Once Upon a Time in Hidden Islands
5 Prólogo - Elsa
Notas iniciais

“Aqui estou eu” pensei sozinha quando abri meus olhos pela primeira vez naquele dia. Encarei o teto da minha prisão, digo, do meu quarto. Um lustre de cristal com detalhes de ouro pendia no centro do cômodo. Sentei-me na cama e passei a mão em meus cabelos. Eles estavam presos em uma trança longa que terminava quase no meu cóccix. Minhas madeixas loiras estavam um pouco bagunçadas na franja e eu assoprei-as para retirá-las da frente de meus olhos. Os raios da manhã entravam pela enorme vidraça triangular que meus aposentos acomodavam. Provavelmente o sol deveria estar nascendo. Eu estava sofrendo de insônia esses últimos dias. Quando conseguia dormir, era apenas por algumas poucas horas. Mesmo assim, não surgira nenhuma olheira.
— Não posso acreditar que este dia finalmente chegou — disse enquanto esfregava meus olhos. — E eu rezei tanto para que ele não chegasse...
Eu não queria ser rainha. Não conseguia controlar meus próprios poderes, meus próprios sentimentos. Até mesmo a minha vida, eu nunca pude controlar. Como iria governar um reino inteiro? Eu não era forte o suficiente. Nunca fui. Mas lá estava eu, sempre tendo que suportar tudo sozinha... Meu fardo, meu destino, minha solidão. Ainda quando meus pais estavam vivos, eu sempre preferi lidar com tudo sozinha. Arendelle perdera dois ótimos Rei e Rainha. Eu e Anna perdemos um pai e uma mãe que sempre foram super dedicados. Até mesmo quando tinham que me observar, nunca deixaram minha irmã desamparada. Minha irmã... Anna... Minha maior culpa. Se eu não tivesse essa maldita maldição glacial nada daquilo teria acontecido. Ela não teria perdido as memórias dos melhores anos de nossas vidas e eu nunca teria sido afastada de todos.
— Mas o quê...? — Senti o cobertor esfriar e quando olhei para onde minhas mãos se posicionavam, vi que começava a congelar o tecido.
Assustada, retirei-as do contato com o pano e me levantei. Não adiantava eu pensar naquilo. Em Anna tendo uma vida de prisioneira em nosso castelo por minha causa, no fato de durante esses três anos em que Arendelle estivera no governo de Corona os bárbaros de DunBroch terem reunido forças e feito aliança com os vikings de Berk. Eu me dirigi até o quarto de banho e a banheira já estava com água. Provavelmente alguma das empregadas já havia entrado lá enquanto eu dormia e preparado o meu banho. Uma empregada não... A minha empregada. Papai pusera uma de suas leais servas para me ajudar. Lana, ela não contaria para ninguém, caso visse algum floco de neve ou alguns itens congelados no meu quarto. O quê, graças aos deuses, nunca aconteceu. Retirei minha roupa, a dobrei e coloquei num cesto no canto do quarto junto com algumas outras peças. Depois, durante a missa da coroação, alguém deveria vir e levá-las para lavar. Enquanto caminhava até a banheira, desfiz a trança e joguei meus cabelos por cima do ombro.
Quando eu entrava na banheira, minha cabeça não parava de rodar. Estava nervosa... Aquele era meu último banho como princesa. Depois de algumas horas, eu seria a “Rainha Elsa, de Arendelle” e não conseguiria mais me privar em meu quarto sem ter, no mínimo, alguns súditos pedindo uma audiência. Eu estaria mais exposta e assim também, os meus poderes. Meus tios tomaram conta de nossos domínios com louvor. Os invernos pareciam ser menos devastadores e os verões mais calorosos. E na época de colheita, em nossos campos tinham-se os mais coloridos e saborosos frutos. Era muito grata a eles por isso. Estavam vindo para Arendelle pessoalmente para a minha coroação. Junto com minha prima Rapunzel e o novo marido dela. Por incrível que pareça, eu estava curiosa sobre minha prima... Ela havia sumido uns dias após o nascimento. Lembro-me de ter ido ao seu batizado, e logo depois ela fora sequestrada. E não ouvimos notícias dela por dezesseis anos... E depois ela reaparece, com a ajuda de um ladrão e se casa com ele uns meses depois.
— Hum — suspirei enquanto terminava de me lavar —, ela deve ser muito corajosa ou muito louca.
