Olá, eu sou um stalker
6 Part 6
PUM!
Uma mulher me deu um esbarro e de bônus uma pintura moderna na blusa. Eu podia ler a legenda: “Sorvete de baunilha em tela”.
Maldita! Sujou minha blusa! Maldita! Eu te conheço!
Sim, eu a conhecia. A desgraçada estudara comigo no segundo ano do ensino médio. Eu a pegara em umas desventuras nas férias daquele ano. Foi bem fácil conquista-la, na época eu já a stalkeava e sabia todos seus pontos amorosos vulneráveis. De certo ela tinha um rosto muito bonito, e seios que... Não importa. Minha raiva era de tal amplitude que tive que respirar fundo, duas vezes — enquanto ela se desculpava -, para não esmurrar a rosto dela.
— Me desculpe, Pacco! Deixe-me limpar isso! – ela falava desesperadamente com aquela voz dela.
— Não, fique tranquila. Depois eu limpo, tenho pressa. – eu dizia esboçando um grande e falso sorriso.
Vi o meu alvo adentrando a loja, e seu vulto distorcendo-se até ficar indistinto por detrás daquele vidro fosco.
— Nossa, que lástima. Logo no nosso reencontro eu te faço uma coisa dessas. – dizia ela tentando iniciar um diálogo.
— Não há problemas. Tenho que ir; depois nos falamos...
Nosso curto diálogo pode ter sido cruel, anormal de mim, mas a ira tinha me tomado com aquela interrupção.
Eu disse, e logo tomei a ação de tirá-la da minha frente. Afastei-a dando-a um empurrão delicado e controlado, para o lado. Eu devia ter prestado atenção aonde iria por a mão, porque logo depois do ato tive que perder mais tempo me desculpando por ter... Ter posto a mão em...
Droga! Aquilo foi só mais uma das distrações. Quando dei por mim, em súbito, corri para dentro do tal mercado. Andei desesperadamente para um lado e para o outro. Percorrendo cada corredor; o suor voltara a molhar minha face.
Tinham algumas poucas pessoas, que me eram desconhecidas, nos corredores, contudo, dentre elas não estava a tal moça de sobretudo. Percorri e repercorri os corredores novamente.
Nichts, nihilo, nothing, nada.
Senti uma pressão sobre minha cabeça. Agora inevitável. Eu perdi.
Corri até o único caixa, que era uma velhinha com um avental, e a questionei.
— Senhora, não viu uma moça trajando um sobretudo, entrar por aqui?
Ela ficou olhando para meu rosto por um tempo, desviou o olhar para minha blusa suja e voltou a fita-me com os olhos.
— Sim... Vi sim... Moça bonita.
Um alivio falso desceu-me goela a baixo. E pareceu-me que a tal idosa me percebera.
— Para onde ela foi?
— Bem... Não sei... Ela não está aí dentro?... Não... Será que ela saiu... É... Não sei da moça não...
Aquela ideia de esmurrar o rosto de alguém voltou. Mas eu não teria forças. A ideia de ter perdido me obliterava...
Câmeras!
Procurei rapidamente por câmeras instaladas e vi umas duas. Era minha ultima esperança.
— Me deixe ver as gravações?! – disse rapidamente.
— Ver o que?
— As gravações das câmeras. A fita.
Ela, sem questionar mais, cooperou me levando até atrás do balcão. Apontou a TV antiga em cima de um vídeo cassete, dizendo: “Tá aí”. Fui logo com o dedo no botão de ejetar: nada aconteceu. Apertei novamente e nada aconteceu também.
Enfiei a mão pelo local donde deveria ser ejetada a fita, mas tinha nada. As câmeras só capturavam as imagens, no entanto não as gravavam.
Derrota. Fui derrotado. Aceite stalker de um terço de tigela, porque nem a meia você chega. Droga! Estava arrasado.
Lembro muito pouco do que aconteceu depois disso. O pouco que lembro é de eu me retirando da loja ouvindo a velha falar algo, e logo me entregar um papel dobrado ao meio, o qual depositei no bolso de minha calça, sem ver o conteúdo direito; tinha um adesivo na parte à vista. Olhei para o céu, ele estava bem alaranjado, já deviam ser mais de 18 horas.
Mas não importava. Estava fracassado. Fui pra casa — não de bicicleta porque lembro-me de no dia seguinte ter que voltar para busca-la.
Recordo-me muito pouco do fim desse dia, e este pouco que eu recordo me dá dor de cabeça e uma vontade quase que incontrolável de chocar meu ponho com algo sólido. Parece-me que fiquei traumatizado.
Ah, estou com náuseas... vertigem... Essa sensação de novo... Minha derrota daquele dia ainda me assombra. Melhor eu parar por aqui.
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