One Night - Livro 1
73 Capítulo LXXIII
Notas iniciais
— Maryane está aqui?
Se Li tivesse dito que zombies estavam atacando, com certeza, não teria me deixado tão em pânico quanto o fato de Maryane estar lá falando com meus pais.
— Sim!
Merda! Merda! Mil vezes merda!
— Ela chegou ontem a noite. Ligou anteontem, falou com Sean e avisou que vinha pra falar com os pais de vocês. Agora estão lá há um bom tempo conversando.
Suspirei angustiada e nervosa ao imaginar que aquela altura Maryane já deve ter feito a minha caveira e inventado as piores mentiras a meu respeito, além de ter contado da maneira deturpada dela sobre Grissom e eu.
Droga! Eu devia ter deixado Gil entrar comigo! Enfrentar aquela situação sozinha, agora me pareceu amedrontadora ao extremo.
Mas agora não adianta mais choramingar por isso. Teria que enfrentar sozinha mesmo aquilo tudo, porque eu não ia ligar para ele pedindo que voltasse. Não mesmo! E muito menos lhe diria que Maryane estava aqui. Não agora! Ou do contrário aquele homem ia surtar e a cagada seria ainda pior.
— Sara está tudo bem com você?
— Sim, Li!
Menti. Por dentro eu estava uma pilha de nervos e apavorada com a situação e o momento em que meus pais me veriam ali.
— Você sabe o que minha prima veio falar com meus pais?
Acho pouco provável que a peste da Maryane tenha antecipado o teor de sua conversa a Li, ou do contrário, a minha querida babá estaria me olhando e me tratando bem diferente.
— Não faço ideia, querida. Mas pela cara dela o assunto não era dos melhores.
— Sara!
Virei-me ao chamado do meu irmão. Sean veio até mim e deu-me seu abraço de urso esmagador.
— E aí, mamão? Tudo bem com você?
— Sim. E com você, maninha?
Péssimo!
— Isso não vai ficar assim, Mary. Fique tranquila.
A voz séria do meu pai dizendo isso de maneira alta pelo corredor, não me deu qualquer chance de responder a pergunta de Sean.
Santo Deus!
Eu ainda nem havia me preparado direito para o confronto com meus pais e as prováveis consequências que as mentiras da minha prima certamente me causariam, e já teria que enfrentá-los.
Numa fração de segundos eu vi meu pai surgir na sala acompanhado da minha mãe e a sonsa da minha prima. Maryane por sinal não parecia nenhum pouco surpresa em me ver, o que já despertou um sinal de alerta na minha cabeça. Aquela peste sabia que eu ia aparecer ali. Agora como ela descobriu que eu adoraria saber. Porque era muita coincidência ela aparecer aqui justo quando eu também venho para cá falar com meus pais. Decerto, aquela sonsa resolveu se antecipar a mim e assim contar sua versão mentirosa aos meus pais.
— Sara!
Pelo tom amável e o sorriso amoroso que meu pai deu ao me ver, eu intuí que aquela peste da minha prima não contou nada... AINDA!
— Pai!
Fui recebida com um abraço caloroso dele e logo em seguida foi a vez da minha mãe me abraçar. Enquanto eu a abraçava, Maryane com discrição me encarava de maneira mortal e raivosa. Acho que se ela soltasse fogo pelos olhos, eu já teria virado carvão faz tempo.
— Como vão vocês?
Aparentemente eles ainda não me odeiam. Mas em breve, talvez!
— Um tanto aborrecidos com uma notícia desagradável que Mary nos deu.
Olhei para minha prima e seu olhar duro não me pôs medo, porém me fez engolir a seco.
Bom... se ela podia dizer coisas contra mim, que eventualmente me colocariam mal diante dos meus pais, eu por outro lado também tinha bons motivos para deixá-la em péssima situação. Suas chantagens, ameaças, o caso com Bryan, eram apenas algumas das "armas" que eu podia usar contra seus ataques e mentiras. Maryane podia até me detonar, mas íamos as duas juntas para o ralo, porque o que eu sabia dela não ia deixar meus pais também nada orgulhosos.
— Não vão se cumprimentar, queridas?