Saí da banheira e fui até o cabideiro, onde havia uma toalha pendurada. Sequei-me a caminho do manequim que estava com a minha roupa. Novamente pus meus cabelos úmidos sobre o ombro esquerdo e me enrolei na toalha. Parei em frente ao objeto e o observei: vestido longo e de mangas longas, com gola alta justa e alternância de cores. Preto para os braços e o torso superior; verde claro para o resto dele; roxo para os vários pequeninos símbolos de Arendelle que enfeitavam o fim do vestido e alguns detalhes entre o local dos meus peitos. E uma longa capa roxa se estendia detrás do traje. Talvez dois metros de tecido.
— Bah... — Bufei. — Esses costureiros, como sempre, exagerados.
Era um belo vestido. Mas ao mesmo tempo em que o achava lindo, teria vontade de rasgá-lo por inteiro. Minha vida se acabava ali, com ele. Não... Minha vida acabou naquela maldita noite em que acertei Anna com meus poderes. Eu merecia sofrer... Meus poderes eram uma praga, uma desgraça. Como eu desejava não os ter. Daria qualquer coisa para isso.
— Besteira — balancei minha cabeça para afastar o pensamento. — Não há nada que eu possa fazer.
Olhei para o criado mudo, ao lado da cabeceira de minha cama e lá estavam minhas algemas: um par de luvas, verdes claras como o verde do vestido. Corri até elas e as vesti. Detestava fazer qualquer coisa sem elas. Até o banho que eu acabava de tomar me tirava energia. Eu tinha que me forçar muito para não congelar nada. Virei-me novamente para o vestido de festa. Ergui minha cabeça e fui me vestir. Já ouvia o alvoroço do lado de fora dos muros do castelo. Provavelmente meus tios e sua família já estavam lá fora. Como eu conseguiria esconder meu segredo de todos eles era algo que desconhecia, mas que tinha que conseguir.
Já terminara de colocar o vestido e de prender a capa. Sentei-me em frente ao espelho e com alguns grampos fiz meu penteado. Fiz minha trança, enrolei-a e a prendi num coque de duas camadas atrás da cabeça. Usei algumas presilhas e em forma de flocos de neve — ironia do destino — para isso. Em seguida, puxei as madeixas restastes e as prendi no lado esquerdo da cabeça. Escovei minha franja que cobria metade da minha testa. Cabelo pronto. Fui para a maquiagem. Essa foi mais simples do que o cabelo. Apenas usei uma sombra roxa para as pálpebras superiores e aumentei um pouco os cílios e usei um pouco de pó de arroz. Bem pouco mesmo, sempre odiei isso. As maçãs do meu rosto já eram rosadas o bastante, então não precisei enfatizar isso. Estava pronta. Levantei-me do assento e observei-me. Minha expressão estava fria e abalada. Não estava animada para isso. Então percebi que finalmente estaria num baile e com minha irmã.
— Anna... — Um leve sorriso surgiu em meus lábios. — Finalmente, vou sair desta cadeia e seremos irmãs novamente. Pelo menos por algumas horas, até que este dia acabe.
Novamente a escuridão tomou meu humor. O sorrido desapareceu. Encarei o chão e inspirei, fechando meus olhos. Expirei e fitei o lustre. Como eu desejava não estar sozinha... Coloquei minha meia-calça (por sinal, da mesma cor das luvas e da maioria do vestido. O que era essa obsessão por verde?), meus sapatos pretos e me encaminhei até a parede onde se pendia a pintura da coroação de meu pai. Foquei minha atenção nele. Rei Adgar... Meu pai aparentava total onisciência, como se seus olhos vissem tudo em Arendelle, como se ele pudesse resolver qualquer coisa. Um rei que transmitia estabilidade. Como eu queria ser igual a ele, enquanto governante. Avistei um castiçal e um recipiente oval. Boa ora para treinar minha concentração para a missa de coroação. Retirei minhas luvas, peguei o castiçal com a mão esquerda e o recipiente com a direita. Não obtive êxito. Os objetos congelaram em frente aos meus olhos. Desapontada, coloquei-os sobre o móvel novamente e o gelo começou a derreter, lentamente. Pus novamente as luvas e andei até a porta. Estava preparada para abrir e ordenar a abertura dos portões. Então ouvi umas batidas. Imediatamente imaginei que fosse Anna batendo à minha porta, como fizera tantas vezes. Mas não podia ser isso já que eu estava a centímetros da maçaneta e o som não viera dali. Olhei em volta e não havia nada.
