Olimpo esquecido

1 Capítulo 1 Os homens de Marte


Notas iniciais
Enquanto a discussão entre anjos e marcianos se alastrava, em Marte se iniciava a migração das bestas. As primeiras espécies foram as grandes baleias. Uma a uma, elas foram montadas pelos anjos e guiadas na imensidão universal. Atrás deles, viajavam os peixes-espadas, os golfinhos e outras espécies menores, que os seguiam como cardume. Já, na Terra, eles pulavam em todo canto, nem sempre reencarnando com a mesma forma. Alguns nasciam como lulas, polvos, águas-vivas, tartarugas, pois as espécies desse planeta eram milhares.

Há quatro milhões de anos, os homens de Marte estavam em guerra. Quais os motivos? Talvez, etnias que se odiavam profundamente... ou por causa da ambição desmedida de seus governantes... ou, quem sabe, devido à inexistência do amor e a falta de solidariedade entre os homens.

As primeiras vítimas dessa guerra insana foram as crianças. A poluição do ar, ocasionada pelos gases dos bombardeios e dos incêndios sem fim, fazia-os desfalecer em agonia, expondo um cenário macabro em todo lugar. Os mais velhos morriam nos hospitais. Os soldados eram atendidos preferencialmente nos postos de saúde, e eram ignorados por causa da falta de médicos, camas, remédios, desfalecendo nas portas de entrada ou nos corredores lotados de pacientes. Já, as mulheres, lutavam ao lado de seus homens, tentando proteger as cidades.

Enquanto o horror se alastrava entre os combatentes, as escolas e as universidades foram convertidas em abrigos, tanto para os mais velhos, como para os órfãos. Lá fora, o esquálido comércio ficava em mãos de homens incapacitados para se unir às lutas.

Mas a indústria da morte não detinha suas tarefas nem de dia, nem de noite, pois os drones assassinos desciam entre nuvens como enxames de abelhas e as defesas das cidades eram exterminadas como as moscas. Também limpavam os campos matando bois, galinhas, porcos, condenando o povo à morte através da fome.

No entanto, o que terminou de vez com a civilização marciana foram as armas de “desintegração”. Elas fizeram pó de todos os edifícios públicos, os castelos, as mansões, junto aos seus ocupantes. Nada sobrava sobre a terra quando essas bombas caíam do céu, pois morriam as bestas, as matas, deixando para trás uma nuvem negra sobre um chão devastado.

Enquanto a civilização desaparecia, e não sobravam seres vivos nesse mundo, as areias e o vento tomavam conta da superfície. Pouco a pouco, a falta de oxigênio e a ausência do verde abriram passagem para o inverno nuclear. O frio congelou as águas dos lagos, dos rios, dos oceanos e Marte se converteu num lugar inabitável. Com passar do tempo, as areias tamparam as águas congeladas, e ficaram sobre a superfície reinando como as únicas testemunhas de que Marte era um planeta rochoso, mas sem nenhum vestígio que assinalasse que um dia houve existência, de alguma coisa, naquele mundo.

Contudo, se não sobrou nada vivo sobre as areias, no lado invisível – onde vivem os espíritos –, cinco milhões de marcianos choravam desconsoladamente, pois não havia nenhum ser humano sobre a Terra para reencarnarem. E, por incrível que fosse, tudo estava claro e brilhante no lado espiritual: mansões, campos verdes, com plantações de milho e trigo, estendiam-se no lado invisível, intactos, como foram durante a vida. Nas cidades espirituais, centenas de carros magníficos faziam fila nas avenidas, ao lado das bicicletas. Os supermercados mostravam seus produtos mais variados nas prateleiras, e brilhavam como pedras luminosas. Já, nos campos, além das cidades, os cavalos percorriam as pradarias, cachorros corriam pela mata, tigres manchados desfilavam junto aos leões e às girafas, enquanto no mar os golfinhos pulavam sobre as águas invisíveis.

E naquela vida além da morte o tempo alastrou-se por uns quinhentos mil anos de solidão. Os homens olhavam as areias sem fim, condenados a uma vida errante, uns tentando se desculpar com os outros. Antigos inimigos de guerra fizeram amizade, antigos casos de amor malsucedidos retomaram o relacionamento, mas essa vida espiritual não possuía motivos para ser feliz.

Todavia, num dia qualquer, seiscentos anjos chegaram nesse mundo para consolá-los. Eram anjos velhos, anjos jovens e anjos crianças. Eles abraçavam os marcianos mais aflitos, cuidavam de suas feridas da alma, tomavam pequenos no colo, tirando-lhes, aos poucos, a dor da aflição.

Mas houve um grupo de anjos que ficou a olhá-los de longe. Eram casais jovens, que se espalharam ao redor do Sol e além dele, à procura de um planeta habitável para essas almas desgarradas. Desde Mercúrio até Plutão, examinaram todas as Luas e todos os planetas. Espalharam sementes de vida, sementes de trigo e de cevada, ovos de peixes nas águas, discutindo em grupo qual seria o resultado dessas empreitadas. Quando chegaram à Terra, eles deram um berro alucinante, pois a mãe Terra tinha uma selva maravilhosa, bichinhos grandes, médios, peludos, e selvas em cada ilha, em cada continente, com frutos deliciosos entre as matas. Mesmo assim, eles disseminaram sementes e mudas de bananas, de trigo, cevada, arroz, milho, mandioca, e outras delícias da culinária dos anjos, em cada selva frondosa do planeta.

