Onde está o Carvalho?

1 Capítulo 1 - O Último lanche.


Capítulo 1 – O Último lanche.

Deise observou atenta o caminho percorrido por Miriam até o chão de piso frio da pequena igreja evangélica que a avó frequentava. A cabeça doía devido à forte iluminação e a gritaria dos fiéis tomados por aquilo que chamavam de “Espírito de Deus”. Há cerca de três anos, qualquer um que se apresentasse naquele templo, encontraria Deise na mesma situação que Miriam. Três anos depois, Deise observava a filha do pastor com uma expressão cética que deixava a avó extremamente desconfortável.

Lia era uma senhora negra por volta dos setenta anos, que apesar da idade avançada exibia um número consideravelmente pequeno de cabelos brancos. Esta mantinha um forte laço afetivo com a primeira neta desde que o seu unigênito morrera há dez anos. Desde os primeiros anos, Lia carregava a neta consigo para onde quer que fosse principalmente para a igreja. Ainda recordava da primeira vez que vira Deise cantar os primeiros louvares e orgulhava-se dos comentários positivos dos servos, “Glória a Deus, parece que o dom vem de família mesmo”, “Senti-me extremamente tocada ao escutar esse anjinho cantar, Deus abençoe”. Contudo, há cerca de três anos, todo este cenário abençoado mudara. Deise mudara. Ao olhar para a menina, não conseguia mais enxergar a pequena que emocionava quem fosse que a escutasse cantar. Só via um semblante desanimado e uma anedonia que lhe despertava uma má sensação.

Deise olhava pelo que devia ser a centésima vez o relógio de ponteiro pregado na pilastra do salão. Faltavam dez minutos para as vinte e uma horas. Dez minutos para o término do sofrimento. Ir para aquele lugar já fora algo bem prazeroso para a adolescente de dezesseis anos. Todo o êxtase foi embora. Sentiu a barriga roncar alto e ansiou ainda mais o lanche bancado pela progenitora. Começou a materializar mentalmente o X- frango com bacon que iria pedir e a barriga roncou um pouco mais alto. Olhou para a avó sentada na primeira fileira e desviou o olhar quando viu o aspecto de reprovação da idosa. Todos ali pareciam estar onde queriam estar. Deise avistou um velho conhecido abraçar uma das servas que se encontrava aos prantos. E então sua mente viajou três anos atrás.

A menarca de Deise viera aos onze anos de idade. Depois deste traumático acontecimento, tudo parecera desandar. A pré-adolescente começara a ganhar muito peso, os seios começaram a aparecer e a face que antes sempre fora tão suave aparentava a superfície de um “Choquito”. Com isso, vieram-lhe as inseguranças causadas principalmente pelos maus comentários proferidos pelas colegas de classe “Acho que mais um pouquinho e ela não cabe na cadeira”, “Olha esse cabelo, parece uma vassoura velha”, “Eu poderia lixar a sua cara”. Deise passou a se recolher como uma tentativa de proteção e devido a isso cultivava poucos amigos. Dimas era um deles. O garoto magro de pele escura estava sempre há um muro de distância da casa de Deise. Filho de mãe solteira com duas irmãs mais novas, Dimas sempre fora um garoto reservado, mas de quem todos gostavam. A família do garoto sempre frequentara a igreja da avó de Deise. Com isso logo os dois tornaram-se melhores amigos. Lia sempre levava os dois pré-adolescentes e as gêmeas para um lanche pós-culto. Certo dia, após o lanche, Deise e Dimas resolveram caminhar dentre uma mata atrás de suas residências que dava para a reserva ecológica municipal Pedra dos Dois Olhos. Caminhavam com muito cuidado para não encontrarem surpresas peçonhentas ou algum formigueiro, quando um canto lhes chamou atenção. Era uma pedra um pouco menor que eles, onde na parte traseira encontrava-se uma porção de margaridas. Decidiram encostar-se ali e ficaram a confabular até altas horas deixando ambas as famílias desesperadas por conta do breve desaparecimento. Desde tal evento, ficou combinado com os adultos que poderiam conversar até as vinte e três horas e meia, com um responsável próximo. E assim fizeram por anos. Culto, lanche e conversa.

Aos treze anos, Deise dera o seu primeiro beijo. A experiência fora terrível e para agravar a situação, a outra parte da história havia espalhado boatos detalhando o acontecimento. Para a menina, aquilo fora pior que o fim do mundo. Passou uma semana inteira segurando-se para que as lágrimas não lhe transbordassem. Até que em um domingo, um culto, um dilúvio aconteceu. Quase ninguém percebera que os motivos da garota eram bem diferentes dos das pessoas que se encontravam naquele salão. Mas Dimas percebera. Dimas foi até ela. Abraçou-lhe. E mesmo não tendo dito nada, aquilo foi o suficiente. Depois daquilo, as batalhas pela posse da maionese caseira, as risadas de boca suja e os arrotos de Coca-Cola tornaram toda aquela tempestade em um simples copo d’água. Na pedra secreta, Dimas arrancou uma margarida e entregou-lhe dizendo “Uma margarida para uma margarida”. Foi para casa sorrindo e saltitando. Esta fora a última lembrança que tivera dele. Depois um vazio total. Como se ele nunca tivesse existido. Nenhuma foto, nenhum documento, nenhuma recordação até mesmo da própria família. Só sobrou a margarida que jazia morta no fundo da sua caixa de bijuterias até hoje. E ele sorrindo e saltitando... “Como podiam não se lembrar dele?” Deise pensava. O relógio bateu vinte e uma horas. O culto acabou e só haveriam quatro pessoas lanchando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.