Onde Nós Vamos
15 Capítulo XIV
Notas iniciais

Acordei no dia seguinte com a minha cabeça latejando, girando como um centrifugador, meus olhos inchados devido à noite chorando. Nem sequer olhei o celular, não tinha coragem para encara-lo. Eu perdi a noção do quanto tempo fiquei deitado ali vegetando até que um som me chamou a atenção. Era o Mike entrando pela janela.
— Você pode entrar pela porta da frente como todo mundo. — Disse sem sequer olha-lo. Ainda o culpava também por inventar tudo isso.
— Que tipo de príncipe eu seria se não entrasse pela janela? — Aposto que era uma tentativa de me animar. Vendo que não deu certo ele simplesmente se deitou ao meu lado. — Ei, não precisa ficar assim. Tenho certeza que o Gary só estava bêbado demais e nem sequer sabia do que estava falando.
— E se ele tiver certo Mike? Se eu estiver jogando o meu futuro pelo ralo? Será que você vale a pena tanto assim? — Eu o olhei furioso.
— Ou, ou, ou. Descontar em mim não vai resolver nada. O que chamei você para podermos construir nossa vida longe daqui isso não quer dizer que você não vai ter um futuro. Sempre terá a mim e a sua família sempre aqui, terá o Gary.
— Ele nunca mais vai falar comigo.
— Besteira, Young. Vocês são como unha e carne, amizade assim não se desfaz do nada.
— Não é assim com ele. O Gary é orgulhoso e agora tenho certeza que não faço mais parte de nada.
— Bom, mesmo assim não é motivo para ficar aqui definhando. Pelo o que eu percebi você nem escovou os dentes, então levanta e bora. Vida que segue.
Mesmo contra a minha vontade cedi aos pedidos incessantes do Mike, tomei um banho, escovei os dentes e desci, o mundo todo ainda balançava e a cabeça parecia uma sirene de escola. Lily estava preparando o café, isso era um sinal de que hoje seria a sua folga.
— Bom dia, filho... — Ela parou no mesmo instante quando viu a qual situação eu estava. — Zach, o que aconteceu com você?
— Nada...
— Ele brigou com o Gary ontem. — Mike me cortou, eu o olhei com mais raiva ainda.
— Não adianta olhar para o Mike com essa cara, rapaz. Pelo jeito exagerou na bebida também. — Ela chegou mais perto para me examinar. — Vocês jovens de hoje acham que conseguem esconder as coisas de nós. Vou preparar um café bem reforçado para você.
Assim ela se voltou para o fogão cozinhar e começou a conversar com o Mike sobre várias coisas, eu não estava com cabeça para aquilo, resolvi ir para a sala e socar a minha cabeça nas almofadas. O que não adiantou muito já que logo o Mike apareceu trazendo o café-da-manhã.
— Quer assistir algo? — Ele me perguntou.
— Não. — E comecei a comer.
Mesmo assim ele ligou a TV e navegou até achar um de desenhos. Eu realmente não estava afim daquilo, só queria ficar sozinho.
— Olha, Mike. Muito obrigado por ter vindo, sinta-se à vontade para ficar o tempo que precisar, mas eu realmente quero um tempo, sabe ficar sozinho e tals. — Assim subi novamente para o meu quarto.
Aproveitei e liguei o PC para poder me distrair, talvez um Genshin Impact ou Black Desert. Pus o celular para carregar, pus os headphones e selecionei alguma playlist no Spotify. Jogar realmente ajudou, novamente me perdi na hora e só deixei. Mike parecia interessado a ajudar, trazia comida e água.
Quando era próximo do horário de jantar foi a vez da minha mãe subir até o meu quarto e me chamar, ela disse que o meu pai já havia chegado.
Todos reunidos à mesa. O clima era tão tenso que eu podia cortar com a faca, por sorte Lily quebrou o gelo.
— Zach. Precisamos conversar.
— Sobre. — Lá vem.
— O Mike nos contou sobre o que aconteceu ontem e porquê aconteceu. Eu entendo que você já vai fazer dezoito e com isso uma bagagem enorme vem junto, essa fase da vida é uma das mais complicadas e por isso entendo o medo de nos contar.
Eu não sabia o que dizer, olhei para o Mike e ele tinha uma expressão calma como se tudo estivesse sob controle. Eu o odeio por ter que forçar tudo isso, eu não queria ter de tomar decisões.
