Olhos De Dante
18 Trabalho
Descendo o desfiladeiro pela trilha, a pé, eles chegaram a um enorme portal de rochas negras, que se estendia como muralhas de ambos os lados, circundando todo o perímetro da área 999. Rodeado de inscrições e floreios arcaicos, uma gárgula se mostrava entalhada no meio, impedindo o caminho. A enorme estátua, apresentando suas enormes asas com penas esculpidas e o dorso animalesco remetendo felinos quiméricos de pedra, possuía grandes e vívidos olhos vermelhos, um rabo pontiagudo e pequenas fendas de erosão e ervas daninhas apoderando-se de suas estruturas. Assim que chegaram próximos a ela, a mesma se mostrou viva, abrindo suas asas e rugindo irritada ao ser acordada.
— Apresentem-se — disse com uma voz grave.
— Novas almas, Megera — a cogere precipitou-se em direção à estatueta viva.
— Não — urrou de ódio — Você mente! Sinto cheiro de vivos.
— Estão todos mortos, deixe-nos passar — sua voz firme se mostrou decidida.
— Prove-me.
— Olhe as correntes — apontou para elas — Não tarde meu trabalho, deixe-nos passar — disse séria.
— Deixarei — e dizendo isso pensativa, alçou voo contra a própria vontade, sobrevoando o lugar para que as almas tivessem passagem.
Do lado de dentro, pequenas moradas se faziam visíveis inicialmente. Eram moradias simples, de tijolos e madeira, com alguns cômodos e, de acordo com a curvatura dos limites subterrâneos, iam se distribuindo verticalmente, apoiadas nos morros, e quando não, somente fixadas nas rochas onde várias pontes suspensas de madeira detalhadas com suportes em arcos seguiam se distribuindo e interligando-as. Pensaram se tratar de habitações para almas ascendidas, depois, casas de almas em martírio, mas o real motivo das casas não lhes foi claro, pois nelas viviam a prole dos anjos caídos em eterna danação, demônios renegados, mas falaremos deles mais tarde. As almas, por si só, vagariam ao trabalhar, sem descansar ou ter onde residir. Havia, em contraste, grandes construções de pedra e ruínas, internatos, para onde seguiam as almas infantis, dos quais falarei em outro livro.
A má iluminação, proveniente das tochas e do fogo que surgia das crateras no horizonte, dava ao ambiente um aspecto sombrio, propriamente de uma área infernal em harmonia com o teto da cavidade. O aspecto rústico e medieval ainda era visível ali. Pareceu a Maria que Beatrice havia se esquecido dessa área quando dissera que a modernidade chegara ao inferno. De certa forma, ela estava certa, aquilo era muito mais moderno do que fora um dia. Nas moradias, almas e demônios conviviam, onde elas deveriam ser suas escravas trabalhando com todo o tipo de tarefa execrável.
Alice havia se rendido e já estava andando como os outros, mesmo que de má vontade. As ruelas estreitas de paralelepípedos estavam bem movimentadas naquela hora, e todos que passavam perto do grupo encaravam-nos com olhares curiosos. Uma sinfonia de gritos e lamentações se fazia audível como trilha de fundo. As pobres almas cobriam-se por fuligem, mesclada à sujeira, terra e sangue ressecado, de marcas profundas, ferimentos abertos, pústulas e queimaduras, que preenchiam seus corpos. Vestiam trapos comuns, de pano, imundos por nunca terem a oportunidade de trocá-los e andavam descalços, sôfregos e exaustos pelo calor avassalador.
Para Norman, o olhar triste de todos era incômodo. Ele não sabia se estavam tristes pela chegada deles ou se aquele ambiente deixava todos com a mesma expressão perpetuamente. Passaram por boa parte da área, adentrando túneis escuros e pontes que ligavam bem as duas partes da área, separadas por um rio negro que mal cheirava.
— O que este rio faz aqui? — questionou Dimitri — enquanto caminhava pela ponte de pedra.
— É um afluente do Estige. Como pôde ver, não mais povoado por almas.
— Mas mais poluído que qualquer um que conheci em vida.
— Do mesmo modo que vocês, também apresentamos problemas com contenção de resíduos. Antes dejetos do que vocês, suponho.
Ninguém discordou.
