One Night - Livro 1

76 Capítulo LXXVI


Santa Mônica apesar de ser uma cidade pequena, atrai viajantes do mundo todo em todas as épocas do ano em busca de Sol e diversão.

Amo essa cidade!

A longa faixa de areia e a magnífica vista do Oceano Pacífico são dignas de estamparem cartões postais.

Por ali a época mais quente vai dos meses de junho à setembro, quando é verão no Hemisfério Norte. Neste período chove e venta pouco na região, aumentando a sensação de abafo, mas apesar disso adorava aquele lugar. É a terra onde nasci! E às vezes sentia falta de voltar a morar ali, mas ainda assim, estava bem onde residia atualmente.

— Prontinho, senhorita... Está devidamente protegida deste sol.

Gil finalizou sua tarefa de me passar protetor solar, a qua eu havia lhe incumbido de fazer minutos atrás.

— Mas já?... Achei que ia se aproveitar de mim!

Zombei, virando o rosto de lado para enxergar por cima dos ombros Grissom sentado atrás de mim.

O Sr.Gostoso caiu na risada. Aquele ali gostava de fazer safadeza e de ouvir umas também.

— E você queria que eu me aproveitasse, é? — sua voz beirou a malícia pura.

— Não com tantos olhos por perto. — havia um bom número de pessoas na praia naquele domingo. A verdade é que sempre havia! — Mas como você é descarado e tarado pra não se importar com os outros, achei que ia se aproveitar mesmo assim.

Novamente ele gargalhou e se inclinando em minha direção, me plantou um beijo estalado na maçã do rosto.

— Vontade não me faltou, mas... Como você mesma disse... — sua voz baixou e virou um mero sussurro enquanto que seu nariz raspava meu rosto numa doce carícia. — ... Têm olhos demais por perto, principalmente de crianças e não quero chocá-las com meu descaramento.

— Você não presta! — com o ombro lhe bati o peito de leve. Grissom apenas riu rente a minha orelha antes de mordiscá-la e se afastar de mim. — E obrigada por me passar o protetor solar.

Uma hora trás enquanto tomávamos tardiamente o café em nosso quarto, o Sr.Gostoso propôs de virmos a praia aproveitar o dia ensolarado que fazia. Só que havia um pequeno problema para mim nisso. Eu não havia trago biquíni. Não achei que seria preciso trazer um, pois julguei que nem viríamos a praia. E diante da minha falta de roupa de banho, o Sr.Gostoso afirmou que podia muito bem me comprar uma, como acabou comprando sob fortes protestos meus que queria comprar eu mesma a peça ao invés de deixá-lo fazer isso. Só que ele acabou vencendo o nosso cabo de guerra e pagando pelo biquíni para mim. E então, cá estávamos na praia.

— De nada, querida!

Sorrindo de maneira estonteante Gil me deu uma leve tapa na bunda.

— Ei!

Reclamei, apontando discretamente com a cabeça na direção de Luke que estava há alguns passos de distância da gente, vestido de maneira informal — bermuda, camiseta, boné e óculos — acomodado numa cadeira de praia colorida, sob a sombra de um guarda-sol enquanto lia um jornal.

Gil olhou para o sujeito e sorriu. Depois voltou-se para cochichar a mim:

— Ele está mais interessado em ler seu jornal.

Mas quem me garante que não podia estar nos espreitando disfarçadamente sob as lentes escuras de seu óculos de sol?

— Além do mais já te falei que Luke é cego e surdo em ocasiões que não lhe dizem respeito, Sara.

— Hum...

Começo a achar que além de motorista, Luke faz às vezes de segurança de Gil também, pois está quase sempre na cola do Sr.Gostoso como um cão de guarda. Ia tirar essa dúvida agora com Gil, mas ele rapidamente se pôs de pé ao meu lado antes que eu lhe perguntasse qualquer coisa. E assim sua sombra bloqueou do sol parte das minhas costas e bunda. Virando-me de peito para cima sobre a canga estendida na areia, eu o encarei com uma das mãos sobre as vistas para fazer sombra e protegê-la do sol, enquanto aquele ser gostoso olhava para o mar.

— Vou cair na água. Me acompanha?

Ele me encarou lindo em seus óculos escuros.

— Nem pensar!

— Por que?

— Essa água é fria. — avisei.

Como são banhadas pelo Oceano Pacífico, a temperatura da água costuma ser bem fria. E Deus me livre hoje entrar ali.

— Eu não tenho problemas com água fria.

— Então boa sorte, querido.

