Onde Nós Vamos
2 Capítulo II
Notas iniciais

Ufa! É doloroso lembrar daquilo, muitos gatilhos. Mas acredito que consegui contar a minha versão toda. Dramático, né? Mas ignorem eu era só um adolescente na época. Bom agora vamos avançar alguns anos, quero que conheçam alguém... bem, peculiar, mas muito importante pra história.
Se me lembro bem, tinham se passados dois anos, foi numa quinta-feira de setembro, acho que a mais longa da minha vida de estudante, até então já tinha passado por duas aulas de Matemática, uma de Física, Sociologia e estava nas duas últimas aulas história. Nos corredores da North East era conhecido como a aula dos 500 anos, a matéria era mestrado pelo Professor Glover, um senhor de noventa e cinco anos de idade. Ele era um bom professor e boa parte da escola gostava dele, mas todos concordavam que a sua aposentadoria estava bem mais que atrasada. Suas aulas eram sempre monótonas quase parando e todos tinham que prestar bastante atenção no que ele passava pois ele compensava a falta de pulmões e prováveis ataques cardíacos nas provas que aplicava no final de cada semestre.
E ali estava o Sr. Glover explicando sobre Guerras Civis e suas consequências na sociedade atual. O calor fritava o mundo lá fora, por algum motivo estava disperso e fiquei admirando as ondas de calor distorcer o asfalto da rua, me peguei rabiscando coisas na borda do caderno. O som de algo caindo no chão me trouxe de volta para a realidade, olhei imediatamente e vi que alguém derrubou o celular no chão, o professor resmungou algo sobre celulares durante a aula e o que mais me prendeu a atenção foram os olhos verdes que me fitaram no canto da sala, olhos selvagens e destemidos, me arrependi no mesmo instante. Mike River. Aquele nome se tornou um tabu no meu mundo, uma lenda que jamais podia ser dita em voz alta. Virei a minha atenção ao quadro negro e comecei a prestar atenção na aula, mesmo já entendendo do assunto queria encher minha cabeça com qualquer tipo de informação, aquilo ajudava a não pensar no que eu não queria pensar. Encher minha mente silenciosa com pensamentos barulhentos.
Quando o sinal tocou, arrumei minhas coisas o mais rápido possível e saí da sala evitando todo contato visual.
Eu era da turma A do terceiro ano e muitos ali não era boas pessoas, para vocês terem ideia alguns brincavam de trocar o A pelo C de Chernobyl. Eu tinha mais afinidade com a turma B que era a classe do meu melhor amigo Gary. E é sobre ele que vou contar agora.
Bom antes de continuarmos, preciso contar como conheci Gary Stone, ou o meu pesadelo como gosto de reforçar.
Gary Stone. Um típico garoto: cis gênero, hetero, branco até demais e estadunidense. Tinha cabelos ruivos e olhos cinzas que mais pareciam o céu em tardes tempestuosas. Ele era do Kansas, mas sua família se mudou para Springfield no segundo semestre do ano retrasado o que causou a transferência dele para a nossa digníssima instituição acadêmica. Até então eu ainda andava depressivo devido a tudo o que aconteceu, não conseguia sentir nada, não me permitia viver e nem experimentar nada, as pessoas ao meu redor se tornaram extraterrestre e eu não conseguia as ver, não literalmente, é estranho tentar explicar. Enfim, poucas pessoas conheciam o mapa da escola, e o telhado era algo que raramente tinha alguém, a não ser zeladores ou usuários de droga. E sabendo disso sempre fazia minhas refeições lá, ficar lá em cima sozinho, vendo as pessoas irem e virem me ajudava a tornar tudo suportável, até que...
...
— Opa! — Ali estava um ser humano. Se eu soubesse quem aquele ser era, eu teria me jogando do telhado naquele exato momento. — Aqui não parece ser o banheiro.
— É. — Olhei em volta. — Aqui definitivamente não é o banheiro.
Ficamos ali parados olhando um para o outro. Até que eu perdi a paciência.
— O que você tá olhando, garoto?
O seu rosto ficou vermelho, eu pensei que ele iria explodir.
— É que é o meu segundo dia aqui na escola. E eu meio que não sei aonde fica os banheiros ainda.
— Bom, aqui claramente é o telhado... Como você veio parar aqui, alias? — Olha, a escola não tinha assim placas detalhadas que te levavam a lugares específicos, mas né. De banheiro para telhado é uma diferença enorme.
—Olha, eu tenho um péssimo senso de direção e adoraria explicar as coisas que acontecem quando tento chegar nos lugares novos, maaaas a minha bexiga está prestes a explodir e eu preciso mesmo ir ao banheiro.