Minha mãe sugeriu ao ver que não dizíamos nada e apenas nos olhávamos.
Parada eu estava e parada continuei encarando minha sonsa prima. Maryane também permaneceu igual por poucos segundos, até falar na cara dura que não ia me cumprimentar, pois tinha suas razões para isso.
Meu pai então quis saber que razões eram essas, e eu logo previ que o pior viria e a discussão se iniciaria ali mesmo.
Dane-se! Que fosse então de uma vez logo!
— Pergunte pra ela mesma, papai, porque não sou capaz de contar com todas as letras a traição da minha própria irmã.
Maryane então saiu às pressas dali e chorando — algo que julguei ser apenas um choro fingido... lágrimas de crocodilo.
Filha da mãe!
Eu já devia imaginar que ela ia fazer seu show. Óbvio que aquela sonsa não ia arriscar contar ela própria sobre minha relação com Grissom para não acabar vendo o Sr.Gostoso cumprir as ameaças que ele me disse que fez a ela, caso abrisse o bico antes de nós dois falarmos com meus pais.
— Filha volta aqui.
Meu pai ainda chamou por ela, mas já era tarde, porque a peste da minha prima tinha sumido para o andar de cima da casa e me deixado numa tremendo enrascada.
— Sara o que sua irmã quis dizer com aquelas coisas?
Por um momento eu quis me encolher diante do olhar de censura dos meus pais e os de curiosidade do Sean e da Li.
Maldita Maryane!
— Eu vou me retirar pra que possam conversar a sós.
Li me lançou um rápido olhar antes de por fim deixar meus pais, Sean e eu sozinhos ali. Ela parecia preocupada e temerosa por mim. Acho que de todos, Li pode ser que não fique contra mim nessa situação. Ou pelo menos, torço para assim ser!
— Estou esperando uma explicação, Sara.
A cobrança do meu pai me fez ficar apreensiva com o rumo que aquele conversa poderia tomar. Mas eu tinha vindo com um propósito e não ia deixar que nada e nem ninguém me intimidasse a seguir em frente. Maryane podia até querer me arruinar perante a minha família, porém eu ia fazer de tudo para ela não conseguir e muito menos, sair como a boa da história.
Obviamente o assunto em questão não era dos mais agradáveis de se revelar para minha família. Ainda mais sabendo o quão conservadores meus pais podiam ser dependendo da situação. Esta então nem se fale. Só que seja o que Deus quiser.
— Eu e o noivo da Maryane nos envolvemos e estamos juntos.
Direto e seco. Fazer rodeios naquela ocasião só ia piorar, além de me deixar mais nervosa do que eu já estava por dentro.
O choque nas expressões dos três diante de mim foi notório. Tenho certeza que isso seria a última coisa que eles julgariam ouvir de mim.
Um enorme e mortal silêncio tomou a sala enquanto eu via meus pais e meu irmão ainda tentando digerir aquela notícia bomba.
Eu esperei. E esperei mais um pouco para ver se eles diziam algo. Como isso não sucedeu então resolvi me pronunciar novamente para tentar explicar como as coisas entre Grissom e eu aconteceram, porém, meu pai tomou a minha dianteira.
— Eu não posso acreditar nisso que ouvi, Sara.
Seu olhar ainda chocado e de censura me fez sentir-me diminuída.
— Foi com você que ele teve um caso e largou a Maryane grávida?
Caso!
Ô palavra pesada e desagradável de ouvir! Só que infelizmente tinha sido a realidade. E era até dias atrás quando Gil ainda mantinha um relacionamento — de fachada diga-se de passagem — com Maryane.
— Pai...
O som da campainha me interrompeu.
— Vocês estão esperando alguém mais?
Olhei para o meu pai e este tinha uma expressão transfigurada em raiva.
— Não.
Li apareceu na sala para ir atender a porta, mas minha mãe avisou que ela mesma faria isso. Desse modo, Li fez seu caminho de volta a cozinha, enquanto minha mãe seguiu apressadamente até a porta e abriu-a.
— Bom dia, Laura!
Arregalei os olhos ao ouvir aquela voz tão bem conhecida saudando minha mãe.