Eu assisti Grissom tirar os ósculos e me estender o objeto, que tratei de colocá-lo em mim; aí foi a vez de me deliciar vendo-o se livrar da regate preta que trazia estampada no peito o nome em branco de uma conhecida marca esportiva. Assim pude contemplar seu peitoral e o abdômen que ficaram expostos para o meu total deleite. Suspirei alto atraindo sua atenção e lhe arrancando um sorriso safado.

Da sua mão apanhei a regata que ele me estendeu embolada. Me permiti observar Gil de cima abaixo. Não cansaria nunca de pensar e repetir a mim mesma o quão sortuda eu era por ter na minha vida um belo espécime de homem como Gilbert Grissom. Alguém que além de ter ótimos atributos físicos e bom caráter, ainda possuía uma performance na cama formidável, capaz de deixar no chinelo muito garotão por aí.

— Sara estou falando com você!

Me espantei com ele agachado em frente a mim, tocando meu rosto.

— Oi!

Havia me perdido em ficar admirando-o, ou melhor, babando mesmo pelo meu namorado gostoso, que sequer notei que antes ele falava comigo.

— Desculpa. O que disse?

— Acho que alguém se entreteu demais me inspecionando, né?

Sorri sem jeito por ter sido pega em flagrante. E Grissom caiu na risada de mim.

— Não precisa ficar tímida. Gosto de ver que se perde olhando pra mim. Faz com que me sinta mais especial ainda na sua vida.

— E você é especial na minha vida! — bastante especial, por sinal! — Além de lindo e com um sabor inigualável, que adorei experimentar ontem! — cochichei sem pudor essa última parte para que somente Gil ouvisse.

As sobrancelhas dele se ergueram de maneira engraçada. Um largo sorriso se abriu e detectei um brilho lascivo em seus olhos azuis.

— Querida... Se continuar me dizendo coisas desse tipo... Esqueço que estamos num lugar público e seremos presos por atentado ao pudor.

Caí na risada e ele também.

— Vai tomar o seu banho, vai. Ou a minha boca vai seguir destilando o que não deve.

— Sua boca... — ele sussurrou, sorrindo e por dois segundo ficou olhando fixo para ela. Aí, fechou os olhos. Acredito que estivesse lembrando de ontem e do que minha boca foi capaz de lhe proporcionar. — ... Ela é mágica!

— A sua também!

E por Deus como ela era mesmo! Só de lembrar do que ela já foi capaz de me proporcionar nesse meio tempo em que já estávamos juntos, eu sentia uma pontada gostosa no meio das pernas.

Grissom abriu os olhos e me encarou por segundos.

— Deixa eu ir senão nós estamos perdidos.

Ele me deu um beijo delicado na ponta do nariz antes de se colocar de pé e se afastar rumo a água.

Me virando de bruços outra vez, me pus a observer Gil ir se afastando de mim. A água da praia estava há certa distância de onde havíamos escolhido ficar. Então eu podia me deliciar vendo meu namorado ir desfilando lindo e maravilhoso.

Achei bom quando Gil disse que não gostava de usar sunga e só tomava banho de short na praia, porque tinha certeza que de sunga, certas partes suas chamariam mais atenção da mulherada por ali. E não quero olhos gulosos em cima do que é meu.

Sara Sidle está tratando seu namorado como uma propriedade? Justo você que detesta ser tratada assim? E inclusive brigou com ele, quando o mesmo te tratou igual?

Uma voz diabólica caçoou de mim as gargalhadas.

Vai se ferrar, sua diaba!, mandei em pensamento.

Grissom passou perto de um grupo de cinco mulheres e notei que elas pareceram mexer com ele, pois o Sr.Gostoso virou o pescoço para olhá-las e na sequência balançou a cabeça negativamente. Podia jurar que ele sorriu a elas.

Que 'gracinha' elas teriam lhe dito?!

Suspirei com desagrado.

Teria que me acostumar com o fato de que aquele homem despertava a atenção da mulherada por onde passava. Mas também que ser do sexo feminino não ia olhar com desejo para um tipão como ele? Difícil! Só se a sujeita fosse cega mesmo, porque do contrário era quase impossível Grissom passar despercebido.

Ele entrou na água e adivinha? Novos olhares lhe foram dirigidos de outro grupinho de mulheres que jogava vôlei na água, quase próximas de onde Grissom banhava.

Eu devia ter ido junto com ele!

E essas palavras começaram a ganhar mais força ainda quando vi instantes depois uma das garotas do grupo de vôlei se desgarrar dele para se aproximar de Grissom e ao que parece começar a bater papo com ele.

