Olhos cruéis
1 Lasca
Você nunca o viu chegando, mas, Merlin, como sentiu.
No começo, quando nada aconteceu — longos segundos agoniantes de puro terror no qual seu cérebro quase torrou por se forçar a lembrar de todos os efeitos de uma maldição que você nunca jamais ouviu falar — você deu um longo passo e abriu a boca para zombar da ineficácia de seu sangue — apenas outro lembrete sensato de um grande amigo da escolha terrivelmente vulgar de seu pai — mas no segundo seguinte sua varinha caiu de sua mão e de repente, parecia que todo o seu corpo estava sendo cortado em todos os pontos visíveis. A sensação era horrível — pior que todos os Cruciatus que você experimentou durante o verão graças ao terrível desempenho do pai na última missão do Lorde das Trevas. Preso naqueles minutos sem fôlego, você nem percebeu quando se ajoelhou e seu corpo caiu no chão, tudo o que registrou foi a dor no peito e o grito engasgado que morreu sufocado na garganta.
Merlin, parecia que até sua garganta estava queimando.
E mesmo com sua visão assustadoramente embaçada, você ainda pode ver o sangue — o tom escuro e detestável, o pecaminoso vermelho que parecia tão errado em contato com sua blusa branca amassada, tão molhada quanto a gravata verde sufocante.
O som da água correndo encheu seus ouvidos surdos, e como se fosse uma fungada de ar, a cabeça clareou ao compreender os eventos do que acabará de acontecer.
O quê-
Você engasgou — o propósito da maldição não era infligir dor psicológica, como você pensou ao sentir seu corpo perder suas forças e tombar no chão frio.
Não, foi muito pior.
E por um momento, em meio a toda aquela dor e queimação, você quase admirou ele por conhecer uma maldição tão sombria, tão inquestionavelmente cruel que só poderia sair dos livros envelhecidos da enorme Biblioteca dos Malfoy. Por um momento você se recriminou, o pai teria ficado tão satisfeito se você soubesse de antemão conhecimento dessa maldição que o Garoto de Ouro manejou tão ardilosamente. Na certa, estava guardando para o Lorde das Trevas. Mas você duvidara que o Lorde das Trevas não soubesse a contra-maldição, afinal, ele dificilmente passaria horas a fio no ar, procurando por uma bola de ouro com Blaise e explorando o Mundo Trouxa com Pansy.
De repente a dor diminuiu, até que finalmente cessou, mas tal ausência só lhe deixou mais consciente da sensação de milhões de cortes em seu corpo. Diante de tamanha dor, você tentou respirar, mas tossiu.
Sentiu algo deslizar no canto de sua boca. Com indisfarçavel dificuldade você levou uma mão trêmula aos lábios, quase sentiu horror por imaginar que babava, ali, na frente do Escolhido. Sangue pintou seus dedos pálidos e cadavericos. O mesmo sangue que parecia rodear seu corpo em uma enorme poça de água suja.
Seu estômago embrulhou.
Você nunca pensou muito sobre a morte ou como morreria, mas como um Sonserino, sabia ser realista. Você sempre esteve preparado. Afinal, sabia que todos morreriam um dia. Até seu avô Abraxas, um bruxo muito forte segundo seu pai, havia morrido após contrair a Varíola de Dragão.
Portanto, você não ficou surpreso quando foi atingido pelo sentimento de resignação.
Se morresse ali, não teria que completar sua missão. Ou falhar, como já estava convencido. Era impossível que você pudesse matar um bruxo tão poderoso quanto Dumbledore, ainda mais com o Garoto-Que-Viveu em seu encalço e respirando em seu pescoço a cada cinco minutos.
Sua única saída era o armário, que passara noites tentando consertar, mas sem sucesso.
Você forçou sua visão que estava um pouco escura, e grandes olhos verdes entraram em foco. Oh, eles pareciam tão verdes. Podia até diferenciar todos os tons de verde que não conseguia ver na troca de aulas e corredores cheios. Tão belo, o pensamento ganhou vida, eu não me importaria de morrer se essa for minha última visão, respirou sem seu consentimento. Espera, o quê? Você franziu a testa se perguntando de onde veio isso. Seu lado Sonserino estava indignado — deveria lutar, gritar por ajuda, forçá-lo a dizer a contra-maldição já que você era tão jovem e, oh, sua mãe, ficaria tão sozinha e triste por vê-lo nada menos que perfeito em suas vestes — mas Murta-Que-Geme já estava fazendo barulho suficiente pelos dois. Por um horrível momento, quando pensou que não demoraria muito para seus ouvidos sangrar também, a garota pareceu silenciar de repente e você finalmente descobriu a causa ao ter tempo suficiente de ver fios pretos atravessar as paredes. Você podia até imaginar a garota nos corredores procurando alguém, alguém que pudesse cessar o sangramento do garoto bonito que chorava secretamente no banheiro das meninas e enchia o ambiente com suas reclamações constantes e lamentos da sua premeditada morte. Quase sentiu vergonha –imaginando as palavras constrangedoras saindo da boca mal costurada e nascendo outro boato pela qual seria motivo de risos no Grande Salão – se houvesse espaço para sentir qualquer coisa além dos cortes borbulhantes.
