Meus olhos já não podem mais enxergar [...]

O que presenciei ainda está guardado na lembrança. Intacto [...]

Sinto que a hora se aproxima [...]

Uma alma, dentre milhares, verá o que vi [...]

Há certo tempo decidi que precisava de alguém confiável para ocupar um cargo de importância. Foi com temor que pretendi descansar minha alma, abandonar meu ofício... E vendo-o agora, dependurado neste arranha-céu no núcleo desta tão importante cidade, vejo que temos muito em comum, apesar de nascidos em épocas tão distintas.

Seu caráter dividido o fez ser humano, assim como fui um dia: vulnerável, errante... No coração, metade pulsando forte, metade cessando congelada. Seus olhos, frios, assim como seu modo de ser. O mesmo homem que salvou uma vida, destruiu outra em seguida e, nesta busca, por assim se dizer, nunca havia encontrado alguém tão... perfeito.

Chegar onde havia chegado não foi por suor, mas por astúcia. Quem imaginaria que por detrás de um terno caro e de um sapato polido se esconderia o pior tipo de pessoa? Tão cruel quanto um verdadeiro demônio. Cada ato cometido por ele pesava na balança da vida e, se esta chegasse ao seu limite, um destino irrefutável estaria traçado. Era inegável, eu havia encontrado a quem procurei por todos estes anos.

Mas não seria tão fácil assim trazê-lo para mim. Antes disso precisaria dominá-lo, fazê-lo querer. Observei seus hábitos, seu ponto fraco e, finalmente, havia chegado a hora de pôr meu plano em prática, meio a cidade em seus tons amarelos-esverdeados naquela noite. Os prédios gigantescos feitos de concreto e vidros escuros possuíam uma beleza urbana distinta. Segurando-me na beirada do edifício em que estava, constatei que a mudança estava próxima... Meus planos a se concretizarem finalmente. A multidão em fluxo nas ruas mostrava o quão rápido as coisas eram. Deveria agir logo para que não perdesse a chance. O tempo percorria e o céu não tão estrelado ameaçava chover, mesmo assim, a lua permanecia brilhante em sua imponência dentre a imensidão negra.

— Por quanto tempo irá ficar aqui, Dante? Acho que já perdemos tempo demais com ele — disse-me o misterioso homem longilíneo que se aproximara furtivamente. Seus passos leves ecoando no chão a minha volta. Vestia um terno escuro, bem alinhado, e possuía olhos diferentes dos da maioria.

— Não, Félix. Este não é como os outros.

— Então acha que ele serve? — Félix me perscrutou com sua feição irônica.

— Apesar de certos contrapontos, ele é ideal, mas precisaria ser lapidado. Creio que, de imediato, é nossa única opção. Não me recordo do último, você se lembra? — forcei a memória para me lembrar, mas em minha mente somente via feições avulsas.

— Como se fosse ontem. 1914, Erick Dober, 22 anos, sul da Inglaterra. Jogou-se de uma ponte após o encontro com o senhor. Foi mesmo memorável. Achei que jamais se esqueceria — revelou-me próximo a mim, encarando a cidade.

— Hmm, verdade. Possuía um temperamento forte, tempestuoso, mas não soube lidar com algumas verdades. Erramos em escolhê-lo. Foi descuido. Temo que desta vez seja diferente. Não será nada fácil — revelei.

— Acha que devemos pedir ajuda a eles?

— Vê outra alternativa? — joguei limpo.

— Quem sabe mais um século... ou... Não, não vejo outra alternativa.

— Muito bem, Félix. Muito bem — congratulei-o de modo salientado.

— Quer que eu fale com Minos? — disse-me atento, esperando por mais uma tentativa falha de principiante.

— Ah, Minos... Que seja, ele iria saber uma hora ou outra.

Félix me deixou com seu marcante hábito taciturno e sumiu de minha vista assim que voltei a encarar a paisagem daquela famosa cidade iluminada. Um leve sorriso se estendeu pela minha face.