[Alice]

Estava há exatamente duas semanas sem comer, desde minha morte. Era tempo o suficiente para sentir saudades de minha culinária e sentir em minha imaginação o cheiro de todos os pratos existentes e que nunca mais veria. Foi triste me arrepender de não ter experimentado tantas comidas que o mundo me proporcionava, sempre tendo a mesa o de sempre ou o que a sorte me oferecia. Não que tivesse tais luxos com comida, mas a saudade até mesmo de um simples hambúrguer de esquina molhava minha boca. Como alma, não era necessária minha alimentação, mas se sentir reclusa de tal sentido era terrível.

Pensava sobre isso enquanto tostava inermes, as larvas mais nojentas que se tinha notícia naquele lugar, resultado do dia de trabalho pesado na metalúrgica. Passei o resto do dia no fogão à lenha. Fui interrompida por Maria às pressas, esquecendo-se de por as ervas no ensopado que fazíamos. Era uma panela gigante, capaz de nutrir meio batalhão de demônios esfomeados. Os demônios, os comuns, eram figuras simples e robustas, parecidas com nós, meras almas, com a exceção de possuir elementos animais em suas pessoas. Rabos, orelhas, ou mesmo os conhecidos chifres e córneos eram os mais presentes. Quando sua forma original se dava, eles se transformavam em quimeras, ora aladas, ora corneadas, ora coriáceas ou outro tipo de característica animal. Tudo dependia da junção animal de sua natureza. Não eram seres tão belos de se apreciar, mas mesmo assim interessantes.

— Não é meio machista que só mulheres trabalhem com isso? — questionou Maria depois de certo tempo, limpando o suor da testa.

— E eu lá sei? O inferno nunca me pareceu correto o bastante para trazer igualdade.

Um cheiro forte de queimado invadiu minhas narinas assim que notei que os inermes estavam passando do ponto de grelhados para torrões.

— Droga! Queimei... — exaltei-me, retirando os inermes queimados direcionando-os para o lixo, localizado no canto mais próximo da cozinha.

— Quem se importa? — Maria riu — Jogue isso no meio, nem vão perceber. Não precisa ficar com frescura com comida por aqui. Eles comem qualquer coisa sem reclamar.

A cozinha da legião de Marbas era assombrosa. Composta de tijolos recobertos de fuligem por todos os cantos e pisos grudentos de sujeira, a higiene ali era deixada de lado. Por mais que algumas almas limpassem incansavelmente as paredes e o chão de modo inútil, elas nunca clareavam. Em alguns cantos, o bolor crescia e nada conseguia fazer com que saíssem dali. Dezenas de mulheres ajudavam nos preparos dos inermes e nós duas destinadas ao fogão. Deveríamos servir ainda por cima, assim como as outras almas, segundo ordens do líder da casa. A casa de repouso da legião se situava no norte da área, onde chegávamos depois de um dia cansativo de trabalho na metalúrgica recolhendo inermes e os trazendo para a cozinha. O trabalho manual de descascar o bicho morto demorava horas. Depois que tiravam a casca, retiravam todo o ácido em uma bacia básica. E depois disso, retirado o ácido, com o sal, ia para o forno para depois ser adicionado à sopa. Aqueles demônios só comiam isso.

— Estão chamando a refeição — disse atenta — Vá para a mesa — chamei a atenção de Maria que estava envolta com o caldeirão.

— Já vou, já vou. Mas acho que tentarei algo...

— O quê? — perguntei curiosa fitando seu semblante risonho,

— Vamos experimentar? — riu.

— Está louca?! Que nojo... Estão nos observando! Nem pense em fazer algo assim.

— Ah, qual o mal de experimentar um pouco? Chineses comem larvas e não estão reclamando. Não sei o que é molhar a boca há muito tempo — e dizendo isso colocou um pouco da concha que usava para pegar a sopa na região inferior da boca, assoprando para beber.

O gole se seguiu de uma súbita cusparada no chão com um grito de repulsa.

— É horrível — disse fazendo cara de azedo — Não tente.

— Isso nunca se passou pela minha cabeça. É claro que não tentarei, mas... me diga, tem gosto de quê? — perguntei curiosa.

— De metal — respondeu ainda terminando de cuspir o pouco que bebera da bebida — O que não me espanta, já que essas criaturinhas não comem outra coisa.

Arrumando a sopa em grandes terrinas de argila, Maria se adiantou para o outro salão, onde metade da legião de Marbas se encontrava faminta. Haviam acabado de voltar de uma incursão demoníaca. Isto é, haviam voltado da Terra, onde exerciam seu trabalho exaustivamente. O trabalho de demônios ultimamente se limitava em atentar e desgraçar as vidas das pessoas, segundo o que ouvi dizer. Mas talvez fossem apenas escravos como nós. Seguiam ordens como nós, aparentemente. Eu não sabia a origem de demônios, mas perguntei-me internamente se eram mesmo anjos caídos. Definitivamente, não parecia que um dia o foram.

Maria ergueu a bandeja com a terrina sob a mesma. Repeti o ato com outra e nos direcionamos ao cômodo adjacente. Sob a enorme mesa rústica de madeira, dezenas de demônios jaziam sentados em cadeiras de mesmo estilo. Vários cortes diferentes e excêntricos de cabelo se mostravam na legião, assim como várias tonalidades de pele, mas ignorei quem eram e prezei por fazer meu trabalho. Maria e eu chegamos juntas e servimos a mesa com as sopas, acompanhadas de outras almas que faziam o mesmo.