Meu Deus! Gil??
Me virei na mesma hora para me certificar de que realmente era ele. E era!
Confesso que mesmo me batendo certo pânico por vê-lo ali, pois sua presença poderia fazer as coisas ficarem mais tensas e piores. Ainda assim, senti um alívio enorme com sua chegada. Eu precisava de Gil do meu lado para enfrentar essa situação. E que bom que ele apareceu.
— Eu vim participar da conversa. Ela me diz respeito também.
Seu olhar azul passeou por todos os presentes ali na sala e terminou em mim. O vi franzir a testa e na mesma hora, Gil pediu licença a minha mãe e entrou na casa sem esperar autorização. Veio até mim e segurou meu rosto.
— Sara, você está bem, querida?
Provavelmente minha expressão não era das melhores. Mas também como é que seria, né? Contudo, ele não precisava saber isso agora, ainda mais, na frente da minha família que nos encarava com visível desaprovação pelo que pude notar ao olhar por cima dos ombros largos de Gil.
— Eu acabei de contar pra eles sobre nós dois.
Sussurrei a ele.
— Ótimo! Então cheguei na hora certa.
Em um instante eu o tinha diante de mim com seu sorriso encorajador e no outro, Gil já estava longe em virtude do puxão que meu pai lhe deu para tirar Grissom de perto de mim.
— Não se atreva a tocar na minha filha outra vez, degenerado!
Meu pai apontava com raiva para Gil.
Sem se abalar e mantendo as mãos erguidas em sinal de rendição, eu vi Gil pedir calma ao meu pai, que já ia em sua direção, mas foi seguro por Sean.
— Pai, por favor, sem brigas.
Pedi me colocando na frente de Gil, pois temia por sua integridade física. Não ia permitir que meu pai fizesse mal ao homem que eu amo.
— Não é necessário isso. Gil não tem culpa de nada, nem eu. As coisas simplesmente acontecerem entre nós dois.
Argumentei e mediante as suas inúmeras interrupções, expliquei a ele e os demais como Grissom e eu nos conhecemos e como as coisas foram acontecendo entre nós. Obviamente não entrei em muitos detalhes, como por exemplo, que nos pegamos ali em casa. Contei que nossa relação só começou semanas depois do fim de semana que passei ali.
As coisas que aconteceram entre Gil e eu antes de nos reencontrarmos em Santa Mônica e outros fatos mais picantes, eram desnecessários que fossem do conhecimento da minha família, pois do contrário só iam piorar as coisas que já eram péssimas por ali.
— Como pode envolver-se com seu cunhado, o noivo de sua irmã, Sara?
— Prima!
Corrigi cansada daquela história de "irmã".
— Maryane é minha prima, pai.
Como era bom e até libertador dizer aquilo. Por anos engoli a seco e sem contrariar os meus pais quando diziam que Maryane era minha irmã. Mas agora não ia aceitar, não!
— Nós a criamos desde pequena junto com você e Sean, então ela é sua irmã, querida.
Em seu tom comedido e ainda chocado com toda aquela história minha mãe se pronunciou pela primeira vez ali.
— Além do mais, ela gosta e vê você como uma irmã querida pra ela. E você apronta isso, Sara?
Juro que quase soltei um sorriso de puro deboche quando meu pai disse isto, mas me contive. Coitado! Ele não tem noção de quem é a Maryane de verdade. Eu nunca fui uma "irmã querida" para ela e agora era hora deixar isso bem claro a todos.
— Eu posso não ser uma santa nessa história, papai. Mas Maryane também está bem longe de ser se vocês querem saber.
— O que está querendo dizer com isso?
Antes de respondê-lo, ouvi Gil me sussurrar para ter cuidado com o que eu diria, para isso não se voltar contra mim depois. Não lhe dê bola e resolvi escancarar as coisas. Já estava de saco cheio de Maryane ser considerada a boazinha, a perfeitinha enquanto que eu sou a rebelde. Cansei!
— Ela contou pra vocês que o Gil tinha uma amante não foi?
Pelo que pude entender isso ela contou a eles.
— Falou, mas não disse o nome, porque, provavelmente, ficou sem coragem de sujar a sua imagem para nós.