Aparentemente ele não parecia estar mentindo, então revirei os olhos, me levantei, sacudi as migalhas do lanche e fui na sua direção.
— Vem, eu te levo no banheiro, Mr. Magoo.
— Olha. Se eu não tivesse tão apertado, te daria um soco por fazer piadas com um senhor de idade com alto grau de cegueira. — Ele deu uma risada. — Mas ganhou pontos pela referência.
E fomos em silencio. Eu tinha que admitir que aquele rapaz me deixou muito intrigado.
— Cara? — Ele disse enquanto se aliviava.
— Oi. — Respondi.
— O que você estava fazendo no telhado? Tipo sozinho.
— Eu meio que não gosto de pessoas.
— Hum. — Ele soou pensativo. — Por um momento achei que você estivesse chorando ou algo assim.
Merda.
— Acho que é impressão sua.
— Tem certeza?
Eu soltei o ar com a boca. Pensei que seria bom desabafar com alguém e ele parecia tão interessado, então contei o motivo pelo qual eu estava no telhado e as coisas que me levava a aquela situação. Enquanto falava o rapaz ficou em silencio e quando terminei ele saiu fechando o zíper da calça, lavou as mãos e se aproximou as enxugando nas calças.
— Olha, pelo jeito você está precisando muito de um amigo e eu de um guia pelo labirinto. Acho que temos aqui uma oportunidade de termos um relacionamento mutuo. E aí, o que acha? — Lembro de olhar nos olhos dele, olhos cinzas e intensos. O que eu senti nesse momento foi algo que mudou meu mundo. — Se não quiser vou entender.
— Que tipo de monstro eu seria se recusasse ajuda a um deficiente da visão?
— Do pior tipo. — E rimos.
E desde então o Gary não só ocupou um espaço na minha vida como trouxe as cores de volta, ele sempre ficou ao meu lado quando precisei, me defendeu as pessoas radioativas e conseguia me fazer rir quando eu menos queria. Ele me ensinou que uma pessoa idiota pode ser tudo o que você mais precisa quando o mundo não faz sentido.
...
E falando no diabo.
— Olá, Zach! — Gary apareceu assim que fechei a porta do meu armário. Isso obvio que me assustou.
— Tá louco, garoto! Já disse para não chegar assim.
— Eu sei que já. — Ele deu de ombros. — Mas que graça teria se eu obedecesse às suas ordens?
Revirei os olhos e segui para a saída. Entendem agora o que eu digo?
Estávamos seguindo pela rua Armory.
— Sim! — Ele puxou o assunto. — Você vai lá em casa hoje, né?
— Tenho opções?
— Hummmm. — Ele fez um gesto pensativo. — Não.
— Então eu vou. Por livre e espontânea pressão.
— Beleza. Te vejo as três, lá em casa. A minha mãe vai fazer brownies e podemos jogar Gears of War. — Gary parecia uma criança de cinco anos de idade todo empolgado, ele sempre era assim.
— Ainda me pergunto o porquê de me dar esse trabalho. Podíamos jogar online. Vou ganhar de qualquer jeito.
— Bom. 1) Somos melhores amigos, contato humano fora da escola vai te fazer bem. 2) Você ama os brownies da Sra. Stone, garanto que terá sorvete e tudo. 3) Você sempre vai pela oportunidade de ver o meu pai. — Nessa última parte ele me cutucou nas costelas com uma cara de malicia.
Ele sabe do meu ponto fraco. Adrian Stone. Só a menção do nome já faz os meus pelos da nuca eriçarem.
— Olhe aqui! Isso é golpe sujo, você não deveria mencionar essas coisas assim. — Bufei.
— Infelizmente, Zach Young. É inevitável.
Eu daria um soco só pelo atrevimento, mas ele teve sorte que chegamos na encruzilhada com a rua Worthington.
— Até mais, Young. — Gary já se adiantou e correu em direção a sua casa que ficava umas quadras a frente. — Eu e o Sr. Stone te esperamos ansiosamente.
— Vai se foder! — Gritei em resposta. — E até as três!
Eu morava num pequeno bairro residencial de Springfield. Não era lá essas coisas, mas até que a vizinhança cuidava bem das aparências, casas vitorianas típicas, arvores em cada lado da calçada, quem visse diria que estaria no interior. Eu já não os conhecia muito, morava na rua Summit desde quando nasci e acho que ser sociável não era muito meu ponto forte, nunca me dei com as crianças e muito menos com os adultos. Acho que por parte gostava de manter as coisas assim.
E lá estava, lar doce lar. A minha casa não se destacava muito das outras, meus pais mantiveram todo o toque antiquado da casa por fora. Paredes em branco-gelo, detalhes em azul marinho escuro e o telhado negro como a noite. Me senti muito aliviado em finalmente poder respirar tranquilo, a atmosfera da escola as vezes era sufocante.
