Olhos Verdes
1 Capítulo 1 - Pela Primeira Vez
Primeiro dia de aula. Uma maravilha. Lugar de sempre. Ultima carteira na última fila ao lado da janela. O professor entra. Cumprimenta a todos. Senta.
Cronometricamente perfeito.
E então uma menina estranha entra na sala.
Seus movimentos são leves, mais uma daquelas fadinhas. Cabelos longos e castanho-escuros. Mas o que eu primeiro noto são seus olhos, de um verde profundo. E o que eu primeiro penso é que são olhos profundos demais para ela.
Para com isso, pensei quem é você para falar dos outros ?
Pausa nos pensamentos.
Não estou no direito de julgar os outros. Não sendo quem eu sou.
A menina agora está andando entre as carteiras, se senta ao meu lado, quase semolhar em volta. De algum modo talvez ela seja diferente. Não olhou, pensei...
Sim. Alguém não olhar para mim era definitivamente estranho. Incomum pelo menos.
Não que eu tivesse algo de diferente, ou especial. Nada disso. É só por que, por algum motivo, eu atraio o olhar das pessoas.
Apesar de eu ser uma pessoa normal.
Meus cabelos são negros, longos, lisos, caindo em cascata até a cintura. Meus olhos são azuis. Insuportavelmente azuis. Já haviam me dito que eram azuis como o céu de um dia de verão, daqueles em que você se perde olhando para o horizonte. Alguns anos depois, eles haviam mudado. Agora eram azuis como gelo, acinzentados, frios. Mas para mim, tanto faz.
Minha pele era branca, bem clara, num contraste permanente com as roupas pretas que eu costumava usar. Fazia algum tempo, que eu, mesmo sem perceber, começara a usá-las. Não por um estilo ou uma modinha, apenas pelo fato de que eu já não conseguia mais ver no espelho alguém que usava roupas coloridas, alguém como todo mundo; para mim essa não era eu.
Ou quem sabe, essa era apenas eu fazendo drama. Não sei. Só sei que as pessoas costumam olhar para mim. Me encarar. Como se estivessem se perguntando o que eu estava fazendo ali. Não sei exatamente o que é, parece que todos param ao se deparar comigo e uma expressão indefinida toma conta de seus rostos, algum pensamento universal dirigido à mim, que sou incapaz de decifrar.
Meus pensamentos voavam aleatoriamente janela afora, pelo céu nublado. O barulho das conversas ecoava infernalmente pela sala. Um barulho com o dom de me deixar com uma dor de cabeça terrível. Já estava até acostumada.
Alguns alunos se ajuntavam em torno da carteira ao meu lado.
“Qual o seu nome?”,
“De onde você veio?”,
“Está gostando daqui?”,
jogavam perguntas superficiais para cima dela.
Ela falava pouco.
Foi por um instante, quando ela desviou o rosto para o lado, que eu tive a impressão de que ela não queria falar, não queria saber daquelas pessoas, de ninguém, queria fugir. Só uma impressão estranha, no segundo seguinte ela sorria olhando para a frente.
Agora estavam finalmente todos sentados, mas o barulho continuava, as conversas nauseantes. Fechei os olhos brevemente, como que tentando ensurdecer-me ao ruído. Sem sucesso. De olhos fechados, as palavras invadiam meus ouvidos. Abri-os novamente, encarando o teto;
Foi então que a menina virou-se para falar comigo.
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