Coisa de cinco segundos depois vi com desagrado eles sorrirem e trocarem um abraço em cumprimento. Parecia até que acabavam de se "reconhecer" e não se conhecer.

Imediatamente me sentei sobre a canga e tirei os óculos. O ciúmes já me corroendo. Sentimento filho da puta esse! Comecei a desejar matar Gil afogado e depois aquela mulher, que eu já detestava sem saber quem ela era.

Já estava pronta para me levantar e decidida a enfrentar naquela água fria somente para saber o que estava rolando lá entre aqueles dois. Grissom e aquela loira de repente pareceram íntimos demais para o meu gosto. Mas só para boicotar a minha intenção, o bendito do meu celular tocou dentro da bolsa de palha que Gil também havia me comprado junto com o biquíni.

— Ai, que bosta! Não tinha outra hora pra tocar celular?! — chiei.

Da bolsa apanhei o aparelho e atendi a chamada sem ver quem era, pois meu interesse estava mais em ficar observando Grissom na companhia daquela mulher, que agora por sinal, repousava a mão no ombro dele.

— Alô!

Vi Grissom inesperadamente apontar na minha direção; a mulher largou seu ombro e olhou para onde eu estava. Gil ergueu o braço acenando para mim e a mulher junto com ele também. Acenei de volta nada contente a eles.

— SARA!

A pessoa na linha berrou e eu me assustei.

— Oi! Quem fala?

Não havia reconhecido a voz. Só identifiquei que era de homem.

— Ah, já esqueceu da minha voz? Valeu, viu?!

— Owen? — franzi a testa quase não acreditando.

— Ah, já lembrou?

— Desculpa é que... — me interrompi ao ver Grissom e a desconhecida trocarem um novo abraço seguido de dois beijos no rosto antes da loira se afastar e voltar ao grupo de vôlei.

— Sara, você tá ocupada? Eu posso ligar outra hora.

— Não, não, Owen. Pode falar!

Uma loira enxerida já se afastou do meu namorado!

— Como você está? Liguei pra sua casa antes e Dayse me falou que viajou.

— É, vim falar ontem de manhã com os meus pais, mas não foi muito legal o papo.

— Por que?

— Contei pra eles sobre eu e Grissom, o noivo da minha prima. Aquele sujeito que mandei você falar que estava transando comigo, lembra?

— Lembro. — lhe ouvi sorrir — Até porque é bem difícil esquecer aquilo. E seus pais não aceitaram o relacionamento de vocês?

— Meu pai nenhum pouco. Já a minha mãe me procurou ontem a tarde e disse que está do meu lado.

— As mães são mais compreensíveis do que os pais mesmo. Mas seu pai também vai ceder logo.

— É o que espero. Mas e você como está?

— Na correria. Mas tô bem, obrigado. E preciso falar com você pessoalmente. Por isso liguei. Podemos marcar um almoço ou jantar?

— Claro! Quando?

— Essa semana não dá, tenho que viajar pra uma Bienal no Canadá, feira do livro em Massachusetts e pra completar, ainda tenho o aniversário de casamento dos meus pais em Houston. Eles vão fazer uma festa de três dias e me intimaram a comparecer.

— Quantos anos de casamento?

— Quarenta!

— Nossa! Então se vai tá tão atolado assim, por que não me conta logo por telefone mesmo o que tem pra contar?

Avistei Grissom sair da água e vir caminhando de volta para onde eu estava.

— Negativo! Quero está olhando pra você quando escutar o que tenho pra te dizer. É, algo que vai te surpreender.

— Assim me deixa curiosa, sabia?

O que será que ele tinha para mim? Não conseguia pensar em nada agora.

— Semana que vem... Almoçamos ou jantamos e aí te conto.

— Sacanagem, Owen. Vai me deixar curiosa até semana que vem?

Ele riu.

— Sim!

— Seu ruim!

Agora ele caiu na gargalhada e nesse instante eu tinha Grissom diante de mim.

— Isso não se faz, sabia?

— Desculpa!

— Cara de pau!

— Vai ficar me tecendo elogios, mesmo é?

Desta vez quem caiu na risada fui eu. Grissom se sentou ao meu lado e parecia bem interessado na conversa que eu estava tendo. Só de pirraça eu mencionei o nome da pessoa com quem falava.

— Owen, você merece esses elogios todos, ora!

As sobrancelhas de Gil se ergueram e seus olhos se estreitaram mais em mim. Apenas lhe sorri numa falsa inocência.

— Ah, valeu viu?! Vou desligar depois dessa.

— Olha o drama. Isso não combina com você.

— Tá bom. Mas preciso desligar mesmo. Vou arrumar as malas pra viajar. Te ligo na próxima semana pra acertar os detalhes do nosso almoço ou jantar.