Essa é boa!
Ela não disse para não perder a bolada de dinheiro dela, papai querido!
— Puxa que boa Samaritana ela. Só que não, pai!... Maryane certamente não contou pra vocês que tinha um amante também enquanto era noiva do Gil, né? E que o sujeito era amigo do noivo dela aqui.
Apontei Gil atrás de mim.
Pela cara de espanto deles era óbvio que ela não contou isso. E também, era pura ilusão achar que Maryane contaria aquilo.
— Maryane é uma falsa, dissimulada e mentirosa. Nunca me viu como "irmã querida" coisa nenhuma, se vocês querem saber. Ela me detesta. Me inveja. Inclusive têm semanas que ela foi na minha casa, me agrediu física e verbalmente, me ameaçou e ainda chantageou dizendo que se eu não me afastasse do Gil, ela ia inventar as piores coisas a meu respeito pra vocês com o intuito de ficarem contra mim. E creio que ela só não cumpriu isso e revelou a vocês que EU era a mulher que estava com o noivo dela, porque...
— Chega, Sara! Já tá bom.
De maneira branda Grissom me pediu, interrompendo a minha fala.
Lancei um olhar raivoso para ele.
Qual é o problema desse homem? Por que não quer que eu conte tudo?
Um silêncio mortal, o segundo que ocorria ali, tomou o ambiente. Eu podia ver na cara da minha família o choque que as minhas revelações lhes causaram. Talvez estas parecem ter afetado meus pais mais até do que saberem que eu era a amante do noivo da Maryane.
— Isso não pode ser! Maryane não faria essas coisas todas.
Essas palavras do meu pai saídas num tom baixo, mas não baixo o suficiente que não fossem ouvidas por todos ali, quebrou o silêncio que até então já durava por certo tempo.
Foi doído ouvir da boca do meu próprio pai sair aquilo. Quer dizer que o que eu falo não vale nada? Não tem credibilidade? Entretanto o que Maryane diz têm? Quão justo isso parece?
— Está duvidando da sua própria filha, pai?
Deixei minha mágoa bem clara no tom com o qual falei.
Prevendo que aquilo me afetou, Gil se pronunciou em meu auxílio.
— Se duvida da Sara, então chame Maryane aqui pra confrontá-la, Carl.
Olhei espantada para o Sr.Gostoso, me perguntando como ele sabia da presença da minha prima.
— Ela está grávida de um filho seu, esqueceu? Essa conversa não faria bem a ela e ao bebê.
Já chega dessa farsa de bebê também!
— Pai esse filho da Maryane não é...
— Não esqueci que ela carrega um filho é meu, Carl.
Gil me interrompeu e fez questão de frisar "um filho é meu" enquanto me lançava um olhar que intuí ser de reprovação pelo que eu revelaria. Não acredito que ele vai manter essa mentira de filho?! Tudo bem que ele já havia dito que iria assumir o filho, mas por que não diz que a criança não é biologicamente dele?
— Mas creio que não vai prejudicá-la em nada! Chame a Maryane ou eu mesmo subo e a trago aqui pra ver se ela tem a cara de pau de negar cada coisa que Sara disse aqui.
— Se atreva a subir e eu parto sua cara, coisa que já devia ter feito assim que passou por aquela porta momentos atrás.
Sean interveio e disse ao nosso pai que achava certo chamar Maryane para esclarecer aquelas acusações que fiz. Meu irmão sabia que a nossa prima não era "flor que se cheirasse" e que provavelmente, aquilo que eu disse a respeito dela fosse verdade.
— Não vou chamar. A conversa é com esses dois.
Meu pai retrucou para Sean.
— Maryane ficará de fora e depois, se tiver que confrontá-la, eu o farei a sós.
Diante da recusa do meu pai senti que Gil fez menção de ir cumprir a sua ameaça de subir e buscar Maryane, mas o impedi segurando em seu braço. O Sr.Gostoso me olhou e balancei a cabeça em negação para que ele me acatasse. Ele acatou, mas não pareceu nada satisfeito com isso.
