Olhos Verdes
11 Capítulo 11
Chegou na escola mal humorada; passara a noite anterior divagando sobre as últimas palavras de Louise. Olheiras se estendiam por baixo de seus olhos caídos, e ela foi se sentar na última carteira como sempre. Mal olhou para Louise quando ela chegou e colocou sua mochila ao seu lado, respondeu um “oi” despreocupado e saiu da sala para beber água. Demorou-se no final do corredor perto do bebedouro até o sinal tocar, quando passou as três horas seguintes olhando da janela para o professor, nunca passando os olhos para o lado de Louise.
No recreio enquanto passava pela porta sentiu um toque no seu braço e deu de cara com Louise.
— Vamos andar por aí um pouco – pediu ela.
Beth assentiu com a cabeça e vagaram pela escola, no início sem falarem nada.
— Você está meio estranha hoje. – acusou Louise de repente. – Aconteceu algo?
— Ah, não sei. – respondeu ironicamente – Afinal não tenho motivos para estar assim. Alguém me beijou ontem e depois disse que não gostava de mim. Mas acho que isso deveria me fazer extremamente feliz, não é? – carregou no sarcasmo.
— Beth – ainda se surpreendia como seu nome soava bonito em seus lábios – Não é que eu não goste de você, é simplesmente que não sei. Não sei o que fazer, não sei o que quero de você, não sei o quanto gosto de você.
— Em outras palavras, não sabe se já pode esquecer David, não é? – supôs Beth.
E pela cara de completa ruína que Louise fez, acertara na mosca.
— Ele se foi, Louise, se foi. Já era, se mudou, desapareceu, faz seis meses. Ele não vai voltar você tem que esquecer isso.
— E olha quem fala. Sua irmã morreu há um ano e você ainda carrega esse seu cadeado. Já devia ter parado com isso, você sabe que a culpa não é sua, mas continua se torturando por causa disso.
Era incrível como cada uma parecia compreender os pensamentos mais íntimos uma da outra com tanta facilidade. Permaneceram em silêncio por um longo tempo.
— Sabe o que é, acho que nós duas devíamos nos livrar desses cadeados.
Beth falou, mas não fez a mínima menção de realizar aquilo. Era obviamente o certo a fazer, enterrar o passado, seguir com a vida, mas parecia impossível. Era como se aqueles cadeados estivessem cravados em suas peles.
Ela cerrou os olhos e mergulhou no escuro por alguns segundos, se concentrando do vozerio baixo das centenas de alunos da escola que chegava distante até seus ouvidos.
— Acho que devíamos mesmo. E quando terminarmos com isso, quem sabe...
Louise deixou a proposta não proferida pairando pelo ar. E Beth concordou com a cabeça. As duas entendiam, as duas concordavam.
Chegando em casa, Beth começou a refletir sobre como iria fazer isso. Parecia praticamente impossível, uma traição completa deixar a única lembrança que ela tinha de sua irmã para trás. Enquanto os dias passavam este problema ia se tornando cada vez mais distante, perdido entre os beijos que elas davam durante o recreio e o tempo que passavam juntas. Vez ou outra levantavam o assunto.
— Sabe, às vezes quando estou com você parece até possível eu esquecer David. – comentou Louise uma vez.
Talvez amor ainda estivesse um pouco distante, mas era uma questão de tempo, de deixar que tudo criasse raízes e se fortalecesse. Ou assim pensava ela.
Estavam andando pelo shopping calmamente, olhando as vitrines. Acabaram entrando em uma grande livraria, serpenteando entre as estantes procurando alguma seção agradável, sentando ora em um sofázinho ora recostadas nas prateleiras folhando algum exemplar.
— David. David. – repetiu Louise, num tom de voz tão baixo e cheio de pânico que assustou Beth.
Olhando em volta, ela seguiu seu olhar até dar em um homem de cabelos dourados, olhos verdes, absorto nas páginas de um livro em um canto da livraria. Sentindo um solavanco no estômago, Beth apertou o mais forte que pode a mão de Louise, sem saber a quem queria reconfortar: ela ou a si mesma.
Notas finais
review nao mata ninguém, okks ?
Fale com o autor