Onde Nós Vamos
14 Capítulo XIII
Notas iniciais

Jimmy morava no bairro rico de Springfield, a maioria eram mansões e casas coloniais de verão próximos ao cemitério da cidade, o que dava um toque mórbido ao local. Eu acredito quer invadir uma dessas propriedades não seria tarefa fácil já que essas pessoas podiam pagar por segurança e tudo mais.
— Olha, eu sei que é a minha primeira vez num trote, mas eu acredito que a mansão dos Hartline não vai estar com as portas abertas esperando ser invadida. — Perguntei tentando soar sensato, já estávamos quase chegando.
— A primeira coisa é: Não vamos parar na porta dele, então pode encostar umas duas ruas a baixo e vamos andando.
E assim fizemos. Gary parecia ter preparado uma mochila extra e do porta-malas tirou uma gaiola com três gambás dentro. Eu juro que queria perguntar, mas não estava afim de carregar nada além do que já tinha.
Eu estava ofegante pela caminhada e o suor frio já percorria minhas costas.
— Bom agora precisamos identificar de qual empresa é feita a segurança da casa. Me ajuda a procurar.
Eu olhei o máximo que pude.
— Eu não consigo ver nada que indique.
— Merda. — Ele xingou já tirando o celular que não era o dele do bolso.
— Alô? Clyde... Sou eu... isso, eu sei, eu sei. Já fizemos isso antes, então sem drama. Foco. Eu quero que você descubra o sistema de segurança dos Hartline... não Clyde, se eu soubesse, eu mesmo faria. — Gary bufou zangado. — Sete Segurança? Beleza. Depois discutimos sobre isso. Câmbio, desligo.
Ele desligou e discou outro número.
— Alô? Fêlix? Sou eu, o Big Daddy... isso... vou bem, cara. E você? — Ele revira os olhos impaciente. — Então, lembra daquele favor? Sim... então, preciso que você desative o sistema de uma casa que fica abaixo de vocês... não, ninguém vai saber... sim, eu mesmo me encarrego disso... só por meia hora e depois liga de volta... o quê? Roubo? Não, não, é só uma vingança clássica... Sim, dele mesmo. — Gary finalmente parece animado com os resultados. — O endereço é Alameda Rigdewood, 1004... Muito obrigado.
O garoto guardou o aparelho no bolso e se virou para mim.
— Nossa é incrível como não se fazem capangas como antigamente.
Ele me puxou indicando o muro da casa. Dei o encalço para que ele subisse e para que me ajudasse a subir em seguida.
— Desde quando você tem capangas na Sete Segurança? E que porra você é o Big Daddy?
— Ai, cala a boca Zach. Não me distraí. — Ele riu.
Estávamos no jardim da mansão que dava até uma entrada circular do prédio principal e tinha um chafariz enorme. Tudo estava escuro e silencioso, a atmosfera era quase palpável.
— Bom, temos vinte e sete minutos. Você vai ficar responsável por pichar o telhado e a casa da piscina. Eu vou entrar pela garagem e tentar entrar na casa.
— Tem certeza? Eu acho meio arriscado.
— Fica tranquilo. Eu já fiz isso... bom, mas do que eu e você podemos contar juntos. Agora vai logo, não temos muito tempo. Temos que estar bem longe daqui quando o sinal voltar.
Gary parecia bem sério então resolvi acatar a ordem e segui dando a volta na casa indo até o quintal aonde tinha piscina semiolímpica e um casebre do outro lado. Não demorei achar uma escada de serviço que me levou até o telhado e comecei a escrever xingamentos que me vinha a cabeça. Fui o mais rápido possível e desci até o casebre para pichar todo o seu exterior.
Acho que fui sugado pelos os meus pensamentos que nem percebi o Gary se aproximando correndo.
— Zach, temos que sair logo daqui. — Ele disse ofegante e me tirou do devaneio. — Temos seis minutos.
