Onde Anjos Temem Desbravar.
1 As badaladas do sino.
Tudo começou com a badalada dos sinos.
Era um dia normal de inverno na minha cidade. Estava caindo uma leve garoa, mas que era gelada como o Ártico. Eu estava sentada na minha janela, lendo um livro qualquer.
Foi ai que eu comecei a vê-los.
Nunca soube a ligação entre uma coisa e outra. Os sinos e as sombras. Só sei que eu vi elas se amontoando no céu, sombras brancas e escuras. Toda vez que se colidiam um raio surgia no lugar. Na hora eu apenas achei que eram nuvens, ou algo assim.
Eu não podia estar mais errada.
Na hora eu não liguei, obvio. É incrível como nunca percebemos nada que está debaixo dos nossos narizes. Eu lembro que eu fiquei encarando aquilo por mais alguns minutos até decidir que eu teria uma vista melhor daquilo do terraço do meu prédio. Então eu coloquei um casaco impermeável e subi as escadas. Assim que eu cheguei lá em cima percebi que não eram nuvens.
Criaturas aladas lutavam no céu. O que eu antes achava que eram trovões agora eram as espadas colidindo. Mas na hora eu não sabia o que eles eram então apenas continuei lá, observando eles.
O que não foi a coisa mais esperta que eu já fiz na minha vida, já que enquanto eu estava lá duas formas vieram em minha direção, brandindo as espadas uma contra a outra.
E me acertando em cheio no ombro e no peito.
Eu não morri. Mas às vezes eu preferia que eu tivesse.
O que prosseguiu aquele momento foi escuridão. E então uma luz tão ofuscante que eu achei que tivesse morrido. Mas eu estava errada. Quando abri meus olhos, estava deitada em uma cama que eu não reconhecia, a leve chuva havia deixado meu cabelo ensopado. Eu respirei tão profundamente que achei que fosse estourar meus pulmões, minha mão foi direto para meu peito. Eu a ergui para minha visão, achando que fosse ver sangue. Mas não foi isso que eu vi.
Minha mão estava empapada de um liquido prata. Tentei me levantar, mas uma mão me empurrou para baixo.
Antes eu não conseguia ver o que aquelas criaturas eram. Apenas via sombras. Mas agora eu conseguia, por algum motivo que eu não podia imaginar. Asas saiam das costas de homens. As sombras brancas tinham asas brancas, e as negras tinham asas negras.
E o cara que estava me empurrando para baixo era um dos que tinham asas negras.
Foi ai que eu percebi o que ele era.
Eu nunca fui muito religiosa, mas me fascinava com as historias da bíblia. A minha preferida era sobre os sete anjos do apocalipse. E era isso que ele era, um anjo.
“O que...” Eu tentei dizer, minha voz meio esganiçada. Eu me sentei e olhei ao redor. Eu não estava no apartamento que dividia com minha melhor amiga no arranha-céu da nossa cidade. O quarto era inteiro cinza, sem nenhum adorno ou enfeite que me indicasse se era o quarto de alguém ou não. Eu encarei atônita o cara que mesmo sentado ao meu lado parecia alto. E que tinha asas saindo de suas costas. Ele era moreno, seu cabelo tão negro quanto piche contrastava com seus olhos incrivelmente claros como gelo. Eu me desvencilhei de seu toque. Eu havia lido historias o suficiente para saber que ele era um anjo.
Mas eu não sabia se ele era do bem ou do mau, por assim dizer. Não que eu acreditasse em anjos. Às vezes eu nem ao menos acredito em Deus. Ele me encarava, aqueles olhos frios me analisando; Eu sabia apenas pelo seu ar imponente que ele era importante.
"Você tem asas." Eu consegui dizer. E ele tinha mesmo, elas estavam dobradas atrás dele. Eu mais do que nunca achei que tivesse sido atingida por um raio e estivesse em coma, e que ele era apenas um sonho, alucinação. Isso explicaria ele ter asas.
"Sim,” Ele disse pacientemente, como se estivesse falando com uma criança. “desculpe-me por ter te acertado com a espada, mas eu não te vi no telhado. O anjo caído me empurrou para baixo, ele deve ter te visto lá. Eu te trouxe para cá e Samuel cuidou do seu ombro-" ele parou de falar subitamente e olhou para o céu. Eu digo céu e não teto pois o quarto não tinha teto. Apenas um céu noturno incrivelmente estrelado. "Está quase na hora."
"Na hora do que? Quem é você e onde diabos eu estou?" Eu praticamente berrei para ele, mas consegui soar calma.
"Eu te aconselho a não falar Diabos aqui, irrita o Chefão. Certamente se lembra de subir no telhado para bisbilhotar não é? Eu te acertei com minha espada, algo que eu estou terrivelmente arrependido de ter feito. Meu nome é Michael." Ele disse com uma voz que beirava o tédio.
"Você tem asas." eu repeti novamente, apenas para o caso de ele não saber disso.
"Eu achei que já tínhamos passado por esse assunto. Eu sou um anjo do Senhor.”
“O arcanjo Michael, aquele da bíblia.” Eu disse ainda sem acreditar. “Certo, olha Michael, eu quero voltar pra casa. Ou acordar desse coma, tanto faz.”
Michael se levantou e me encarou de cima. Ele era mesmo alto. Ele estava franzindo o cenho quando disse, “Qual o seu nome, garota?”
“Stella Wormwood.” Algo no rosto dele pareceu mudar com o meu sobrenome, mas eu não sei dizer o que.
“Stella, você foi marcada por uma espada sagrada do Senhor. Nunca isso aconteceu antes, não podemos simplesmente soltá-la assim no mundo novamente. Isso são ordens superiores.”
Ah, certo. De Deus. Acho que até eu tenho que acatar isso. Eu me levantei mesmo me sentindo um pouco zonza. Reprimi um gemido de dor e olhei para Michael. “Não podem me manter prisioneira aqui.”
Mas Michael não estava prestando atenção em mim. Ele estava olhado o céu novamente, prestando atenção em algo que eu não podia ver. Ele suspirou e me olhou. “Temos que ir, Ele quer falar com você.”
Ele foi seguindo em direção a porta. Eu o segui, na esperança de conseguir escapar dali de algum jeito e voltar para Charlotte e nosso gato Miau. “Quem?”
“Ele com ‘e’ maiúsculo. Deus.”
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