Notas iniciais
6:00 da manhã – marcava o relógio da torre de Storybrooke. E lá de cima, uma sombra observava, paciente. Esperando a hora certa, pensou, e não pôde conter um sorriso pensando que estava no local certo para isso.
...
Naquela mesma hora, Emma acordou. Seu cabelo estava bagunçado, suas olheiras denunciavam uma noite mal dormida. Arremessou o travesseiro contra a porta, o mesmo travesseiro que havia se mostrado inútil para abafar o choro vindo do cômodo de seus pais, onde Neal estava.
Neal... Emma não sabia ao certo se aprovava o nome ou não. No momento em que fora anunciado, Emma sentiu uma grande admiração pelos pais, por terem honrado Neal daquela forma. Mas ela ainda sentia uma pontada de dor ao ouvir o nome dele vagando pela casa, como se não fosse o bebê, mas o próprio Neal que ainda estava por ali.
Talvez seja hora de deixar o passado para trás, e ela sabia disso. Então, jogou o pensamento para os fundos de seu subconsciente e foi até a cozinha, onde Henry comia uma tigela de cereal.
– Também não conseguiu dormir, garoto? – Perguntou, servindo a si mesma de um pouco de cereal. Emma estava com seu pijama de flanela, e prendera seu cabelo num coque.
– Precisamos de paredes de isopor. Elas funcionam como isolamento acústico, sabia? – Disse, sorrindo.
– Você parece estar de bom humor hoje – observou Emma.
– É, acho que as coisas estão se ajeitando.
David surgiu na cozinha, com Neal nos braços, tentando acalmá-lo.
– Ele não é pequeno demais pra fazer todo esse barulho? – disse.
– Como está a mamãe? – Perguntou Emma. David esboçou um sorriso por ouvi-la chamar Snow White de “mãe”. Desde que voltara pelo portal de Zelena, Emma havia finalmente aceitado-os como pais.
– Ela está descansando.
– Você parece precisar de ajuda – disse Emma.
– Eu consigo lidar com isso. Sua mãe e eu já lidamos com coisas bem mais difíceis.
– Talvez eu possa ajudar – disse Emma, cautelosamente.
– Ah, mamãe... Regina ligou.
– A uma hora dessas? – Perguntou Emma, já com um certo tom de estava-bom-demais-para-ser-verdade.
– Ela disse que surgiu um problema e pediu pra você encontrá-la na casa dela.
– Seria muito otimista da minha parte esperar que ela esteja apenas com problemas com pragas no jardim? – Disse Emma, suspirando.
Henry deu de ombros.
Meia hora mais tarde, Emma estava pronta para sair. David havia finalmente conseguido botar o pequeno Neal para dormir, e ele mesmo já estava dormindo.
Henry esperava pela mãe perto da porta, com um sorriso persistente no rosto.
– O que foi, garoto?
– Esteja em casa às 20h, pode ser que eu tenha marcado um jantar pra você.
– ... Você o que?
– Hook vai vir. David e Mary Margaret vão levar Neal e eu para o Granny’s.
– Henry!
– Mãe! – Henry estava rindo. – o vovô e a vovó aceitaram a ideia. Eles gostam do Hook. Eu gosto do Hook, e todos nós sabemos que você gosta dele.
Emma sentiu que estava corando. Reprimiu um sorriso.
– Uma hora vamos ter uma conversa, Henry. Mas agora, você quer passar o dia aqui?
– Não, por favor, preciso de um pouco de silêncio. Neal acabou com a gente. Será que eu posso passar um tempo com a Belle, na livraria?
Emma ponderou por um instante.
– Talvez ela seja uma boa influência. Livros. Livros são importantes. – Disse. Henry riu.
...
Belle ficou contente por ter Henry na livraria, ela precisava de ajuda com todos aqueles livros. Por causa de Zelena, Rumpelstiltskin passara um bom tempo fora, de forma que Belle precisou tomar conta da loja. E depois do casamento, os dois só haviam voltado de sua lua-de-mel naquele dia. Rumple precisava cuidar de sua loja, e Belle, da livraria.

Emma chegou na casa de Regina por volta das 7. Apesar de estar cedo, Regina estava com sua aparência impecável, como sempre. Emma se perguntou se era uma característica dos vilões de contos de fadas estarem sempre bem arrumados, mesmo que seja para sua execução. Ela se censurou pelo pensamento. Regina, havia muito, estava mudada. Emma tinha aprendido a gostar dela, afinal, e parecia recíproco. Regina até mesmo parecia tê-la perdoado por ter trazido de volta – sem querer – a esposa de Robin.
