Notas iniciais
Olá olá pimpolhos,
Faz muito tempo que não posto nada, vamos ver se isso muda. Pretendo mudar.
Estou repostando essa história, dei uma polida e espero que gostem.

Boa leitura!

O frio sempre era a melhor parte desse país infernal. James não precisava se preocupar que os ossos do ofício acabassem tocando sua pele nua. Cada milímetro do corpo torneado ficava coberto por um pesado casaco, cachecol, luvas e um chapéu simples, com a função de impedir que a garoa leve atrapalhasse o cabelo encaracolado acobreado. A rua estreita estava abarrotada de pessoas apressadas, cujos aromas se mesclavam entre a roupa suada úmida e perfumes importados. O céu se tornava cada dia mais cinza e denso, mas ele podia jurar que por trás das nuvens encontrava-se a lua, cheia e encantadora, como costumava ver quando era criança. Um uivo e o barulho da carruagem se aproximando do portão o tiraram de seu devaneio, já era muito tarde seu atraso seria notado e as consequências lhe causavam arrepios na virilha. Desceu apressadamente as escadas e não perdeu tempo em se acomodar na carruagem, ordenando para o cocheiro fazer logo seu trabalho.

A cortina da carruagem permaneceu fechada, enquanto J. sacolejava pelas ruas pedregosas, não se deu o trabalho de olhar pela janela durante o trajeto. Conhecia tudo que precisava desse caminho e o que mais ele escondia não era de seu interesse, apenas dos bisbórrias que seguiam a garota como se ela fosse uma deusa. J. desejava com todas as forças que essa se transformasse na última vez necessária a seguir esse caminho. Enquanto percorria as unhas pelo relógio de bolso antigo sua mente divagava com campos verdes, um sol forte e um belo lago cristalino. A voz, a doce e melodiosa voz de sempre sussurrou como a brisa inicial do inverno próximo a sua nuca:

“Venha logo James, vai perder a festa”

Apenas o vulto do voluptuoso vestido carmesim permaneceram na cena enquanto a garota se afastou rindo e dançando até….

—Lord Beemont, já chegamos. -disse o cocheiro com a porta aberta.

James desceu, apenas acenando enquanto subia as escadarias da mansão, a mesma de sempre. Tudo sempre branco, com janelas grandes. Monotonia. A família Fair é famosa por sua tela em branco, na casa, nos relacionamentos, na vida. Apenas a monotonia.

A música soava alta e nauseante do salão de baile, a mesma melodia, todos o dias, todos as semanas, todos os meses e todos os anos. Lenta. Mórbida. Cansativa. O salão de baile estava lotado, as luzes se refletiam nas paredes vermelhas, tapeçarias antigas com pinturas interessantes de homens que se transformavam em animais, crianças aladas e armadas, seres indefinidos gigantescos e grotescos e um brasão deturpado da família. Pessoas de todas as idades perdiam seu tempo em rodopios lentos e passinhos de valsa, disputando cada mísero centímetro quadrado.

Tudo se resumia em encontrar o lugar certo para colocar o próximo pé e sentir vertigem com o emaranhado de tecidos e rostos inexpressivos, preocupados apenas em manter as aparências para ela. Como sempre lá estava no centro do salão, a dona mórbida da casa, balançando seus longos e sedosos cabelos brancos, sua pele pálida acariciava o braço da próxima vítima. James não aguentava mais, não iria viver isso nem mais um dia. Nem por um mísero segundo. Caminhou até o centro, ignorando a quantidade de espelhos no teto, a sensação de abafamento, os olhares famintos. Pegou um vislumbre de seus cabelos loiros levemente bagunçados, os olhos azuis brilhantes de excitação. Enfim, isso iria acabar.

Tomou a bela dama nos braços, seu cabelo branco pairou no ar uns instantes antes de cair em cascata ao lado de seu corpo. Os Fair possuíam beleza, ninguém podia negar. Ela nunca recusava uma dança com ele, então foi o que ele fez, deixou ela lhe tocar, dançou com ela pelo salão. Os corpos mantinham-se colados, transmitindo o calor e ardor que envolvia os dois, por mais que James a odiasse, não conseguia viver sem o prazer de tocar sua pele imunda e perversa. Ele precisava sentir e sorver todo o perfume de morte da eterna Fair.

O menor toque, a menor sensação de prazer desencadeiam o êxtase e as visões. Cabeças decepadas, mãos e pés trocados, uma mesa de cirurgia com uma garota pequena e morena com o peitoral e tórax abertos expondo todos os seus órgãos.

“É uma cortina. Uma manta para o corpo da pobre criança.”

A Fair sempre tinha o que queria, uma criança ou seu parceiro de dança da noite, mas um motivo não esclarecido nunca a fez levá-lo para lá. O subsolo. J. era apenas seu bichinho de estimação, sua peça de coleção mais cara e insubstituível.

Mais um passo. Um rodopio. Grito.

—Onde está a sua fé? -sussurrou baixinho no ouvido da Fair.

O alarme soou, mas James não podia deixar que ela parasse de dançar e então continuou, enquanto via seus amigos matarem um a um dentro daquele salão amaldiçoado, as portas foram trancadas e os corpos começaram a cair. Pouco a pouco. Seus dedos estavam gelados, os lábios secos, era difícil respirar ele sentia sua vida ser drenada pelos dedos frios da Fair, a mulher mais sombria e obscura.

Um rodopio. Um passo.

James ouviu o som nauseantes do sangue, sangue e vinho se misturavam no chão abaixo de seus pés, enquanto guiava a dama da noite pelo salão. Foi tomado por um arrepio e mesmo com o cheiro forte e o aspecto repugnante do entorno, ele continuou a dançar com a dama. Os toques dela, desfigurando e refazendo seu corpo. As sensações e o desejo ficavam cada segundo mais insuportáveis.

Os corpos continuavam a cair. Um após o outro. Um mais diferente do outro, J. nem sabia mais defini-los e também não importava com isso. Ele sabia que só precisaria continuar dançando. Ela sussurrou uma frase de amor forte, uma declaração única e talvez até mesmo verdadeira, mas apesar de doces suas palavras, Fair só o fez sentir mais ódio. Ódio esse que era alimentado por eras, devorando tudo aquilo que o rapaz um dia já foi, sorvendo sua alma, drenando sua vida e embalando sua eternidade solitária e vazia. Olhou para os lados e viu que finalmente tinha acabado, seus amigos estavam em volta e só os dois continuavam no centro do salão dançando.

Deu um último rodopio e enfiou a adaga no coração da dama e ficou acompanhando a luz deixar seus olhos. Para sempre.

“Eu te amo para sempre e sempre.”

Notas finais
E aí, gostaram? Comentem por favor.

Beijos, beijos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!