— Tá bom. Vou aguardar sua ligação pra marcar a nossa saída. Beijos.

— Outros. Bye!

— Bye!

Ligação finalizada e um Grissom emburrado me encarava.

— Que foi? — fingi a mais pura inocência.

— Esse sujeito com quem falava é o mesmo Owen que você mandou me dizer que estava... — ele se interrompeu e pareceu lutar consigo mesmo para completar aquela frase. Diga! — ... Você sabe...

— Não, não sei. — dissimulei.

— Não me faça dizer, Sara.

Eu queria que ele dissesse mesmo, mas sabia que ele não o faria.

— Sim, é o mesmo Owen. Por quê?

— O que esse cara queria com você?

— Marcar de sairmos pra almoçar ou jantar semana que vem porque ele quer me contar algo pessoalmente!

— Como é?

Sua expressão de desagrado quase me rendeu risos.

— Exatamente o que você ouviu.

— E você vai sair com ele?

— Claro. Ele é meu amigo. — Gil já ia dizer algo, mas não deixei e fui logo lhe cobrando explicações pela mulher que vi lhe abraçar. —
Quem era aquela fulana lá te abraçando na água, posso saber?

A expressão taciturna dele mudou na hora para uma debochada, assim como o sorriso que surgiu em sua boca bem esculpida.

— Uma amiga! — ele respondeu com certo sarcasmo.

Esse homem têm amigas demais para o meu gosto, hein?!

— Essa amiga não tem nome, não? — cobrei.

— Tem o nome que você me deu quando nos conhecemos, ainda lembra qual era?

Samantha!

— Claro que lembro!

— Sammy é filha de um conhecido meu da Alemanha.

Sammy? Intimidade é uma merda mesmo.

— Alemanha está meio longe daqui né? — usei um tom bem irônico. — O que essa Sammy faz por aqui?

Ele riu antes de explicar:

— Ela veio com um grupo a trabalho. Sammy me contou que é modelo e está aqui junto com outras garotas para fazerem uma campanha à uma grife de roupas de banho. Pra falar a verdade, nem reconheci a Samantha quando veio falar comigo. Ela quem me reconheceu. E se não me conta de quem é filha ia passar batida por mim. Faz tempo que não a via. A última vez ela tinha dez anos e dizia que ia casar comigo quando tivesse vinte.

Mas que garota atrevida e de bom gosto, pois sabia escolher bem o futuro marido!

— E quanto anos ela tem agora?

— Vinte e três, e está noiva de um fotógrafo.

Apreciei demais essa última informação. Noiva! Melhor assim... Pra ela!

— Não gostei nada dela te abraçar. — resmunguei insatisfeita com isso.

— E eu não gostei nada desse tal de Owen te ligando pra marcar encontrinho com você. Nada de sair com esse cara.

— Ele é só meu amigo, já disse.

— Mas é um amigo com quem você trocou salivas, né?

Apertei os lábios para não rir dele. Confesso que agora estava me divertindo com aquela sua cena de ciúmes. A raiva de segundos atrás já havia passado instantaneamente e nem me preocupava mais com aquela fulana de nome Samantha. Ela tinha noivo mesmo!

Com o indicador fiz um gesto chamando Grissom para mais perto. Ele se inclinou atendendo meu pedido e ao tê-lo pertinho de mim, eu o beijei. Gil retribuiu na mesma hora.

— Sr.Ciumento! — sussurrei ao afastar meus lábios dos dele.

— Rá! Olha quem fala a Sra.Ciumenta!

Nós dois rimos.

— Temos sérios problemas em lidar com esse sentimento, querido.

— Mas sobreviveremos, meu amor!

****

Uma gota de suor despencou de sua têmpora esquerda e caiu sobre meu peito nú; os olhos dele estavam fechados, os dentes apertavam o lábio inferior, deixando-o quase branco devido a força com a qual fazia aquilo; uma de suas mãos golpeou outra vez minha bunda. E pela respiração entrecortada que ele já deixava escapar àquela altura, eu sabia... Grissom já estava perto de vir!

— Vem pra mim, Gil!

Lhe sussurrei antes de morder seu ombro, sentindo meus músculos se contraírem. Bastaram apenas segundos de mais algumas cavalgadas minhas, para Grissom se desaguar dentro de mim e eu acompanhá-lo em meu orgasmo que veio tão intenso quanto o dele.

De sentados no centro da cama como estávamos fazendo amor, fomos parar deitados, no momento em que Grissom se jogou para trás levando-me junto consigo.