A meu ver não valia a pena insistir pela presença de Maryane. Talvez fosse até melhor não tê-la ali. Ela certamente ia fazer seu teatro fingido e eu não ia aturar isso, desse modo, perderia a compostura e a razão completamente diante dos meus pai, coisa que eu não queria.
— Olha, Carl, eu...
— Cala a sua boca! Você é um canalha.
Meu pai insultou Gil interrompendo o que o Sr.Gostoso estava prestes a lhe dizer.
— Abri as portas da minha casa pra te receber como noivo da Maryane e você transforma a minha outra filha em sua amante?
— Não foi assim também, Carl. E nem de propósito. Me apaixonei pela Sara e quero casar com ela.
— Só se for por cima do meu cadáver.
Só por essas palavras ele já deixou claro que era contra nosso casamento, algo já esperado por mim.
— Pai, a gente se ama.
Mesmo magoada com a falta de credibilidade que meu pai parecia ter em mim, eu tentei argumentar com ele.
— Ele está te iludindo como fez com Maryane, Sara. E eu não vou permitir isso.
Sem que eu esperasse meu pai me puxou de perto de Grissom.
— Quero você longe das minhas duas filhas, sujeito.
— Pai.
— Calada, Sara!... Você errou ao se meter com esse sujeito. E quero acreditar que errou por estar iludida com as falsas promessas dele. Mas se depender de mim, você... — ele apontou para Grissom. — ...Não vai mais usar e "brincar" também com a minha filha mais nova. Antes, eu acabo com a sua raça, maldito.
Eu já ia abrir a boca para defender Gil, mas este foi mais rápido ao se pronunciar.
— Carl... Eu entendo sua revolta... Mas quero que saiba que não estou usando ou muito menos brincando com a Sara. Eu a amo de verdade.
Seu olhar azul me fitou com um visível carinho que me fez sorrir de leve. Ele me amava e eu também o amava. Seu olhar se voltou para o meu pai.
— Reconheço que errei. O certo seria que eu primeiro desmanchasse meu compromisso com Maryane pra só então assumir um com Sara e assim não deixá-la ocupar um papel desagradável como amante. Só que as coisas não foram bem assim. Errei nisso!
— Nós erramos, Gil.
O interrompi para corrigi-lo, pois eu também fui errada em aceitar essa situação.
— Não, querida. Eu errei, pois o comprometido da história era eu. Devia ter aceitado quando você impôs de primeiro eu terminar com sua prima e só depois disso te procurar. Mas eu já estava tão apaixonado que não conseguia mais ficar longe de você um instante que fosse.
Ele então encarou cada um dos meus familiares ali e contou que tinha a intenção de falar com Maryane o quanto antes, logo que seus sentimentos por mim já existiam e as coisas entre nós foram começando a acontecer. Entretanto ocorreram situações que foram retardando sua conversa com minha prima.
— Demorei pra agir e não me orgulho disto. Sara não merecia isso e Maryane também não, apesar das coisas que ela fez e que Sara lhes revelou ainda pouco. Entretanto não temos como voltar no tempo e refazer as coisas da maneira correta. Mas estou começando a fazer o certo.
Minha vontade era de abraçá-lo e beijá-lo por esse seu discurso. Observei minha família e tanto minha mãe quanto meu irmão pareciam digerir da melhor maneira o que ouviram. Já meu pai...
— Acha que só porque terminou com Maryane depois de sabe-se lá quanto tempo a vinha enganando com a minha outra filha, e está aqui me admitindo tudo isso, as coisas estão resolvidas e vou aceitá-lo com Sara?
— Pai...
— Já pedi antes pra você ficar calada, Sara. Não me faça repetir isso.
Desde que me entendo por gente esta estava sendo a primeira vez que meu pai falava dessa maneira tão ríspida comigo.
— Não precisa falar assim com ela também.
Eu vi o profundo desagrado de Gil diante do modo rude com o qual meu pai se dirigiu a mim e temi por isso.
— Falo com a minha filha como eu bem quiser. E você não respondeu o que perguntei.
— Provavelmente não estará resolvido.
— Ainda bem que reconhece!... E quanto ao seu filho que Maryane carrega?
