Olhos da Meia-noite
14 Corrigindo um Erro
Notas iniciais
Milena entra na mansão e anda de um lado para outro, furiosa. Lady Anthonya desce as escadas e sente o cheiro do ódio, impregnado na sala de estar.
— Aconteceu alguma coisa? Chegou cedo e senti o cheiro de preocupação...
Milena se vira bruscamente.
— Fale a verdade!
— Que verdade? Do que está falando?
— Não existe esse negócio de humanidade, né? É tudo uma farsa!
— Por que está dizendo isso? Existe sim, é claro! Você deixa de matar humanos, vai se tornando mais humana e morre para atingir o Saraha, o Paraíso.
— É exatamente isso! Deixar de matar humanos! Nunca deixamos de matar humanos! Aqueles que estão lá no porão, aqueles miseráveis também são humanos! Estavam em seus lugares, quietos, quando um vampiro chegou e os tirou de lá, trazendo pra uma prisão pra servir de comida de abutres!
Lady Anthonya olha fixamente para Milena.
— Não estou entendendo você.
— Está sim! Aqueles que estão lá embaixo, mesmo que sejam marginalizados pela sociedade, também são humanos. Estamos matando humanos! Não há o controle da Shufi!
Lady Anthonya larga seu corpo num sofá.
— Zían von Ahzan!
— A quem estamos tentando enganar?
Lady Anthonya olha para Milena, respirando fundo.
— Entendo. Mas vivi durante séculos numa época em que negros, mendigos, indigentes e prostitutas nunca foram seres humanos, e hoje não é muito diferente dos séculos anteriores. As pessoas apenas fingem que aceitam, mas por dentro, continuam as mesmas preconceituosas. Bem... me perdoe... eu só queria fazer o certo...
— Não é certo pisar na classe mais baixa para atingir os próprios objetivos. Aprendi isso quando era humana... aprendi isso... com minha mãe.
Lady Anthonya olha para Milena, que se ajoelha diante dela.
— A senhora vai continuar sendo minha mãe. E se quisermos deixar essa eternidade para vivermos uma eternidade no Saraha, se quisermos nos tornar humanos de novo para morrer em paz, temos que parar de matar humanos, e isso inclui nosso rebanho no porão.
— Vamos enfraquecer a cada dia!
— E se enfraquecermos, o que vai acontecer?
— Não vamos poder lutar contra outros vampiros. Poderíamos até ser derrotadas por castas e gerações mais fracas que a nossa. Ou também enfraquecer até...
— ... morrer! Exatamente.
As duas se olham por um instante em silêncio, quebrado por Lady Anthonya.
— O que você sugere?
— Vamos libertá-los. Todos. Devolvê-los de onde tiramos. Causaremos neles perda de memória seletiva e os devolveremos. Poderão voltar à vida que levavam antes sem se lembrar de nada.
— É uma idéia.
— É uma ótima idéia. E vamos fazer isso agora.
— Agora?
— Sim.
Milena se levanta, estendendo a mão para sua Senhora.
— Vamos.
As duas se levantam e saem da sala. Aquela noite, muitos voltaram a sua vida, sem explicação alguma. Em um albergue, dois mendigos há muito desaparecidos retornaram, sem se lembrarem de nada. Quatro prostitutas são deixadas na frente de uma casa de massagem. Quatro homens maltrapilhos são deixados em frente a uma delegacia.
Finalmente, Milena e Lady Anthonya sentem-se bem, agora, a humanidade parece estar bem mais perto. Estavam-na procurando de maneira errada. Por isso ela parecia tão longínqua, tão impossível, tão intangível. Agora, corrigido o erro, poderiam sonhar com o Saraha, o Paraíso. Ainda havia um grande obstáculo a ser enfrentado a ferro e fogo: a Shufi, que não seria fraca, seria de uma forma como jamais em suas vidas sentiram, e jamais sentiriam.
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