Notas iniciais
Todos os personagens são fictícios, criados por mim. Algumas coisas são retiradas do livro Vampiro - A Máscara, mas muitas delas são criações minhas.

A noite estava apenas começando, e Milena queria aproveitá-la. Lady Anthonya não era a favor, afinal, Milena era apenas uma Criança da Noite, sob sua tutela. E o que mais a amedrontava era a Jyhad.

— Não creio que seja a hora de sair...

— Não precisa preocupar-se comigo, senhora. Eu sei o que não devo fazer.

— Milena, quero que saiba que no mundo aí fora não existem bonzinhos. Você encontrará outros clãs, que adoram brigar. Cuidado.

— Eu sei. Tomarei cuidado.

— Bem, você faz parte de sétima geração de vampiros. É bastante forte, mas ainda é uma Criança da Noite.

— Sétima geração de vampiros?

— Sim. A partir dos Antediluvianos, contamos as gerações. Eu fui abraçada por um Tremére da quinta geração, portanto, sou da sexta, e você, da sétima geração. Isso nos faz mais fortes, pois, quanto maior a geração, menos pontos de sangue temos, mais fracos somos. Você pode encontrar algum vampiro mais fraco, apenas por ser de uma geração mais avançada que a sua. Mas, se ele for bem treinado, poderás sair perdendo.

— Não se preocupe. Tomarei cuidado.

Milena sai da sala num vôo pela janela. Lady Anthonya a observa sair, e fica parada, no centro da sala, com os olhos fechados, até não sentir mais o cheiro de sua aprendiz.

Milena passa por lugares que antes costumava freqüentar, e se lembra de seu antigo namorado. Não sabia o que havia acontecido, mas era melhor que não o visse mais. Ele não iria gostar de vê-la. Apesar de não estar mau, muito pelo contrário, achava que estava até mais bonita, mais sensual... mas era melhor não vê-lo mais.

Resolveu entrar num bar. Estava cheio e, àquela hora da noite, somente gente barra pesada. Mas Milena não se importava mais com isso. Agora, podia defender-se sozinha, pelo menos, tinha certeza que para derrubá-la teriam que suar muito.

Ao entrar, todos olharam para ela. Esguia, Milena não titubeou e continuou andando até o balcão. Sentou-se num banco e esperou o barman se aproximar.

— Vodka pura com gelo.

— Pode deixar.

Milena nunca tinha tomado bebida forte, mas aquela noite teve vontade. Apesar de nem conseguir tocar no copo. O gosto não era dos melhores, parece que tudo perdia o gosto e o tempero depois que se tornou um vampiro.

— Até que enfim uma carne nova no pedaço.

Milena ouviu a voz de trovão no meio do bar, mas nem piscou. Continuou olhando para seu copo. Algumas pessoas no bar riram. Cachorrão se aproxima de Milena.

— E que curvas dessa gata!

Milena gira no banco e se depara com um troglodita, com cabelos compridos emaranhados, braços musculosos expostos, mostrando tatuagens de diversos dragões, suas pernas metidas num jeans rasgado, e com a sola da bota amassava um cigarro no chão. Em sua orelha, brilhava um piercing. Ela apenas encara-o, deixando-o nervoso. Dava para sentir o cheiro.

— Adoro quando uma garota me olha assim! Fico louco!

As pessoas riem. Milena não se move. Cachorrão continua provocando.

— Linda! E que pele! Tô louco prá mergulhar nessa pele, e sentir o cheiro dela!

— Cachorrão, já chega!

A voz vem do fundo do bar, para onde todos olham, com exceção de Milena e Cachorrão, que continuam se encarando. Ricardo se levanta de sua mesa ao fundo e se aproxima dos dois.

— Eu decido quando já chega.

Cachorrão segura bruscamente os cabelos de Milena, aproximando seu rosto do rosto dela.

— Pare com isso, deixe a garota!

Mas Cachorrão não se importa com os apelos de Ricardo. E nem era preciso. Milena dá uma joelhada entre as pernas de Cachorrão, que se afasta gemendo.

— Sua vadia desgraçada!

Milena se levanta e fica de pé na frente dele, que tira da cintura uma adaga.

— Você agora vai ver só uma coisa, vagabunda!

Milena dá um salto e fica de pé no balcão.

— Como ela fez isso?

Ricardo pensava que Milena precisava de ajuda, mas estava enganado. Milena dá um chute na mão de Cachorrão, atirando a adaga longe. Salta e se segura em uns ferros no teto do bar, batendo com os dois pés no peito de Cachorrão, que com o impulso cai longe, derrubando umas mesas. Milena estende a mão para Ricardo.

— Vem.

Ricardo segura a mão de Milena e no segundo seguinte se vê ao seu lado, em cima do balcão. A essas alturas, todo o bar está em polvorosa, todos brigando entre si.

— Vamos sair daqui.

Milena corre por cima do balcão seguida por Ricardo, até saltar à porta do bar. Deitado no chão, Cachorrão vê os dois saírem.