— Eu já falei à ela que darei toda a assistência necessária. Tudo o que Maryane precisar de mim no que diz respeito ao bebê, ela terá. Não vou ser omisso nessa minha responsabilidade.
Uma responsabilidade que nem é dele diga-se de passagem! Não sei porquê, ele insiste nisso, gente.
— Mas casamento entre a Maryane e eu não haverá mais, porque com quem pretendo casar é com a Sara.
— Já disse que só se for por cima do meu cadáver que você vai casar com ela.
Era óbvio que eu preferia ter o consentimento do meu pai nisso, mas por tudo o que já ocorreu ali e pelo que ele acabou de deixar claro, ter sua aprovação e seu consentimento estava fora de cogitação.
E como já foi-se o tempo em que só se era possível casar depois do aval do pai da noiva, então eu poderia fazer isso mesmo o meu pai sendo contra.
— Não é o senhor quem decide isso, pai. Sou eu!
Minhas palavras atraíram sua atenção para mim.
— Você não vai casar com esse sujeito.
— Não precisa ser assim, Carl.
— Não se meta infeliz. E quer saber? Vai embora da minha casa agora.
Diante de suas palavras, eu me soltei dele e fui me postar ao lado de Gil.
— Ele não vai sozinho, porque vou junto.
Meu pai me encarou por segundos. E quando achei que ele fosse me persuadir daquilo, algo que não daria em nada já que minha decisão não mudaria mesmo, quer fossem seus argumentos ou imposições. Eu escutei algo que não esperava dele.
— Então vá com ele. Mas fique certa de que ao cruzar a porta desta casa... Esqueça que tem família.
Franzi a testa enquanto uma pontada dolorosa acertava meu peito. Ele não podia estar fazendo aquilo mesmo comigo!
— Pai está sendo radical demais.
Sean parecia tão chocado quanto eu havia ficado com aquela declaração dele.
— Por Deus, Carl! Ela é nossa filha, não diga uma sandices dessas.
— Mas vai deixar de ser se for embora com esse sujeito e mais ainda casar com ele, mesmo não sendo do meu agrado.
— Você está me fazendo escolher um lado, pai.
Eu tinha as vistas já embaçadas pelas lágrimas que se acumularam mediante ao que ouvi do meu pai.
— Eu tenho quase certeza que este sujeito ainda vai decepcioná-la mais lá na frente, Sara.
Eu até tinha esse mesmo receio dele no começo, tanto que cheguei a dizer isso a Grissom. Mas depois de tudo que já passamos e das coisas que Gil já fez e tem enfrentado por mim, esse temor se esvaiu totalmente. O Sr.Gostoso não ia me decepcionar.
Inclusive ele já ia se pronunciar, certamente, para dizer isso, mas o impedi com minha fala.
— Ele já me deu mostras que não fará isso, pai. Confio nele. E entendo que não seja fácil pra você e a mamãe aceitarem o que aconteceu e o meu relacionamento com ele. Não foi certo como as coisas aconteceram entre Gil e eu? Não, não foi! O nosso relacionamento começou de uma maneira errada? Sim, começou. Mas a gente se ama.
Tornei a repetir aquilo enquanto enxugava as lágrimas que agora já escorriam pelo meu rosto. Era uma pena que o desfecho daquela conversa estava sendo tão doloroso.
— Mas se você ou vocês... — apontei para os meus três familiares. Em cada um deles, eu conseguia vislumbrar em suas feições, distintos sentimentos. — ...Não querem nos aceitar, tudo bem. Só que eu vou seguir minha relação com o Gil sendo ou não do agrado de vocês ou do seu papai. E se pra isso tiver que esquecer da minha família, então sinto muito por vocês.
Dirigindo meu olhar agora para Gil lhe pedi que fôssemos embora. Para mim já tinha dado tudo aquilo.
— Claro, querida, vamos sim.
Antes, porém, de dar as costas para meus pais, eu lembrei dos quadros que trouxe.
— Eu trouxe esses quadros de presente para vocês, pai e mãe. Comprei há semanas numa exposição, caso não queiram... Joguem fora!... Até mais!
Com o coração magoado depois daquela conversa, saí dali com Gil.
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