Olhos de Cobra
11 Capítulo 11 - Karina
Notas iniciais
Cobra estava com problemas. Mais sérios do que os meus problemas adolescentes. Eu sabia daquilo. Eu conseguia perceber. Eu só não conseguia ler seus olhos.
Eu devia perguntar à Bianca como ela fazia aquilo. Mas ela andava ocupada com a nova perspectiva de ter que começar a faculdade ou arrumar um emprego de verdade longe da Ribalta para deixar o meu pai feliz.
Na verdade, ele ia esquecer de Bianca um pouco. Ele só conseguia falar sobre o bebê que Dandara estava carregando. Mais irritado que eu sobre aquilo, só o João. Mas o João sempre ficava feliz por poder estar, finalmente, mantendo uma conversa com Bianca de mais de dois minutos. Então, quando cheguei com aquela proposta de acampamento, todos pareceram ficar bem felizes por mim.
E enquanto Gael discutia com Dandara sobre o nome do bebê, aproveitei para pedir que ele assinasse uma autorização. E ele nem percebeu que ali naquela folha não havia o nome de acampamento nenhum. Mas sim de Ricardo Cobreloa.
K: to pronta. √√
K: s me deixar aki juro que caço vc nos confins do br √√
Cobra: fica fria √√
Cobra: esquentadinha √√
K: vou quebrar a sua cara da próxima vez √√
K: seja mais criativo √√
Cobra: desculpa :P esqueci que o nosso código de apelidos √√
Cobra: gira em torno de batman e robin √√
Cobra: e atinge a Diva Velvet √√
K: haahahahahaha √√
Cobra: kkkkkkk < rir ao mesmo tempo em que chamo por vc √√
K: Isso foi tão romântico!!!11 ♥ √√
Cobra: estamos flertando pelo celular √√
K: quem fala flertando? Qts anos você tem, Ricardo? √√
K: ainda tá aí? √√
Cobra: resolvendo o aluguel de um carro √√
Cobra: moto n eh tao confortável √√
K: que bonitinho se preocupando com o meu bem estar √√
Cobra: na verdade estou preocupado com o meu :D √√
Cobra: vc n me parece confiável para garupa √√
Cobra: qdo c quer ir p acampamento, diva √√
Cobra: ? √√
K: qdo vc quiser. Ngm prestou mt atenção em mim. To c 1 semana de folga. √√
Cobra: seu pai vai t levar em algum lugar? √√
K: n √√
Cobra: ok deixa um bilhete e sai bem cedo √√
Cobra: 5 hrs √√
K: !!!!! √√
K: de malas prontas √√
Cobra: vou me arrepender disso td depois √√
K: pago a comida √√
Cobra: fechado √√
Fechei a conversa. O fundo do meu celular ainda estava escuro desde a foto que eu deletara de Pedro. Desde todas as fotos que eu deletara. Até mesmo as minhas. Então, como um lampejo, aquele beijo que Cobra me dera ricocheteou pelas paredes do meu cérebro escapando rapidamente para arranhar a minha garganta e pousar com força no coração.
Fiquei por alguns segundos que pareceram eternidades vendo cores onde não havia.
― Ainda acordada, Ka?
Deixei o celular cair no meu rosto quando Bianca entrou no quarto. Ela riu.
― Quando vai ao acampamento?
― Amanhã.
― Jura? ― Bianca jogou suas roupas no chão, se enfiando num pijama. ― Tão rápido!
― Tem uma semana que me inscrevi. E consegui vaga de última hora.
Eu estava mentindo!
Cobra era uma má influência. Mas era por uma boa causa. Para fugir daquilo tudo e para ajudá-lo. Seria a última mentira da minha vida, era uma promessa.
― Você parece animada. Com um sorriso diferente.
― Eu nem tô rindo, Bianca. ― Revirei os olhos.
― Não, tipo, quando você ri. ― Dei as costas a ela.
― Bianca. Você chegou a gostar do Henrique que nem você gosta do Duca?
― Que? ― Ela riu entre dentes. ― Que tipo de pergunta é essa?
― Só queria entender os relacionamentos humanos.
― Tá gostando de alguém, Ka? Meu Deus!
― Claro que não! ― Joguei uma almofada nela para que parasse de fazer barulhos. ― De quem eu ia gostar, Bianca? Do João? Me erra.
― Do Cobra? ― Os olhos dela se estreitaram. Rosnei e cobri minha cabeça com o travesseiro. ― Você o levou ao meu aniversário. E, mesmo que eu não goste de dizer, parecia que ele estava te fazendo muito bem. E você a ele.
―Claro! Somos amigos.
― Aham.
― Ai, Bianca. Vai dormir. Você não entende nada.
― Credo, Karina. Eu entendo. Só nunca tive um amigo assim.
― Claro, Bianca. Seus amigos sempre queriam te pegar. ― Ela soltou um som indignado. ― É fácil ser o melhor amigo da Maria Macho.
― Não fale assim de si mesma!
Suspirei com força, porque era verdade. E eu nem queria deixar mesmo de ser como eu era se aquilo me rendia uma amizade tão intensa como a que eu tinha com o Cobra. Se eu fosse como a Bianca, certamente ele não seria meu amigo. Ele mal olhava na cara dela.
― Karina. ― Mexi o braço. Não estava com vontade de virar. ― Você é encantadora. Não estou falando isso porque você é a minha irmã. Mas você é linda. E uma ótima pessoa. Alguém que faria bem ao Cobra. Alguém que não ficaria tramando maldades como a Jade. Que, sei lá, o colocasse nos trilhos.
― Bianca. Eu não quero transformar o Cobra no Duca. Para com esse papo.
― Não é nada disso, Ka. Só queria que soubesse que entendi que você e o Pedro não tem mais jeito. E que se o Cobra se tornasse uma pessoa melhor, o casal Cobrina seria o melhor ship.
― Casal o que? ― Sentei na cama, gargalhando. ― Não viaja.
― Pode ser. ― Bianca mexeu os ombros. ― Mas quando voltar desse acampamento pare pra pensar de quem você sentiu saudades. E aposto que será do Cobra. Mais do que de qualquer um.
Fiz uma careta para ela. Bianca estava errada. Óbvio que eu não sentiria saudades do Cobra. Eu estaria colada nele o tempo todo. E saudades era algo que eu não me permitia mais sentir. Eu queria aventura. Dar socos em alguém. Sentir o perigo passar bem perto. Sorri enquanto um frio intenso me consumiu por dentro. Porque o perigo poderia estar do meu lado. Com aquele jeito de me segurar e não me soltar nunca mais.
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