Entrei na residência e subi as escadas em direção ao quarto, naquele horário meus pais estavam trabalhando, eles chegavam por volta das oito da noite, me joguei na cama só para curtir o restinho da música que tocava no celular antes de tomar um banho. A voz da Sia me deixava muito reflexivo sobre as coisas, adorava escutar aquela mulher.
O meu celular vibra.
Zach. Você já tomou banho? 13:50
Não esqueça que três horas você tem que estar aqui 13:50
Gary eu já sei 13:51
Posso descansar um pouco? 13:51
Eu só quero garantir que não haja faltas 13:51
Aff. Já tô indo me arrumar 13:52
É assim que eu gosto kkkkkkk vem logo 13:52
Eu revirei os olhos diante da imperatividade do garoto. Bom, como eu não gosto de me atrasar não demorei muito, já me levantei tirando o uniforme e jogando no cesto, peguei a toalha e fui para o banheiro.
Após o banho e de roupa trocada, fui até a cozinha para pegar o almoço que estava na geladeira e coloquei no micro-ondas, arrumei algumas bagunças e voltei para comer. Louça lavada, tudo arrumado, celular, carteira e fones no bolso, tudo pronto.
Saí e fui em direção a residência dos Stones.
A casa deles não era muito longe e o clima estava agradável para uma caminhada.
Logo estava na varanda deles tocando a campainha, aguardei alguns minutos até alguém vir atender. E a pessoa era o Gary usando um short muito curto e de cores berrante, realçando as pernas pálidas dele, aquilo machucou os meus olhos.
— Nossa! — Exclamei.
— O que foi? — Ele olhou ao redor como se eu não falasse com ele.
— Cara, esse short é esse?
— Legal, né. Refresca bem.
— Só não deixa ninguém ver esse crime hediondo.
— Oras, porque?
— Gary, nem eu que sou gay uso isso. Da onde você tirou esse short? Anos 90?
— Hahaha. Muito engraçado, vou fingir que nem ouvi.
Eu entrei na casa e já ouvi sons vindo da cozinha.
— Olá, Sra. Stone! — Gritei.
E uma figura apareceu no fundo da casa, tinha cabelos ruivos penteados num coque e olhos tão espertos quanto o do filho, mas era de uns verdes bem vivos.
— Olá, Zach! Saudades! — Yasmin disse acenando.
— Olá, Sra. Stone! Como vai?
— Tudo certo, amado. E você?
— Está tudo certo. A minha mãe pediu pra te mandar um beijo. — O Gary já começou a me puxar.
— Mãe, precisamos ir. Temos negócios a tratar.
— Tá, tá, nossa. Podem ir tranquilos. Chamo vocês quando estiver tudo pronto. — E assim ela voltou para o trabalho na cozinha.
— Entenda, a senhora é tudo. — Gray gritou enquanto subíamos a escadas.
— Eu sei, meu amor. Eu sei! — Ela respondeu.
Já no quarto começamos a sessão do Massacre do Gary. E vocês, caros leitores devem estar se perguntando: Zach, o que diabos é o Massacre do Gary?
E eu respondo.
Esse evento é tipo o Caminho da Vergonha da Cersei em Game of Thrones, só que ao invés de andar pelado, meu personagem massacra o dele o matando incessantemente. O Gary era a pessoa mais inteligente que eu conheço, pode fazer cálculos impossíveis de cabeça, criar formulas e construir qualquer coisa que tenha vontade, planejar e arquitetar é tão natural quanto respirar. Mas todo Aquiles tem o seu tendão e o do meu amigo é ser horrível em qualquer jogo, desde Minecraft até Dark Souls, ele simplesmente se empolga ou se gaba demais o que deixa muito vulnerável. Eu já tentei pegar leve várias vezes, mas mesmo assim ele consegue se superar. Ele só não perdia se fosse cooperativo, por que eu estava lá carregando ele. O lado bom é que ele nunca perdia a força de vontade ou se deixava abalar.
— Olha! — Disse quando terminou a partida. 20 para mim, 2 para ele. — Consegui dois abates!
— Parabéns, cara. — Dei umas tapinhas nas costas dele. — Já é um grande avanço.
— Isso significa que posso ser tão bom quanto você ou até melhor.
— Tá bom, Gary. Não vamos exagerar.
— Perai. — Ele semicerrou os olhos para mim. — Você está duvidando da minha capacidade?
Ah, não. Lá vem.
— Não, Gary. Só que...
— Um dia. — Ele me interrompeu como sempre. — Um dia! Eu vou ganhar de você no Gears of War!
— É claro, gatinho. — Eu tive que apelar para o sarcasmo. — E nesse dia vou fazer o que você quiser.
