Once Upon a Time in Hidden Islands
3 Prólogo - Rapunzel
Notas iniciais

O dia começava a clarear quando acordei. A luz do sol passava pela escotilha de minha cabine e pude ouvir o canto das gaivotas. Passei a mão em meus cabelos e como sempre me espantava com seu tamanho. Depois de anos convivendo com meio quilômetro de cabelo, seu cumprimento curto ainda me assustava. Sentia um braço envolto a mim e sutilmente o retirei. Sentei-me lentamente na cama e observei meu marido ainda adormecido ao meu lado. Os cobertores cobriam até metade de seu torso, que estava descoberto. Assim como o resto de seu corpo. Ah... Eugene não perdia essa mania de dormir despido. Mas não seria eu quem iria julgá-lo. Seus cabelos castanhos estavam jogados pelo seu rosto e sua expressão era serena. Levantei-me e olhei pela escotilha. Escutei alguns passos um andar acima e conversas múltiplas. Mal podia esperar pra começar o dia. Tirei minhas vestes de dormir e pus um vestido amarelo-bebê. Antes de sair do quarto, olhei mais uma vez para meu amado. Sorri, e abri a porta. Estando no corredor, fechei rapidamente a porta e ao me virar, deparei-me com Ulf.
— Bom dia, Ulf — disse enquanto seguia meu rumo. Ele não me responderia... Mímicos... Mas ele acenou para mim, e retribuí.
Subi as escadas para o convés e o sol quase me cegou. E eu adorei! A brisa do mar tocando minha pele e a luz do sol iluminando e aquecendo tudo... E meus amigos os Pub Thugs. Observei ao meu redor e vi Hook Hand no timão, Shorty no topo do observador (bêbado como sempre), Atilla saía da cozinha do navio e distribuía o café da manhã para os tripulantes, Vladimir içava as cordas e abria ambas as velas. Quase fui atingida por Big Nose, que carregava dois baldes d’água numa viga apoiada em seus ombros, mas consegui me abaixar a tempo.
—Desculpe princesa — ele disse enquanto virava para mim, quase me atingindo de novo, mas novamente consegui me abaixar.
— Não tem problema. Mas qual o motivo dessa agitação toda? — Perguntei enquanto apontava para os baldes.
— Bem... — Eugene apareceu de surpresa atrás de Big Nose, e quase foi acertado em cheio pelo grandalhão e sua viga, mas meu príncipe foi ágil para desviar. — Acabei de perguntar ao nosso capitão-pianista e ele disse que hoje à tarde estaremos atracando no reino de suas primas.
—Oh! — Exclamei, enquanto saltitava. — Isto é maravilhoso! Estou louca para conhecê-las!
Eugune estava usando um blusão roxo com uma faixa amarela atravessada por ele. Um broxe em forma de sol, símbolo de Corona, estampava a vestimenta. Sua barbicha sempre bem aparada e sua voz, envolvente. Suas calças pretas davam e seus sapatos da mesma cor o faziam parece realmente um nobre de berço.
— Eu também... Suas primas devem ser lindas... — Eugene disse com ar sarcástico.
— Eugene... — Eu o encarei bem fundo nos olhos e tomei a frigideira da mão de Atilla, que passava por perto. — Quer relembrar nosso primeiro contato na torre?
— Calma Punzie... — Ele disse erguendo as duas mãos, em sinal de rendição. — Estou só brincando. E você sabe que só tenho olhos pra você.
Passei por debaixo da viga e fiquei frente a frente com Eugene. Ah, eu amava esse nome dele. Mas acho que vou voltar a chamá-lo de Flynn... Mas como um apelido. Conhecemos um casal há alguns meses, num baile de Corona, e que eu achei tão fofo. Ela tinha pele branca como neve (irônico, pois seu nome era Snow. Esquisito, mas quem sou eu pra julgar nomes) e era bastante gentil. Ele não ficava atrás. Cavalheiro e seguro. A princesa se recusava a chamar seu príncipe pelo nome. Apelidava-o de “Charming”, o que eu não poderia fazer com meu Eugene. Então, já que ele me titula de “Punzie”, porque não o apelidar de Flynn. Eu o beijei e nos encaramos apaixonadamente. Então percebi que Big nos observava encantado.
— Oh, Big... — Dizia enquanto passava minha mão esquerda na cabeça, colocando as madeixas atrás da orelha. — Nos desculpe.
— Não precisa se desculpar princesa — ele disse enquanto balançava a cabeça, como se estivesse saindo de um transe. — Eu que deveria pedir desculpas por interromper vocês. Eu já vou indo.
Coitado do Big... Desastrado, mas com bom coração. Tomou seu caminho tão depressa que mais uma vez quase me acertou com sua viga. Eu desviei, pela terceira vez, mas Flynn não teve a mesma agilidade. Estava distraído demais olhando para mim (e espero que não pra minha bunda) para isso. Nosso colega, romântico e sonhador, o desmaiou com a pancada na cabeça.