Poderia estar ficando louca, afinal, tanto tempo de “exílio” poderia ter me afetado. Mas eu sabia que não era isso. Eu sentia uma presença naquele quarto. Não acreditava em fantasmas, mas havia uma presença que olhava por mim a minha vida toda. Eu sabia que estava lá... Sua sombra me acompanhava desde que eu era pequena. Ouvi novamente a batida. Saí de perto da porta e fui até o centro do meu quarto, para que pudesse escutar melhor de onde vinha o barulho. Mais uma vez o som se espalhou pelo cômodo e eu percebi que não havia mais o som de fora do castelo. Ou porque os cidadãos haviam todos ficados mudos e parados, ou porque essa presença estava impedindo que eu os ouvisse.
— Quer a minha atenção toda para você? — Perguntei, debochando. Talvez isso fizesse o ser se apresentar.
Não deu certo. Mas o barulho soou de novo. Dessa vez percebi que vinha da janela. Fui até lá e coloquei minha mão sobre o vidro. Uma camada de gelo, geada, se formou ao redor da minha mão. Eu arregalei meus olhos. Não podia ter feito aquilo, eu estava de luvas. Então uma marca apareceu do outro lado do vidro. Uma marca de mão. Não da minha, feminina e pequena. Era de um homem, com certeza. Um pouco maior do que a minha e com traços fortes. Pisquei, para ver se não era alucinação. E não, não era. Mas não importava, saí correndo para a porta, já estava na hora e não podia me dar ao luxo de pensar em mãos nem nada do tipo. Saí do quarto e dei as ordens para abrirem os portões. Lana estava junto com outras criadas. Todas dispostas uniformemente pelo corredor por onde eu passaria. E assim o fiz: caminhei lentamente pelo corredor, com postura impecável e expressão rígida. Ao chegar ao fim do trajeto, abri umas portas que davam para a sacada. A luz entrou e iluminou o interior do local. Fechei meus olhos. O sol me incomodava um pouco, até porque, não estava acostumada com ele. Mas era revigorante sentir a brisa quente e os raios luminosos tocando meu rosto. Minha franja balançou com o vento e eu abri as pálpebras. Pus as mãos sobre a borda da sacada e observei os portões se abrindo. Daquela altura, as pessoas pareciam bonequinhos em casas de boneca. Iguais às que eu e Anna brincávamos quando éramos pequenas... Por falar em Anna, acho que era ela de vestido verde que corria entre os nobres.
— Não posso acreditar, — soltei um riso baixo —ela não mudou em nada.
Subiu na borda da ponte e se apoiou num poste. Depois desceu e correu pelo cais. Um homem a acertou com um cavalo e eu ri mais um pouco. Logo se levantou, mas depois caiu sobre ele novamente. E após isso, ele caiu sobre ela.
— Oh deuses... — Eu botei a mão e minha face. — Que estabanada...
Tirei os olhos dela e acenei para o povo e os nobres. Eles iriam para a catedral particular do palácio, onde ocorreria a missa de coroação. E depois iríamos para o banquete real. Eu receberia algumas crianças e bebês para que conhecesse a próxima geração. Isso foi ideia minha. Eu sempre tive um amor por crianças, talvez por eu não ter aproveitado a minha infância. Eu queria conhecer cada uma delas. Então, após a hora com os pequenos, começaria o baile. Tornei-me novamente para o corredor e as criadas já haviam descido. Provavelmente para receber os convidados. Então eu também tomei meu rumo. Deixei a sacada e fiquei novamente sob o teto do palácio. Foi quando senti uma forte ventaria e me virei para a sacada. O céu continuava limpo, não havia nuvens, mas o vento era forte. Coloquei meus braços na frente do rosto para quebrar o vento, mas ainda podia ver. Os ventos ficaram mais fortes ainda e eu caí sentada no chão. Então vários flocos de neve entraram pela abertura e eu não entendi como estava fazendo aquilo tudo se estava de luvas.
— Por que isto está acontecendo? — Eu olhava para minhas mãos, assustada.