Depois de semear o chão com fartura de legumes e de frutas para essa futura civilização marciana, os anjos pesquisaram os mamíferos da Terra. Uma a uma, as manadas foram examinadas em sua estrutura óssea, em sua reprodução e, principalmente, em relação ao tamanho do cérebro. Cada informação era comparada entre todos os bichos, pois havia bestas gigantes como mamutes e tigres-dente-de-sabre, que eram agressivos, o que poderia dar origem a homens sádicos e cruéis. Criar uma civilização marinha também era perigoso naquele planeta, pois os mares estavam abarrotados de criaturas gigantes que a comeriam sem a deixar evoluir.

E, por fim, escolheram os símios como a futura “raça-mãe” dos homens da Terra. Eles eram vegetarianos, possuíam certa organização nos grupos silvícolas, e eram viciados em sexo. Quer dizer, os marcianos reencarnados nesses símios teriam pela frente uma vida erótica profunda, comendo e gerando filhos.

Como a Terra era um planeta instável, com terremotos terríveis, milênios de gelo, inundações fatais, secas inesperadas, os anjos selecionaram grupos de símios em cada lugar do mundo: miudinhos nas Américas, maiores na África – incluindo gorilas –, medianos na Índia, e, na Ásia, escolheram bandos em todo canto.

Para transformar os símios em homens, os anjos selecionaram os mais jovens anjos e as crianças. Esses escolhidos sentaram no chão, metade homens e metade fêmeas, pernas abraçadas com os braços e a cabeça escondida entre as pernas. Os anjos mais velhos os encolheram aos poucos, fazendo-os dormir, e, quando suas almas estavam do tamanho de uma bola de pingue-pongue, lançaram-nos com força no ventre das macacas e das gorilas africanas e asiáticas, e depois deram uma volta ao mundo engravidando outras macaquinhas, tanto na Austrália, como nas Américas e nas Ilhas do Pacífico e do Atlântico.

E, um dia, esses anjos nascidos dos símios nasceram por cima das árvores, foram carregados no colo por mães protetoras, e se apaixonaram entre eles ainda na infância. Ver casaizinhos pequeninos, que se escondiam do resto dos símios, era encantador. Desde o outro lado da vida, os anjos espirituais os guiavam nas aventuras, e espantavam os símios adultos, estupradores de macacas miúdas. Em todas as selvas da Terra, esses anjos-símios desceram das árvores aos poucos, para caminhar pelo chão, fazer abrigos de paus firmes e folhas, e namorar desde sempre, pois na vida primitiva só se praticavam três coisas: sexo, comida e relax. Depois do sexo, dormiam à beira das lagoas e dos rios, nadavam nas correntezas e, quando as meninas engravidavam, davam origem a macacos com inteligência humana.

Em menos de “50 anos-Terra”, algumas manadas de símios transformaram seus costumes. Filhos e netos desses anjos-símios aprendiam, desde crianças, a fazer cocô muito longe do grupo, a enterrá-lo no chão, e a lavar as mãos antes de comer. Também secavam ao Sol as sementes das frutas ou escolhiam mudas de bananeiras para inundar o mato de comida. Faziam hortas de legumes, e aprenderam a moer o milho e a mandioca sobre as pedras. Cozinhavam pão de milho entre as brasas ou biju entre folhas. Também recolhiam ovos, os quais comiam crus ou cozidos sobre pedras quentes. Os netos conseguiram fazer flautas de ossos e entoar ritmos simples. Também batiam as mãos, mexiam o corpo em danças alegres, sempre à luz de alguma fogueira acesa. O ensino dos bons costumes também era seguido com rigor. Os machos escolhiam a companheira ainda pequenos, e juravam –com gestos de mãos, movimentos de cabeça e alguns sons guturais –, que seriam fiéis enquanto vivos. Depois dessa promessa, o vício do sexo se iniciava em todo canto. Afinal, haviam herdado dos anjos o orgasmo superior: mais longo, mais forte, e transavam com movimentos ondulantes que não machucavam ninguém. Os anjos-símios viam-nos copulando sentados sobre um galho de uma árvore firme por dias inteiros, admirados. Sem sombra de dúvida, eram uma raça de homens ardentes, apaixonados, pacíficos, cheios de doçura, e que teriam como filhos os marcianos desterrados.

Enquanto a vida humana da Terra se multiplicava, em Marte era organizada a primeira migração de espíritos em meio ao alvoroço geral. Os marcianos agradeciam entre lágrimas esse novo mundo, pois corria o boato de que o planeta era um jardim com frutas deliciosas, praias exuberantes, uma selva fantástica e ilhas encantadas com um Sol que nunca desaparecia. As famílias se abraçavam, se organizavam em pequenos clãs, pois todos desejavam nascer dos mesmos pais e ter os mesmos filhos, e os anjos, na sua sabedoria infinita, falavam-lhes que as pessoas que se amavam de verdade jamais seriam separadas. Era a mais antiga lei do karma universal.