– Swan – Cumprimentou Regina, abrindo a porta para Emma.
– Regina – Emma entrou. – O que há de tão urg... – Se interrompeu quando viu uma garota sentada à mesa, de costas. – Quem é?
– É isso que eu quero descobrir.
Emma se dirigiu até a garota. Era pálida. Muito pálida. Seu cabelo era loiro, quase tão claro quanto o de Emma, e aparentava ser adolescente.
– Bem, olá – começou, com cuidado. A garota se virou rapidamente, assustada. – Ei, ei... Tudo bem. Você está entre amigos. – Mas isso pode ser contestado, pensou.
– Emma. – Regina chamou, em um canto, num tom irritado. – Antes de começar a especular, talvez você queira saber onde ela foi encontrada.
– E por que não posso perguntar isso a ela?
– Porque você precisa tomar cuidado com o que fala. Ela não está no seu juízo normal, talvez nem pertença ao nosso mundo. Encontrei-a caída, perto da macieira.
– Lugar esquisito pra alguém “surgir”. – Devo culpar as maçãs?, pensou.
Regina se dirigiu à mesa, ignorando o comentário de Emma. Sentou-se, aguardou que Emma fizesse o mesmo e olhou para a garota, séria.
– Esta é Emma. Não se preocupe, ninguém aqui vai lhe fazer mal... Mas é muito importante, para o bem de todos, que nós descubramos quem você é, entende? – Começou Regina. Emma se surpreendeu com o tom de preocupação quase maternal na voz da mulher.
– Eu não sei. Está tudo embaralhado. Juro que não sei quem sou! – Começou a garota, e desatou a chorar.
– Tudo bem, tudo bem... Acalme-se. Nós não vamos descobrir nada assim. – Disse Emma, tentando se fazer ouvir por entre os soluços da desconhecida.
Regina buscou água para a garota, que, hesitante, bebeu tudo e secou as lágrimas.
– Eu... Só me lembro de ter acordado ali. Eu nunca vi esse lugar antes, é a única coisa que sei.
– Sua memória pode voltar com o tempo. Mas, por ora, se importa de ficar sob observação? – Disse Emma.
– Nem um pouco.
– Então vamos levá-la ao hospital, pra passar o dia. Depois podemos achar um lugar melhor pra você.
Emma não achou que poderia ser fisicamente possível, mas a garota empalideceu um pouco mais.
– Hos... hospital? Não! Não, não por favor! – E foi assim que o seu surto teve início: ela se levantou bruscamente, derrubando a cadeira, e ia se virar para correr quando Regina lançou um feitiço que a botou pra dormir.
– Desculpe... Mas precisamos ser cautelosas. – Disse Regina. Emma pôde jurar que Regina estava envergonhada.
– Eu sei, tudo bem. – Você pedindo desculpas por usar magia?
Levaram a garota para o Granny’s, onde Ruby arranjou um quarto para mantê-la sob vigilância.
– Quer um café? – Perguntou Emma.
– Sim, obrigada. – E novamente, Emma se sentiu surpresa.
As duas haviam apenas acabado de se acomodar em uma mesa quando Robin e Marian chegaram e se sentaram perto da porta. Regina desviou o olhar. Emma notou.
– Como você está lidando com isso? – Perguntou Emma, tentando ser cuidadosa. Regina demorou um pouco antes de responder.
– Henry voltou a ser a única pessoa que importa. Vou continuar sendo boa por ele.
– Tudo bem, Regina. Mas você não está sozinha. A cidade já te vê com outros olhos. Talvez você não acredite que vá encontrar outra pessoa, mas espero que um dia possa abrir seu coração e deixar todas essas pessoas maravilhosas entrarem.
– Você é igual a sua mãe.
Alguns minutos se passaram, a porta se abriu e Hook entrou. Do balcão, ficou observando Emma. Ambos trocaram um sorriso.
– Por favor... – Disse Regina, revirando os olhos. – O que seus pais acham de você namorar um pirata?
– Tudo bem, a pausa acabou. Podemos voltar ao trabalho?
– Você é a perita, qual é o próximo passo?
– Me leve ao lugar exato onde ela surgiu.
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