— Então não vou poder ir?
— Você quer realmente ir? — Aquilo foi a gota d’água.
— EU NÃO SEI! TÁ BOM?!? EU NÃO SEI, ESTOU CANSADO DE TODA ESSA COMPREENSÃO, EU QUERO QUE BRIGUEM COMIGO, ME PONHAM DE CASTIGO, SEI LÁ QUALQUER COISA, NÃO QUERO ESSA RESPOSSABILIDADE, QUE INFERNO!!!!
Todos estavam chocados pela a minha atitude e a minha única resposta foi correr para o meu quarto, não queria mais ver ninguém e chorar era a única coisa que parecia me ajudar no momento. Então o fiz, chorei até perder a noção de tudo e cair num sono profundo.
...
O inverno chegou junto com o mês de dezembro, a previsão era neve até a primeira quinzena, muitos corriam por causa das notas, provas finais e trabalhos não entregues, por sorte aproveitei o tempo livre que arrumei depois que surtei com tudo mundo para estudar e me dedicar. O Gary ainda me evitava, eu queria conversar com ele, contar como me sentia, mas olhar nos olhos dele ainda parecia impossível e o que pude perceber ele estava bem feliz já que tinha arrumado o seu par o baile e todos comentavam pelos quatros cantos da escola.
O Mike pelo menos tentava, mas eu só falava o necessário com ele, havia um limite para nós naquele momento e o garoto tinha ciência disso.
Com tudo isso passando pela minha cabeça eu me dei conta que havia esquecido que havia consequências dos meus atos feitos na semana passadas e que as consequências se resumem em uma pessoa, Jimmy Hartline, que surgiu repentinamente na quarta-feira depois do toque final enquanto todos iam para suas casas.
— CADÊ O STONE?!?! CADÊ AQUELE FILHO DA PUTA?!?!
Todos ficaram calados, olhares desconfiados e curiosos, sussurros eram ditos.
— O que foi, Jimmy? Sentiu falta do papai aqui. — Ele tinha surgido de algum lugar.
Jimmy era só centímetros maior que o Gary, mas tinha muito mais músculos do que o rapaz franzino. Logo ele estava segurando-o pela gola da camisa e o apertando contra a parede.
— Eu sei que foi você!
— Eu o quê? — Gary tinha o resto calmo e confiante de que nada aconteceria a ele.
— Não banque o sonso comigo, Stone! Eu sei que você fez toda aquela merda na minha casa.
— E o que fizeram? Por que eu não sei de nada a respeito?
— Eu conheço o seu jogo e sei que você nunca faz nada sozinho. — Jimmy abriu um sorriso diabólico de um ganhador da loteria. — Você vai me contar como fez e com quem fez.
— Por que você vai me obrigar?
Jimmy olhou ao redor, seus olhos ardiam em puro ódio e eu senti isso quando me encontrou no meio da multidão, em passos pesados e rápido logo estava na minha frente, em um movimento inesperado ele segurava o meu cabelo com uma mão enquanto a outra segurava o meu braço o forçando nas minhas costas.
— O que é isso? Me solta! — Me debatia sem sucesso em escapar. Ele me arrastou até o meio do círculo de pessoas.
— Cala a boca, seu chupador de rola! — Ele deu um soco na minha cara, aquilo ardeu e muito, senti lagrimas involuntárias subindo aos meus olhos. — O Mike já pagou o preço por ter traído a minha confiança e agora vai ser você.
E só o fato de ele ter mencionado o nome do meu namorado me fez o procurar rapidamente e de fato ele não estava presente.
— Se você não assumir a culpa. Esse merda vai sofrer as consequências.
O Gary não esboçou uma reação, era frio e rígido como uma pedra. Só uma olhada rápida para mim foi o suficiente para me fazer me sentir mal, acho que preferia receber outro soco.
— Então vai. — Gary disse por fim. — Bate nele, faça o que veio fazer. Mas tenha certeza que se você tocar mais um dedo no Zach, diferente de você que só possui acusações e perjuras, eu vou ter provas e testemunhas. E no fim vai ser um vereadozinho de uma cidadezinha que vai ter que pagar a fiança do seu filhinho mimado de merda.