No entanto, se a partida desde Marte fora cheia de júbilo, a chegada na Terra foi entre lágrimas sem fim, pois essas almas não encontraram nenhum ser vivo para nascer. Só havia mato e bichos. Nenhuma cidade, nenhuma creche para deixar os filhos, nenhuma universidade para estudar... como é que iriam reencarnar? E os anjos então lhes mostraram todas as manadas de símios-homens que caminhavam eretos pela mata. Podiam percorrer toda a Terra, pois em cada canto havia uma tribo de símios-homens, prontos para serem seus pais. A outra alternativa era permanecer no mundo espiritual pelo período de 3.500.000 anos, porque, nesse tempo futuro, os símios-homens seriam finalmente tão lindos quanto eles: nada de pelos pelo corpo, vestidos com roupas elegantes e vivendo em cidades maravilhosas. Afinal, o “livre arbítrio” era outra lei do karma universal e muito respeitada.

Muitos marcianos enfrentaram os anjos jurando vingança. Afirmaram que fariam churrascos com todos os bichos, todos os peixes, derrubariam todas as selvas da Terra, e as ameaças não tinham fim. Um anjo respondeu-lhes:

– Qual a novidade? Marte será para sempre um mundo de “areias escaldantes”. E quem destruiu tudo foram vocês com uma guerra de extermínio insana. Só que agora já sabem o que os estará esperando se destruírem a Terra, pois nascer de animais é algo para poucos, só para assassinos como vocês.

Enquanto a discussão entre anjos e marcianos se alastrava, em Marte se iniciava a migração das bestas. As primeiras espécies foram as grandes baleias. Uma a uma, elas foram montadas pelos anjos e guiadas na imensidão universal. Atrás deles, viajavam os peixes-espadas, os golfinhos e outras espécies menores, que os seguiam como cardume. Já, na Terra, eles pulavam em todo canto, nem sempre reencarnando com a mesma forma. Alguns nasciam como lulas, polvos, águas-vivas, tartarugas, pois as espécies desse planeta eram milhares.

Em seguida, chegaram na Terra os anjos montados a cavalo. Era uma guarnição gigante de equinos que começou a correr enlouquecidamente sobre as areias do Saara. Já os bichos mais selvagens, como panteras negras, hienas, rinocerontes, cobras, entraram nas matas africanas, na Índia, nas Américas, cada espécie enfeitiçada com as novas selvas ricas em comida de todo tipo. Os cães de estimação, que eram milhares, foram encaminhados para as manadas de lobos na Sibéria e os gatinhos para as selvas, ao lado de guaxinins, macaquinhos pequeninos, jaguatiricas, antas e outras espécies similares. Quando a bicharada miúda chegou ao planeta, o céu ficou escuro por breves momentos. Eram cupins, borboletas, abelhas com sua rainha, que entravam nos ovos de insetos para nascer igual, semelhante ou diferente. O que importava era encarnar de novo para comer essa abundância que estava à disposição.

E foram os bichos os únicos que agradeceram aos anjos pela nova terra. Cachorros lambiam as mãos de todos, os gatos pulavam no colo fazendo chamegos e os cavalos esfregavam a cabeça contra eles em sinal de carinho.

Quando o último carrapato marciano encarnou, os anjos se reuniram na Lua para organizar a partida. Os anjos-símios, que ainda viviam, foram adormecidos com o sono da morte. Depois todos os anjos se abraçaram com euforia, pois cada casal deixara como descendentes uns oitenta filhos, quatrocentos netos e milhares de bisnetos e tataranetos, os quais ficariam na Terra para sempre.

E, como prêmio, foi permitido a cada casal de anjossímios que realizassem a viagem de regresso sempre de dois em dois, mantendo os mesmos pares. Muitos riam, pois só depois da morte descobriam quem era quem, e, além do mais, já não eram mais jovens e lindos, estavam velhos, cansados e tristes por abandonar a Terra e seus netinhos.

A um sinal, os anjos abriram a capa-morcego, e suas esposas os abraçaram. Fecharam a capa como um casulo com duas cabeças, abriram os braços e a viagem se iniciou. Todos regressavam para o centro do universo, onde teriam que contar sobre a nova raça humana que estava nascendo, e sobre o fim de um planeta que um dia fora um paraíso vegetal. Nos registros universais seria escrito que, nos confins da Via Láctea, haviam nascido os terráqueos, filhos dos símios, mas também com a doçura e a inteligência de seus pais anjos.

Notas finais
Quando o último carrapato marciano encarnou, os anjos se reuniram na Lua para organizar a partida. Os anjos-símios, que ainda viviam, foram adormecidos com o sono da morte. Depois todos os anjos se abraçaram com euforia, pois cada casal deixara como descendentes uns oitenta filhos, quatrocentos netos e milhares de bisnetos e tataranetos, os quais ficariam na Terra para sempre.