Permaneci sobre ele suada, cansada e extasiada com nossa recente atividade. Já estávamos há mais de uma hora naquela "brincadeira", que começou bem depois do nosso almoço assim que retornarmos da praia onde permanecemos até a uma da tarde.

— Garota... Você ainda me mata!

Quis gargalhar, mas estava tão exausta que o máximo que consegui foi deixar uma risadinha fraca escapar. Por mais pouco tempo permaneci sobre Gil até consegui rolar para lado e cair de costas no colchão macio.

— Ainda não sinto minhas pernas. Elas estão dormentes, querida.

Virei de lado para Gil e joguei uma perna sobre as dele, sentindo-a pesada e também dormente.

— Passamos tempo demais transando nessa posição de sentados.

Seu sorriso relaxado me fez sorrir junto com Grissom. Creio que depois dessa sessão tínhamos zerado a saudade de uma semana sem relações. Pelas minhas contas foram cinco sessões intensas e maravilhosas de ontem para hoje. Melhor que isso só a noite em que nos conhecemos!

— Estou com sede! — comentei, quebrando o silêncio que pairou sobre nós depois da minha última fala. Sentia a boca seca demais. — ... Vou beber água.

Eu precisava de água mesmo!

— Traga também um copo de água pra mim, querida, por favor?

— Tá!

Com as pernas ainda bambas, me levantei e passei por cima de Gil para sair da cama. De pé só ouvi o estalo e senti uma ardência na bunda. Ele tinha acertado-me um tapa naquela região.

— Não resisti! — ele ria de um jeito sacana, quando eu o olhei feio após o golpe.

Apenas balancei a cabeça.

Grissom parecia ter uma obsessão em golpear minha bunda. Era incrível!

Do chão apanhei a camiseta dele e coloquei em mim antes de me dirigir a porta.

— Já volto!

Ele apenas resmungou um "tá".

Saí do quarto ouvindo o celular de Grissom tocar. Aquele aparelho não lhe dava trégua, vire-mexe tocava quando estávamos juntos.

Do frigobar da sala peguei uma garrafa gelada de água mineral. Despejei o líquido incolor num copo de vidro e com gosto tomei toda a quantidade generosa que havia posto ali. Parecia que não bebia água há dias. Mais outra dose de água e enchi o copo para levar ao Grissom.

Entrando no quarto encontrei o Sr.Gostoso sentado a cama com o lençol lhe cobrindo a nudez, enquanto falava exasperado ao telefone.

— Joshua não quero saber de pagamento parcelado, porra nenhuma. Quando eu emprestei a merda do dinheiro pra ele não foi parcelado. Foi a quantia toda. — estendi o copo a Grissom, que pegou da minha mão o objeto e piscou-me em agradecimento. Ele deu um gole na bebida enquanto parecia ouvir o que a outra pessoa dizia. Me acomodei ao seu lado e fiquei prestando atenção na sua conversa. — Quantia obcena? Mas na hora de receber essa mesma quantia, ele não fez cú doce algum, né? Agora pra me devolver a grana é isso?... Eu quero o dinheiro todo, sem parcelar nada! Diga isso ao advogado dele, Joshua!... Aquele infeliz que dê o jeito de levantar essa grana no prazo que dei ou vou a juízo tomar o escritório dele... Passar bem!

Ele encerrou a chamada e irritado jogou o celular na mesinha ao lado da cama.

— Você estava falando do Bryan, né?

Aquele papo de cobrança de dinheiro... Escritório ser tomado... Só podia ser sobre aquele intragável.

Grissom confirmou, terminando de beber o restante da água que eu lhe trouxe.

— O advogado dele entrou em contato com o meu ainda pouco... — Gil contou depositando o copo na mesma mesa em que jogou o celular. — ... Eles sugerem um acordo de parcelamento da dívida do Bryan. Alegam que a quantia é obcena demais para ser paga assim de uma vez. Mas o engraçado é que quando emprestei, ela não apareceu obcena demais para o Bryan aceitar!

— E é uma "quantia obcena" mesmo?

— Sim. Eu paguei a reforma toda do novo escritório dele ano passado. Foi bastante grana que isso me custou. Na época não havia sido empréstimo. Pra ser franco, eu tinha dado essa grana pra ele. Mas depois das coisas que você me contou, as quais me fizeram ver quem de fato era aquele sujeito. Eu resolvi me vingar daquele canalhorda onde mais lhe doí... No bolso!

— Gil, eu tenho a impressão de que esse cara ainda vai te trazer problemas por isso que está fazendo à ele.

— Não tenho medo de problemas e muito menos do Bryan.

