One Last Time
1 Capítulo Único

A dor no peito dele poderia dilacerá-lo de dentro para fora, e talvez ele preferisse que fosse assim, se isso poupasse a garota em seus braços, sangrando enquanto seus olhos tão brilhantes se tornavam sem cor e sem vida. As lágrimas escorriam livres pelo rosto do garoto que tinha um bolo em sua garganta impedindo-o de gritar, impedindo-o de expressar o quanto aquilo doía em si. Em sua mente se passava todas as últimas horas, tudo que havia pedido para ela não fazer, tudo que implorou para que ela o deixasse resolver, porque por mais que ele soubesse o quão impressionante aquela mulher era, ele queria ao menos uma vez deixá-la a salvo de toda aquela vida que tinham, de todos os perigos que eram constantemente expostos desde que Scott virará um lobisomem e consequentemente um alfa após algum tempo.
— Stiles – a voz dela soou fraca, quase inaudível, se ele não estivesse com o rosto colado no dela.
— Não se esforce demais meu amor – ele disse, praticamente sussurrou, temia que qualquer som alto, qualquer movimento brusco pudesse arrancá-la de vez dele – a ajuda vai chegar, eu sei que vai.
Mas não iria, ela sabia disso, e ele também sentia em seu âmago, mesmo que no momento não pudesse admitir, mesmo que no momento se esforçasse para se agarrar a esperança que não existia.
— Stiles, me escute – ela tornou a fala – meu amor, eu precisava fazer isso.
Ele nega em silêncio, derrubando mais lágrimas, ela não precisava, ele não queria que ela precisasse, se isso significasse perdê-la.
— Isso não é um Nogitsune, ou os doutores do medo, ou a caçada Stiles, estamos falando de fantasmas, estamos falando de poltergeist, não dá para vencê-los aqui, não podemos.
— Lydia...
Aquilo não cabia a ela, pelo menos não sozinha.
— Eu sei que é egoísta da minha parte lhe deixar, mas eu estou fazendo isso para que você possa viver meu amor, estou dando a minha vida, para que você e os nossos amigos possam sobreviver.
— Mas não... não deveria ser assim – ele engasga e as lágrimas caem com mais força.
Os terríveis poltergeist que aterrorizavam as ruas de Beacon Hills estava matando todos aqueles que retornaram da caçada, achando eles que aquela seria a última aventura, o último perigo, mas não, alguém tinha que invocar um espírito e abrir um portal impossível de ser fechado. Lydia não havia se sacrificado, ela fora apanhada no lugar de Stiles por ter se colocado na frente dele, achando que seus poderes seriam suficientes para repeli-los, mas o que ela não pensou foi que não se pode ferir um ser que não existe na sua dimensão com um corpo mundano, e tudo isso fez sentido quando seu corpo fora atingido e derrubado ao chão. Agora ela estava apenas esperando, era questão de tempo, tempo para que ela adentrasse o mundo dos mortos e fechasse o portal que ligava seus mundos.
— Lydia...
— Eu te amo Stiles, nunca esqueça disso – ela sussurrou enquanto fechava os olhos, fazendo o homem que a segurava entrar em completo desespero.
— Não ouse fechar os olhos, não... não... Lydia – insistia, mas aquilo não estava em questão, ela estava seguindo o fluxo da vida, seguindo o fluxo que a levaria embora.
— Nunca é um adeus meu amor – e então seu último suspiro foi dado.
Stiles deixou se abater enquanto sacudia o corpo da ruiva, enquanto gritava para que ela retornasse, que não o deixasse, mas ela não estava mais ali, sua alma já estava de pé, longe daquele ponto, pronta para cumprir o que desejava, ela olhou para traz uma última vez. Porque pela última vez, ela poderia olhá-lo, pela última vez, ela poderia sorrir e ter a certeza de que o mundo ainda teria Stiles Stilinski.
Assim que Scott parou seus pés, sendo seguido por Malia, Kira e Liam, ele viu a cena que se estendia diante dos seus olhos, a mesma cena que se viu muito tempo atrás, a mesma cena que quebrou seu coração, porque naquele dia ele perdeu sua amada. Por isso ele podia entender os gritos de dor que vinha do melhor amigo, ele podia sentir a mesma dor que ele estava sentindo, porque se lembrava de quando era ele segurando o corpo da mulher que amava, de quando era ele quem perdia mais uma batalha.