Como queria rir. Estava morrendo – admirando os olhos do seu inimigo. Estava sem tempo – se preocupando com sua imagem. E estava ficando louco – porque aqueles olhos cruéis, ora divertidos, dificilmente pareceria conter mais da metade do sal da terra – por sua causa talvez, na frente de estudantes risonhos, com o punho machucado e sem fôlego, como se não pudesse evitar, mas nunca por você.. — De jeito nenhum ele choraria por você. Era apenas alucinação. Perda de sangue, pensou. Era isso.
"M-Malfoy?" ele murmurou, sua voz sufocada, quase como se tivesse sido ele a sentir o impacto de tantas espadas. "Você pode me ouvir?"
Não. Não era.
"Tente ficar acordado. Estou... Estou ouvindo passos...Só pode- Deve ser Snape." Os lábios cortados formavam palavras numa velocidade alucinante que você só conseguiu entender por causa do quão silencioso estava o lugar. "Merda, você percebeu que ele está sempre lá para te salvar?" Ele respirou profundamente. E só então você notou, surpreso: Potter estava com medo. Algo que você nunca conseguiu produzir nem com suas maiores ameaças. Mas é claro. Muitas pessoas entrariam em pânico com a perspectiva de cometer um assassinato. E ele era um Grifinório, afinal.
Ele deu uma risada entrecortada, e com fascino, percebeu que as linhas de seu rosto estavam tensas, mas nada realmente tão revelador que mostrasse o motivo do tremor de suas mãos.
Mas você não precisava de mais palavras. Aquele era Potter. Que recusou sua mão tão desafiadoramente, mas olhou tão confuso como se não soubesse para quem estava olhando, para quem estava recusando. Mas não era possível, em pouquíssimos minutos, ele te tratou como se conhecesse você a vida toda. Como se tudo que você fez de errado, as falhas que desesperadamente escondeu, a irreconhecível prova que respirava quente no seu pescoço e apertava seu coração, mas que nenhuma pessoa deveria sonhar, afinal, ele sabia. E você odiou. Odiou como sua mão tremeu e escondeu rapidamente no conforto do manto. Por semanas, se perguntou se o Garoto-Que-Viveu teria usado um Vira-Tempo. Teria você, traído seu companheiro de quarto após ele aceitar sua mão? Teria ele, descoberto o plano perverso do pai? Teria você, permitido que ele soubesse seus piores segredos? Ele estava lá quando a mãe chorava, bêbada demais para se recompor, jogando taças e vasos de cristais nos elfos? Ele estava lá, quando o pai lhe deu um tapa e abriu crostas com seu cinto italiano? Ele viu algo que revelou suas preferências abomináveis? Ele notou que você era um hipócrita covarde? Como ele podia lhe conhecer tão bem naquela rápida troca de palavras? Ele sabia de Theo?
Talvez você estivesse louco, talvez tivesse perdido muito sangue, ou estava apenas alucinando, mas poderia jurar que sentiu Potter acariciar seu cabelo. Não como um toque fantasma. Dedos firmes lentamente manobrou para longe os fios cegantes que caiu no seus olhos. Você nem notou, até que os dedos seguiram, hesitante, quase com medo mas que achasse que não teria outra chance, para tocar mais profundamente nos fios desprotegidos. Quase pareceu um toque carinhoso.
Quase fechou os olhos, quase suspirou com aquele delírio. Quase ruiu. Se não fosse pela dificuldade que produzia fazer qualquer uma dessas coisas. Espere, seus olhos realmente pesavam tanto assim? Você fez um tremendo esforço para manter as pálpebras bem abertas. Tentou olhar ao redor, procurando a figura escura que deveria estar ao seu redor, amaldiçoando alto. "Que diabos você fez?" quase escutou a voz perfeitamente escandalizada do padrinho. Não. Espere, era a voz de Potter que ouvia formando sons embolados? Não percebeu. Como não percebeu que ele estava falando?