— Fico com medo daquele infeliz fazer algo de ruim pra você. — eu o abracei pela cintura, descansando a cabeça em seu peito. — A culpa ia ser minha. Eu te contei as coisas sobre esse bastardo e você tomou as minhas dores.

— E tomarei quantas vezes forem preciso, Sara. Ninguém fica assediando a minha mulher e fica por isso mesmo.

— Sua mulher? — levantei a cabeça e olhei para ele tentando não sorrir daquilo. Apesar do termo um tanto possessivo para o meu gosto, eu apreciei aquilo.

— Sim. Só minha.

Segurando meu queixo, Gil salpicou em minha boca três beijos seguidos.

Sorri e só para provocá-lo, eu comentei despretensiosamente:

— Mais ainda nem somos casados pra você me intitular como "sua mulher". — meu dedo indicador deslizou por sua clavícula e vi um sorriso em Grissom. — Sou no máximo sua namorada, ou melhor, noiva já que me pediu em casamento. — de repente mencionar sobre isso fez com que eu me desse conta de algo, que até então havia passado despercebido por mim. — Ei! Espera aí. Temos um probleminha aqui, sabia?

— Temos? Qual seria? — ele tinha o cenho franzido e brincava com a ponta dos meus cabelos, ao ficar enrolando-os em seu dedo indicador.

— Se eu sou sua noiva... Devia ter um anel no meu dedo, certo? Mas olha só... não há anel algum! — minha mão direita estava diante do rosto de Grissom mostrando a ausência da jóia de compromisso.

— Nossa que falha horrível minha. — seu sorriso brincalhão seguido do beijo que ganhei nas costas da mão direita fizeram-me rir de Gil. — Vou providenciar pra amanhã mesmo um belo anel de noivado pra esse lindo dedo anelar.

— Vai mesmo?

— Com certeza! E você, mocinha, amanhã já trate de ir começando a ver os preparativos do nosso casamento. Temos apenas um mês pra isso, me ouviu?

— Sim, senhor.

— Quero uma festa enorme com tudo que temos direito. Você não precisa se preocupar com gastos que fica tudo por minha conta.

— Tenho carta branca pra escolher tudo então?

— Total!

— Está bem! Vou torrar uma obcena parte do seu patrimônio, pode ser? — brinquei.

Ele abriu um sorriso e resmungou um "pode" com a boca grudada a minha. E quando o beijo que ele me deu, acabou o assunto que Grissom puxou já não tinha nada a ver com o casamento.

— Sua mãe nem ligou avisando se falou com seu pai, né? — ele deslizou a mão pelos meus cabelos bagunçados.

— Não, mas ela mandou mensagem mais cedo, só esqueci de te contar, desculpa.

— E o que ela disse na mensagem?

— Não conseguiu falar com ele, porque meu pai viajou a negócios.

— Bastante providencial pra ele essa viagem, né?

— Também achei. Mas como você mesmo disse "vamos dar tempo ao tempo".

— Exatamente. Espero que até o nosso casamento seu pai tenha mudado de ideia.

Eu também!

****

Era por volta das sete e pouco da noite quando pousamos numa área privada do aeroporto. O mesmo carro que me deixou ontem ali, já nos aguardava num canto da pista. Desembarcamos do jato e fomos direto para o carro.

— Você vai dormir lá em casa?

— É a minha intenção. A não ser que você já esteja de saco cheio da minha companhia. É o caso?

— Jamais! Portanto... Você dorme lá. — decretei e ele veio para me beijar. Só que o toque do seu celular brecou as intenções de Gil, quando ele já estava à milímetros da minha boca.

Começo a pegar ódio desse seu celular!

— Às vezes gostaria muito de me livrar desse celular, mas aí lembro que não posso por causa do trabalho. Só espero que não seja problemas pra eu resolver.

— E nem que te façam viajar por tantos dias, por favor. — choraminguei, fazendo Gil abrir um sorriso.

Ficar longe dele já havia se tornado uma tortura.

— Alô!

Deslizando a mão por minha coxa, ele atendeu a chamada e assim que informou a pessoa do outro lado da linha, que já tinha voltado da sua viagem, notei sua expressão empalidecer e sua mão apertou minha coxa. Me preocupei com aquela sua reação.

— Tá! Eu vou deixar Sara na casa dela e vou para o hospital que estão, Lewis.

Hospital? Quem terá ido parar no hospital? Será que foi o pai deles?

Após mais algumas palavras trocadas com o irmão, Grissom encerrou a chamada e obviamente, não perdi tempo em tentar saber o que houve.

— O que aconteceu, Gil? Quem foi para o hospital, querido?

