Omedetou
1 único
Notas iniciais
“É amanhã, Takashima Kouyou”, pensei encarando a televisão. “Seu aniversário de 29 anos.”
Com um suspiro, passei a mão por entre os cabelos enquanto analisava esse fato. Eu, em geral, gostava de aniversários... mas não os meus. Depois que fiz 21 anos e atingi a maioridade, passei a detestar meus aniversários. Isso porque agora não fazia diferença, era só continuar a envelhecer e envelhecer. Quanto mais maduro e sábio você ficava, mais perto estava da velhice e impotência de... diversas coisas.
Presentes era algo que eu gostava de receber, mas não uma coisa pela qual eu me importava muito, o que me chateava ainda mais no que dizia respeito a aniversários.
Eram onze horas da noite, e mesmo que eu estivesse com sono, não iria dormir, pois sabia que quando desse meia-noite, alguém com certeza iria me ligar. Ou antes, até. Poderia usar Ruki como exemplo; ele sempre era o primeiro a ligar para todos no aniversário de cada um. Sempre.
A campainha da porta soou, despertando minha atenção. Dei de ombros e levantei-me do sofá, indo atendê-la. Quem poderia ser a essa hora?
- Hai! – disse, ao abrir. E logo me deparei com um loiro e um moreno sorridentes.
- Omedetou, Uruha! – exclamaram em uníssono.
- Err... arigatou, nee. – agradeci, constrangido. Tecnicamente ainda não era meu aniversário.
- Nós sabemos que estamos um pouco adiantados. – disse Reita, sorrindo. – Mas como eu e Kai estávamos num bar próximo, decidimos passar aqui para lhe fazer uma visita.
- Hai! – concordou o moreno com suas covinhas aparentes. E eu sabia muito bem o porquê não tinham me chamado para beber.
- So, so... Obrigado, mais uma vez. – sorri. – Querem entrar?
- Iie, obrigado. – disse o loiro. – Mas só passamos aqui para isso mesmo. Vou levar o Kai pra casa, ele bebeu demais. – ele olhou preocupado para o baixista. De fato, as bochechas dele estavam um tanto rosadas, e o sorriso não deixava seu rosto por nada.
- Un. – concordei. – Amanhã, então, eu resolvo como vamos comemorar e falo com vocês, está bem? – Se a ressaca deles não levasse o dia todo.
- Ok! – Reita também não estava muito lúcido, e isso era perceptível. – Até amanhã, então.
- Boa noite. – sorri, e, antes de fechar a porta, acrescentei: — E juízo. Para os dois.
Reita assentiu com um sorriso bobo no rosto, colocou o braço sobre o ombro de Kai, e o levou embora.
Os reprovei com a cabeça enquanto voltava a deitar no sofá, tentando acompanhar aquele documentário irritante, apenas para esperar a provável ligação de Ruki.
O telefone, depois de um tempo, finalmente tocou. Quando me levantei para atendê-lo, vi no relógio pendurado na parede, o horário; meia-noite em ponto. O chibi era mesmo preciso.
- Sempre pontual, hã. – disse rapidamente ao atender, antes mesmo de ouvir sua voz.
- Não com muita frequência, na verdade – Essa voz... não era de Ruki. – Não para aniversários. – riu.
- Pelo menos no meu você conseguiu, nee, Aoi. – disfarcei, sorrindo com meu próprio engano.
- Omedetou, Uruha. – desejou por fim.
- Arigatou.
Eu ainda estava um pouco extasiado com a surpresa. Aoi conseguira ser mais breve que Ruki, e isso era... estranho.
- Ruki já ligou? – indagou com um ar divertido.
- Não. – respondi. – Quando atendi até achei que fosse ele. – Aoi riu novamente.
- Hai, hai. Acho melhor eu desligar, então. Ele vai se irritar se ligar e a linha der ocupado.
- So, so. – eu ri. Era verdade. – Arigatou, nee.
- Daijoubu. – Sua voz parecia-me sonolenta. Acho que ele só permaneceu acordado para desejar-me parabéns. – Ja nee.
E com isso, o telefone ficou mudo. Bom, provavelmente não por muito tempo, afinal, o chibi deveria ligar daqui a pouco.
