Muito distante de Manhattan, situada em alguma cidade no norte da Espanha, uma jovem mulher se encontrava aflita. Fosse isso seu maior problema, o mundo visto por ela naquele momento não significava nada, a vida tampouco. Seu nome era Maria, como a virgem, porém aprendeu a odiar o nome e praticamente tudo ao seu redor. A esperança para ela havia morrido, sua tristeza ignorada era consenso, logo não havia sobrado grande coisa no sublime sangue que um dia correra por suas veias, a não ser ódio. Tinha 19 anos e se julgava insignificante. Não amava ninguém e só aumentava a lista de pessoas que detestava. No topo da lista, ela mesma. Determinada, iria fazer aquilo, mesmo que acabasse pior, afinal, pensou, pior não poderia estar.

A igreja refinada possuía enormes vitrais que incidiam a luz do sol em desenhos coloridos no chão, que davam uma aparência fantasmagórica a Maria, pois estas pareciam segui-la à medida que avançava. Por entre as paredes se encontravam arabescos esculpidos em colunas gigantescas e em centenas de bancos dispostos para o altar, onde um enorme crucifixo de ouro se fazia em pé. O ouro possuía um brilho nefasto, mudando de posição como água em movimento. Os ladrilhos, desenhados em losangos de marfim, com desenhos, imitavam a madrepérola e ela andava por eles com imponência a cada passo.

Ela adentrou pela porta principal com os passos ecoando por todo o recinto silencioso. As pessoas que se encontravam no lugar a feriram com olhares severos. Nitidamente não era bem-vinda ali com as roupas que usava e com as tatuagens coloridas de figuras animalescas que cobriam boa parte de seu dorso. Trajava uma jaqueta de couro e um corpete negro, acompanhados de uma saia justa e sapatos altos com detalhes em ferro. Sua estética moderna era contrastante com o ambiente puritano em que se encontrava. Prosseguiu mesmo assim, encarando o marfim do chão, desviando-se dos bancos e fitando as imagens ao fundo, rodeadas de velas e candelabros acesos, mesmo durante o dia. Logo chegou à cabine escura na lateral do imenso salão e encarou o homem do interior pelo fino cortinado seguido da grade de madeira.

— Oi padre... — disse ajeitando os cabelos loiros e desbotados sobre a jaqueta de couro. — Vim confessar.

— Estou aqui para ouvir, minha filha, conte-me o que a aflige. Sem medo. ― disse o velho homem ao notar o tom nervoso de Maria sussurrando, quase inaudível.

Um longo minuto de pausa se fez, e ela, ajoelhada perante o homem, pôs se a confessar em tom natural.

— Eu acho que irei para o Inferno, padre. Não mereço mais viver entre vocês. Eu não sou digna de redenção e estou com medo do que me espera do outro lado. Não quero sofrer por certas coisas, não é culpa minha. Eu... ― seu tom calmo se perdeu por um momento num soluço contido.

― Minha filha, ― a voz adocicada do velho homem a reconfortou. ― você pode mudar seu destino através da fé. Aproveite o tempo para o perdão lhe dado. Somente a fé é capaz de mudar sua vida, de mudar tudo de ruim que um dia aconteceu.

― Eu sou uma garota muito, muito má... — ela disse olhando fundo ao homem de batina que se dispunha a sua frente, com um olhar impetrante. — Eu pensei em matar alguém... E ainda penso, a todo o momento.

Outro momento de silêncio se fez durante a confissão. O padre pensava no que dizer para a moça com cautela.

― Não descansarei, por um momento sequer, enquanto essa pessoa não estiver a sete palmos abaixo da terra, mas eu não posso fazer isso e não sei a quem recorrer. Estes sentimentos não são bons e me atingem em cheio a cada vez que a vejo. Já pensei em tudo para me aliviar dessa morbidez assassina, só que sempre é a mesma coisa, ela volta, e mais forte do que antes. Quero me ver livre deste pesadelo. Preciso de ajuda, padre. Eu estou caindo para um abismo sem fim e vejo que uma hora não haverá mais volta.

— Não se entregue aos planos do demônio, garota. Ele é ardiloso! Sabe como proceder com a dor dos homens. Ele te usa involuntariamente para os planos malignos de que você não tem conhecimento. Não deixe que isso prossiga! Busque por Deus... Ore... Clame pela vida e pela paz, se ajoelhe perante ao Senhor que tudo melhorará a partir de então. Nosso Senhor é clemente e justo, ele ajuda a quem necessita.

— Não é tão fácil assim padre, você não entende — colocou a mão sobre a cabeça, dramática, pensando no que estava fazendo. — Eu não consigo mudar minha realidade se ela não depende mais de mim. Minha vida já virou domínio alheio. Eu estou perdida em meus caminhos. Não sei a quem recorrer, mas não quero implorar ou me rebaixar diante de algo. Já fiz isso por tempo demais — pausou olhando fixamente para as sombras do padre que estava do outro lado imóvel, ouvindo-a atentamente. — Se Deus sabe de minha existência, ele fará algo. O que eu quero mesmo é ser lembrada, pois parece que Ele se esqueceu de mim... Se é que um dia me notou.