— Flynn! — Ele largou a viga com os baldes no chão e foi socorrer o desmaiado.
— Não se preocupe querido — falei enquanto colocava a mão em seu ombro. — Ele tem uma cabeça dura. Se não fosse isso, já estaria sequelado das tantas vezes que o bati com frigideiras... — E girei a que estava na minha mão, mas ela me acertou bem na testa. — Ui.
Rimos um pouco e ele agarrou o corpo de Flynn e o colocou sobre o ombro, para levá-lo de volta à nossa cabine. Mas nesse momento, Vladimir já acabara de erguer as cordas e, com seu capacete decorado com chifres de touro, acertou novamente a cabeça de Flynn. E na hora em que ele estava descendo a escada para o andar de baixo, mais uma vez a cabeça dele foi atingida pelo portal da passagem. Eu ri e me virei para Hook Hand.
— Bom dia princesa! — Ele me acenou com o gancho e eu caminhei até ele, que estava num nível mais alto da embarcação. Enquanto subia as escadas, ele começava a puxar assunto. — Seu príncipe parece caidinho por você, não acha?
— Bom dia pra você também Hook — já me posicionava do seu lado no timão. — Quais são as boas notícias?
— Bem, — ele começou — acordei muito feliz hoje de madrugada e eu e nossos amigos fizemos um campeonato de bebedeira. Daí o Shorty ganhou como sempre e então nós sem querer derrubamos alguns unicórnios de porcelana do Vladimir para fora do navio, ele não sabe disso.
— Isso é ótimo amigo — proferi enquanto me recuperava de rir. Eles eram loucos, mas adorava os Pub Thugs. — Mas eu estava me referindo sobre a viagem.
— Ah! Isso... Estamos com um tempo bom de viagem. Agora que o Vlad abriu as velas, com a ajuda do vento nós devemos chegar à Arendelle por volta das oito da manhã.
— Só mais duas horas de viagem? — Perguntei, colocando minha mão direita nos lábios.
— Acho que sim... Talvez duas horas de meia.
— Isso é maravilhoso! — Pulei e o abracei pelas costas. Saí correndo e me agarrei numa corda solta. Subi rapidamente por ela e saltei para um barrote que estava acima do observador. Conseguia me equilibrar perfeitamente, já que durante minha vida inteira eu corri pelas traves daquela torre. Aproveitei que estava a uma boa distância do Shorty, que estava adormecido, o acordei e pedi a luneta emprestada. Ele me cedeu com um “feliz aniversário” e voltou a dormir. Não sabia se aquela frase vinha do álcool, do sono, ou da mente fora de órbita do meu amigo. Pus a luneta em meu olho direito, voltada para onde navegávamos: o sul. Consegui ver, ao longe, uma silhueta de castelo. Arendelle nos esperava. Minhas primas nos esperavam. Como será que elas eram? Será que eram divertidas?
Nunca estive tão alegre na minha vida! Quero dizer, estava livre depois de dezesseis anos presa naquela maldita torre com aquela maldita, mentirosa e egoísta da Gothel. Depois que ela caiu por aquela janela da torre, graças ao meu amiguinho Pascal, só encontramos a sua capa. Aquele monstro havia sumido. Mas não posso acreditar que esteja morta. Vasos ruins não se quebram facilmente. Mas depois de algum tempo, minha preocupação com aquela mulher foi esquecida. Passaram-se quase quatro anos desde aquele dia, em que Eugene me levou para minha família verdadeira. Meus pais, a Rainha e o Rei de Corona, o aceitaram na corte e isentaram-no dos seus crimes. Agora, fazíamos três anos de casados e iríamos comemorar nossas bodas de trigo em Arendelle, com minhas primas, na coroação de Elsa. Seria melhor se meus pais pudessem vir conosco. Mas sabem como é... Burocracia e deveres reais os impediram. Pascal havia ficado com meus pais e com Maximus. Era estranho ficar longe dele. Afastei esse pensamento e devolvi a luneta ao Shorty. Na hora em que descia do mastro, Ulf veio a mim e começara a fazer mímicas variadas. Nunca fui boa nisso, então pedi a Atilla que traduzisse pra mim.
— Acho que ele quer dizer que o Rider está lhe chamando.
— Ah! — Meus pés tocavam o convés. Nunca fui muito fã de calçados. — Então ele já acordou. Obrigada Atilla... E Ulf.
O bárbaro-cozinheiro acenou para mim e o mímico imitou. Eu ri e desci as escadas para o andar das cabines. Mal via a hora de conhecer minhas primas. Anna era um pouco mais nova do que eu, pelo que meus pais disseram, mas é super parecida comigo. Quero que sejamos melhores amigas.
Fale com o autor