Notas iniciais
Bom eu vou pedir desculpas, mas hoje não vai ter uma nota fofa ou animada. Não ando muito bem. Espero que gostem do capitulo.

31 de outubro. Halloween. Nem havia se passado vinte e quatro horas desde a liquidação e Marine junto com o Gary já estavam animados para as festas do feriado. Pelo o que eu pude perceber esse ano não íamos passar como de costume, agora que o Gary estava quase namorando. Me dizia que aquilo era bom, agora ele se ocupava com outra pessoa e eu tinha mais tempo livre. Mudanças são boas.

Eu mesmo estava obstinado a passar o dia em casa ajudando meus pais com a decoração e os comes.

— Filho, você pode me passar a cola quente. — Pedro me chamou do alto da escada, ele estava colocando fantasmas de papel nos beirais da casa, quase tinha me esquecido que estava o segurando para não cair. — Esse danadinho que fugir antes da hora.

— Aqui. — Disse já o entregando a pistola.

— Está meio calado, Zach. Aconteceu algo?

— Ah! Não. Não.

— A sua mãe me falou sobre o Mike. — Merda. — Se ele tiver fazendo algo com você. Me avise. Ele é um bom garoto, mas não vou permitir que ele te machuque.

— Pai. Por favor, está tudo bem.

— Olha, o filho de um amigo meu no trabalho também é gay e como vocês dizem? Um boy magia? Acho que é isso. Então ele é um boy magia e está solteiro. Se você quiser eu posso...

— Pai. Por que você não pode ser normal. — Meu rosto queimava pela insinuação dele. — Cruzes.

— Olha, querido. Eu só quero ajudar, não existe um manual de gays para pais. — Ele riu. — Pronto. Terminei.

Ele desceu e estava todo suado e sujo de teias de aranhas, provavelmente era de verdades pois ele sempre se suja quando vai no porão pegar algo que está lá amarrotado.

— Só quero que saiba que eu te amo, tá bom? — Ele bagunçou o meu cabelo quase desmanchando o coque.

— Tá. — Disse rindo.

Nos afastamos para verificar o resultado.

— Bom, até que ficou bom. — Ele disse orgulhoso.

— Sim, melhor do que aqueles LEDs super fortes. — Bati nos ombros dele. — Agora vou ajudar a mamãe.

E assim fiquei até escurecer, preparamos vários doces caseiros e misturamos com os comprados, separamos os saquinhos e fizemos a janta. Até coloquei músicas antigas para ver a Sra. Young cantando junto como se fosse uma adolescente apaixonada.

A campainha tocou.

Quando abri a porta me deparei com o Gary pintado de vermelho e a roupa bem improvisada do Visão e a Marine toda trabalhada na Feiticeira Escarlate.

— O que vocês querem? — Disse.

— Querido, hoje é o dia dos Doces ou Travessuras. Digamos que mais travessuras. — Ele deu uma cotovelada na Marine que deu uma risadinha.

— Exato e por isso viemos te buscar. — Ela completou.

— Pensei que tivesse dito que não gosto de festas. — Disse.

— E por isso eu tenho uma carta na manga. — Gary disse com um tom de superioridade. — SRA. YOUNG!!!

Minha mãe apareceu logo atrás de mim.

— Gary! Que prazer! Zach cadê seus modos? — Ela me tira da porta e dá espaço para os dois entrarem. — Você deve ser a Marine, correto?

— Eu mesma. Marine Lovegood. — A garota fez uma reverencia como se fosse uma lady do século passado. — Prazer.

— Imagina, o prazer é todo meu. — Lily a abraçou.

— Agora que estão devidamente apresentadas. — Gary interrompeu as duas. — Sra. Young, eu vim aqui chamar o Zach para irmos numa pequena reunião de Halloween, mas ele se mostra tão hostil.

— Zach. Porque você não sai com seus amigos?

— Mãe, eu já disse que não quero ir. Você sabe o que rola nessas festas.

— Besteira, Zach. Você é jovem, tem que sair e ver o mundo. E o Gary vai estar com você, sei que ele jamais deixaria algo de errado acontecer.

Aparentemente era quatro contra mim. Não havia o que fazer, eu realmente odeio o Gary por isso.

— De qualquer jeito, eu não tenho fantasia. — Cruzei os braços.

— Zach. — Gary se aproximou e me segurou pelos ombros. — Você vai subir para o seu quarto e vai procurar alguma coisa para vestir, eu sei que você tem algo.

Eu soltei um grunhindo para demostrar o quanto estava insatisfeito. Não me esforcei, peguei a primeira peça de roupas e desci.

— Que fantasia é essa? — Gary me olhou com desprezo.

— De Bruce Banner. E é isto, nem mais nem menos.

Gary revirou os olhos.

— Pelo menos é da Marvel.

E contra a minha vontade entrei no carro da Marine.

— Tá aonde é essa festa? — Perguntei.

— É na casa da Ruth Springmann. Os pais dela viajaram e toda a escola vai estar lá.

E assim fomos.

Quando cheguei me deparei com a cena, se fosse para comparar... bem. Se o submundo tivesse uma entrada, era aquela. Eu nunca tinha visto uma festa do ensino médio e agora entendo que não perdi nada, por que com certeza teria contraído algum tipo de doença contagiosa. Depois de estacionar o carro, saímos os três. Eu não ia sair de perto deles por nada, rezava para mim mesmo que nada acontecesse.