— O que você disse? — A expressão dele mudou na hora.
— Que não devemos exagerar?
— Não, depois disso.
— Que amo os brownies da sua mãe? — Eu sabia o que ele queria. Ele estava com aquela cara de lobo pronto para dar um bote.
— Vamos, Zach. Repita o que você disse.
Suspirei. Eu tinha me fodido.
— Que eu faria o que você quisesse se ganhasse de mim.
— Espera aí. — Gary deu um salto, subiu na cama e pegou o celular que estava no criado-mudo. — Repete. — Pondo o celular praticamente na minha cara.
— Isso é realmente necessário?
— Repete, vai. — Seus olhos estavam vidrados como se tivesse sob efeito de alguma droga.
— Se um dia o Gary Stone ganhar no Gears of War. Eu, Zach Young Carvalho, vou fazer o que ele quiser... — Pensei em uma brecha na hora. — Durante vinte e quatro horas. E nada que ponha a nossa vida em perigo.
— Perfeito. — Pensei que ele recusaria os meus termos, mas pela expressão estava redondamente enganado.
— Eu não sei o que você ganha com isso.
— O quê?!?!? Amado, você tem noção do que você fez? Você praticamente vendeu sua alma a mim! — Ele riu de uma maneira diabólica. — Imagina o estrago que podemos fazer juntos!
— Mas e seus capangas heteros?
— O Clyde e o Mitch? Ah, não, não. Eles são para serviços leves ou quando não estou afim de sujar as mãos. O que estou planejando para nós dois é épico.
Nota: “Serviços Leves” não tem a mesma definição para o Gary. Ano passado, a gangue dele encheu a piscina do ginásio com gel de cabelo, ninguém percebeu por que parecia água e só foram perceber quando a turma do primeiro ano foi para a aula de natação. Até hoje ninguém suspeita deles e nem como arrumaram quantidade o suficiente de gel para encher uma piscina olímpica.
— Meninos! — A voz da Sra. Stone interrompeu nossa conversa. — O lanche está pronto. Desçam!
Por um momento esqueci da aposta e dei um salto. Os brownies da Yasmin Stone faziam a Ambrosia dos deuses parecer lixo toxico tirado da usina de Chernobyl.
— Sra. Stone, você não faz ideia do quanto tive esperando por isso. — Disse animado sentando no banco alto. O aroma doce e amanteigado preenchia minhas narinas como um beijo angelical.
— Yasmin, Zach, por favor. Sra. Stone me faz sentir velha.
— Mãe, quando a senhora se casou, assinou um contrato com o universo. Agora o termo “Senhora” faz parte do seu nome. — Gary surgiu logo atrás de mim.
— E quem disse isso?
— As leis do Universo, mãe. É assim que as coisas são.
— Ah é? — Yasmin apoiou-se na bancada olhando desafiadoramente para o Gary, eles adoravam isso.
— Isso mesmo, SENHORA Stone.
A eletricidade era quase visível entre os dois, aquilo não acabaria bem.
— Você gostaria de sorvete nos brownies, Zach? — Ela se virou para mim, seu rosto agora era gentil e doce.
— Sim! Por favor. — Disse automaticamente.
E então ela foi até a geladeira, pegou o pote de sorvete e voltou ficando entre os dois.
— Eu também vou querer. — Gary disse quase babando de vontade.
— Ai, me desculpa filho. — Yasmin disse fechando o pote depois de servir o sorvete enquanto fazia um biquinho triste. — Acabei de lembra que eu sou a Mãe nessa casa. Eu faço as leis.
— Zach, você está vendo isso? Me ajuda!
— Foi mal, cara. Sua mãe está certa. — Disse saboreando um pedaço daquela sobremesa perfeita. — Você deveria escutar ela.
— Bando de traidores. — Ele bufou se dando por vencido.
E passamos os próximos trinta minutos escutando o Gary reclamar que nunca era levado a sério. Ignorando-o, eu a Yasmin conversamos sobre a escola e como as coisas iam em casa, a minha mãe e ela ficaram muito amigas, mas como a Lily Young é enfermeira então raramente se veem. Quando dei por mim já eram quase sete horas. Aquele era um péssimo horário.
— Acho melhor eu ir embora! — Me levantei de sobressalto.
— O que foi, garoto? — Yasmin parecia confusa.
Gary olhou para o relógio e depois para a minha expressão de puro medo.
— Ah é mesmo. São quase sete.
— Não é nada. É que eu preciso ir, meus pais estão quase chegando.
— Sim, sim. Eu levo ele. — Gary me deu cobertura.
E simplesmente saí voando da casa dos Stones. Não poderia ver aquela pessoa.
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