Acho que até para um brutamontes como ele que só devia ter dois neurônios foi fácil fazer a soma, o Jimmy só não fazia ideia que tinha a verdade nas mãos e que acabara de perder a oportunidade de descobrir tudo. E ser jogado como um saco de batata não era o que eu esperava apesar de merecer. A multidão foi se dispersando aos poucos.
Gary veio em minha direção, mas passou direto ignorando completamente a minha existência. Eu só não falei nada pois estava mais preocupado com o Mike, tentei ligar para ele, mas só caía na caixa postal. Corri para a casa dele, mas descartei a ideia, a casa dele seria o último lugar que poderia encontrar. O Cresmont!
Peguei o ônibus até o centro, todos os meus sentidos gritavam em alerta e a ansiedade também não ajudava muito, pensei em todas as possibilidades, cada uma pior que outra e algo dentro de mim dizia para me preparar. Assim que as portas se abriram, desci voando rumo ao antigo cinema da cidade, e eu senti um misto de tristeza, alivio, raiva e felicidade quando o vi sentado nos bancos no beco ao lado do prédio, mas o seu estado não era dos melhores. Seu rosto estava todo machucado, ele limpava alguns ferimentos com um pano empapado de sangue.
— Mike. — Disse para chamar a sua atenção. Foi difícil conter as lagrimas quando seus olhos encontraram o meu, um deles inchado e roxo.
Corri e o abracei.
— O que eles fizeram com você?
— Não precisa chorar, pequeno gafanhoto. — Mike passou a mão meu cabelo. — Eu já estive bem pior, você tem que ver o outro cara.
— É tudo culpa minha. — Eu o olhei, o arrependimento apertava o meu coração como uma garra.
— Como assim? O que você quer dizer?
Então em meio a soluços e consolos contei para ele sobre a aposta e como isso me levou ao trote e tudo o que fizemos naquela noite, no fim Mike apenas deu um sorriso fraco.
— Ainda bem que me contou, agora pelo menos a surra valeu a pena. Queria ter ido também.
— Mas...
— Eu não tô com raiva de você, se é isso o que está o incomodando. Nem do Stone, apesar de merecer por te por nessa situação. O Jimmy merece essas merdas, merece coisa pior... — Ele trincou os dentes e fez uma careta, deve ter sentido uma fisgada.
— Não posso deixar você nessa situação, vamos para a minha casa.
O ajudei a se levantar e pedi um Uber, quando o motorista chegou nem sequer perguntou nada, só de olhar para o nosso estado ele já deduziria tudo. Quando chegamos na minha casa o levei até o banheiro para lavar as feridas e sujeiras com um banho gelado, ele chiou reclamando, mas sempre o repreendia. Assim era possível ver todo o dano, ele tinha algumas esfoliações nas costas e nas coxas, alguns cortes no rosto, contusões no braço e nas costelas. Depois de limpo o vesti com pijamas meus e o deixei na minha cama, fui até a cozinha pegar o kit de primeiros socorros, ter uma mãe enfermeira ajuda nessas horas pois o kit era completo com tudo o que eu precisaria, passei álcool para desinfetar as feridas abertas e depois fazer bandagens.
— E eu achando que a sua mãe era a única enfermeira da casa. — Mike disse quando terminei a última bandagem.
— Besta, é obvio que eu aprendi tudo com ela. — Ri sem graça. — Agora toma esse analgésico para dor e o outro é um anti-inflamatório.
— Obrigado, gato. Não saberia o que fazer sem você.
— Provavelmente tendo alguma infecção naquele beco sujo.
Rimos e quando percebi que o Mike me olhava todo bobo fiquei mais sem graça ainda.
— O que você tá olhando?
— Sabia que eu adoro o seu cabelo solto? — Ele passa uma mecha para atrás da minha orelha.
— Sério?
— Sim, ele é lindo. Combina com você.
Senti todo o meu rosto queimando como pedras em brasas sobre a pele. Do cabelo, Mike passou a mão pelo o meu rosto me contemplando todo ruborizado. Sem dizer nada ele me puxou até os seus lábios, tive que me contar para não intensificar o beijo já que seus lábios estavam machucados. Mas a sugestão do que poderíamos fazer surgiu na mente e aos poucos fui tirando a minha roupa.
— Eu te amo, Zach Young. — Ele disse quando me viu despido, contemplando todo o meu corpo como um artista olhando sua musa inspiradora.
— Eu também te amo, Mike River. — Disse sussurrando no seu ouvido enquanto me preparava para consumar o nosso amor.
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