Naquele momento nunca pensei que poderia a sobreviver a sequencias de corridas insanas pela minha vida, eu acho que o fato de poder ser preso ajuda bastante nesses momentos. Quando chegamos no carro desabei no chão, minhas pernas queimavam como brasas e o oxigênio não chegava aos pulmões, eu puxava rápido demais, minha sorte é que o Gary percebeu o que estava acontecendo.
— Zach, Zach. Calma. Para. Inspira fundo e Solta devagar. — Ele ia simulando os gestos para que eu o acompanhasse. — Inspira. Solta... inspira. Solta. Isso garotão.
— Obrigado. Pensei que ia ter um infarto. — Disse recobrando as minhas faculdades mentais.
— Não no meu turno, Gatinho. — Gary me ajudou a me levantar e entramos no carro.
Comemos os sanduíches e tomamos uma latinha cada de energético.
— Que horas? — Gary perguntou quebrando o silêncio.
— Três e meia.
— É ainda dá tempo. Vamos agora para o Gran Finale.
— Gran Finale?
— Sim, vamos encerrar esse trote da melhor forma possível. No telhado da Glorious High. — Ele indicou para ligar o carro.
— Como vamos invadir a escola a essa hora da manhã?
— Zach, pelo amor, de tudo o que fizemos hoje, entrar na escola vai ser a mais fácil de todas.
Nem ousei perguntar mais nada de tanta confiança.
Chegamos um pouco depois das quatro e até agora o mundo parecia intocado pela penumbra da noite e do silencio. A escola era bem sombria quando não havia adolescentes tentando destruí-la diariamente, a porta estava aberta e de fato chegar ao telhado.
— Nossa que demora. — Marine se virou assim que saímos pela porta e veio abraçar o Gary.
— Marine. — E sentado na cadeira logo mais a frente. — E Mike? O que estão fazendo aqui?
— O seu amigo. — Mike disse. — Ele me convenceu a vir hoje.
— Então eu pensei em montar uma pequena confraternização antes das provas finais e da formatura. E por isso chamei eles para passar esse momento conosco. — Gary disse se apoiando no meu ombro.
Eu realmente adorei a surpresa. Eles trouxeram bebidas e como sobrou energético foi um prato cheio, ficamos dando risadas e contado o que fizemos nos mínimos detalhes. Aparentemente o Gary invadiu o sistema da casa inteligente e assim alterou alguns códigos, isso despistaria o desligamento do sistema de segurança pouco antes de entrarmos, depois soltou os gambás pela casa e havia areia de gato usada dentro da mochila que ele soltou dentro dos carros na garagem. Vinte minutos depois podíamos ouvir os sons da sirene.
— E assim, Zach, que sabemos que fizemos um ótimo trabalho. — Gary disse levantando a lata em um brinde.
Estava levemente feliz demais e só aproveitei a sensação, mas ele tinha algo a mais para falar.
— Sei que somos péssimos com despedidas. Estamos na reta final da vida acadêmica e as portas da vida adulta estão se abrindo, eu quero aproveitar essa nostalgia, melodrama, quero curtir hoje com vocês. Zach, eu preparei um presente para você, esse presente representa que não importa o quão longe estaremos ou fazendo coisas diferentes... vamos ter um ao outro. — Todos ficaram em silencio, a Marine só faltava explodir de tanta animação. Eu mesmo não tinha palavras para dizer, nunca tinha ouvido coisas assim do Gary, nem sabia que ele tinha esse lado sentimental. Ele puxou um envelope do bolso e me entregou.
Quando toquei no envelope senti as lagrimas descendo pelo rosto, de fato aquilo era lindo vindo da pessoa mais irritante e criminosa que eu conheço. Marine e Mike começaram a torcer por discurso.
— Tá, tá. Eu digo alguma coisa... bom eu queria dizer que você, Gary Stone, é a pessoa mais importante na minha vida. Sem você acho que ainda estaria nesse telhado mofando e me arrependendo da vida, você me fez ver as cores novamente, querer viver. Eu só tenho a agradecer, por estar ao meu lado, por me ajudar, me defender, me fazer rir, me fazer raiva, por me aceitar pela forma que eu sou, por me fazer cometer crimes. Eu acho que preferia ter morrido hoje. — Funguei e enxuguei uma lagrima. — Do que ter vivido mil vidas sem ter te conhecido.