Após andarem mais pela área, presenciando aquela realidade de perto, chegaram próximo a uma grande mansão centralizada na área, envolta por muros altos. Foram até o enorme portão metálico que se encontrava fechado. Assim que se aproximaram todos, reunidos frente à porta, a cogere bateu em sua superfície com o batedor de ferro três vezes, e, depois de certo tempo decorrido, ela se abriu vagarosamente pelo peso.
O interior era diferente do ambiente lá fora. De arquitetura medieval, apresentava estruturas de pedras negras entalhadas, colunas gigantescas e abóbadas góticas distribuídas em seções. O salão inicial da mansão era iluminado por dezenas de lustres baixos, que emitiam uma luz fraca ao ambiente dando-o seu aspecto fantasmagórico. Todos os demônios oficiais os aguardavam. Situavam-se em fileira no saguão, fazendo um corredor para o interior do mesmo. Vestiam roupas distintas, alguns com calça jeans e jaqueta de couro, outros com roupas mais formais, e as demônios femininas vestiam de capotes negros e calças coladas a vestidos provocantes. Todos poderiam ser considerados belos pelo padrão de beleza usual, mas possuíam seu diferencial. Olhando para eles com a mesma expressão curiosa que as almas recém-chegadas, os demônios se mantinham parados no salão em sua postura militar. Eram seres semelhantes a humanos comuns, exceto pelas modificações corporais que possuíam, características de animais diferentes. As novas almas adentraram seu aposento, curiosas com o recinto sombriamente convidativo.
— Sejam bem vindos à área 999 — disse um homem de longos cabelos dourados e sotaque pomposo e delicado, encantado com a chegada de seus novos cativos, levantando-se de seu trono de ouro no interior do saguão, situado sobre um patamar no alto de uma escadaria de mármore. Algo totalmente contrastante com o que haviam visto do lado de fora. Vestia um terno branco adornado de ouro. Vestes dignas de seu posto — Sou Marbas IV, presidente desta área infernal e vocês cinco são as novas almas, creio.
— Recém chegados, senhor — respondeu a cogere.
— Sim, sim — suas mãos com as palmas unidas batiam os dedos ansiosamente — Achei que viriam mais dessa vez, como antes. Estamos sofrendo um declínio populacional. As pessoas não morrem mais como antigamente, mas bom saber que chegaram sãs. Muitos se perdem nessa nova experiência e causam certos problemas. Problemas corrigíveis — observou.
— Não causarão problemas desta vez, senhor. São almas cientes de sua nova realidade — olhou para Alice, firme.
— Não teria tanta certeza, 476, muitas destas almas tem problemas quando se iniciam com o trabalho. Você sabe. Coitadas — disse complacente — Saibam que a trajetória de vocês cinco nesta área não se dará tão facilmente. Serão postos em seus lugares agora. Preparem-se para sofrer se for este o caso — sorriu malevolamente, mostrando seus dentes brancos e alinhados com o rosto fino — Afinal, estão no Inferno — e dito isso, ele tornou a se sentar — Estejam prontos para suas tarefas. Nossa secretária, Elizabete os explicará atenciosamente. Que tenham uma duradoura e árdua jornada pela frente — sorriu novamente.
Todos assentiram calados com suas palavras, menos Maria que continuou firme, com os olhos sérios fitando-o. Ela pensou em responder, mas a expressão com que os demônios a fitavam não era cordial o bastante para que fosse tão corajosa.
Com um sinal, Marbas dispensou todos.
A cogere os levou até uma pequena sala à parte do saguão de entrada. Andaram por alguns corredores bem ornamentados e chegaram a devida sala de encaminhamento. Num âmbito de escritório antigo, de paredes neutras, sem tantos equipamentos tecnológicos atuais, com máquinas antigas de impressão e computadores de telas negras e montes de papéis situados em mesas espalhadas. Os cinco chegaram com a cogere em seu encalço. Em direção à mesinha situada no meio, lá estava a secretária, uma rechonchuda de cabelos brancos e batom de um vermelho forte.
— Como já devem saber — disse, aprontando algumas resmas — trabalharão por aqui até que se elevem e partam para áreas diferentes, ou, na pior das hipóteses, decaiam. Situados na área 999 de 5 de Agosto estão sujeitos ao trabalho industrial de nosso ramo, sendo nossa área exclusivamente mecânica e metalúrgica, pois exportamos peças e outros materiais feitos a partir de áreas mineradoras. De acordo com o julgamento de cada um, deverão trabalhar no que foi decidido, por isso estou aqui para conduzi-los.