— Isso — o demônio próximo a mim disse lambendo os beiços — Demoraram, hein — sorriu. Ele apresentava dois rabos grandes de javali no traseiro e remexia-o muito. Vestia roupas comuns, do dia-a-dia e possuía uma barba rala na face.

Respondi sorrindo, enquanto ele me olhava de uma forma diferente. Suas íris verdes me perscrutando, com algum tipo de intenção que não entendi na hora.

— Deve estar uma delícia — deu um sonoro tapa em minha bunda e me dispensou.

Petrifiquei-me. Àquela altura, essas coisas ainda aconteciam. Deixei-me esfriar e logo ignorei o ocorrido como se nada tivesse acontecido.

— Quer alguma outra coisa? — perguntei gentilmente, mas com os olhos frios de ódio.

— Quero seu corpo, gostosa — agarrou-me brutalmente pelos braços, puxando-me ao beijar a pele dos meus seios. Sua cabeça enfurnada em meu decote deixou-me assustada, ele exalava um cheiro podre e rançoso que não queria sentir próximo. Passou por toda a região até subir meu pescoço com a língua fria. Tentei soltar-me inutilmente, mas ele segurava com força, logo pisei em seu pé apoiando todo meu corpo na área. Passei meu braço por seu ombro enquanto a outra mão descia pelo seu abdome. Um soco veio em seguida com toda minha força entre as pernas do demônio, derrubando-o, e, por fim, ele me soltou.

Observei-o caído no chão, e em seguida chutei seu rosto com violência. Seu nariz começou a sangrar imediatamente. Ele gritou de dor enquanto eu arfava de ódio. Todos os demônios da mesa presenciaram a situação quietos. Alguns riram, mas a maioria ignorou.

— Vadia! — gritou em minha direção, levantando-se pronto para me agredir.

Foi mesmo rápido quando Maria pegou a grande terrina e entornou o caldo fervente no rosto do demônio, que gritou de dor cobrindo as mãos no lugar que queimava.

— Peguem as duas! — ordenou, enquanto gemia de dor.

Dois homens enormes se adiantaram para nós duas, segurando nossos braços atrás de nossas costas, impedindo-nos de se soltar. Um apresentava garras e me feriu o braço, perfurando-as na carne. O outro, de olhos alaranjados, sorria malevolamente com Maria nos braços. Eles chutaram nossos joelhos por trás, fazendo nos caírem enquanto andava nos arrastando pelo chão da sala. Levantei, assim como Maria em seguida.

— Desgraçados — proferi nervosa, tentando me soltar, mas ferindo-me cada vez mais nos braços do demônio que me segurava. Em seguida, cuspi em seu rosto virando-me para ele.

— Vai se arrepender, vadiazinha — pronunciou cerrando os dentes e soltando seu bafo metálico em meu rosto.

Alguns riram, enquanto a maioria ainda se postava na mesa e comiam suas refeições como porcos, ignorando toda aquela situação. Levaram-nos para uma velha escada de madeira podre e nos forçaram a subi-la passo a passo. Outros demônios subiam conosco. Estávamos presas e sem chance de revidar as agressões que sofríamos de todos ao longo do trajeto. Pontapés, murros, puxões de cabelo, arranhões. Gemia de dor, ainda impossibilitada de maiores reações.

Assim que chegamos a um cômodo pequeno de azulejos sujos, fui pega pelas correntes e atada a uma corda pelos pés. Alguns demônios faziam o mesmo com Maria que se revirava inquieta em suas mãos pegajosas que a arranhavam. Gritando de dor, ela se deixou levar, depois de alguns minutos sendo esmurrada no estômago. Assim como ela, me calei e deixei que me amarrassem às cordas depois de certo tempo.

No fim, nós duas nos encontrávamos dependuradas pelos pés, de cabeça pra baixo, em uma sala pequena e vazia de uma casa distante no inferno. Sangrando pela boca, o sangue descia em meu rosto deixando sua trilha enquanto arfava tentando soltar-me inutilmente.

— Me desculpe — olhei para ela, ainda ferida ao meu lado. Seus cabelos altos caiam até o chão.

— Não precisa se desculpar — disse enquanto gemia de dor — Eu teria feito o mesmo, se não pior.

Ficamos assim por quatro dias. Quatro malditos dias dependuradas sozinhas em uma saleta vazia. Nesse meio tempo eu e Maria nos tornamos próximas. Conversávamos por horas ainda que impossibilitadas de nos mover, e mesmo que tontas pela gravidade fazendo seu trabalho, o sofrimento depois de um tempo se tornou ameno. Ainda podíamos ouvir todos os dias a algazarra que se fazia abaixo no salão dos demônios. O líder da casa havia consentido com a punição. Não éramos as primeiras a sofrer esse tipo de castigo, tanto que havia o cômodo justamente para isso, não só ali, mas em todos os lugares daquela área. Era como se fôssemos escravas indo para o tronco. A punição foi leve, retirando o tempo que se prolongou. Mesmo assim não me arrependi de minha atitude.

Depois de todo esse tempo, fui solta pelo líder, que não dissera nada assim como nós duas. Descemos as escadas e fomo direto para o trabalho, consentindo com todo afazeres a mais que deveríamos fazer por lá.