— Não diga isso! Deus aguarda você junto a Ele. Ele quer sua presença no reino dos céus, aguente firme, garota, você saberá que o melhor caminho é a submissão, como convém ao Senhor.

— Foi como pensei, padre... — disse desapontada. — De qualquer forma, você me foi muito útil. Não esperava grandes resultados desta vez. Já tive muitas decepções e esta não será mais uma delas. Se é assim, então já vou, tenho outros assuntos a tratar, em especial, um decisivo.

Ela se virou lentamente e caminhou em direção ao altar cabisbaixa. Arrancou o crucifixo pendurado no cordão do pescoço e o deixou sobre a bíblia iluminada por velas.

— Irei afrontá-Lo diretamente, padre, sem receios. Hoje é o dia de nosso tão esperado encontro. Porei a prova o que me diz...

Dito isso, ela saiu do recinto sem mais palavras. O barulho do salto alto ressonante no piso interrompeu a oração de pessoas que ainda se mantinham ajoelhadas em seus lugares, próximas ao altar. Assim que Maria sumiu pela porta principal, elas voltaram para si mesmas e seus problemas individuais.

A rua estava fria como seu coração naquele momento. O que acabara de fazer não solucionara seu problema, apenas dera um fim a uma solução alternativa que sonhara ser de outra forma. Ela era orgulhosa e sabia, no fundo de seu coração, que seu orgulho não ajudava em nada, poderia até ser um de seus maiores problemas e o causador de outros.

Após entrar no carro esportivo que a esperava na calçada quase vazia, ligou a música no maior volume e, por fim, chorou. Não gostava disso, mas ela se entregou às fortes emoções que havia guardado a sete chaves. O doom atmosférico que tocava a revigorou um pouco e, enxugando as lágrimas após certo momento de reflexão, ligou o carro.

Havia um longo caminho a percorrer pelas ruas da cidade para chegar ao seu lar. Em poucos minutos ela se viu longe do subúrbio em que estava e dentro da área nobre. O largo de seu prédio era suntuoso e extenso, moradia de elite, mas ela não se via morando ali, não mais. O termo moradia se confundia com o de prisão naquele lugar. Para ela, ir de encontro àquele lugar era como ser levada acorrentada para uma saleta sem ar.

O lugar que todos desejavam, ela mesma não queria, mas sabia da ironia que era ter tudo e, ao mesmo tempo, nada. Vivia com a mãe adotiva, uma viúva rica que a tolerava pelas más escolhas de seu marido quando vivo. Era ausente em sua vida e nunca conseguiam ter uma conversa real. O amor que sonhou quando criança nunca houve.

Ao chegar a sua casa, mais especificamente no apartamento 506, no fim do corredor ilustrado por papéis de parede antigos e por pequenos lustres de iluminação dramática, viu que ela não estava em casa. Era domingo e tinha o hábito de sair. Estava em um desses eventos que considerava importantes e, no momento, se encontrava rodeada de pessoas fúteis e de vidas fáceis, que vivem num estereótipo de felicidade forçado. Isso sempre irritou muito Maria, por isso ela nunca ia a tais lugares.

Passando pelo corredor de seu quarto, ajoelhou-se perante a um vaso de plantas e pegou um frasco enterrado na terra. Aliviou-se por ainda estar ali esperando para que fosse usado. Dentro do quarto fechado, viu a imagem do reflexo no espelho e ela a olhava séria. Nas pupilas da garota que via atrás do vidro estavam o medo e o ódio, juntos e nítidos com a tristeza de sua face. Dentro do quarto escuro e calmo, ela penteava, de leve, suas madeixas claras e maltratadas.

— Quando vai tomar coragem? — a garota do espelho a afrontou. Maria ficou em silêncio observando aquela forma através do vidro ganhar vida própria. — Já não basta? Você não merece essa existência. Por que não dá um fim a tudo isso?

— Não sei... Sinto-me presa aqui, mas ainda assim tenho esperança. Você sabe tanto quanto eu que seria precipitado. Não acha que seria melhor esperar mais um pouco?

— Já se passaram dez anos, querida, e nada mudou. Perdurará por mais quanto tempo? Você sabe que não vê mais sentido em nada. Continuar só te fará sofrer.

Ela ficou em silêncio ponderando a ideia. Mordeu sua língua de nervoso e a determinação correu seu rosto.

— Já me decidi... Hoje você conhecerá a vida.

Maria tinha consciência do que estava prestes a fazer, porém não sabia o que viria após o ato. A incerteza do que encontraria era uma chama de desejo e curiosidade, “e se for melhor?” ela se perguntava, “quanto tempo terei perdido com medo?”, logo decidiu convicta. “Não tenho nada a perder”.