Todos gritaram quando entramos, acho que foi mais pela Marine, já que a presença dela era a presença dela. Tocava alguma música pop bem alta, acho que era da Tove Lo, mas não conseguia identificar antes que explodisse meus tímpanos. Me ofereceram todo tipo de copo com líquidos de diversas cores, recusei todos.

Chegamos até a cozinha.

— Bem-vindo ao âmbito da diversão. — Gary disse suspirando de alegria.

— Só se for do inferno. — Retruquei.

— Zach Young, Zach Young. Você é o tipo de pessoa que precisa estar num certo nível de embriaguez para ver todas as possibilidades que estão à sua frente.

— Com você sabe? Eu nunca bebi.

— E vai ser isso que vamos testar. — Ele pegou algumas garrafas e começou a misturar, jogou o que parecia ser licor e gelo, misturou com um canudo e tomou um gole, eu tenho certeza que pela careta não era coisa boa. — Toma.

— Eu não sei se...

— Querido, fingi que você é a Alice pronta para entrar no País das Maravilhas. Você está a uma poção da entrada.

— Péssima analogia. — Peguei o copo da mão dele.

Quando o liquido de cor duvidosa encostou na minha língua tive certeza que estava tomando algum tipo de produto de limpeza com um toque de menta, quando engoli desceu queimando, pude sentir quando chegou o estomago. Era horrível.

— Você vai se acostumar. Vai tomando. — Ele deu tapinhas nas minhas costas.

Até comi alguns salgados que tinha disponíveis para ajudar. Tentei seguir o Gary pela festa, mas em algum momento minha visão ficou turva e todo o meu campo de visão começou a balançar levemente, já não sentia a queimação e sim o frescor da menta, quando olhei para o copo ele estava quase vazio. Ah não, minha voz interior disse ou eu mesmo em voz alta, eu não sei. Procurei um lugar para me sentar e fui aceitando o que me ofereciam. Um cara, que não era o Gary, até me elogiou pela fantasia de professor e eu tive que explicar que era o Bruce Banner com as palavras saindo moles e devagar da minha boca.

Não sei quanto tempo se passou parecia segundos, mas de repente uma silhueta familiar surgiu no meu campo de visão.

— Mike? — Perguntei estreitando os meus olhos.

Sua expressão era de surpresa quando me viu. Ele parecia ofegante e desesperado.

— Zach? O que você está fazendo aqui? — Ele se aproximou me segurando pelos ombros.

— Eu? Eu não sei. E você?

— Não tenho tempo para isso. Cadê o Gary?

— Eu não sei também. Ele é o Visão não eu.

— Meus deuses, Zach. Se concentra. A Marine, ela está em perigo. — Ele me sacudiu. E quando ele mencionou o nome da Marine senti um peso gelado na barriga. A embriaguez pesou como uma pedra no estomago.

— A Marine? Como assim?

— O Jimmy. Ele a raptou. Precisamos avisar o Gary.

Eu concordei com a cabeça e com a ajuda dele me levantei. Começamos a procurar o Gary juntos pela festa. Bem acho que o Mike procurou sozinho, por que eu sempre errava a pessoa. Quando o achamos ele estava saindo do banheiro.

— River? — Ele pareceu chocado me vendo pendurado nele.

— Stone. — Mike disse assim que se aproximou. — O Jimmy sequestrou a Marine, eles estão com ela.

Gary sabia que o Mike não estava mentindo pelo tom de urgência.

— Vamos pegar o carro dela. — O garoto disse já se pondo a correr em direção a saída.

Fomos logo atras, me senti meio mal por ter que ser carregado pelo Mike, mas não estava em condições de reclamar. A noite parecia bem mais gelada do que me lembrava, dava para ver a respiração dos meninos condensando. Gary tirou as chaves do bolso e destrancou o carro.

— Alguém aí sabe dirigir? — Ele se virou, sua cara não era das melhores.

— Eu dirijo. — Mike tomou a frente me deixando encostado no carro.

Já com todos dentro, Mike conta toda a história do que tinha acontecido na festa durante o percurso para o shopping. Parece que durante a minha “viagem” Jimmy acabou extrapolando na bebida e junto com os amigos dele decidiram pregar uma peça e agora que a Marine está com o Gary era mais um motivo para usa-la como alvo. Então decidiram a levar para o Springfield Plaza, no subterrâneo. Mesmo com o rosto pintado de vermelho tenho certeza que vi o meu amigo ficar tão pálido quanto era.

— E o que tem de tão assustador no shopping? — Tive de perguntar por que o clima estava mais pesado do que do lado de fora.

— Você talvez não saiba. Quando cheguei aqui na cidade. — Gary olhava para frente como se relembrasse de algo. — Me contaram sobre a história do shopping, ou do que era antes de ser construído. Nos anos 80, era uma pizzaria, não me lembro agora... Fred? Faz urso? Algo assim. Era uma franquia que estava crescendo até que houve um incidente. Um dos funcionários surtou e matou os gerentes e algumas crianças, isso durante o dia. Obviamente fecharam o recinto. Anos após anos eles tentavam reabrir, mas sempre aconteciam coisas...

— Que coisas?

— Eu não tenho certeza. Sempre que perguntava me contavam uma história diferente. Só sei que chegou ao ponto de nunca mais abrirem até que decidiram demolir tudo e construir um shopping em cima.

— Que história sem consistência. — Reclamei.

— Foi o que disse a mim mesmo no começo. Até que decidi procurar por mim mesmo. No subterrâneo do Plaza, tem um corredor que leva até uma porta selada, era estranha de certa forma. Eu tentei abrir, mas não tive sucesso. Rezo que o Jimmy também não consiga.