Então o vento parou. Como se nada tivesse acontecido. Fui rapidamente até a sacada novamente e olhei para a multidão. Estavam todos bem, não havia medo nem nada. Aparentava não ter passado nada mais do que uma brisa marítima por eles. Respirei fundo e me acalmei. Deixei pela segunda vez a sacada naquele dia e foi quando fui acertada nas costas por uma bola de neve. Mas que manhã... Quando olhei por cima do ombro vi agachado sobre a beira da varanda. Parecia ter um senso de equilíbrio excepcional, mas fiquei aterrorizada. Ele podia cair com um sopro meu.
— O quê-SAIA DAÍ! — Corri em direção a ele, então me contive. Ele podia se assustar e cair.
— Você pode me ver? — ele disse com um sorriso. Ele era lindo. E não era um menino. Parecia ter dezoito ou dezenove anos. Seus cabelos eram brancos como a neve mais pura. Na verdade, era mais branco do que a neve mais branca. Seus olhos eram de uma azul celestial. Pareciam que os mares celestiais haviam sido condensados em suas íris. Sua pele era tão pálida que parecia com a minha. Estava usando um chalé marrom desgastado. Por debaixo dele, uma blusa de mangas longas brancas. Pra completar, uma calça que ia até as canelas e um cajado estranho. Ah, e sua voz era como um som mais relaxante de todos. Por isso, demorei um pouco pra sair do transe e lhe responder.
— Claro que posso — Disse enquanto dava um passo para trás. — Não sou cega.
Ele riu com tamanha sinceridade que quase me contagiou. O menino deu um salto de alegria e uma pirueta. Eu quase tive um ataque cardíaco com a possibilidade de ele cair dali. Parece que ele reparou na minha aflição e sossegou, sentando na borda da varanda.
— Relaxe princesa.
— Como assim relaxar? — Eu me aproximava pouco a pouco dele e logo estava há trinta centímetros de distância de seu rosto. — Você pode cair daí!
Ele riu e tomou ar.
— Você realmente não sabe quem eu sou, sabe? — Perguntou enquanto fazia biquinho debochado e se agarrava ao cajado.
— E eu deveria? — Estava tensa. O rosto dele me era vagamente familiar, mas acho que me lembraria de encontrar um garoto tão esquisito como ele alguma vez na vida.
— Então acho que vou me matar — ele disse enquanto se jogou para trás e caiu da varanda.
— NÃO! — Eu corri até a borda da varanda e olhei para baixo. Não havia nada lá. Somente o último casal de nobres que entrava no palácio. Eles devem ter ouvido o meu grito, pois me olharam com desconfiança. Não havia sinal do garoto. Somente uma fumaça branca que rodopiou e desapareceu.
— Você viu isso? — Me virei assustada com a pergunta que vinha das minhas costas. Lá estava o menino sobre seu cajado. Exatamente isso: sobre o cajado. Ele estava de pé sobre o topo do cajado, que deveria ter dois metros de altura.
— Como você fez isso? — Consegui dizer, por fim.
— De que outra forma? Com magia — ele respondeu com naturalidade, como seu fosse a coisa mais comum do mundo.
— Magia? — Eu andei ao redor do cajado, saindo da borda da varanda. — Não acredito. Você deve ser um bobo da corte.
— Você não se lembra de mim mesmo, Elsie? — Ele escorregou pelo bastão e parou em sua base, logo ficando bem perto de mim. Eu me afastei, não queria congelá-lo nem nada.
— Já disse que não — eu disse rispidamente e ele abaixou os olhos, constrangido. — Me desculpe. Não queria ser rude. Mas você está me deixando nervosa... E por que me chamou de ‘Elsie’?
— Era como eu te chamava quando era criança... — Ele pareceu triste ao dizer isso, como se a saudade tivesse atingido. Finalmente, ele bateu com a mão na cabeça, como se tivesse se lembrado de algo. — Ah, é claro que você não se lembra de mim. Não poderia... Não depois que o Pabbie retirou suas lembranças.
Eu não sabia do que aquele menino estava falando. Retirar minhas lembranças? Eu já o havia encontrado e ele me chamava de ‘Elsie’? Por fim consegui lhe perguntar o que mais me incomodava.
— Não sei do que está falando, mas tem algo que me incomoda mais... Não sei o seu nome. Como se chama?
Ele riu e rapidamente se aproximou dos meus ouvidos. Não tive tempo de recuar, ele era rápido como o vento.
— Eu sou Jack Frost — cochichou para mim, como se fosse um segredo.
Pela primeira vez em anos, não me sentia assustada ao ficar tão próxima de alguém.
Fale com o autor