Onde Nós Vamos
6 Capítulo VI
Notas iniciais

No sábado o Gary e o pai dele vieram para passar a tarde na minha casa. O Sr. Stone trouxe picolés, sorvetes e o filho idiota, eu até fiquei tranquilo e não repeti o incidente do dia de Ação de Graças, mas foi graças ao meu pai que o manteve ocupado, ficaram conversando sobre corridas, pesca, praias e o Brasil. Adrian demostrava muito interesse pelo país e como o meu pai era de lá tornava tudo mais fácil. Parecia muito eu e o Gary, mas em versões mais maduras.
Já no domingo a minha mãe estava de plantão e o Pedro foi levar a vó no hospital para fazer um exame, e como aquilo era raríssimo, aproveitei para fazer algo que amava fazer quando tinha a casa só para mim. Faxina. Arrumei, tirei pó, varri, passei pano, encerei o chão, estendi a roupa da máquina, tudo isso ao som das minhas músicas favoritas. Tudo parecia ir tranquilamente até que a campainha tocou. Provavelmente era o Gary numa visita surpresa para encher o saco ou que acabou esquecendo algo.
Quando abrir a porta desejei que fosse o Gary.
— Mike?
— Oi. — Ele abriu um sorriso como se quisesse se desculpar.
— É. Posso ajudar? — Tentei soar o mais obvio possível.
— Olha, eu sei que eu furei na sexta. Mas é que precisamos fazer o trabalho e eu acabei de chegar de um serviço. Só queria poder adiantar algo e ir dormir.
Ele falando aquilo parecia que nem sequer tínhamos se visto na sexta. Agora era o quê? Duas personalidades? Fragmentado?
— Bom, eu estou livre agora. Acho que é uma boa ideia.
Dei espaço para que ele entrasse.
— Tire os sapatos primeiro e você pode esperar lá no quintal. — Indiquei o caminho no fim do corredor. A casa estava limpa e eu não ia deixá-lo zanzando pela casa livremente, ele não tinha esse direito. — Vou lá em cima buscar o notebook.
Subi as escadas e fui até o meu quarto, peguei o notebook na cômoda e da janela vi o Mike sentado na grama com as pernas cruzadas, ele havia pendurado a sua jaqueta no corrimão da escada e dobrou a calça até o joelho mostrando suas panturrilhas definidas e os pelinhos loiros. O garoto contemplava o céu como se procurasse uma resposta.
Então desci e fui até ele.
— Sempre adorei o seu quintal. — Ele disse quando passei pela porta de correr.
— Que bom. Eu trouxe o notebook. — Sentei ao seu lado.
— Ah sim. O trabalho.
Então começamos. Conversamos sobre o tema e o que poderia ou não ser usado, fizemos pesquisas, vimos vídeos e analisamos todo o conteúdo. Podíamos falar sobre as versões que diziam sobre como ela tomou o elixir, se foi um acidente ou egoísmo, podíamos falar sobre o feriado Dia da Lua e as suas versões na cultura pop. Logo tínhamos conteúdo para um esboço e só faltava organiza-los.
— Eu acho que devíamos pôr a lenda em primeiro. — Mike comentou.
— Por quê? É só um conto, não tem tanta importância.
— Eu não sei. É uma história, Zach. E todas as histórias tem sua importância.
— Engraçado, vindo você. — De repente aquilo acendeu uma fagulha de raiva em mim, algo que não sabia que sentia.
— Por que? Eu não posso ser profundo e romântico? — Eu sabia que ele estava tentando ser engraçado, mas ele escolheu uma péssima hora.
— Ah claro. Romântico do tipo que larga os amigos depois de beijar eles. Quer que eu ponha isso no trabalho?
Ele não falou nada. Nós olhamos por longos minutos, o clima havia caído bruscamente entre nós. Suspirei fundo, não ia deixar aquele sentimento dominar de novo, não ia voltar a ser o antigo Zach, não foi só ele que mudou, eu também e iria mostrar isso.
— É melhor você ir embora. — Fechei o notebook e me levantei. O meu tom de voz talvez tenha saído um pouco seco demais.
— É. Eu também acho. — Ele esfregou os dedos entre os olhos e se levantou para pegar a suas coisas.
O levei até a porta.
— Adeus, Zach. — Mike se virou e nos encaramos, seus olhos azuis nos meus. Me sentia desprotegido.
— Adeus, Mike.
Ele mordeu o lábio e se virou rapidamente.
Enquanto o assistia indo embora, o carro do meu pai entrou na garagem. A cara da minha mãe era algo entre surpresa e espero que você não tenha feito o que estou pensando. O meu pai nem se tocou.
— Aquele era Mike River? — Lily perguntou.
— Era. — Ela se aproximou me abraçando com o braço livre.
— Ele fez algo, meu amor? Você está bem? — Sua voz era doce e terna.
—Estou bem. Ele só veio fazer um trabalho que temos... — Suspirei. — Mas eu não sei se estou pronto para ter ele de novo na minha vida.
— Pedro, querido. Você leva as coisas lá pra dentro? Preciso conversar com o Zach.
— Tá bom, amor. — E assim, o meu pai pegou as coisas e foi para dentro.
Lily me puxou para o banco-balanço que tínhamos.
— Meu anjo, essas coisas levam tempo. Eu sei que o coração dele está muito ferido e isso acabou machucando o seu junto, vocês são dois jovens descobrindo o que é a vida. Não se martirize tanto.
— Como a senhora sabe? Tipo sobre o que o Mike sente.
— Intuição feminina. — Ela estufou o peito. — Já errei alguma vez?
— Não. — Não consegui conter a risada.
— Tá vendo. — Ela me abraçou fazendo cocegas. — Agora venha, tenho dois homens grandes para alimentar.
E entramos. Conversar com a minha mãe foi algo aliviador, me senti mais leve em relação ao que estava sentindo, e depois do jantar e explicar para o Pedro o que ele perdeu fui jogar com o Mike.
— Aí você não vai acreditar. — Disse assim que ele aceitou a chamada no Discord.
— O que você fez dessa vez, Young?
— O Mike veio aqui em casa. Vamos de LoL.
— Tá bom, tô entrando. Mas sério? O que ele queria?
— Ele veio para fazermos o trabalho. E ele tentou ser engraçado, mas tipo eu surtei e mandei ele ir embora.
— Você tocou naquele assunto?
— Sim.
Ele suspirou.
— Ai, Zach. É complicado. Você já perguntou por que ele fez aquilo?
— Já! Mas ele me evitava e até mesmo dizia que era pra manter distância se eu não quisesse apanhar.
— Eu acho que ele queira. Só não pode.
— Está defendendo ele, Gary Stone?
— Você sabe minha opinião sobre ele. Não teria motivos para isso. Só me pergunto o óbvio.
— Ai só bora focar nessa partida que você está cem de farm a menos que o Draven inimigo.
Bom, não perdemos por pouco, como sempre carreguei a Ashe cansada do Gary, mas depois daquela partida me arrumei para ir dormir. Desliguei o celular e o pus no carregador. Tentei dormir, me virei várias vezes na cama, mas nada. No fim me peguei fitando o teto, olhando as estrelas de plástico que deixei lá mesmo depois de crescido. Gostava delas. Pontos florescentes que eu podia desenhar minha própria constelação.
— Por quê, Mike? Por que você é a única estrela que não sentido.
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