Taquei-me no sofá novamente e deixei o telefone em mãos. Passei de canal, tentando achar algum que me distraísse por tempo suficiente até Ruki me ligar para eu poder dormir. Entretanto, eu estava tão cansado que a única coisa que com certeza não falharia, seria minha cama. Mas eu aguentaria por mais um tempo.
As horas foram passando vagarosamente. Uma hora, uma e meia. Se ele não ligou até esse horário, então não deve agora, concluí. O chibi provavelmente esqueceu, ou estava tão exausto quanto eu e acabou dormindo mais cedo. Dei de ombros.
Desliguei a TV, coloquei o telefone no lugar e fui para o quarto. Minha mãe provavelmente será a primeira a me telefonar pela manhã, então já não terei muito tempo de sono. Ótimo.
Após escovar os dentes, aconcheguei-me entre as cobertas e não precisei de muito tempo para adormecer.
-
Barulhos insistentes repercutiam numa superfície de vidro – que até então eu achava que era em meu sonho. Porém, quando percebi que o som não parava de jeito nenhum, acordei.
Meus olhos pairaram sobre o despertador que ficava sobre o criado-mudo, e com um pouco de esforço, consegui enxergar as horas; eram três da manhã. O que diabos faziam batendo na janela do meu quarto às três da manhã?
Levantei-me e fui em direção à janela, andando pela penumbra de meu quarto, ainda sonolento.
Abri-a sem demora, e só vi um rosto rechonchudo próximo com um par de olhos escuros e um sorriso tímido o estampando.
- Ruki? – indaguei, descrente.
- Yo. – ele sorriu, envergonhado. Seus braços acanhados seguravam uma garrafa enorme, e esta me era familiar. Parecia ser de sake, hmm. Mas isso não alterava o fato de que ele estava na frente da janela do meu quarto às três da manhã!
- O que raios você faz aqui há essa hora, chibi? – perguntei. — Ainda mais sozinho, e segurando uma garrafa imensa.
- Eu sei que não sou o primeiro a te dar parabéns, mas eu tinha caído no sono e... – ele desculpava-se. E mesmo com a escuridão do lado de fora, eu conseguia ver seu rosto ganhando uma cor. — ... decidi vir aqui entregar o seu presente e lhe dar os parabéns pessoalmente. – ele estendeu os braços.
- E você não podia esperar até amanhã de manhã? – o repreendi enquanto pegava a garrafa de suas mãos.
Ele acenou negativamente com a cabeça, porém, não soltou a garrafa. Aproximou-se com ela, juntando nossos rostos. Senti meu rosto esquentar, porém estava tão absorto e estático por sua atitude que só me dei conta quando seus lábios mornos e grossos tocaram os meus brevemente.
- Omedetou. – sussurrou ele, com sua face ainda próxima da minha. Seu hálito quente assoprou levemente em meu rosto, e com isso, minhas mãos, por impulso, seguraram sua face rechonchuda, juntando novamente nossas bocas.
-
Minhas pálpebras, mesmo fechadas, contraiam com a claridade que invadia agora meu quarto. Abri meus olhos lentamente, até o ponto que eles se acostumassem com a luz solar abundante.
O que havia acontecido... sobre Ruki, e o resto... não passava de um sonho, não é? Sorri, reprovando agora a mim mesmo. Parecia tão real, entretanto, tão absurdo ao mesmo tempo e... deixa pra lá.
Esfreguei meus olhos com as costas das mãos e olhei pro lado. Minha expressão com certeza pouco poderia demonstrar a surpresa com a qual eu estava agora; o chibi estava deitado ao lado, seu rosto sereno afundado no travesseiro com o cobertor o cobrindo até o pescoço. Era a cena mais constrangedora, estranha, confusa e... fofa que eu já tinha presenciado.
Ao virar o rosto para o outro lado, pude ver a enorme garrafa de sake posta sobre meu criado-mudo.
Não havia sido só um sonho, pelo visto.
Aconcheguei-me novamente por dentre as cobertas e pousei minha cabeça sobre o mesmo travesseiro de Ruki, admirando sua face, sua respiração calma e relaxada.
Aquela garrafa de sake nunca me parecera tão desinteressante como agora.
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