"...E pelo resto do ano, a professora McGonagall nunca mais me deixará perto de algo sobre quadribol novamente, e Snape vai-"
Snape vai o quê? Estava ficando difícil entender o que Potter estava falando. Talvez fosse algo sobre Quadribol? Não, ele disse Snape. Era algo sobre o Professor Snape. Poções? Mas Potter odiava Poções.
"...Ron vai dizer que eu sou um... então... Hermione vai ficar do lado dele como sempre e... Não se preocupe, eu sei..q..."
Quis gritar. Do que diabos ele estava falando? Mais da maioria do piso estava vermelho, duvidava que a água tiraria, sangue seco enferrujado nas linhas separadas dos azulejos.
Era tão malditamente difícil respirar agora, o ar que entrava em seus pulmões estava queimando, queimando você por dentro e por fora. Nunca jamais cairá de uma vassoura. O céu era seu mundo. Mas imaginou que a sensação seria assim. Ossos doendo, queimação e falta de ar. E então, sangue fluindo naturalmente como água flui de uma torneira.
Queria tanto fechar os olhos e acreditar que alguém o encontraria, curaria e que não morreria ali, no banheiro feminino e pela varinha do Menino-Que-Viveu – no entanto, pensou em sua infância, como se realmente tivesse um vira-tempo. Recordou com precisão o desprezo do pai, os olhos cinzas enojados que dizia claramente você não é meu filho – Tantos copos de whiskey, a enorme casa vazia e solitária, os natais desperdiçados com velhos chatos do Ministério e nunca abrindo presentes ou recebendo abraços. Sempre observando as crianças trouxas brincando da janela, fazendo multidões de bonecos na neve, rindo e livres. Sentiu vontade de vomitar. Só não sabia o que. Então viu Theo. Theo com um grande sorriso, com olhos verdes-mel, apertando sua mão, Theo com a testa franzida descobrindo o faz de conta, descobrindo as escapadas pelo mundo Trouxa, descobrindo sua secreta inveja, descobrindo as brincadeiras com os elfos, descobrindo a coroa de gravetos e os pavões, os súditos. Theo com lábios sujos de framboesa. Theo, com nojo. Theo empurrando seu corpo no chão. Os belos lábios inchados formando palavras cruéis nos dentes irregulares. Oh, não, não, não. Não vá. Eu serei melhor. Theo, dando um passo para trás, o grito preso em suas belas feições, confusas.
Pensou na vestes, brancas, imaculadas, límpidas, que você nunca teria o prazer de usar. Pensou no escritório de St.Mungos com seu nome na porta. Pensou nos dias cansativos que teria e pensou nas sextas onde iria ao bar e esqueceria todo seu cansaço por encontrar seus amigos. Voltou um pouco. Pensou no pai, nas vestes desgastadas por traças, sujas de lama, no ratos ruidosos, no chão enlameado da masmorra úmida e esquecida por Deus. Pensou no fim da guerra: viu-se na cela suja de Azkaban, enlouquecendo, revivendo as intermináveis torturas, os cruciatos, as surras do pai, o rosto de Theo tão traído, os olhos com olheiras da mãe lhe culpando por tudo; na enorme boca de Nagini, a baba caindo tamanha fome e desejo; o Lorde das Trevas gargalhando. Pensou em Pansy que talvez nunca admitiria que o culpava pela morte de Theo. Pensou em Blaise dirigindo um Casino, Potter casado com a garota Weasley e três filhos -
Por fim, pensou em Potter rindo com os Weasley ao dar-se conta do fim da orgulhosa família Malfoy.
Tentou lembrar da mãe, tão jovem e brilhante quanto nos álbuns, rindo e feliz; mas como nos álbuns, perdendo o sorriso fácil, você nascendo, o pai frio e afastado — quase nas bordas comidas, vocês envelhecendo, olhos vazios e insatisfeitos. Sozinha, sozinha, sozinha.
Pensou na mãe sozinha na mansão... Então, abrindo a porta e vendo sua tia Andrômeda com uma caixa de chá; e sentiu o ar entrar no seus pulmões. Mas não por muito tempo.
Pensou em todos os seus arrependimentos, todas as falhas que cometeu até ali mas não sentiu que poderia ser diferente. Não sentiu que poderia ser de outra forma. Nunca quis nada – nem mesmo vencer uma guerra ou amaldiçoar a vida de outra pessoa ao colocá-la no mundo – e não sentia que tinha algo a perder por não achar inadequado o pensamento de não ter alguma ambição para marcar sua pequena existência. Também não havia nada que pudesse lhe prender naquela massa de infelicidade constante.
Então mais relaxado, fechou os olhos pela última vez...
"Ei... Por que você está fechando os olhos? N- Não feche os olhos ... Malf-"
...finalmente livre.
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