— Meu pai!... Ele foi encontrado pela Matilde inconsciente no chão do escritório da casa dele. Na mesma hora ligaram para uma ambulância e o coroa foi levado às pressas e ainda inconsciente para um hospital. — em seus olhos vi uma névoa de tensão e medo. — Vou te deixar em casa e seguir para onde o meu pai foi levado.

Eu queria ir com ele e permanecer lá ao seu lado num momento como esse, mas como ele não me chamou para ir junto, então fiquei na minha e apenas assenti concordando com o que Gil disse.

— Tenho certeza que vai ficar tudo bem com seu pai. Deve ter sido só um susto isso. — pronunciei após uns segundos de silêncio e tentando tranquilizar Gil.

— Tomara que esteja certa e tenha sido mesmo só um susto, Sara. — sua mão buscou a minha e ele entrelaçou nossos dedos.

Em torno de quinze minutos, Luke estacionava em frente ao meu prédio.

— Me liga depois dando notícias do seu pai quando tiver?

— Ligo, sim, prometo.

Trocamos um beijo de despedida e desci do carro. Luke que havia descido também para abrir a porta, entregou-me a mala com meus pertences que tirou do bagageiro do veículo.

— Obrigada, Luke.

— De nada, senhorita Sidle! E boa noite.

Apenas assenti lhe desejando o mesmo. Mas dificilmente eu teria uma "boa noite" depois do que soube sobre o pai de Gil. Tudo bem que aquele senhor não gosta de mim e nem eu dele. Mas jamais ia ficar feliz com algo de ruim que acontecesse com ele. Para ser franca eu estava preocupada com seu estado e torcendo para a causa desse seu desmaio não ter sido de natureza grave.

O carro de Gil partiu dali e eu segui para portaria do prédio. Cumprimentei o seu Joel quando ele abriu o portão eletrônico. Me dirigi pelo hall do prédio até chegar no elevador.

Coisa de dois minutos ou até bem menos que isso, eu já estava entrando no apê e largando a valise perto da porta.

— Ei! Pela sua cara séria as coisas em Santa Mônica foram péssimas.

Dayse estava de pijamas no sofá, com um pote de sorvete de creme nas mãos e a TV liga numa série que adoramos assistir.

— As coisas por lá não foram um "mar de rosas" como já imaginava, mas... — caí sentada ao lado de Dayse no sofá e tomei de sua mão a colher que ela usava para comer o sorvete. — ... A minha cara séria não é por isso. — revelei antes de levar um pouco de sorvete a boca.

— É por qual razão então? — Dayse reivindicou sua colher de volta.

— Hum... No caminho pra cá Lewis ligou para Gil contando que o pai deles foi levado inconsciente para um hospital.

— Nossa! E é grave o estado do velho?

— Lewis não falou. Mas tô rezando que não seja.

— E não será, pois como diz o ditado "Vaso ruim não quebra!". — ela riu, mas eu não.

— Dayse isso não tem graça. — olhei feio para ela. Não era hora de tiradas engraçadas.

— Tá, foi mal! .... Me diz aí... por que você não foi com Grissom ao hospital?

— Ele quis me deixar aqui. Acho que não queria que eu fosse com ele, talvez, sei lá.

— Mas você queria ter ido, né?

— Sim. Só que não disse nada, porque ele já tinha decretado me deixar em casa antes de seguir para o hospital.

— Pois eu, meu bem, teria dito na mesma hora: "Não, querido, eu vou com você ao hospital".

Também acho que devia ter feito algo assim, porém não fiz inibida com a pronta decisão de Gil em me deixar em casa!

— Ah, agora já foi, Dayse!

— É, né?! Fazer o quê?... Agora mudando de assunto... Como foi lá com seus pais?

A próxima uma hora se resumiu em eu satisfazer detalhadamente a curiosidade da minha amiga quanto ao que ela me perguntou.

Dayse se mostrou furiosa com meu pai por duvidar de mim; surpresa com Maryane quando lhe revelei que ela confirmou para os meus pais tudo o que eu havia lhe acusado; e feliz por no fim das contas ao menos minha mãe e Sean terem ficado do meu lado.

Bem mais tarde, sozinha no meu quarto eu resolvi ligar para Gil antes de dormir, já que ele não me ligou para dar qualquer informação sobre seu pai. Estava preocupada com aquela sua ausência de notícias, pois isso podia indicar coisa ruim.

Três toques após a discagem da chamada, eu ouvia a voz de Grissom.

— Oi, Gil!

— Oi, me desculpa. Prometi ligar pra você, mas acabei esquecendo diante de tantas ligações de conhecidos que já recebi.