— Ah, referências! Você sabe como tocar esse coração.
E no piscar de olhos estávamos nos dois abraçados num misto de choro e risadas.
— Tá bom, atingi a minha cota de contato físico. — Eu me afastei. — Deixa abrir o meu presente.
Rasguei o envelope e o sacudi para o conteúdo caísse na minha mão. Era um colar, uma corrente prateada bem fina com um pingente de cristal azul bem lapidado, parecia até ter uma luz própria.
— Nossa, é lindo! Aonde você arrumou dinheiro para comprar isso?
— Querido, o poder do cartão de crédito não conhece a palavra limites.
— Sua mãe vai te matar.
— Eu sei lidar com a fúria da Sra. Stone. — Ele disse orgulhoso. — E eu também tenho uma.
Ele mostrou o seu colar com um cristal vermelho. Pedi para o Mike me ajudar a pôr o meu.
— Nossa, realmente é lindo. Eu nem sabia que você já tinha contado para ele sobre o Canada. — Mike disse. E na hora percebi que a merda foi feita mesmo estando bêbado.
— Como assim? Quê que tem o Canadá? — Gary perguntou curioso.
Eu prendi a respiração. Eu não tinha contado ainda e sabia qual seria a reação do Gary ao saber sobre, antes de poder bolar algo, o Mike já foi abrindo a boca.
— É que eu e o Zach, vamos nos mudar para o Canadá?
— Tipo só você e ele? — Mike confirmou com a cabeça. — Tá e você, Zach, vai abrir mão da faculdade e tudo? É isso que eu tô entendendo?
— Gary é que o Mike me chamou e...
— E só por que ele te chamou você tem que ir? — Percebi a leve troca de humor, não ia demorar até que ele explodisse.
— Cara, calma... — Mike tentou se aproximar.
— Não se mete, Water. Esse é um assunto entre mim e o Zach. Acredito que você já está fazendo uma grande bagunça.
— Mike, é melhor descermos. — Marine o segurou pelo ombro. Eu concordei com ela e pedi o mesmo.
— Gary, não é o como você está pensando. — Argumentei.
— Tá, então me explique, por que tá parecendo que você está abrindo mão do seu futuro por causa de um macho, enfim a hipocrisia.
— Gary Stone, olhe como você fala comigo! Você acha que vou jogar tudo para o ar sem pensar nas consequências? Quem você acha que eu sou?
— Agora uma gay que faz o que um macho manda só porque está dando para ele. Se ele quiser ir, deixa ele ir. Literalmente existe milhões de rolas por aí, cagar todo o futuro por causa de uma? Não vejo a lógica nisso.
Naquele momento estávamos bem exaltados devido ao álcool.
— O Mike passou por muita coisa e ele quer que eu o ajude a começar a sua vida do zero.
— Ah coitado do coitadinho. Talvez eu devesse lamber as bolas dele para ele se sentir melhor.
— Quer saber? Eu nem deveria estar discutindo isso com você. Não lhe diz respeito o que eu devo fazer ou não.
Andei furioso em direção a porta.
— Se você por essa porta agora, Zach Young. — Ele disse mais raivoso ainda. — Vai jogar fora tudo o que construímos.
Parei por um momento, me lembrei que estava com as chaves do carro do Adrian, peguei elas no meu bolso e joguei nele.
— Se realmente valesse algo, não teria dito isso. — E saí.
Naquele momento eu não enxergava nada, tudo estava embaçado e turvo, corri o mais rápido que os meus pés podiam naquele momento, não me importei de ser pego, atropelado ou preso. A dor que apertava o meu coração com força era a única coisa que importava, eu nem sequer tinha me dado conta que chegara em casa, só entrei, subi as escadas, me joguei na cama e abafei os gritos e choros com o travesseiro. Tudo foi minha culpa, como pude deixar tudo sair do controle, tinha certeza de estar preso em um pesadelo e eu não via a possibilidade de fuga.
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