra ele que ia chegar a vez em que uma mulher o faria sentir na pele o que ele já fez com tantas outras ao abandoná-las sozinhas na cama. E aí, surge você tempos depois para cumprir minhas previsões. Parabéns pelo feito!
Ela deu uns tampinhas de leve em meu ombro. Eu não sei se ela está falando sério ou apenas zombando de mim. Prefiro acreditar que esteja sendo séria e sincera apesar do sorriso zombeteiro que vejo nela.
— Obrigada... Eu acho. — agradeci em dúvida.
A filha de Catherine chegou neste mesmo momento em nós reclamando que já queria ir, porque cemitérios lhe davam calafrios. Internamente concordei com a garota.
— Temos que esperar o seu tio. Vamos pegar corona com ele, garota.
— Ai, Catherine podemos pegar um táxi. Você tem dinheiro. Deixa de ser mão de vaca.
— Olha, garota. Primeiro: se me chamar de Catherine de novo, eu vou enfiar a mão em você. Sou sua mãe e não uma de suas colegas de classe a quem chama pelo nome. — a adolescente esboçou um sorriso e olhou para mim fazendo pouco caso da ameaça lhe dirigida pela mãe. — E segundo: enfio outra mão se tornar a me qualificar como mão de vaca.
A filha da mulher ao meu lado apenas piscou para mim, balançou a cabeça em divertimento e se afastou da gente rindo. Quase me rendi ao riso junto com a garota, mas me contive.
Repito que ela e a mãe mais parecem duas irmãs.
— Filhos! São adoráveis quando bebês. Aí, crescem viram essas coisas terríveis, que adoram implicar com nós, pais.
— Qual a idade dela? — me interessei em saber.
— 16. Mas adoraria que ela tivesse parado de crescer nos cinco anos de idade, quando ainda era apenas uma menina fofa e inocente. Mas fazer o quê se filhos crescem, né?
— É a lei da vida!
— Pois é!... Ó, lá vem o Gil!
Me virei quando Catherine comentou isso e vi meu noivo vindo em passadas firmes em direção ao grupo, que estava há poucos passos da gente.
Catherine e eu voltamos para perto do pessoal. Quando Gil chegou todos nós seguimos rumo ao portão de saída do cemitério particular, que ficava lá no final do longo caminho de pedras.
— Você vai para sua casa ou para a casa que era do seu pai? — cochichei enquanto vínhamos atrás do grupo e tendo Luke nos acompanhando logo atrás como se fosse um segurança fazendo nossa escolta.
— Vou pra minha outra casa em Nova York. — sério e seco foi como Gil me respondeu.
Receei em lhe lançar a próxima pergunta devido a esse modo dele me responder. Todavia arrisquei mesmo assim:
— Quer que... Eu te faça companhia lá pra não ficar sozinho? — enlacei seu braço direito com os meus. Seu pescoço virou para mim e pelas lentes escuras dos óculos, Gil me encarou.
— Obrigado, mas eu apreciaria ficar sozinho mesmo.
Minha intenção de passar o dia com ele, lhe fazendo companhia num momento desses foi por água abaixo com essa sua negativa. Paciência, Sara! Se ele quer ficar sozinho, eu tenho que respeitar isso.
— Tudo bem!
— Luke vai te levar. — o mandão que habita nele decretou sem me consultar ou dar opção de contestar. Olhando para trás, ele repassou a ordem à seu motorista de me levar para casa. O homem apenas assentiu em concordância.
— Sua amiga Catherine espera que dê carona à ela. — comentei, lembrando do que ela havia me dito minutos atrás. — Como vai fazer isso se acabou de mandar Luke me levar?
— Eu arranjo uma carona para ela, não se preocupe.
De repente nos chocamos as costas de Lewis e Edgar que tinham parado de caminhar subitamente.
Já íamos reclamar quando ouvimos uma voz conhecida perguntar por Gil mais a frente do grupo. As pessoas diante de nós abriram espaço e meu noivo e eu avistarmos Bryan.
— O que faz aqui? — inquiriu Gil dando uns passos a frente e se aproximando do outro sujeito. Eu o acompanhei mesmo sem que ele pedisse ou quisesse. Não ia deixá-lo tão perto daquele intragável sozinho, porque o risco disto dar em merda era quase certo.
— Vim dar condolências a você, meu amigo pela perda. — Bryan estendeu a mão na direção de Gil.
Era o cúmulo daquele sujeito aparecer ali. Pela cara debochada dele suas intenções de prestar condolências não eram sinceras. Decerto, ele tinha vindo apenas provocar Grissom. E o momento não podia ter sido o pior escolhido.
— Não sou mais seu amigo e dispenso suas condolências. Agora some da minha frente!
Minhas mãos que seguravam o braço de Gil para impedir que ele avançasse naquele crápula e fizesse besteira, escorreram até seu punho fechado.
— Quanta falta de sensibilidade, amigo.
— Se me chamar de amigo de novo parto sua cara.