Ele não conseguiu se aproximar, ele não conseguiu mover nem mais um músculo, porque as lágrimas inundavam seu rosto, não só pelas memórias passadas que pesavam todo o seu corpo, mas também por perder uma grande amiga, parte do seu bando, da sua matilha. Doía também ver o estado de Stiles, era um misto de sentimentos que nunca achou que sentiria, o partia em mil pedaços.
A ambulância chegou e ali mesmo eles trataram de fazer um RCP, Stiles teve que ser retirado por Malia e Liam para que os paramédicos pudessem cuidar da garota desfalecida.
— Carga de 150 – falara o paramédico enquanto esfregava as pás, e assim que ajustada ele as pressionou no corpo de Lydia – afastar – e o primeiro choque veio, mas o corpo dela apenas sacodiu sem reação – aumente para 200 – ajustado novamente – afastar – e mais um choque e mais uma vez, nenhuma reação.
E junto com o segundo, veio o terceiro e o quarto, Lydia não voltaria mais. O paramédico olha para os cinco ali presentes, e nega, não havia mais o que fazer, ela estava morta. Mas nem aquela negativa fez o estado de Stiles piorar, porque ele não tinha esperança, nunca a teve, ele sabia que a ruiva faria qualquer coisa para salvá-los, mesmo que para isso não pudesse nunca mais viver naquele mundo.
Um grito ecoava nas sombras, era alto, era forte, poderoso, e mesmo que nenhum deles pudesse ouvir, ele foi dado pela última vez, porque seria ele que garantiria que o sobrenatural fechasse as suas portas naquela cidade, ela garantiria que todos ali pudessem ter suas vidas normais, pudessem viver em paz, apenas com as criaturas que já existiam ali, sem mais Nemeton, sem mais farol para o sobrenatural, sem mais portas para abrir ou fechar.
Mas uma última vez, nunca é um adeus, porque um lobo sempre volta para a sua matilha, e mesmo aquela sendo uma matilha disfuncional, formada não só por lobisomens, raposas e humanos, ela também era formada por uma banshee e seria assim eternamente.
Os olhos de Lydia se abriram, enquanto seu corpo parecia lutar contra o frio que sentia, estava fraca, sua cabeça latejava, seus olhos pesavam e a respiração era quase inaudível.
— Stiles – chamou, logo tateando com sua mão até encontrar algo fixo e quente, em que ela pôde se prender, se agarrar como quem busca uma boia no meio de um oceano.
— Meu amor – a voz ansiosa e exasperada chegou aos seus ouvidos enquanto sua mão era agarrada, logo seus braços envolvidos e o carinho em seus cabelos sentidos – que bom que acordou.
— O que houve? – Lydia suspira fechando os olhos, estava cansada demais para mantê-los abertos, mesmo que quisesse imensamente ver o rosto terno e bonito do seu amado.
— Você nos salvou Ly, pensei que fosse te perder.
— A quanto tempo estou aqui?
— Uma semana, você perdeu muito sangue, mas você conseguiu meu amor, voltou para mim – Stiles cobre o rosto dela com o dele em um breve selar, ela ainda estava fraca demais, mas sentia seu corpo se aquecer com aqueles lábios quentes, Stiles sempre fora tão quente e agora ela percebia o quão boa era aquela sensação, de estar viva, de ter calor, de poder respirar e poder voltar para onde pertencia.
— Eu disse que não era uma adeus – Lydia sorri terna enquanto Stiles alisa seu cabelo.
— É você disse, mas chega de aventuras para você mocinha, aquela foi a última vez – Stiles fala e ela assente ainda com o sorriso bobo nos lábios, é, aquela era realmente a última vez, porque nunca mais haveria outra, eles teriam paz.
— Stiles.
— Hmm?
— Eu te amo.
— Eu também te amo minha ruiva – Stiles beijou-lhe mais uma vez.
E dali para frente não haveria mais perigos, não haveria mais ameaças, seriam apenas os adolescentes bobos que deveriam ter sido desde quando se conheceram.
E por mais que seja uma última vez, isso nunca foi e nunca será um adeus.
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