— Vadia... você me paga!

Fora do bar, Milena e Ricardo caminham em silêncio. Chegam à mesma rua escura, onde Milena passou pela morte. As lembranças daquela noite estão vivas dentro dela, até parece sentir a dor novamente. Toda essa concentração foi quebrada pela voz de Ricardo.

— Eu não sei o seu nome.

— Milena. E o seu?

— Ricardo.

— Obrigada, Ricardo. Você foi muito legal me defendendo lá no bar.

— Apesar de você não precisar?

Milena e Ricardo sorriem.

— Como você fez aquilo?

— Aquilo o quê?

— Aquele salto, cair de pé no balcão, caramba! Foi demais!

— Digamos que... eu tenha boa impulsão!

Milena pára de caminhar.

— Bota impulsão nisso!

— Shhhhhh!

Milena pede silêncio.

— Aconteceu alguma coisa?

Milena tapa a boca de Ricardo com uma das mãos, e se encosta na parede de um casarão, segurando Ricardo contra seu corpo. Sem luar, a noite estava incrivelmente escura. O cheiro de vampiro estava impregnado no ar. De acordo com a coleção de essências de sua senhora, podia reconhecer o clã Malkavian. Seria perigoso estar ali, ainda mais com um humano por perto. Podia ouvi-los conversar, eram dois.

“— Cara, a Fome tá pegando!”

“— Fala não, Lázarus. E o pior, é que eu tô sentindo cheiro de caça.”

Milena focaliza os olhos para o fim da rua. Vê os dois Malkavian caminhando.

“— Mas tem um vampiro com ela. Só que não tá comendo!”

“— Vamos lá, quem sabe ele divide com a gente!”

Os dois Malkavian começam a correr e Milena se desespera. Milena se abraça com Ricardo e os dois voam para o telhado do velho sobrado. Mal tocam os pés nas antigas telhas, os dois Malkavian chegam.

— Ora, ora, ora. O que temos aqui!

Ricardo não entende absolutamente nada. Olha para Milena, mas ela se coloca em sua frente, de costas para ele, olhando nos olhos de Lázarus.

— Uma Tremére. Posso sentir o cheiro no ar. Que tal... dividirmos a caça?

— Ele não é caça... e não se aproximem!

— Uhuuuuuu! E é brabinha! Melhor ainda.

Milena solta Ricardo, mas fica em sua frente.

— Se você não vai dividir, a gente vai aí pegar.

Lázarus salta para cima de Milena, que faz o mesmo. No ar, Milena arranha o braço de Lázarus, arrancando a manga de sua camisa.

— Vadia!

Milena rapidamente fica entre Ricardo e Lázarus, cujo braço se regenera rapidamente.

— Não queira saber o que aconteceu ao último que me chamou de vadia.

Lázarus salta para Milena, que, abraçando Ricardo, rola no chão, passando para o outro lado. O outro vampiro Malkavian, apenas observa. Lázarus bate nele.

— Idiota! Faça alguma coisa!

O Malkavian se aproxima de Milena, que se transforma, seus caninos crescem e ela dá um rugido, como de leão, e ele volta para o lado de Lázarus.

— De jeito nenhum. Ela é muito forte!

— Tenha certeza disso!

Lázarus salta novamente e Milena estende a mão direita, mantendo Lázarus no ar.

— Tremére duma figa! Me ponha no chão!

— Saia de perto de mim e desse humano! Ou vai se arrepender! Saiba que sou mais forte que você e seu clã!

— Como pode ter tanta certeza?

— Sou da sétima geração.

O rosto de Lázarus mudou. Pelo visto, o plano de Milena teria dado certo. Apelou para sua geração. Não tinha certeza da geração de Lázarus, mas, ao cortá-lo no braço, sentiu seu sangue um pouco mais fino; não tinha certeza, mas ele podia ser de uma geração avançada, apesar de bem treinado. Como imaginou, ele não sabia que era apenas uma Criança da Noite.

— Ponha-me no chão!

Milena abaixa a mão suavemente, Lázarus aterriza do mesmo modo.

— Vamos embora. Mas saiba que isso não vai ficar assim!

Milena vê os dois Malkavian descerem do telhado devagar e fica alerta, até sentir seu cheiro longe. Retraindo seus caninos, volta-se para Ricardo, assustado.

— O... o... que aconteceu? Eu....

— Você precisa descansar.

Milena toca a testa de Ricardo, descendo os dedos até a ponta do nariz. Seu corpo amolece e ele desmaia nos braços de Milena. Ela procura em seus bolsos sua carteira e não encontra um endereço. Erguendo-o nos braços, segue seus instintos; procura na noite o cheiro do rapaz e segue-o, até achar seu lar. Um apartamento com varanda, ela o deixa descansar e procura uma janela aberta. Abre a porta por dentro e o leva para sua cama. Deitando-o lá, fica parada, observando-o dormir. Em seu pescoço, uma veia pulsa, mexendo com os instintos animais de Milena, que fecha os olhos e sai pela janela, voando para a noite.