Suicídio

Ela era a pessoa que pensava em matar todos os dias, seu reflexo, sua vida, sua existência. Para muitos, tal ato abominável é incompreendido, mas só Maria sabia o que se passava por sua cabeça naquele momento crucial. Só ela poderia contar o que a levou ao pendor pela ruína. Tola. Saíra de um problema, mas em troca ganhara um muito pior.

As pílulas estavam jogadas. Coragem ela tinha, mas era necessário preparar o ambiente primeiro. Arrumou cama, que envolta num enorme lençol vermelho, perfumado, recebeu sua presença após um breve banho revigorante. Os lustres deram ao ambiente a iluminação perfeita e a carta sob a escrivaninha deixava suas sinceras desculpas, sem muita objetividade, nada mais do que um adeus e até breve. Os incensos deixaram o ar carregado, mas a essência era adequada. Usava sua melhor roupa na hora, um vestido branco, sem muitos detalhes. Tudo estava primoroso para a maior celebração de sua vida: a morte.

Ela se deitou na cama com o frasco nas mãos e um gosto suave nos lábios. Doce sabor do veneno. Colocou a taça sobre a mesa e encarou o teto deitada esperando o desfecho. Um sorriso sublime estampava seu rosto. A visão do lustre claro se tornou turva e a fragrância do ambiente esquivou-se furtivamente.

Seu corpo estava leve e a morte veio rápida e indolor. Fosse somente isso para ela, não, a morte não foi o fim de Maria, pelo contrário, fora apenas o começo. Instantaneamente, após fechar as pálpebras e se desligar do mundo material, ela se sentiu puxada por uma força desumana até então inexistente que se apossou de seu ser. Imagens disformes passaram por sua cabeça: sua vida em flashes, momentos de significâncias evidenciados em cada milissegundo. Milhares de vozes ecoavam ao fundo e um vento cortante trespassava por sua pele. A velocidade era indescritível e o som muito alto, como se ela estivesse viajando em uma velocidade próxima a da luz. Presente com ela estava tudo aquilo que um dia vivera. Logo após, o evento se interrompeu por completo. Vestígios do silêncio ocuparam sua alma.

Ela se sentiu repousando. O vento se abrandou e um solo desconhecido tocou seus pés. Suas pálpebras permaneceram fechadas por algum tempo, mas somente após todas as marcas do processo sumirem com o ocorrido que ela pôde se sentir normal novamente. Pareceu a ela que ainda estava viva. Não sentiu nada de extremo diferente do habitual.

Ao abrir os olhos, encarou a realidade pós-morte incrédula. Estava de pé, no meio de uma multidão de pessoas assustadas, dentro do que a ela pareceu ser algum tipo de estação, só que esta de visual extravagante, com estruturas vitrais e colunas coríntias semitransparentes que davam ao ambiente um ar claro e brumoso. Todas as almas se encontravam ali, homens, mulheres e crianças, de todas as etnias e classes. As roupas diferenciadas se faziam presentes na estação. Diversas culturas meio ao mesmo solo. A luz baixa da cúpula vitral no teto jazia em todos, que, sozinhos, buscavam dar prosseguimento a suas mortes. Não havia alguma diferença entre eles, eram todos iguais a não ser pelos atos que traziam de suas vidas.

Maria, após certo tempo, tornou a olhar para si. Estava no mesmo traje que usava em sua última hora, mas sua pele estava mais pálida do que o normal, como se uma áurea inerte a estivesse envolvendo. Correntes de ferro longas jaziam de seu corpo unindo seus pulsos, lembrando-a de que ela não era mais viva ali. As argolas iniciais das correntes eram incrustadas em sua pele, mas ela não sentia nada no local, pois elas faziam parte de seu corpo. Apesar de presa, ela tinha liberdade em mover seus membros com considerável distância.

Finalmente, depois de certo tempo encarando o local, vagou aturdida, procurando por algo que a guiasse. Precisava se espairecer. Sentiu-se perdida meio a tantas pessoas e parou na correria das almas. Fitou com calma cada uma das que estavam à sua frente. Parecia estar presa num daqueles sonhos sem sentido e etéreos. Não havia muita distinção de uma estação metropolitana. Podia ver, ao longe, as dezenas de escadas rolantes transportando pessoas, cabines de elevadores indo e voltando rapidamente abaixo de onde estava, próxima a uma sacada de pedra polida e curvada, com barras cilíndricas.

Uma voz amigável e suave ecoou por alto-falantes.

— Sejam bem-vindos à Central das Almas. Neste momento vocês se encontram no Saguão de Recepção. Para prosseguir a passagem, basta que sigam as faixas unidirecionais localizadas no saguão que um guia autorizado pelo selo celestial esclarecerá suas possíveis dúvidas. Espero que os tenha ajudado. Tenham uma boa passagem.