One More Time
3 Inesperada
Notas iniciais
POV Yoongi
—Hyung, corre atrás dela!
—NÃO! Ele não pode sair correndo por Seul quando bem entender!
Eu ouvia esses e outros gritos desconexos enquanto observava, atônito, a garota se distanciar cada vez mais. Eu tentei ajudá-la, e ela fugiu de mim como o diabo foge da cruz. Não consigo acreditar. As seis crianças continuam gritando, e o barulho é insuportável.
—Ah, que se dane. –Penso alto.
Entro na van e digo para o motorista prosseguir. Minha cara não deve ser das melhores, visto que o barulho cessa imediatamente. Dirijo-me para o ultimo banco, o mais longe possível de todos. A última coisa que preciso é ouvir perguntas excessivamente curiosas. Olho pela janela e tento ao máximo fingir que não existo. De repente, sinto alguém se aproximando. Viro-me pronto para dar a resposta mais mal educada em que puder pensar, mas é apenas o Jin. O nosso doce e preocupado Jin. Nunca consegui ser grosso com ele, mesmo nos piores momentos.
—Yoongi... –Ele diz, e eu sinto a preocupação em sua voz.
—Sim?
—O que aconteceu? –Sua expressão solidária está me tirando do sério.
—Eu não sei. –E realmente não sei. Só sei que, passando por uma praça no meio da movimentada Seul, vi uma garota chorando. Ela parecia tão desamparada que foi impossível não me lembrar da minha época obscura, quando era eu a chorar em uma praça qualquer, sem ninguém para oferecer ajuda. Afora isso, eu me recusava a admitir que algum tipo de instinto me havia atraído para ela, mesmo que intimamente soubesse que foi exatamente isso que aconteceu. Eu tentei ajudar, e a garota fugiu de mim. Ela simplesmente correu para longe, e eu não pude impedir. Não imaginei que a visão de seis pirralhos suados e exaustos fosse o suficiente para amedrontá-la daquela forma. Mesmo odiando admitir, estou preocupado.
—Hum... – A voz me assustou. Havia me perdido em pensamentos e esquecido da presença de Jin ali. –Yoongi, você fez o que pode. Não se sinta mal.
—Obrigada, Jin. Eu estou bem.
Aquele era o Jin, nosso Omma Jin. Sempre cuidando de todos.
Chegamos finalmente em casa. Mal posso esperar por um banho e pela minha cama. Hoje seria um dos poucos dias em que eu poderia descansar em paz, mas aquela garota resolveu aparecer e estragar tudo. Agora estou preocupado e não vou dormir tão bem quanto gostaria.
Arrasto-me lentamente até o meu quarto, e de lá até o banheiro. Tomo um banho demorado, esperando a tensão deixar meus ombros. Procuro uma roupa confortável, que me faça sentir em casa, mesmo sabendo que aquela nunca vai ser mais do que a minha casa substituta, onde sempre faltará alguma coisa. Escuto o barulho de panelas e sei que Jin está cozinhando, mas não sinto fome. Sei que vou me arrepender disso depois, mas deito na cama ainda com os cabelos molhados e deslizo para um sono conturbado.
***
—Yoongi? Hyung está na hora de acordar. Eu sei que você odeia que nós te acordemos, mas você já está atrasado.
Abro os olhos pensando seriamente em bater em quem quer que esteja me chamando. Quando consigo focalizar o rosto, vejo o maknae me olhando com aqueles olhos inocentes, e desisto dos meus planos violentos. Apenas me levanto e agradeço.
—Hyung... –Ele diz, e eu prevejo algum comentário que não quero ouvir.
—Jungkook, eu estou bem. De verdade. Vá dizer aos outros que eu já vou descer.
Ele sai e eu me arrependo instantaneamente por não tratá-lo tão bem quanto deveria. Ele não passa de uma criança, afinal.
Visto-me com as primeiras peças que encontro, finalmente me dando conta do quão atrasado estou. Maldita reunião com o presidente da empresa. Mil vezes maldita.
Saio correndo tentando desenrolar os fones de ouvido e segurar o celular com uma só mão, enquanto com a outra pego a pasta com as letras compostas e a chave do quarto. Apesar de estar constantemente atrasado, eu ainda odeio ser apressado. Entro na van e o motorista acelera o máximo que pode, para evitar um atraso ainda maior.
—Você está bem? –é V perguntando, então eu sei que provavelmente estou feio de morrer.
—Sim. Você não pode esperar nada melhor de alguém que acaba de acordar.
—Então nos conte hyung, porque quis parar para ajudar aquela garota estranha ontem? Você a conhece? –Jimin me olha com uma cara maliciosa, provavelmente pensando em mil coisas indecentes. Eu quero xingá-lo, mas Jin intervém no momento exato:
—Meninos, deixem-no em paz. Todos temos nossas particularidades, coisas que não queremos contar a ninguém.
Ninguém se atreve a contradizê-lo quando ele fala assim, então estou tranquilo por enquanto. Apenas coloco os fones no volume mais alto possível, esperando que a música abafe o som dos meus pensamentos. A verdade é que eu não consigo tirar a imagem dela da minha mente. Nem em sonho, nem enquanto acordado. Sorrio levemente pensando em como aquela louca saiu correndo desabaladamente quando viu os outros seis meninos. Com o canto do olho vejo que todos me olham, alguns parecendo preocupados, outros, maliciosos. Ignorados com sucesso.
Cedo demais, chegamos à empresa. Odeio essas reuniões. Odeio como julgam a minha música, como julgam a minha arte. Meus sentimentos estão ali. Ninguém devia ter o direito de analisar ou criticar. Como sempre, a noticia de que estaríamos vindo vazou de alguma forma. Há pelo menos uma centena de fãs segurando cartazes, algumas chorando. Eu as amo, realmente amo, mas hoje não é o dia ideal para essa recepção.
Saímos do carro cobertos por flashes cegantes e escoltados por seguranças enormes. Também não gosto disso.
Sinto-me aliviado quando finalmente adentramos no saguão de entrada da sede da empresa. Finalmente consigo respirar tranquilamente. Olho em volta, esperando ver as pessoas de sempre nos cercando, e minha boca se abre de espanto. Ali, na minha frente, está sentada aquela mesma garota que fugiu de mim no dia anterior. Olho para os outros em busca de uma confirmação de que não estou ficando louco ou obcecado. Suas expressões me dizem o que eu preciso saber. Sufoco a muito custo uma vontade absurda de rir.
Rearranjo minha expressão no meu melhor sorriso misterioso e me dirijo a ela. Sua música está tão alta que posso ouvi-la ao me aproximar, mesmo com os fones. Reflito sobre como fazer isso. Num impulso, puxo um dos lados do seu fone, e observo seus olhos se abrirem de choque. Deleito-me por um instante com a expressão de surpresa que aparece em seu rosto, e digo:
—Você não vai fugir de mim de novo, não é?
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