— Tudo bem, Gil. Mas como está o seu pai? Você já soube o que ele teve?

— O médico que fez os primeiros atendimentos e exames no velho nos disse, que o coroa teve um AVC hemorrágico e precisava urgentemente ser operado. Lá ele foi levado para o centro cirúrgico onde permanece há horas fazendo um procedimento para estancar o sangramento proveniente do rompimento de um das artérias que irrigam o cérebro.

Puta merda! AVC hemorrágico isso me parece grave demais.

— E não há previsão de quando vai terminar essa cirurgia?

— Gil, o médico do seu pai tá vindo!

A voz que escutei ao fundo pronunciar tal frase antes de Grissom me responder, soou muito bem conhecida para mim: Maryane!

— Eu ligo pra você já, já. — Gil me disse afoitamente.

— Tá!

Foi tudo que consegui replicar antes de ouvir a chamada ser encerrada por ele.

Aquela peste da minha prima estava lá! Terá sido por isso que Grissom não quis me levar com ele para o hospital e sim, deixar em casa?

Raiva. Ciúmes e mil caraminholas me visitaram enquanto aguardava o retorno da ligação de Grissom.

Feito um felino enjaulado, eu caminhei pelo quarto com o celular em mãos o tempo todo.

Maryane estava lá com ele...

Maryane estava lá com Gil...

Maryane estava lá com meu namorado...

E eu aqui!

Os papéis não me pareceram certos. Estavam invertidos. Quem devia estar lá era EU!

Em dez minutos, eu estava toda arrumada e pronta. Pronta para ir até o hospital — que eu ainda não sabia qual era, mas perguntaria a Gil assim que ele ligasse.

Eu ia ficar com o meu amado, pois não ia dar o gostinho a Maryane de ficar lá dando "apóio" ao meu namorado. Se duvidar aquela peste deve estar se aproveitando de uma situação tão delicada como esta para se aproximar de Grissom. Eu já podia até vê-la sobrevoando o Sr.Gostoso como uma mosca sobre a comida.

"Ah! Mas vou cortar seu barato, Maryane!"

— Anda Grissom, liga!

Quase que simultaneamente ao que eu acabei de dizer, o celular reverberou na minha mão. Mais que depressa atendi a chamada de Gil.

— Oi!

— Desculpa a demora, o médico estava nos explicando a situação do meu pai.

Ele tinha uma voz pesada e abatida. Acho que a coisa era mais séria quanto eu imaginava.

— E aí o que ele disse sobre o seu pai?

— O médico evitou dizer se o estado é grave, se haverá sequelas ou não, o que nesse caso é o mais provável de acontecer. Mas ele reconheceu que a situação do coroa é "delicada".

Para mim essa "situação delicada" estava mais com cara de "estado gravíssimo".

— E o procedimento que fizeram nele, deu tudo certo?

— Sim. Conseguiram estancar o sangramento e agora meu pai foi colocado na terapia intensiva pra ser monitorado mais de perto pela junta médica. Amanhã eles vão reavaliá—lo. Como ninguém pode ficar de acompanhante do velho no CTI, o médico nos sugeriu ir pra casa e vir só amanhã a tarde. Mas nos garantiu que qualquer coisa ia ligar pra mim ou Lewis avisando.

— Então você está indo pra casa já?

— Na verdade vou pra casa do meu pai. Lewis pediu. E é até melhor, pois fica mais perto daqui do hospital, do que a minha casa.

Olhei para mim mesma toda pronta para sair atrás dele no hospital e desisti de mencionar a respeito das minhas intenções.

— Tá bom, então. — concordei, sendo que ele não estava me pedindo permissão e sim, me comunicando aquela sua decisão.

Até quis questionar sobre Maryane estar lá no hospital com ele, mas achei por bem nem fazer isso. Não era momento e nem ocasião propícia para bancar a namorada ciumenta e possessiva. Eu tinha que confiar nele e até confiava. Mas na Maryane não! Sabia que aquela ali não era de dar ponto sem nó e eu precisava ficar esperta com isso.

— Qualquer coisa você me liga?

— Ligo, meu amor!

Torci para naquele momento Maryane estar por perto só para ter escutado Grissom me chamar daquela forma carinhosa. Daria tudo para ver a cara daquela nojenta invejosa nesse instante.

— A hora que for?

Ouvi o breve som de um melancólico sorriso seu.

— A hora que for, querida!

Nos despedimos e a chamada foi finalizada.

Notas finais
Duas palavras pra vocês: reta final! Beijos e até o próximo capítulo.