Ela se apressou em chamar um por um para se sentar a sua frente, começando a pegar um papel da lista.
— Maria e Alice — chamou, esperando-as — Como consta nesse relatório, trabalharão em meio período como operárias em nossa metalúrgica, e serão encarregadas de ficar no setor dos inermes com as funções de extermínio e recolhimento. Posteriormente deverão seguir para a casa de repouso da legião de Marbas onde serão responsáveis pela refeição dos demônios. O que eu digo, minhas caras, é que não será nada fácil.
— O que são inermes? — indagou Maria desconfiada.
— Criaturas não tão agradáveis e asquerosas que existem por aqui. São uma praga, e caberá a vocês e outras lidarem com isso. Diga-se de passagem que são vocês, mulheres a responsáveis pelo alimento principal de nossos demônios.
Sabendo disso, após assinarem seus nomes nas fichas correspondentes, as duas saíram dando lugar a Norman que se sentou calado, esperando em sua cabeça que algo acontecesse e o livrasse daquela situação.
— Qual seu nome? — perguntou curiosa.
— Norman Dumas.
— Você não consta no registro — a mulher disse coçando a cabeça — não sei o motivo. Talvez essa velharia aqui não tenha passado direito os dados — bateu numa máquina — Parece que ficará com a mesma função do outro — apontou para Dimitri — Mas é o usual, geralmente novas almas sempre tem o mesmo encargo. É o que posso fazer.
E dizendo isso chamou Dimitri.
— Você será transportador... Será encarregado de trabalho pesado, carregar grandes utensílios de metal nos braços, costas, como conseguir usar sua força. Você e Norman darão conta do recado — sorriu falsamente — Dispensados.
E ao dizer isso, levantou-se, pegando os papéis e aderindo aos montes.
***
A metalúrgica era enorme. Apresentava estruturas gigantescas de ferro que suportavam máquinas e vidros negros que cobriam boa parte das paredes repletas de janelas. Tudo era enferrujado e tom de cobre. Devido a estes problemas, as barras e os artefatos de metal produzidos ficavam isolados no subterrâneo para que também não estragassem com o tempo. Os trabalhadores não usavam roupas especiais e isso foi estranho para Norman, pois milhares de almas faziam o trabalho de solda e fundição em contato direto com resíduos de metal líquido e faíscas flamejantes sem esboçar qualquer reação. Andavam em fileira, derretendo metais e levando eles para as formas com a mesma expressão de sempre.
O primeiro dia não foi fácil pra ninguém. Como deveriam trabalhar por tempo integral, começaram logo, sem espera. A cogere os guiou individualmente. Primeiro os adultos e por último a criança. A todos era muito estranho já começar impacientemente o trabalho. A canseira psicológica de terem que fazer isso por tempo indeterminado era maior do que a física. Dimitri e Norman cooperavam no trabalho braçal, assim como os milhares de homens da metalúrgica encarregados da mesma função. Não era fácil se comunicar levando objetos gigantescos de metal nos braços, o esforço que faziam era mais do que espiritual, mas contava pra meta que deveriam atingir. Andavam de um lado para o outro no setor de armazenamento da metalúrgica, pegando os artefatos metálicos ainda quentes das formas nas mãos. Alice e Maria também cooperaram para ajudar a exterminar aquela praga que nunca acabava: Inermes. Uma espécie de larva enorme e sem garras ou membros, que comem metal e jorram ácido quando atacam. Algo totalmente nojento para as duas que deveriam matá-los com lanças. Sem qualquer tipo de proteção quanto ao ácido, elas deveriam se manter atentas e precisas no trabalho para não se ferirem gravemente. Mesmo que os ferimentos na metalúrgica fossem frequentes, as almas se recuperavam facilmente, entretanto a dor era a mesma da física. As larvas se situavam no térreo da indústria, onde se posicionava o estoque dos produtos. Norman e Dimitri trabalhavam próximos às duas, que não tão insistentes tentavam se comunicar, mesmo que meio a poças de ácido e restos de larvas.
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