Aquilo ali estava fadado a não prestar!
— Ele quer te provocar, amor. Não caí na dele. — falei baixo somente para que Gil ouvisse. A intenção de Bryan estava mais que clara para mim: provocar!
— A morte do seu pai foi só o primeiro castigo por você está querendo me arrancar o escritório e ter feito Dominique me abandonar.
— Se manda daqui, Bryan! Não vou mandar três vezes.
— Escuta bem o que vou dizer... — Bryan fez menção de se aproximar bem de Gil. Na mesma hora puxei meu noivo para trás e Luke entrou na frente barrando a aproximação de Bryan. — Quer sair da minha frente "cão de guarda"? — o sujeito reclamou com o motorista.
— O patrão mandou o senhor se retirar. Então...
— Seu patrão não manda em mim... E quanto a você... — Bryan apontou para Gil por cima dos ombros de Luke. — Se me tomar o escritório, eu vou te tomar algo importante... Aliás, muito importante para você também.
Bryan ameaçou e seu olhar se desviou de Gil para mim fazendo-me sentir um calafrio e engolir a seco. Era à mim que ele se referia?!
Ao meu lado senti Gil ficar tenso diante da ameaça. Seus punhos cerrados se apertaram mais ainda diante da ameaça.
Os demais que ali estavam com a gente não abriam a boca para dizer um "Ai" sequer. Mas em compensação estavam os homens em torno de Gil para intimidar Bryan ou evitar uma possível briga que viesse a acontecer entre os dois ex-amigos.
— Se não quer perder seu escritório... — meu noivo se pronunciou retirando os óculos escuros — Então pague o que me deve de uma vez e no prazo estipulado. E não me faça ameaças, seu bosta. — dito isso Gil mandou Luke tirar Bryan de sua frente.
O motorista acatou na mesma hora o que lhe foi mandado. Com o caminho limpo Gil seguiu me levando consigo. Ainda ouvimos os berros de protestos e lamúrias de Bryan.
Eu confesso que fiquei com medo e apreensiva com a ameaça que ele fez antes de me olhar como se fosse um predador pronto para dar o bote na presa. Aquele seu olhar foi medonho.
— Eu acho que esse maluco se referiu à Sara quando te ameaçou, mano. — sem esconder a preocupação Lewis comentou ao nosso lado.
Parece que não fui a única a sacar que o alvo da ameaça tinha sido eu.
— Bryan terá qualquer chance de fazer nada a Sara. E caso ouse fazer, pagará de volta e bem caro. — ele retrucou seco e firme.
Momentos depois com todos já em frente a entrada do cemitério, eu me despedia de Gil notando sobre nós os olhares dos demais, principalmente os de Maryane. Ela não era nada discreta. Olhava na cara dura! E, ainda por cima, de cara feia. Dane-se! Cara feia para mim é fome.
— Qualquer coisa me liga. Pode ser a hora que for, tá bom? — pedi enquanto acariciava seu rosto com a mão direita.
Mantendo sempre o semblante sério e um olhar fixo em mim, Gil apenas assentiu.
— Quando for à noite eu ligo para o seu celular para saber como está.
Ele mais uma vez apenas respondeu com um positivo balançar de cabeça.
Maldito Bryan que só apareceu para deixar meu amor pior do que ele já estava!
Eu me inclinei para lhe dar um beijo na boca de despedida, só que Gil foi mais rápido e beijou-me, porém na testa. Sua atitude me deixou desconcertada e mais ainda o que veio depois.
— A gente se fala, Sara!
Seco e frio como um iceman. Parecia mais que ele se despedia de uma velha conhecida e não da noiva.
Vou colocar tal comportamento na conta de Bryan e sua indesejosa aparição de momentos atrás.
Luke surgiu ao nosso lado pronto para me levar em casa. Gil quis saber dele onde havia largado Bryan e seu motorista lhe informou que o sujeito já tinha ido embora, e que ele mesmo tinha o conduzido até seu próprio carro e ficou vendo Bryan partir dali no veículo importado.
— Podemos ir quando quiser, senhorita Sidle.
— Se cuida. — murmurei para Gil e lhe dei um abraço, que ele retribuiu.
Me despedi dos demais trocando abraços com cada um, exceto Maryane e Matilde. Essas duas não fiz questão alguma de abraçar e muito menos dirigir a palavra. Elas não gostam de mim para quê perder meu tempo com elas.
Despedidas feitas segui com Luke até o carro. Antes de entrar no veículo acenei para Gil que devolveu-me o gesto. Já dentro do automóvel vi com desagrado Maryane se aproximar do meu noivo e lhe dizer algo que não fui capaz de entender por leitura labial. O que quer que aquela insuportável disse a resposta de Gil veio em um aceno positivo de cabeça. Pelo retrovisor eu ainda vi quando os dois de braços dados, ou melhor, Maryane atracada no braço de Gil, seguiram juntamente com os demais em direção à dois veículos.
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